LES DONNÉES RELATIVES À MES COMPORTEMENTS RELATIONNELS INTÉGRÉS
5.1.1 Case 1 Deux profils qui forment un visage
36 No contexto da literatura hispano-canadense, a obra de José Leandro Urbina é uma referência inegável. Ela vem se desenvolvendo de maneira consistente desde os anos noventa e resulta um exemplo eloquente de como o deslocamento, como experiência do escritor, impacta também a criação artística.
José Leandro Urbina nasceu em Santiago do Chile no bairro Independencia em 1948 e se exilou em 1974, devido o regime militar de Augusto Pinochet, passando a residir no Canadá no ano de 1977. No Canadá, além de escrever, Urbina deu aulas na universidade, foi tradutor, diretor de cinema e jornalista. Também residiu nos Estados Unidos, onde fez um doutorado na Universidade Católica de Washington D. C. se especializando em literatura latino-americana. Recentemente retornou ao Chile. Em Santiago, Urbina trabalha no Departamento de Lengua y Literatura da Universidade Alberto Hurtado, está publicando em editoras chilenas e sua obra está tendo uma ótima recepção crítica tanto no âmbito chileno como no âmbito canadense.
Escreveu o romance Cobro revertido, publicado em 1992 e reeditado em 2003 pela editora Lom. O romance também foi publicado em inglês em 1999 com o título Collect call. Através de Cobro revertido, Urbina ganhou o Prêmio do Conselho Nacional do Livro e da Leitura do Chile, em 1993 e se destacou entre os finalistas no concurso Planeta Argentino; em 2000, publicou a coleção de contos Las Malas Juntas. Mais recentemente em 2009, Urbina publicou o romance Las memorias del Baruni e em 2011 o romance El basurario del Baruni.
Minha investigação se concentra especificadamente, no estudo dos romances Cobro revertido (2003) Las memorias del Baruni (2009) e El basurario del Baruni (2011). Nesse corpus, discuto o problema da construção memorial, da autofiguração autoral e da ambiguidade do gênero literário, como elementos caracterizadores de uma poética do deslocamento.
A crítica a respeito da obra de José Leandro Urbina se constitui através do pensamento de nomes como Grinor Rojo, Norman Cleadle, Roberto Castillo, Patrick L. O' Connell, Rodrigo Hidalgo, Juan Manuel Silva, Lucero de Vivanco, Gonzalo León, Graciela McEvoy, entre outros. No âmbito brasileiro a obra de Leandro Urbina tem sido
37 estudada por Sonia Torres, professora da UFF e por alunos vinculados aos projetos da professora. Exponho aqui as ideias de alguns desses autores.
Em Contraputeo de Don Latino y doña Canadiense: transculturación narrativa em Cobro revertido (1992) de José Leandro Urbina y Exile (2002) de Ann Ireland (2004), Cheadle caracteriza a obra de Urbina a partir da poética da transculturação desenvolvida por Ángel Rama. Remetendo ao crítico uruguaio, mas antes ao antropólogo cubano Fernando Ortiz (1949), Cheadle afirma que o protagonista de Cobro revertido será “don Tabaco amargo y aromático, y intelectual y machista” (CHEADLE, 2004, p. 04), mas seus antagonistas femininos não se adéquam ao “patrón
don Azúcar” (CHEADLE, 2004, p. 04). Quanto à linguagem Cheadle explica que
Cobro revertido é um texto transculturador de acordo com a concepção de Ángel Rama (1982). Está escrito num espanhol típico do Chile que por sua vez se divide em vários registros. A prosa é desordenada, excessiva, embriagadora, “una prosa tabaco” como se refere Cheadle (CHEADLE, 2004, p. 05), utilizando-se de giros verbais das duas línguas oficiais do Canadá e até mesmo hispanizando vocábulos como quebecuá.
Cheadle afirma que no romance a soberania cultural criolla se move comodamente no contexto canadense. A linguagem popular se cruza com outros registros da linguagem culta e acadêmica e o espaço cultural de Montreal se apresenta como um lugar de trânsito livre entre as culturas anglófona, francófona e hispânica. Montreal começa a lhe inspirar algo novo, criando outro discurso diferente do tecido cultural canadense.
Patrick L. O‟ Connell no seu ensaio intitulado Una llamada (colectiva) por cobrar: El perpetuo exilio en Cobro revertido (2001), exprime que a interpretação crítica que se dirige ao estudo de Cobro revertido está focada numa crise da representação literária, isto é, esta centra na relação entre o problema da memória de um lado e do outro lado a invocação da experiência do exílio. Segundo O‟ Connell, algumas pessoas que saíram do Chile desejam um dia regressar, já outras preferem o exílio no Canadá. O‟ Connell se refere neste ensaio sobre uma de tais histórias. Na visão de O‟ Connell, os personagens do romance serão vistos como separados da dialética natural que vivem de cara a sua história. O romance é estudado partindo da seguinte proposição, constitui uma memória dentro de uma sequência de outras memórias. As
38 histórias pessoais se combinam por meio desta duplicação narrativa, com a finalidade de formar uma história coletiva de deslocamento e desarraigamento, em última instância não existe outra solução para os personagens senão viver das suas próprias recordações.
O crítico Grinor Rojo (1993) em seu ensaio Cuatro Lecturas para la primera novela de José Leandro Urbina, manifesta que Cobro Revertido é um romance de vastas projeções. Nesta narrativa ocorre uma inversão do modelo europeu. A viagem do protagonista vai da barbárie à civilização e não ao contrário da civilização à barbárie. Mas, Rojo explica que não sabe ao certo se Leandro Urbina faz essa inversão conscientemente. Segundo Rojo, desde as primeiras páginas da obra, Urbina dirige a história com três variáveis e não com duas variáveis que constituem ao paradigma europeu que lhe serve de base. O carnaval caribenho introduz um Terceiro Mundo no repertório semântico deste romance. Ou seja, introduz um sistema de referências culturais de outra ordem. Outro ponto no romance é que o vínculo que existe entre o protagonista e a mãe se desgasta pela distância, mas, este distanciamento não desfaz este vínculo. O que ocorre é que esse distanciamento produz uma falsa sensação de liberdade.
Rodrigo Hidalgo em seu texto intitulado Acerca de “Las memorias del Baruni” de José Leandro Urbina (2009), menciona que Urbina ou Baruni, quem quer que seja que tenha escrito esta obra, desempenha esse papel com bastante desembaraço. Para Hidalgo, as memórias de Baruni nos conduz ao despertar sexual deste adolescente antes e durante a Unidade popular. Este adolescente começa a buscar clareza sobre o seu futuro no meio de um país efervescente, porém, sobretudo cresceu no seio de uma família simples e comum do bairro Independencia, na tradicional rua Maruri. De acordo com Hidalgo, assistimos à vida de uma classe média emergente tentando demonstrar algo que não é, acrescido de uma cômica diversidade de personagens que se multiplicam entre os numerosos parentes, entre os quais o protagonista, rodeado, sobretudo de suas tias costureiras, que são objeto de seus desejos sexuais. Este é o ardor que rege ao gordo Baruni acima de incipientes convicções filosóficas ou políticas. Hidalgo resume expondo que o tom picaresco convém a esta paisagem de vidas íntimas. Juan Manuel Silva em Las memorias del Baruni y uno que otro problema del realismo (2010), afirma que José Leandro Urbina organiza os escritos de Baruni, ante a
39 categoria de editor de los textos, nos recordando aos Los siete locos y Los lanzallamas, a Jan Potocki y Don Quijote. Porém, o romance não só propõe um assunto de gêneros ou estatutos de ficção. Também não é apenas uma disputa entre crônica, romance ou história recente. Trata-se do despertar sexual do romance francês e da narrativa realista chilena. Este romance, segundo Juan Manuel Silva, traça um desordenado mapa de relações entre a questão dos Barunis serem estrangeiros, a mistura de religiões e costumes, a diversidade de sentidos do espaço urbano em Santiago e a corrupção de uma ética de trabalho entre outros aspectos.
Lucero de Vivanco em En busca del barrio perdido (con nostalgia y buen
humor): sobre “El basurario del Baruni” (2012) opina que José Leandro Urbina, em El basurario del Baruni parece ter sua própria definição de bairro. Esta definição seria que o bairro é o lugar de amigos callejeros onde um fica sabendo da vida pessoal do outro. Segundo Vivanco, o texto é muito mais que personagens e situações. A verdadeira aposta imaginária se alça sobre a linguagem seus traços de oralidade, onde os versos de Neruda são transportados pelas criações espontâneas de poetas callejeros e pelas rimas picarescas dos “curaos”. Finalizando, o autor afirma que a convocatória musical que Urbina faz para construir o mundo do texto merece uma valorização, pois compõe-se de: cumbias y cantos gregorianos, pasodobles y música popular chilena,
Elvis y los Beatles (“¡lav, lav mi du!”), el rock del mundial y el twist del esqueleto. Y
siempre con la avidez de un “¡uan mor taim!” tras cada hit del momento.
Juan Manuel Silva (2013) em seu texto sobre o El basurario del Baruni expõe que esta narração mostra como se relaciona e vive uma coletividade nos arredores do bairro Independencia e da rua Maruri. O grupo de amigos dos niños Baruni, las consiguientes niñas, el Tarzán del cine y las vecinas cahuineras y ladronas, que se enquadram neste relato a vozes fantástico sobre os gatos de uma vizinha defunta compõe as peças de um quebra-cabeça ou uma vasilha, como diria Walter Benjamin, que ainda conserva as impressões de quem as fez.
Muito se tem escrito ultimamente sobre a obra do escritor José Leandro Urbina, seus textos têm chamado a atenção de vários estudiosos, destacando-se assim dentro do universo literário hispano-canadense e fora dele. Tais considerações são apenas uma breve descrição a respeito do que a crítica tem manifestado sobre a obra de Leandro
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Urbina, especificamente em seus romances Cobro revertido, Las memorias del Baruni e El basurario del Baruni.
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Memória, gênero e autofiguração autoral em
Cobro
revertido:
para uma caracterização de uma poética do
deslocamento.
42 2.1 A REPRESENTAÇÃO DA MEMÓRIA EM COBRO REVERTIDO
O romance Cobro revertido, cujo título pode traduzir-se ao português por Chamada a cobrar, desenvolve-se a partir de uma chamada telefônica, informando o falecimento da mãe do protagonista. A partir desse momento, origina-se uma sequência de recordações no personagem, que compreendem desde sua infância até seu exílio em Montreal. A narração se desenvolve em 24 horas e se centra na decisão do personagem de regressar ao seu país de origem com a finalidade de ir ao funeral de sua mãe, mesmo correndo riscos, devido ao fato de no passado, ter sido um integrante do Movimento Estudantil.
O retorno à terra natal realiza-se somente na imaginação do personagem, isto é, é meramente simbólico. Este não consegue sair de sua cidade, embora tenha prometido ao tio que iria regressar. O protagonista se arrepende de tal promessa, prometer voltar foi uma atitude precipitada e mesmo sabendo que deveria cumprir com o dever de ir ao funeral da mãe, não o quis fazer. Deixar o país adotivo e retornar ao seu país de origem constitui-se algo impossível na narrativa. A experiência traumática que viveu no Chile foi muito intensa para que um desejo de retorno falasse mais alto.
O narrador de Cobro revertido é autodiegético, isto é, relata a história como sendo seu protagonista. Este narrador-personagem, um sociólogo anônimo, é cosmopolita e instruído. No entanto, está fracassado, abandonou os estudos, a carreira está paralisada, deve dinheiro a muitos e sobrevive fazendo alguns trabalhos manuais. Trata-se de um sujeito indisciplinado que acabou buscando refúgio no alcoolismo e que vive na promiscuidade. O estado caótico físico e emocional deste não o permite controlar sua vida. Vejam-se alguns fragmentos:
Estaba tratando de forzar la cerradura con la llave cambiada, mierda, y le dolía el costado, la puntada de un golpe de un puñetazo recibido entre los gritos y los insultos para el expulsado de la fiesta [...] el borracho calavera ydespreciable, hediendo a cerveza y cigarrillos nauseabundos, que se mantenía en pie a pura fuerza de orgullo. Porque a él nunca nadie lo había visto en cuatro patas, no, señor [...] Dame un cigarrillo, le ordenó él, volviendo a sentarse con todo el cuerpo adolorido. Aquí você nao fuma, sacana, levantó la voz el outro e hizo un gesto sucio con su mano gorda (URBINA, 2003, p. 09-10).
A memória é um elemento estruturador no romance Cobro revertido (2003). Através das recordações podemos visualizar as experiências do personagem principal
43 em sua infância e juventude no Chile e ainda podemos visualizar suas experiências a partir de seu exílio no Canadá.
A memória sempre esteve em debate em muitos campos do conhecimento, no decorrer da história da humanidade. É através das memórias que articulamos o passado ao presente, que recuperamos nossas experiências vividas, descrevendo nossas sensações e emoções. Segundo Paul Ricoeur (2007) o melhor e único meio para termos acesso a uma experiência anterior é através da memória. Nas palavras do autor:
A meu ver, importa abordar a descrição dos fenômenos mnemônicos do ponto de vista das capacidades das quais eles constituem a efetuação 'bem sucedida'. [...] o que justifica essa preferência pela memória 'certa' é a convicção de não termos outro recurso a respeito da referência ao passado, senão a própria memória [...] (RICOEUR, 2007, p. 40).
Quando rememoramos podemos recriar as coisas e a nós mesmos. No processo da escrita de memórias o sujeito reconstrói papéis e posições identitárias por meio da sua subjetividade.
Podemos observar no romance Cobro revertido (2003) como o narrador ficcional articula a escrita de suas memórias no Chile, seu país de origem. Depois de ser informado pelo seu companheiro de quarto que o haviam chamado do Chile para dar a notícia que sua mãe estava muito mal, o sociólogo, personagem protagonista e narrador da história, se dá conta que sua mãe havia morrido. Em seu quarto, o protagonista começa a refletir, recordando sua vida, e desse modo, na sua mente, inicia-se um deslocamento do personagem, indo e voltando do Chile, entrando ora no passado ora no presente por meio de suas recordações de infância ao lado de sua mãe até seu exílio em Montreal.
Podemos verificar o passado e o presente se cruzando logo no início do romance. O protagonista recorda sua mãe com almejo e angústia. Pode-se dizer que o amor do protagonista para com sua mãe, alude de maneira linear ao seu amor pelo lar, pela terra, nesse sentido a figura da mãe pode ser lida também como a pátria, com quem o personagem tem uma relação de amor e de conflito. Dessa forma, a morte de sua mãe pode ser lida também como o verdadeiro corte que marcará a distância da terra de origem. Os contraditórios sonhos do protagonista são eloquentes:
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podía ver su cara en el vidrio del gran acuario con el que dividían las dos habitaciones. Siempre que me ocultaba en ese sector de la casa y apagaba las luces para estar a solas y observar los peces que se movían lentos, suspendidos entre las algas, como colgando de largos cabellos invisibles, ella aparecia [...] escuchaba mi nombre y miraba el acuario y ahí estaba la cara de mi madre balanceándose ante mí como una luna con unos ojos grandes y sus dientes de coneja sonriéndome con sus trenzas orejonas y yo no sabía si estaba detrás de mi o al otro lado del acuario, pues su cara se achataba sobre una hoja de aluminio enceguedor, ondulando que daba miedo, como si se hubiera metido en silencio, con ropa y todo, dentro del acuario con las bolsas de la verdura y ahora flotara feliz con el pelo suelto como algas por todas partes, echando burbujas por la boca mientras se reía, bocanadas de burbujas, intentando hablarme con los ojos achinados [...] el agua se iba poniendo amarilla como una sopa salada con un sonido de mar amenazante y a mi se me apretaba el estómago y empezaba a oler a levadura añeja y la cara de mi madre nebulosa se agrandaba y allá atrás comenzaban a soltar-se también sus medias y sus zapatos, y su nariz y su boca se apretaban contra el vidrio hasta que yo no aguantaba más y le gritaba como verraco que parara y el acuario entero comenzaba a quebrarse soltando el agua como una catarata (URBINA, 2003, p. 10-11).
Essa dualidade também aparece quando o protagonista se lembra de três ou quatro fotografias que guardava em uma caixa encima da cômoda. Tais fotografias estimulam as recordações do protagonista. Estas servem para desencadear as recordações do sociólogo. "No tengo que verlas para reconstruir sus imágenes en mi mente, basta con cerrar los ojos y aparecen con mayor claridad" (URBINA, 2003, p.17). Ocorre uma oscilação do foco narrativo quer na terceira pessoa representando o presente, quer na primeira pessoa representando o passado. A entrada do sociólogo em um bar marca o tempo presente e real da narrativa, porém durante as diversas discussões com o seu grupo de amigos, o protagonista permite que o seu pensamento vague de volta ao passado, recordando sua mãe, para, então, voltar a se integrar ao presente.
As lembranças do protagonista se centram, principalmente, em quatro mulheres: sua mãe chamada María Serrano; sua primeira namorada, Magdalena; sua ex-mulher canadense, Megan; e a atual amante, a quebequense Marcia. María, Magdalena e Megan correspondem a distintos momentos no passado da personagem principal, também a passagens históricas do Chile e ao processo de inserção da personagem no Canadá. A presença de Marcia nos pensamentos do protagonista corresponde a um novo momento de assimilação, momento em que aquela identidade chilena, única e fechada, está sendo superada por uma identidade muito mais móvel e impura.
45 Pode-se observar que o sociólogo recorda a sua ex mulher Megan, na língua inglesa, também recorda a sua namorada quebequense Marcia, na língua francesa e ainda recorda ao personagem João Roberto, seu companheiro de quarto, de ascendência angolana e cuja família reside em Portugal, em português. Podemos conferir aqui como a representação da memória do sujeito deslocado e a linguagem se articulam produtivamente.
Esse transitar entre línguas, reiterado no romance, é um procedimento estético que pode caracterizar uma poética do deslocamento na sua escrita. Eis alguns exemplos
de deslocamento linguístico: “que ele estava trabalhando porque, qué vergonha, teu
papá perguntou la hora de aquí y dijo que tentaria ligar mas tarde y que nao chamasse porque tenía que salir y nao sabía quando estaria de volta” (Urbina, 2003, p.10).
O autor estetiza o trânsito entre a língua portuguesa e a língua espanhola na fala do personagem João. Veja-se também como a língua espanhola e a língua francesa se apresentam como universos deslizantes no fragmento seguinte: “Él quiso decirle algo al
oído pero ella se retiró y seguía sonriendo, moi j‟ai toujours bon espoir” (Urbina, 2003,
p. 157), ou a língua espanhola e a língua inglesa no trecho: “el resto de la tarde en las
calles de Montreal, killtherabbit, killtherabbit y siguen al Alegre Monarca de la muerte”
(Urbina, 2003, p.102).
A imagem do regresso à terra natal aparece associada à lembrança, de maneira que a recordação desempenha a função de um retorno metafórico ao lar, mas ao mesmo tempo, os amigos exilados chilenos são descritos a partir de estereótipos como: “gordos grandalhões e bigodudos”. Veja-se o protagonista descrevendo seus amigos:
gordos grandotes y bigotudos, con pinta de camioneros y vistiendo elegantes chaquetas de tweed académico, el viejo señor de lo más afeitado, que parece un funcionario de correos; la señora flacuchenta, indudable profesora primaria; el padre con su hijo son bien peinados contadores públicos, con lentes culo de botella; el tipo cadavérico, profesor de filosofía (URBINA, 2003, p.36).
Urbina assim os descreve no intuito de se colocar de fora, olhando o próprio desde outro lugar. Esse distanciamento expressa a profunda contradição do sujeito
46 deslocado: por uma parte, a lembrança, por outra a necessidade de se distanciar e até de esquecer um país, no qual, ainda que volte, já sempre será estrangeiro.
Paul Ricoeur em seu livro A memória, a história e o esquecimento (2007), trata esse tema da relação entre lembrar e esquecer, propondo estabelecer uma política da
“justa memória”, resultado do equilíbrio entre lembrar e esquecer. Ricoeur sugere uma política da memória equilibrada sem excessos de memórias e sem exagero de esquecimentos como, por exemplo, nos casos de experiências traumáticas. O autor
manifesta:
O esquecimento não seria, portanto, sob todos os aspectos, o inimigo da memória, e a memória deveria negociar com o esquecimento para achar, às