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CHOISIR DE REGARDER SOUS UN NOUVEL ANGLE LES ÉLÉMENTS CONSTITUTIFS DE MA PRATIQUE RELATIONNELLE

4.2 M ETHODOLOGIE PRIVILEGIEE

4.2.2 Entretien d’explicitation (E.d.E.) et auto explicitation

O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida cotidiana? Em que medida afeta os costumes individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.

Simone de Beauvoir

O estudo foi centrado na obra de Mercedes Cabello de Carbonera; autora que propôs um olhar mais acirrado nas questões sociais ocorridas na época. Intencionou fazer uma literatura de denúncia, na qual expõe os vícios da sociedade peruana do século dezenove. Carbonera, mulher empenhada e determinada, foi capaz de dedicar sua vida à reivindicação de direitos a uma sociedade igualitária; onde pudesse externar a sua escrita sem precisar ter de conviver com discriminações e censuras sobre o conteúdo.

Nosso esforço nesse trabalho foi o de refletir sobre os modos de representação do feminino e os papéis sociais dentro da obra literária Blanca Sol. Para tanto, valemo-nos do recorte de algumas cenas do romance.

Seguimos, como princípios norteadores, o estudo de teóricos e estudiosos no assunto para marcar as distinções pertinentes; a nosso ver são significativas e foram muito interessantes para melhor explanação dos assuntos abordados.

Para fundamentar as ideias apresentadas e para sustentar e abordar o nosso tema, sempre que julgamos necessário, fizemos referência a vários autores. Sempre que possível, ao longo de nossa abordagem, fizemos referência e evidenciamos a questão da representação da mulher; e, dentro do romance, o sujeito feminino estava à frente das mulheres que viveram no século XIX. Sendo assim, lançamos o olhar para a realidade fictícia da obra em questão, percebemos que as mulheres

evoluem ou se transformam de acordo com as mudanças ocorridas na vida de cada uma ou até mesmo da sociedade; há uma necessidade de constante adaptação à natural evolução das situações e dos próprios cidadãos. E, acreditamos ter contribuído para mais uma possibilidade de estudo e de abordagem de um tema tão vasto, como é o da representação da mulher e os papéis sociais.

O projeto no romance BS de Carbonera se orienta em torno da formação da nação burguesa, onde o mau exemplo feminino vivido pela protagonista da obra é uma advertência; Cabello tem como base a união da raça branca com os valores burgueses. A autora destaca, através do romance, os dois meios de trabalho mais comuns que a mulher poderia seguir naquela época. É interessante observar como o trabalho feminino se relaciona com a configuração do ser feminino e a necessidade de haver uma mudança na educação tradicional.

Todo o discurso sobre a mulher e sua função na sociedade nos fez pensar que a educação da mulher deveria ser um “espelho” daquela que recebem os homens, ou seja, deveriam ser educadas para que fossem símbolo de civilidade de toda nação, onde a civilidade pode ser entendida como sinônimo de ser educado de forma igualitária.

O romance situa de forma irrefutável um determinado período histórico do Peru; e diante dos relatos históricos é possível perceber como a visão androcêntrica alicerçava as comunidades com ações dominantes e centradas no patriarcalismo. Mas, outras perspectivas buscaram dar uma maior visibilidade ao tema, questionando a concepção injusta que norteia as relações entre mulheres e homens e sendo capaz de suscitar outras oportunidades e expectativas sobre o assunto.

No romance foram utilizadas estratégias narrativas que trouxeram um realce especial durante a leitura, e permitiram que o silêncio da voz narrativa deixasse de

fora da escritura os pensamentos, enunciações ou ações limites dos sujeitos– agentes femininos, transformando a obra em um “agradável mergulho” no panorama que ia sendo experimentado durante a leitura de cada capítulo.

A obra BS de Carbonera pode ser interpretada através de sua diversidade de papéis sociais, fundamentando a perspectiva feminina representada através da protagonista como alternativa de estruturação identitária continuada. A obra retrata um mundo de pessoas cujas existências são adornadas de hipocrisia, miséria, elevado grau de mesquinhez e de sonhos medíocres.

A sociedade de que tratou a autora é tão viciosa quanto aquela em que Flaubert tanto fez questão de trazer à tona em suas escrituras, e menciona que:

Mas a sociedade não é talvez o infinito tecido de toda essa mesquinhez, dessas trapaças, dessas hipocrisias, dessas misérias? A humanidade pulula assim sob o globo, como um sujo punhado de chatos sobre um vasto torrão. (Flaubert, 1993, p. 89)

O romance de Carbonera foi muito criticado, no entanto teve o importante papel de fornecer modelos de conduta, com o interesse de contribuir para uma nação peruana moderna. Podemos citar como exemplo o caso de Josefina (a costureira de Blanca), que, apesar de ser uma personagem construída sobre os parâmetros românticos, é constituída como modelo feminino a seguir e se contrapõe à protagonista. É uma ruptura com o romance romântico, é o retrato de um universo onde a mediocridade vai aos poucos afogando a figura da heroína; as qualidades morais e psicológicas são retiradas, dando vida à anti-heroína.

Carbonera representou o real captado através de sua ficção; operando, entre os limites da criação e ficção, um discurso ficcional que permitisse comprovar as relações existentes entre os papéis sociais e a ficção.

Em seu universo ficcional, as representações integraram classes essenciais, buscando através de suas enunciações configurar os constituintes tanto da dominação como da resistência e, as relações de poder; visando influenciar através do descortinamento das identidades. Ao final das reflexões que esbocei ao longo dos capítulos, percebi que acabei me empenhando na função de escrever um texto que não está livre de questionamentos. Foram levantadas perguntas para as quais não se esboçou resposta, indagações cuja solução não pode ser uma só.

Em sociedades onde se fez presente o domínio do patriarcalismo, o passado ainda não se encontra morto. E através da literatura obtemos suporte para provocar inquietações e questionamentos sobre o presente, buscando romper com os (ainda persistentes) abusos contra a mulher, que, às vezes, na sociedade atual, é colocada nas sombras do esquecimento, fora do lugar de enunciação e como subalterna.