• Aucun résultat trouvé

Predatory Behavior in the Public Utility Context

Após a análise do primeiro samba-exaltação, passamos para o segundo samba registrado no site da escola como hino oficial da Portela.

Portela Na Avenida (samba-exaltação) G.R.E.S Portela – 1980

Compositor: Mauro Duarte E Paulo César Pinheiro Portela

Eu nunca vi coisa mais bela Quando ela pisa a passarela

E vai entrando na avenida Parece a maravilhosa de aquarela que

surgiu

O manto azul da padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida

Que vai se arrastando E o povo nas ruas cantando

É feito uma reza, um ritual É a procissão do samba

Abençoando A festa do divino carnaval

Portela,

É a Deusa do samba o passado revela

E tem a velha guarda como sentinela É por isso que eu ouço essa voz que me

chama Portela

Sobre a tua bandeira este divino manto Tua águia altaneira é Espírito Santo

No templo do samba As pastoras e os pastores

Vem chegando da Cidade, da favela Para defender as suas cores Como fiéis na santa missa da capela Salve o samba, Salve a Santa, Salve ela Salve o manto azul e branco da Portela

Desfilando triunfal Pelo altar do Carnaval

Como se pode constatar, a religiosidade é uma característica marcante no segundo samba-exaltação da Portela. Suas escolhas lexicais dão a ideia de se estar numa “procissão”, “feito uma reza, um ritual”. A escola de samba faz-se representar como sendo a “Padroeira do Brasil”; “Nossa senhora Aparecida”. A águia, símbolo da escola, é o “Espírito Santo”; a avenida por onde as escolas de samba desfilam é o “altar”; o público participante são os “fiéis na santa missa da capela”; o ensaio ou desfile da escola é a “festa do divino”. Assim, no plano estilístico, todo campo semântico dos enunciados remete a temas religiosos como “abençoado”, “divino manto”, “templo”, “pastoras e os pastores”, “salve o samba, salve a santa, salve ela”, “salve o manto”. A identidade atribuída à escola é de santa: “Nossa senhora do Brasil/ Nossa senhora Aparecida” e “padroeira do Brasil”. Em termos gerais, a escola assume uma identidade religiosa, e o seu desfile apresenta-se como um momento divino. Num outro plano, constrói sua identidade à semelhança de uma mulher: “Eu nunca vi coisa mais bela/ Quando ela entra

na avenida/ Parece a maravilhosa de aquarela que surgiu”, “É a Deusa do samba o passado revela”.

Esses enunciados, ao inserirem elementos religiosos num ambiente de festa carnavalesca, colocam em diálogo o “sagrado” e “o profano”, revelando todo processo de carnavalização a que Bakhtin (2013) faz referência. A festa carnavalesca tem como característica a abolição de tudo que é sagrado durante um determinado período. Até já se fazem muito comuns paródias carnavalescas de textos e rituais sagrados. O samba- exaltação analisado não pertence ao gênero paródia, é verdade; mas comporta o que Bakhtin (2013) denomina de mésalliance carnavalesca, pois aproxima tudo aquilo que estaria separado.

E vale dizer, a título de esclarecimento, que não é por ingenuidade que temas religiosos aparecem em letras de samba. A religiosidade, não raro, esteve presente na construção das letras desse gênero do discurso e relacionada à própria escola. Como vimos na segunda seção desta dissertação, as festas populares do Rio de Janeiro eram, muitas vezes, celebradas durantes as festas religiosas.

Esse segundo samba-exaltação foi escrito em 1980 quando a Portela conquistou seu vigésimo título de campeã do carnaval, após ficar dez anos consecutivos sem ganhar campeonatos. Nesse atual contexto sócio-histórico em que se encontrava, todas as escolhas lexicais fazem parte de um projeto de dizer que busca conquistar a adesão do público por meio do discurso religioso, caracterizado como discurso autoritário, pois vimos que este último está ligado ao dogmático, próprio da esfera religiosa.

A Portela mantém relação importante com a religiosidade e tenta preservar essa devoção como um dos principais valores da escola. Sempre homenageia seus santos padroeiros. O samba-exaltação acima entra diretamente em diálogo com as rezas e os cânticos religiosos de missas em celebração aos santos.

Em pleno período colonial no Brasil, o gênero hino era muito utilizado pela igreja como instrumento de conversão dos povos indígenas. Nesse caso, podemos dizer que o samba-exaltação da Portela segue os mesmos propósitos comunicativos desse período uma vez que, por meio de signos religiosos, o samba-exaltação também serve de mecanismos para converter os participantes da comunidade.

E vale acrescentar o fato de que registramos a presença de ideologias diversas nesse samba-exaltação, que vão se formando a partir de signos socialmente aceitos. Apoderam-se de símbolos ideológicos já estabilizados, mais aceitos socialmente, como é

o caso dos símbolos religiosos, com o intuito de exercer maior influência. Mesmo porque, como sabemos, a “compreensão de um signo ocorre na relação deste com outros signos já conhecidos; em outras palavras, a compreensão responde ao signo e o faz também com signos” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 95). Dá-se, desse modo, a combinação entre os gêneros hino religioso, rezas, cantos religiosos e samba-exaltação, caracterizando uma forma híbrida de construção. Nesse sentido, o samba-exaltação deve ser compreendido como unidade real de comunicação, mantendo relações com outros enunciados já ditos. De acordo com Rojo (2007, p. 176), a hibridização é uma construção típica das canções populares.

Sobre os gêneros híbridos, Bakhtin explica:

chamamos de construção híbrida um enunciado que, por seus traços gramaticais (sintáticos) e composicionais, pertence a um falante, mas no qual estão de fato mesclados dois enunciados, duas maneiras discursivas, dois estilos, duas “linguagens”, dois universos semânticos e axiológicos. Entre esses enunciados, estilos, linguagens e horizontes, repetimos, não há nenhum limite formal – composicional e sintático: a divisão das vozes e linguagens ocorre no âmbito de um conjunto sintático, amiúde no âmbito de uma oração simples, frequentemente a mesma palavra pertence ao mesmo tempo a duas linguagens, a dois horizontes que se cruzam numa construção híbrida e, por conseguinte, tem dois sentidos heterodiscursivos, dois acentos (BAKHTIN, 2015, p. 84).

Em seu samba-exaltação, a Portela novamente reforça a necessidade de a comunidade “defender as suas cores”, tal como se conclama no discurso patriótico. No verso “Salve o manto azul e branco da Portela”, as cores adquirem um valor sagrado ao serem associadas à palavra manto. A referência às cores da bandeira é uma estratégia comum também nos hinos pátrios e nos hinos de times de futebol. São marcações simbólicas usadas como estratégias discursivas que contribuem para a afirmação identitária de uma nação ou de uma instituição. “A marcação simbólica é o meio pelo qual damos sentido a práticas e relações sociais, definindo, por exemplo, quem é excluído e quem é incluído. É por meio da diferenciação social que essas classificações da diferença são ‘vividas’ nas relações sociais” (WOODWARD, 2014, p. 10, grifo da autora). Determinadas cores podem ser diretamente associadas à determinada nação, comunidade, marca ou time de futebol.

Apesar de o hino fazer referência às cores azul e branca como cores de sua bandeira, fazendo associação às cores da padroeira, estas podem também caracterizar as

cores Oxóssi e Oxum da religião de origem africana. Além desses elementos, não observamos nenhum outro aspecto de referência à cultura e à identidade negra, sendo procedente a afirmação de que há nesses hinos o apagamento da identidade e da cultura negra. Parece, pois, legítimo dizer que o samba, ao entrar na ordem do permitido, tornou- se “domesticado, limpo, seguro” conforme sublinha Pereira (2012).

Outro símbolo muito importante para a escola da Portela é a águia, citada no verso “Tua águia altaneira é Espírito Santo”. Tomando a águia como um signo ideológico, podemos dizer que, simbolicamente, remete ao poder, à imponência, à força. Já a palavra altaneira significa soberana, orgulhosa, altiva. Na religião afro, a águia é um animal solar e tem um significado sagrado, a mais alta divindade, considerada a rainha de todos os pássaros. Simboliza poder e força espiritual. De acordo com Ericeira (2009), o carro alegórico com o símbolo da águia na avenida causa fascínio e emoção nos portelenses. Aliás, todos esses signos ideológicos representados pela imagem da águia são valores que a escola deseja instituir e afirmar como sua marca identitária. E são igualmente importantes para despertar o emotivo-volitivo (atitude responsiva) dos participantes, que, em resposta, se empenharão mais ainda durante o desfile em prol do êxito comum.

De fato, como podemos observar abaixo (Figura 4), a imagem da águia azul e branca, com as asas abertas, entrando na avenida pode facilmente remeter à imagem da pomba representada pelo Espírito Santo. A expressão “facial” da águia impõe aquilo que simbolicamente ela representa: poder, imponência e força.

Figura 4

Figura 5

Fonte:https://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-pomba-do-esp%C3%ADrito-santo- image52057728/ Acesso em: 09 de junho de 2018

Entendendo, como Volóchinov (2017), que toda palavra veicula uma ideologia e está diretamente ligada à situação extraverbal, podemos dizer que a escolha da águia como símbolo da escola não se restringe a uma decisão aleatória; cumpre um objetivo bem-definido: faz parte de um projeto de dizer que visa construir uma atitude responsiva da comunidade e afirmar uma identidade positiva e competitiva para a escola.

Bakhtin (2016, p. 105) lembra que toda palavra tem, por natureza, a necessidade de ser ouvida; “sempre procura uma compreensão responsiva e não se detém na compreensão imediata, mas abre caminho sempre mais e mais à frente (de forma ilimitada)”. Assim, todo enunciado é construído visando sempre a um destinatário e sua compreensão constitui-se num processo dialógico.

Nesse processo dialogizado, há a assimilação de discursos que pertencem à categoria do discurso autoritário (religioso e nacional). Para Bakhtin, “o discurso de autoridade pode organizar em torno de si massas de outros discursos” (BAKHTIN, 2015, p. 136-137). Sob essa ótica, pode-se considerar que o samba-exaltação da Portela vincula- se ao discurso de autoridade, na medida em que visa alcançar mais adesão do público, obter mais o empenho da comunidade. Trata-se de aplicar material de outro discurso em uma nova situação para “conseguir novas respostas (uma vez que um eficiente discurso do outro gera dialogicamente nosso novo discurso responsivo) (BAKHTIN, 2015, p. 141).

O discurso autoritário caracteriza-se como sendo monológico porque impõe seus valores desconsiderando as outras vozes; está fechado para outras opiniões e outros questionamentos. É um tipo de discurso que exerce poder sobre os outros e “entra em nossa consciência verbal como uma massa compacta e indivisível” (BAKHTIN, 2015. p. 144),

Ao misturar elementos do discurso religioso e de hinos nacionais, percebemos, na composição do já aludido samba-exaltação, uma forma de molduragem do discurso do outro, posto que se intercalam traços sintáticos e elementos do léxico próprios de outro gênero, mas que “permanecem acentuadamente destacados”. Há, portanto, no samba- exaltação da Portela dois universos discursivos de estilos, linguagens e horizontes de universos distintos: o religioso e o nacional que, juntos, constroem um projeto de dizer.

Ao estabelecermos a comparação entre os dois sambas-exaltação dessa escola (um escrito em 1935; ano do primeiro título conquistado; outro gravado em 1980, ano em que a escola de samba conquista seu vigésimo título, após ficar dez anos sem ganhar campeonatos), constatamos que o primeiro samba afirma uma identidade baseada num passado recém-conquistado, o que se traduz na valorização das cores de sua bandeira (um discurso mais nacionalista). Já o segundo samba-exaltação busca outra estratégia para conquistar a adesão do público: o apelo à religiosidade, à elevação do espírito, visto que o portelense estava com a autoestima baixa por ficar tanto tempo sem receber títulos.