Ao longo da análise dos sambas-exaltação das três escolas com maior número de títulos do Rio de Janeiro, percebemos que, em seus enunciados, a construção de suas identidades assemelha-se ao processo de construção identitária de uma nação, isto é, suas identidades são construídas por meio da afirmação e da valorização de sistemas simbólicos que marcam a diferença, criando uma ideia de pertencimento.
Vimos, na seção teórica, que a identidade é uma relação de poder, propensa a ser manipulada por meio de sistemas simbólicos que podem ser facilmente reconhecidos como reais. Essas instituições manipulam a posição-sujeito que se deve ocupar socialmente. O discurso nacionalista faz uso das mesmas estratégias. Visa construir uma unidade dentro da diversidade e instituir valores, modos de pensar e modelos capazes de influenciar comportamentos, caracterizando-se como um discurso autoritário e altamente persuasivo (BAKHTIN, 2015).
Assim, é possível que as escolas de samba construam o que Anderson (1989) denominou de comunidade imaginada. O autor defende a ideia de que as comunidades nacionais constroem uma série de sistemas de representação cujos significados são facilmente identificados pelos seus membros. A ideia de nação não é algo concreto ou definido a partir da extensão territorial; ela só existe por meio de um sentimento de pertencimento e de uma imaginação compartilhada por todos. Dessa forma, para o autor, as comunidades nacionais são politicamente imaginadas “porque até os membros da mais pequena nação nunca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da sua comunhão” (ANDERSON, 1989, p. 14).
No caso específico das escolas de samba, elas se fazem representar por meio da seleção de sistemas simbólicos não arbitrários, isto é, aqueles que são facilmente percebidos pela comunidade como reais. É como um jogo que precisa levar em conta o sentido que deve ser construído com credibilidade. Daí a seleção daquilo que se deseja preservar e ressaltar. Esse sistema simbólico de representação é o mecanismo de “poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade” da comunidade pela escola de samba
(HALL, 2015, p. 106). A identidade é, portanto, “um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. São sistemas de signos “com os quais podemos nos identificar” (HALL, 2015, p. 50-51).
Assim, podemos dizer que as escolas de samba constroem uma espécie de nação/comunidade imaginada, pois, tal como uma nação, elas também marcam suas diferenças por meio de símbolos como bandeira, brasão, cores e hino. De acordo com Berg (2014, p. 11),
[...] os símbolos nacionais possuem uma amplitude de formas e representações: bandeira, hinos, canções, marchas, brasões, timbres, selos, cores, a flora e fauna, monumentos, santuários, moeda, língua, escrita/alfabeto, personificação da nação etc.
Para Fernandes (2001), as escolas de samba são o que Hobsbawm (1984) denominou como tradição inventada, ou seja, inventam tradições e uma continuidade em relação ao passado. Uma das características das “tradições inventadas” é assegurar elementos marcantes de sua identidade, e todo esse processo de implantação ocorre com velocidade. Desde seu surgimento, as escolas de samba se apoiaram num discurso de tradição, muito comum nesse tipo de manifestação cultural.
No curso desse processo de análise (e já respondendo a primeira questão desta pesquisa: como as escolas de samba se constroem identitariamente a partir de seus sambas-exaltação?), constatamos que a construção identitária das escolas de samba assemelha-se àquela dos hinos nacionais. Cada uma delas afirma sua identidade por meio de sistemas representacionais que marcam a necessária diferença em relação às demais concorrentes: a valorização de um autêntico passado de glórias; a bandeira e as cores da escola; as tradições e os valores; o bairro/morro onde a escola está localizada; um discurso de amor e devoção à “terra amada” que a comunidade deve desenvolver pela escola; a sensação de felicidade; a identidade feminina; a identidade religiosa; e o lugar de samba que ela representa.
E quando se questiona (como o fazemos em nossa segunda questão de pesquisa) que relações dialógicas essas identidades estabelecem entre si, respondemos que a Portela e a Mangueira afirmam suas identidades a partir da reivindicação de um passado “feito de glória”, de “suas raízes”. Nesses casos, a antiguidade é uma vantagem em relação às
outras agremiações. Mesmo indiretamente, a Portela e a Mangueira estabeleceram essa distinção com as outras agremiações; mas, em nenhum momento, fizeram referência ao nome de outras escolas de samba rivais em seus enunciados. Quando tratamos (na seção teórica) sobre identidade cultural, vimos que estabelecer a distinção é uma estratégia comum, na construção identitária, para separar grupos em lados oposto, para dizer quem pertence ou quem não pertence a uma dada comunidade, nação ou grupo, a partir da diferença. Reivindicar um passado é uma forma de obter vantagens em relação aos adversários, para colocar-se superior aos outros e estabelecer a singularidade.
No caso da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, talvez por não figurar entre as mais antigas do Rio de Janeiro, as estratégias são outras. A escola investe, principalmente, no discurso de passionalização e de vinculação ao município de Nilópolis, numa relação de alteridade.
Sua identidade é construída, em primeiro lugar, pelo uso de um discurso de exaltação, que a coloca em lugar de destaque, enaltecendo o seu grande esplendor; em segundo lugar, pelo uso de expressões capazes de ativar o emotivo-volitivo da comunidade, que evocam o devotamento e o amor pela escola, provocando a sensação de felicidade por pertencerem àquela comunidade, por se situarem naquele bairro. Esse tipo de discurso é monológico e lança mão de estratégias que mexem com a emoção e “vendem” uma imagem que não corresponde à real. É dessa forma que as escolas de samba dizem qual posição-de-sujeito os participantes devem ocupar e os valores que devem cultivar.
A Mangueira e a Beija-Flor também se fazem representar identitariamente por meio da relação de alteridade com a comunidade onde estão localizadas. No samba- exaltação da Mangueira, ora se faz referência ao morro, ora à escola de samba. Nos três sambas da Beija-flor de Nilópolis, a marcação geográfica fez-se presente. Parece que a agremiação faz mesmo questão de estabelecer essa vinculação com o município de Nilópolis. Aliás, a ligação a uma comunidade também é uma forma de dispor sujeitos em lados opostos, em uma relação de oposição (WOODWARD, 2014), ou seja, quem pertence à comunidade da Mangueira e quem pertence à cidade de Nilópolis. Essa marcação espacial também é uma estratégia muito comum nos hinos pátrios, justamente para criar uma sensação de pertencimento e dizer quem faz parte e quem não faz parte daquela comunidade/nação.
No samba-exaltação da Portela, a vinculação ao bairro de Cascadura não é marcada como nos sambas da Mangueira e da Beija-flor. Talvez, como afirmou Pavão (2005), por ser um grande bairro da zona norte e bastante heterogêneo, a relação com a escola de samba não seja a mesma que ocorre com as outras agremiações.
Outras relações dialógicas na construção identitária das escolas se estabelecem entre os sambas-exaltação da Portela e da Mangueira, que diferente do da Beija-flor, afirmam sua identidade por meio de marcação simbólica e exaltação da bandeira e das cores (de sua bandeira), o que igualmente acontece nos hinos nacionais. Essa marcação simbólica contribui para criar uma ideia de nação e de pertencimento a esses espaços.
Assim, para essas escolas tornarem possível a identificação com a agremiação, descrevem a comunidade com características que possibilitam a ideia de pertencimento. Há, nos sambas-exaltação, uma escolha de palavras que estão diretamente ligadas à esfera em que foram produzidas, ou seja, a palavra só faz sentido dentro dessa comunidade discursiva. Portanto, não podem ser isoladas da situação de produção.
Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor (VOLOCHÍNOV, 2013, p.115).
Ademais, os discursos são construídos visando a um projeto de dizer que é levado para o todo da enunciação. As palavras não são escolhidas aleatoriamente; fazem parte de um esquema discursivo. Quando a palavra adquire um sentido concreto, quando se refere a determinada realidade e às condições reais de comunicação, estamos diante de um enunciado concreto. Por isso, quando analisamos uma palavra na perspectiva do Círculo de Bakhtin, ela não é considerada “enquanto palavra da língua” (BAKHTIN, 2015, p. 290), mas como palavra inserida em uma determinada situação real de comunicação e sua “ativa posição responsiva” (BAKHTIN, 2015, p. 290) em relação a essa realidade concreta. Assim, “toda palavra pronunciada [...] é a expressão e o produto da interação social” (VOLOCHÍNOV, 1976, p. 110).
Nesse processo, é preciso igualmente levar em conta a entoação expressiva que um enunciado pleno de significação ganha. Toda palavra como enunciado concreto ganha “um tom emocional” (VOLOCHÍNOV, 1976, p. 110). No caso dos sambas-exaltação, a
entoação tem grande efeito sobre os participantes; faz com que se sintam mais envolvidos e pertencentes à agremiação.
Vale lembrar que o sujeito vivencia trajetórias sócio-históricas distintas, reflete o conjunto de relações do meio social no qual se insere. Portanto, não possui os mesmos valores axiológicos e o mesmo horizonte de expectativa porque pertence à mesma comunidade. Cada um vivencia a experiência de forma singular.
Cada campo de criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua própria maneira. Cada campo dispõe de sua própria função no conjunto da vida social. É seu caráter semiótico que coloca todos os fenômenos ideológicos sob a mesma definição geral (BAKHTIN, 2011, p. 33).
Todos esses discursos revelam as especificidades desse campo de comunicação verbal e revelam que “o signo e a situação social em que se insere estão indissoluvelmente ligados” (VOLOCHÍNOV, 2014, p. 16).
Como dissemos, todas essas incidências podem ser interpretadas como representativas do propósito comunicativo almejado pelos sambas exaltação: exaltar a escola de samba, atribuindo-lhe identidades múltiplas; manter o sentimento de “pertencimento patriótico” à escola; instituir valores, valorização e afirmação de sua importância no universo do samba.
6 APURAÇÃO FINAL
Nesta dissertação, objetivamos, em primeiro lugar, identificar como as escolas de samba se constroem identitariamente a partir de seus sambas-exaltação, e, em segundo lugar, determinar as relações dialógicas entre os discursos estabelecidos pelas escolas nos enunciados de seus respectivos sambas-exaltação.
No decorrer da análise dos sambas, constatamos que o processo de construção identitária das escolas é semelhante ao encontrado nas composições dos hinos pátrios, na medida em que, nos dois casos, se visa reforçar o sentimento de pertencimento e criar uma unidade na diversidade por meio de sistemas de signos que marcam a diferença, a exemplo da valorização de um autêntico passado de glórias, da valorização das cores da bandeira, da valorização da natureza e, em referência particular às escola, do bairro/morro em que a escola está localizada, do uso de palavras que traduzem sentimento de amor e de devoção à “terra amada”, da identidade religiosa e de sua caraterização como lugar de samba.
Como já mencionado, para que exista esse sentimento de pertencimento a uma dada nação/comunidade, é preciso uma série de símbolos capazes de “tornar possível uma identificação” (PACHECO, 2004, p. 3-4). Há, para tanto, vários sistemas de signos não arbitrários que estabelecem a distinção identitária entre os grupos e fazem com que os indivíduos se sintam pertencentes a uma dada nação/comunidade.
Nesse processo comparativo (samba-exaltação x hino pátrio), verificamos que, embora o samba-exaltação seja diferente do hino pátrio, registra-se uma aproximação estilístico-semântico no modo de construção dos enunciados que compõem o gênero. Todos os elementos que compõem os enunciados despertam o emotivo-volitivo dos participantes e exigem deles uma atitude responsiva; afinal, toda enunciação está voltada a um ouvinte e espera dele “sua concordância ou discordância” (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 163). O orador não fala para um público inerte, imóvel, seu ouvinte é sempre um avaliador. É isso que confere caráter dialógico à linguagem.
Quanto às representações identitárias das escolas de samba analisadas, percebemos que algumas se diferenciam pela forma como constroem suas identidades. A Portela e a Mangueira, por exemplo, recorrem ao passado de glórias; já a escola de samba da Beija-flor, provavelmente por ser mais moderna, recorre a uma estratégia de
passionalização; assume o discurso de amor e de devoção pela escola, caracterizado como um tipo de discurso autoritário e altamente persuasivo (BAKHTIN, 2015).
Todos esses elementos (associados à entoação-expressiva coletiva do hino, como um ritual comum nos cerimoniais cívicos) contribuem para tocar o emotivo-volitivo do público participante, sendo de capazes criar toda uma atmosfera de comunhão e de desenvolver (em uns) / reforçar (em outros) o sentimento de pertencimento.
Os hinos, de modo geral, pátrios e institucionais, têm um papel importante na vida dos indivíduos, especialmente porque os leva a identificar-se como sujeito de uma nação, de uma crença religiosa etc. Em qualquer caso, o ritual de entoação dos hinos faz com que os indivíduos se sintam mais fortes, mais envolvidos, pertencentes a um grupo. Todos, enfim, reunidos em uma só voz e agindo como um único corpo coletivo, compartilhando os mesmos valores, numa emoção unânime. Essas canções valem-se de um conjunto de palavras característico de seu universo e representam um dos símbolos mais significativos de uma nação, de uma crença religiosa, de uma escola de samba...
Quanto ao gênero samba-exaltação, constatamos que este obedece ao padrão, tanto no que concerne à sua forma composicional quanto no que diz respeito a seu conteúdo, e apresenta, como projeto discursivo, a exaltação da escola de samba com vistas a desenvolver o sentimento de pertencimento da comunidade, explorando os principais símbolos e valores da agremiação.
O samba-exaltação e as escolas de samba já foram temas privilegiados em vários estudos acadêmicos; mesmo assim, acreditamos haver marcado a singularidade desta pesquisa pelo fato de termos procedido a uma análise dos enunciados, pondo em destaque a sua relação com o contexto de produção e de circulação, sua dialogicidade, seu caráter valorado e responsivo. E isso o fizemos em sintonia com os ensinamentos de Faraco (2009), para quem os gêneros não devem ser estudados de forma cristalizada, mas levando em consideração seu caráter dinâmico e não estático, visto que estão sempre se adaptando à nova realidade, aos novos contextos e horizontes de expectativas.
De fato, os sambas-exaltação (assim como os hinos nacionais) são canções importantes para a construção e afirmação de identidades. E porque se propagam pela melodia, tem-se impressão de que o processo de assimilação dos valores atinge os participantes de forma mais ampla, mais rápida. É a entoação do samba que toca o emotivo-volitivo e faz com que os participantes se sintam envolvidos pela mesma esfera.
A análise também deixou evidente que não existe neutralidade quando se trata de discurso, posto que toda linguagem possui um conteúdo ideológico e está intrinsecamente ligada a uma determinada situação social, mantendo relações dialógicas com outros enunciados, outros signos. Assim, para interpretar esses enunciados, é preciso levar em conta todas as características dessa esfera e o atual contexto em que as escolas de samba se inserem. Por isso mesmo, não os analisamos assumindo um pensamento essencialista, como ponderamos na discussão acerca das construções identitárias.
Muitas vezes, as ideologias não são evidentes, como é o caso do samba-exaltação. Volóchinov (2017) alerta-nos para o fato de que toda palavra dita, por mais neutra que possa parecer, veicula uma ideologia, porta valores e modos de pensar. Ademais, cada esfera de atividade humana constrói seu sistema ideológico, que possui função específica; não pode ser separado dessa realidade. Esses signos são feitos especificamente para essas esferas e não são aplicáveis fora dela.
Com todas as transformações causadas pela globalização, as escolas de samba são prova dessa busca de afirmação e reafirmação, da busca da distinção, entre “tradição e tradução”, ou seja, entre o celebrar as tradições e o renovar-se. Não é, pois, sem razão que Geraldi (2009, p. 1) assevera: “O tempo da velocidade é o tempo da exigência de um novo contínuo, sem transcurso temporal: tudo é substituído e deve ser substituído com pressa”. Assim, para sobreviverem às novas exigências num mundo pós-moderno, as escolas de samba precisam aceitar o novo e, ao mesmo tempo, celebrar aquilo que as singulariza, que as diferencia, como é o caso da valorização de suas tradições, de suas raízes e de seu passado. Nesse sentido, constroem suas identidades como uma verdade essencialista, representações que muitas vezes não condizem com o real, pois desconsideram todas as mudanças, revelando “que, se a identidade é fruto de uma construção, ela também passa por processos de manipulação” (SILVA, 2010, p. 32). Essa seria uma estratégia de sobrevida num mundo globalizado no qual é preciso “inserir-se como distinto para se fazer notado” (GERALDI, 2009, p. 18).
Numa última palavra, com a crescente rivalidade entre as agremiações para manterem-se no grupo das campeãs, e dada a aceleração do tempo e as exigências do mundo pós-moderno, as escolas de samba precisam sempre achar o seu diferencial, a sua singularidade, o que, em deriva, render-lhes-á mais simpatizantes, quiçá mais investidores, e, principalmente um maior envolvimento da comunidade. Aliás, num dizer
mais definitivo, as escolas de samba precisam sempre se afirmar como importante manifestação cultural.
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