CONSTRUCTION DE MON INDIVIDU ET INTÉRIORISATION DE CERTAINS PHÉNOMÈNES SOCIAU
2.3 L A SOCIETE QUEBECOISE , LA PLACE DES FEMMES DANS CELLE CI ET LE FEMINISME
Com a chegada à fase adulta, o ser humano começa por se dissociar dos pais, o que para ele é uma etapa de vida complicada, pois requer inúmeras respostas oriundas de questionamentos e situações que surgem no cotidiano.
Antes não era necessária a tomada de decisões nos mais diversos momentos, normalmente se pode contar com a presença dos pais ou responsáveis e, com essa mudança, aparecem as dificuldades que muitas vezes levam a soluções equivocadas.
Em BS, temos uma criança que foi mimada por sua mãe e suas tias, as quais não lhe impuseram limites nem tampouco lhe ensinavam que devia ter uma conduta moral que não ferisse os interesses alheios. Como viviam de uma pequena renda e tinham uma vida de excessos, e não se privavam de nada que uma pessoa de classe alta pudesse desfrutar. Era preciso que sua mãe, por exemplo, pedisse
favores para alguns comerciantes, pois, sem dinheiro não conseguia pagar as dívidas contraídas através de gastos excessivos e com isso necessitava préstimos. Sua mãe a orientava a buscar um marido rico que pudesse sustentar seus luxos mais os de sua família, amor nem pensar! : “(…) aprendió, por ejemplo, a estimar el dinero sobre todos los bienes de la vida: hasta vale más que las virtudes y la buena conducta” (Carbonera, 1889, p. 6).37
Segundo Walter Benjamin38, a criança necessita dos brinquedos e também de vivenciar brincadeiras. É a fantasia infantil que transforma um objeto em jogo e brincadeira, por isso defende que as crianças devem construir seus brinquedos para que possam desenvolver ainda mais a criatividade.
Aqueles que brincam livremente em contato com a natureza, que ouvem histórias contadas pela mãe, avós ou qualquer outro adulto desenvolvem a imaginação, são mais tranquilas e se tornam adultos equilibrados. Na vida das crianças, os sentimentos se manifestam com pureza e sem ambiguidade.
A experiência infantil se realiza como embriaguez, isto é, como reconhecimento e imersão na poderosa força vital que emana das coisas. Embora entendendo que a criança constrói sua visão de mundo com base na sensibilidade, não existe uma infância pura ou um mundo da fantasia separado e alheio ao social.
O mundo perceptivo da criança se enraíza e, ao mesmo tempo, se confronta com o mundo histórico.
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37 (...) aprendeu, por exemplo, a estimar o dinheiro sobre todos os bens da vida: até mais que as
virtudes e a boa conducta” (Carbonera, 1889, p. 6). (tradução nossa)
38 Walter Benjamin é filósofo e crítico alemão que muito colaborou com sua ideologia em diversas
A criança, como o jovem que ainda não se adaptou às exigências do mundo adulto (do trabalho e da razão instrumental), está aberta à recepção das semelhanças sensíveis e sua formação individual se produz como aprendizado (e criação) do mundo. Assim, a experiência infantil da brincadeira, da expressão mimética e lúdica, se constitui como o gérmen do novo que pode ser contraposto à experiência do adulto, adaptado às condições do mundo regido pelo modo de produção e de representação modernos.
A infância deve ser vivenciada em sua plenitude, porém como poderia a protagonista do romance BS desfrutar de tais qualidades se não conheceu nada disso quando criança? Como poderia ela proporcionar o necessário para o bom desenvolvimento dos filhos, se, não conhecia esse mecanismo? Pelo contrário, essa fase da vida dela foi suprimida, lhe ensinaram a ser uma adulta com interesses um tanto duvidosos.
Blanca não vivenciou as fases de uma criança com brincadeiras inocentes como os demais pequeninos. Ensinaram-lhe a ser muito vaidosa, era soberba com os outros e revestida de um sentimento de superioridade inabalável que a sua bela figura lhe assegurava. Em uma das cenas do romance, uma das meninas de sua escola acusa sua mãe de obter favores de um comerciante e é agredida por Blanca, que certamente acredita ser natural a conduta de sua mãe.
Un día una de las niñas, la más humillada por la pobreza con que ella y su madre vestían, la dijo: -Oye Blanca: mamá me ha dicho que la tuya se pone tanto lujo, por que el señor M. la regala vestidos. -Calla cándida observó outra-si es que la mamá de Blanca no paga a los comerciantes y vive haciendo roña, eso lo dicen todos. Blanca tornose encendida como la grana, y con la vehemencia propia de su carácter, saltó en el cuello de una de las niñas, (…), y después de darles de cachetes y arrancarles los cabellos, escupiole en el rostro diciéndole: ¡Toma! Pobretona, sucia, si vuelves a repetir eso, te he de matar (BS, 1889, p. 6). 39
Uma atitude como essa certamente seria reprovada por qualquer mãe, porém a de Blanca recebe o episódio de outra forma: “Cuando su madre llegaba a conocer algunos de esos precoces juicios de su hija, reía a mandíbulas batientes, y exclamaba: ̶ Sí, esta muchacha sabe mucho”.(BS, 1889, p. 7)40
Sua mãe era a responsável pela formação deformada da menina, não cessava de oferecer exemplos negativos e aprovar as atitudes oriundas do aprendizado. Durante uma conversa com suas amigas de colégio:
La una decía, que una hermana suya había roto con su novio por asuntos de família, y su hermana depique se iba a casar con un viejo muy rico, que le procuraría mucho lujo, y la llevaría al teatro, a los paseos y había de darle también coche próprio. ¿Qué importa que sea viejo? Mamá me ha dicho que lo principal es el dote, y sí cuando el viejo muera se casará con un joven a gusto de ella. (BS, 1889, p. 7) 41
Entender as características do mundo da criança nos escritos de Walter Benjamin implica refletir sobre outros conceitos que perpassam seus escritos, como: a experiência moderna, a natureza e o uso da linguagem a partir de uma teoria mimética e das semelhanças, a reconstrução da história a partir de detalhes e ruínas, a temporalidade como repetição ou como criação, noções que, no conjunto do seu pensamento, se entrelaçam.
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39 Certo dia, uma das meninas, a mais humilhada pela pobreza que ela e sua mãe usavam, disse: ̶
Ouve Blanca: mãe disse que a sua usa tanto luxo, porque o Sr. M. a presenteia com vestidos. ̶ Cale- se, observou outra – se a mãe de Branca não pagar os comerciantes é o que todos dizem. Blanca ficou furiosa, pulou no pescoço de uma das meninas, (...), e depois de golpeá-la e puxar-lhe os cabelos disse: Toma! Pobretona, suja, se voltares a repetir isso, eu te mato. (BS, 1889, p. 6) (tradução nossa)
40 Quando sua mãe tomava conhecimento das precoces decisões de sua filha, ria muito e dizia: Sim,
esta menina sabe muito. (BS, 1889, p. 7) (tradução nossa)
41 Uma das amigas disse que sua irmã tinha terminado com o namorado por assuntos de família, e
sua irmã logo iria se casar com um senhor rico que lhe proporcionaria luxo, e a levaria ao teatro e teria seu carro próprio. O que importa que seja velho? Mamãe me disse que o principal é a herança, e quando o velho morrer poderá se casar com um jovem de sua escolha. (BS, 1889, p. 7) (tradução nossa)
Ao apresentar a visão da criança e a sua sensibilidade ante o mundo, Benjamin manifesta a sua própria sensibilidade e imaginação criadora. E embora não tenha a preocupação de explicitar relações educativas, seus escritos instigam a discussão sobre as premissas educacionais que orientaram a formação de crianças e jovens no processo de constituição da sociedade burguesa.
Suas advertências a respeito da educação alemã ocorrem no momento em que a formação infantil se tornava objeto do interesse do regime totalitário que se instaurava na Alemanha. Nesse contexto, seus escritos assumem um sentido político relevante, na medida em que a valorização da vida infantil se vincula claramente a uma nova leitura da história, que visa a retomar a tradição e a memória do que foi sufocado, reprimido no processo de constituição da modernidade.
Tentar entender a experiência infantil significa questionar com argúcia as formas de educação modernas para tentar uma reformulação teórica condizente com uma nova prática política revolucionária. A criança faz sua aprendizagem do mundo de modo mágico e prazeroso.
É como se, no processo de educação exercido na sociedade moderna, a fantasia e a criatividade fossem superadas pela lógica e pela adaptação da criança aos objetivos que a sociedade coloca ao adulto. Benjamin não se descuida das mudanças históricas e do caráter social da aprendizagem infantil. Desse modo, o brinquedo e a brincadeira infantil estabelecem “um diálogo mudo, baseado em signos, entre a criança e o povo” (Benjamin, 1974/1985, p. 246).
As coisas e as palavras com todas as possibilidades de expressão constituem um universo de signos que expressam uma situação cultural e histórica precisa, cuja diversidade tem como pano de fundo a luta de classes que, por sua vez, fundamenta as experiências e lembranças infantis.
Podemos dizer que existe um paradoxo entre o sujeito infantil e a infância do sujeito. É necessário que as crianças de tal idade estejam em condições de aprender determinadas coisas; quando não ocorre assim, esse sujeito não é um sujeito real, mas um sujeito construído. Blanca Sol foi uma criança que certamente não teve a oportunidade de aprender nada referente à infância e, em sua fase adulta, só pode externar o que trazia dentro de si. Os prejuízos foram irreversíveis chegava até a esconder, o quanto fosse possível, a gravidez, para que pudesse usar vestimentas mais justas que não mostrassem sua forma.
Certa vez, ao experimentar um vestido novo, sofreu um desmaio; ficando preocupada a costureira, esta pediu que a acompanhante chamasse seu marido, e a resposta foi que Blanca a proibira de contar a seu marido esses episódios. Na verdade estava grávida de novo e se recusava a usar roupas condizentes com seu estado. Durante quase todo o romance, praticamente não se percebe a presença dos filhos dela, estes são criados pelos empregados da casa, pois a ela não interessava a educação dos filhos e sim um mundo de vaidades.
E, como não havia recebido uma educação como deveria, era fácil de reproduzir e, em consequência se interessar por outros valores que não os referentes à família. Talvez a renúncia da maternidade se deva também ao fato de os filhos serem extremamente parecidos com seu marido, e este lhe causava asco: “Los hijos de Blanca, por desgracia de ellos, eran extraordinariamente parecidos con D. Serafin, es decir, eran feos, trigueños y regordetes. ¿Seria esta la causa por qué, Blanca era madre tan poco cariñosa para ellos?” (BS, 1889, p. 32)42
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42 “Os filhos de Blanca, para a desgraça deles, eram extraordinariamente parecidos a D. Serafin, ou
seja, eram feios, trigueiros e gorduchos. Seria esta a causa pela qual Blanca era uma mãe tão pouco carinhosa?”(BS, 1889, p. 32) (tradução nossa)
Ela foi uma vítima nas mãos de adultos que não souberam como lidar com a infância; e com isso seus filhos também sofreram. A criança, tendo chegado ao mundo depois dos adultos, faz-se rapidamente depositária imaginária dessa diferença temporal. O universo dela, em verdade, é alheio a sua realidade. Tenta a todo o momento criar algo interessante; e logo que se torna mãe nega a si mesma o fato, fazendo com que seus filhos sejam privados de sua companhia e carinho.
Gastón Bachelard43 apresenta uma filosofia ontológica, da infância onde destaca o seu caráter durável. Por alguns de seus traços, a infância dura a vida inteira. É ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Para o pensador francês, é preciso viver, por vezes é muito bom viver, com a criança que fomos, pois nos fornece uma consciência de raiz: toda a árvore do ser se reconforta. Os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância viva, essa infância permanente, durável.
Assim, a abordagem bachelardiana da infância realiza-se através de uma análise poética, pois o filósofo acredita que “existe um sentido em falar de análise poética do homem”. Os psicólogos não sabem tudo. “Os poetas trazem outras luzes a respeito do homem” (Bachelard, 1988, p.120), resgatando este momento vital como revelação da beleza que existe em nós, no mais íntimo de nossa memória.
A obra bachelardiana contribui para a compreensão de que são nos encontros indeléveis, através da ação criadora da mão no enfrentamento e reconhecimento de todas as consistências e resistências das matérias, que “as intimidades do sujeito e do objeto se trocam entre si” (Bachelard, 1991, p. 26), para extrair e sintetizar a lição das coisas, enriquecendo e ampliando experiências de aprendizagem.
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Portanto, para Bachelard, a ação de conhecer na infância é baseada no fazer. As qualidades sensíveis que a criança extrai da matéria não se devem apenas à percepção, mas muito a uma atitude lúdica de curiosidade e observação, uma vontade de investigar as provocações do mundo. A manipulação transformadora das matérias permite inúmeras possibilidades de sensações e criações. Esta ação investigativa é acompanhada de uma multiplicidade de imagens que se instalam no inconsciente e que depois o adulto, sobretudo através da mediação poética, recuperará amplificadas.
Considero fundamental partir destas reflexões bachelardianas, pois ao interagirmos com a criança, com suas produções expressivas e poéticas, nos deparamos com este sentimento de “maravilhar-se” de novo, com esse momento prazeroso de criação e invenção. Neste instante dinâmico e mágico nos conectamos com a criança, entramos em sintonia e dialogamos com gestos, olhares, sons, palavras, ou com toda riqueza do silêncio pleno de compreensão da grandeza que significa o momento da primeira vez. A partir das reflexões de Bachelard, podemos perceber o quanto foi distinta a infância da protagonista da obra peruana em questão, era uma existência infeliz, sem amor:
¡Sus hijos! Algunas veces en medio del regocijo general de una fiesta, sentía que le daban ganas de llorar; se acordaba de ellos entregados a manos mercenarias que nunca pueden reemplazar los cuidados de la madre. (Carbonera, 1889, p. 40) 44
Buscamos cada vez mais considerar a criança como sujeito ativo e capaz. Desconsideramos seu poder de imaginar, que vai muito além das palavras, ao alcançar outros sentidos e significados não verbalizáveis de sua experiência.
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44 Seus filhos! Às vezes, em meio a alegria geral, sentia vontade de chorar; lembrava-se deles
entregues a mãos mercenárias que nunca podem substituir os cuidados da mãe. (Carbonera, 1889, p. 40) (tradução nossa)
Respeitar a especificidade do seu momento de vida significa preservar seu ser poético, sua maneira poética de enfrentar o mundo e a si mesmo, sua forma singular de encontrar o outro, maravilhando-se ou se horrorizando, e criar significados que ultrapassam o sentido único, na aventura de conhecer a si própria no ato de imaginar, interpretar e inventar a realidade.
A forma poética é o modo como a criança expressa e pensa o seu todo, seu jeito simultaneamente particular e universal de ser e estar no mundo, seu jeito singular e coletivo de falar do mundo como uma maneira de falar de si. Exatamente por estar desarmada de conceitos racionais, a criança estabelece uma relação direta com os objetos e o mundo que a cercam.
Seu olhar torna-se um olhar primal, seduzido, encantado pela novidade. Nestes momentos, o poético configura-se como a forma infantil de perceber e expressar seu entorno. Por isto, para Bachelard, o poeta é aquele que preservou em si a maneira direta da criança. Em cada poeta há uma criança preservada no verbo; na criança o poético é o mundo que se faz jogo, brinquedo, experiência.
A negação da infância aponta para uma negação da subjetividade da infância, a qual, impedida de entrar em contato com sua vida simbólica – já que os objetos externos são mais valorizados –, deixa de sonhar, se transformar, e se emancipar.
É preciso conhecer as condições da subjetividade da infância, os produtos da sua negação, por mais que isso nos entristeça e nos assuste, sendo o único recurso para lutarmos contra a barbárie que muitas vezes se aloja na realidade de uma criança. Assim, ver e ouvir a criança é fundamental em qualquer estudo que realmente deseja estudar a infância. Esse olhar e esse ouvir ficam ainda mais pertinentes quando leva em consideração o princípio de toda e qualquer infância: o princípio de transposição imaginária do real, comum a todas as gerações,
constituindo-se em capacidade estritamente humana. É preciso levar em consideração uma concepção modificada da mente infantil em quaisquer ocasiões.
E assim podemos dizer que Blanca passou a se relacionar consigo mesma, com sua “estrangeirice” e com os outros – isto é, a experimentar a sua transitoriedade – de uma maneira nova. Aquilo que sempre resta e faz falta em seus sonhos deixou de ser creditado num paraíso perdido no passado e vivido junto a uma realidade que tentou criar, para ser, ao contrário, buscado neste mundo de homens. Porém, não alcançou o desejado final.