• Aucun résultat trouvé

Section Two of the Sherman Act

As pesquisas a seguir versam sobre identidades de favelas/comunidades e de cidades a partir de diferentes perspectivas teóricas.

Na Universidade de Coimbra, Santana (2009) propõe discutir as representações identitárias da favela, tendo como referência a telenovela brasileira “Duas Caras”. A autora chama a atenção para a constante presença da periferia na ficção televisa, uma forma de inserção que se tornou recorrente desde o filme Cidade de Deus (2002). A telenovela “Duas Caras” foi exibida em outubro de 2007, ambientada numa favela fictícia e com personagens centrais que contribuíam para a construção desse cenário. No entanto, essa comunidade foi construída diferente do que normalmente estamos habituados, sem violência e criminalidade. De acordo com o autor da novela, a intenção foi desmistificar a visão de “que na favela só residem bandidos, enfatizando o carácter humano e caracterizando a favela como espaço de pessoas honestas e trabalhadoras” (SANTANA, 2009, p. 2).

As questões que permeiam o trabalho de Santana são as seguintes: “como a favela pode se tornar um espaço de identidade e quais os parâmetros de identificação” (SANTANA, 2009, p. 2.). Em sua pretensão investigativa, a autora visa também evidenciar como os personagens representam estereótipos construídos e determinados socialmente. No esclarecimento de tais questões sobre comunidade, recorre a Castells (2003), para quem a comunidade é um local onde as pessoas se socializam, formando redes sociais entre vizinhos. Constata, além disso, que “as identidades locais entram em intersecção com outras fontes de significado e reconhecimento social, seguindo um padrão altamente diversificado que dá margem a interpretações alternativas” (SANTANA, 2009, p. 3).

A comunidade criada pela novela representa uma comunidade estabelecida no âmbito local: os personagens tendem a se agrupar em organizações, excluindo qualquer tipo de individualização, e o espaço em que atuam reproduz, na aparência, o que, segundo citado por Santana (2009), Castells (2003) entende como uma verdadeira comunidade, ou seja, habitantes que, juntos, participam ativamente de movimentos sociais urbanos, associados a um conjunto de metas que visam a uma mudança social coletiva, com condições dignas de sobrevivência. Essas metas solidárias fazem da comunidade televisiva imaginada um lugar de identidade, contribuindo para a afirmação identitária cultural local desses sujeitos, dando-lhes uma sensação de pertencimento. Além do espaço fictício criado pelo autor, as personagens representam a “favela carioca politicamente correta” (SANTANA, 2009, p. 8), com estereótipos formados a partir do imaginário da sociedade. Para Santana, existe um esforço da telenovela em se aproximar ao máximo da realidade através de códigos que representam o real.

No âmbito da Linguística Aplicada, o trabalho de Lopes (2009) busca as ressignificações da identidade da favela dentro da linguagem do funk carioca. Uma das proposições do funk é mostrar a realidade da favela, como forma de denúncia de movimento cultural. O uso de linguagens específicas na letra da música revela como os artistas significam suas próprias experiências e reivindicam uma cartografia diferente para a cidade do Rio de Janeiro. “Nessa linguagem, a favela deixa de ser o espaço genérico da barbárie e se transforma em território com nome próprio e no local da habitação e de hábitos cotidianos de inúmeros jovens favelados” (LOPES, 2009, p. 379).

A pesquisa realizada por Barros (2016) parte da percepção de que o cinema colabora para o fortalecimento de discursos a respeito da favela e de seus moradores. Seu

estudo busca, por meio da Análise do Discurso Francesa, identidades atribuídas à favela e a seus moradores representados no filme “Cinco vezes favela”, de 1961. Uma das considerações feitas pela direção do filme foi a de que o intuito era mostrar o favelado não de maneira folclorizada (BARROS, 2016). No entanto, Barros observou que, mesmo tendo essa preocupação de denúncia, “é possível encontrar sentidos que reduzem seus personagens à marginalidade e à criminalidade” (BARROS, 2016, p. 14). A constatação conclusiva de seu estudo é a de que os meios de comunicação (entre eles o cinema) apresentam discursos sobre a favela e sobre seus habitantes sempre sintonizados com os discursos e saberes institucionalizados. E porque compreende o discurso como uma construção social, entende que neste se refletirá, fatalmente, uma visão de mundo determinada.

Um outro estudo, realizado por Barros (2013), buscou por identidades da favela e de seus moradores no discurso de “Viver a Vida”. Para esse autor, as telenovelas também têm um papel importante na construção das identidades no mundo contemporâneo. Apesar de ser uma obra fictícia, os indivíduos estruturam suas identidades com base nos “significados e visões de mundo” midiático (BARROS, 2013, p. 9). Essa pesquisa chegou à conclusão de que a telenovela tem a intenção de alcançar maior audiência e, por isso, busca atribuir ações de violência a esses locais, “visto que a criminalidade espetacularizada funciona como atrativo para o público” (BARROS, 2013, p. 9).

Já a pesquisa empreendida por Da Cruz (2007) busca por identidades atribuídas à favela e aos moradores de favela no ciberespaço. Esse meio de comunicação torna-se um espaço pelo qual os moradores de favela podem interagir com o não-morador de favela, possibilitando a esses indivíduos uma “inter-relação dos processos de construção identitária” (DA CRUZ, 2007, p. 4); e essa identidade é construída a partir da relação de alteridade, haja vista a permanente tensão entre o “nós” e os “outros”, sempre presente nas falas de moradores e não-moradores de favelas. É também um espaço de vozes na esfera pública. A pesquisadora também verificou que “os discursos produzidos sobre os moradores de favelas ainda são fortemente marcados por estereótipos” (DA CRUZ, 2007, p. 62), mesmo assim, os moradores buscam romper com esses discursos estigmáticos e propõem novas representações desses espaços e de seus habitantes.

Sobre as identidades de cidades, temos a tese de Faria (2007), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que trouxe importantes contribuições para as atuais pesquisas em estudos culturais contemporâneos. Seu trabalho inscreve-se na

Linguística Aplicada e assume a concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin. Em seu estudo, Faria buscou por identidades culturais da cidade de Natal a partir de representações expressas nos discursos de poetas potiguares, ao longo do século XX.

Essa escolha deu-se pela grande influência, nesse período, da poesia na construção da identidade da cidade de Natal. Nesse processo investigativo, a autora demonstrou que a poesia se colocou como importante registro da memória cultural de uma época. A pesquisadora encontrou, nesse período, identidades múltiplas que representavam a cidade de Natal: “Natal se mostra provinciana, exuberante, monótona, barulhenta, do ‘já teve’, juvenil, sofrida/degradada, índia, desigual/injusta, asfixiada, internacional” (FARIA, 2007, p. 148, grifo da autora). Além de se revelarem como múltiplas, essas identidades, segundo constata a autora, foram construídas vinculadas à tradição e à memória da cidade.