Localizada ao lado de uma das linhas férreas da cidade, com vista privilegiada para a Quinta da Boa Vista e para o estádio de futebol Maracanã, a escola de samba da Mangueira é, muito provavelmente, uma das mais conhecidas em todo o território nacional e talvez a que contabiliza mais adeptos. É uma das agremiações que levam o mesmo nome da comunidade onde está localizada; e foi graças à sua presença que a favela “passou a ser considerada o celeiro e patrimônio da cultura popular e berço de alguns poetas mais geniais da música popular brasileira” (COSTA, 2002, p. 33).
Assim como a Portela, a escola de samba da Mangueira também faz questão de preservar o título de escola mais antiga, de valorizar seu passado, suas raízes e seus personagens mais ilustres. As cores verde e rosa [seu principal símbolo] estão em todos os lugares; por isso mesmo, ainda nas palavras de Cabral (1996, p. 56), “não dá para
separar o morro da escola de samba” Além de ser considerada uma das escolas mais antigas, está situada, de acordo com os registros15, numa das favelas (a terceira) mais antigas do Rio de Janeiro.
A população do complexo da Mangueira chegou à região impulsionada pela localização de fábricas em torno do morro, condição favorável ao surgimento de grande contingente de migrantes mineiros e nordestinos, em sua maioria, negros, filhos e netos de escravos, à procura de melhores oportunidades. Nos anos 20, o morro da Mangueira ainda era uma comunidade pequena (bem diferente do que se observa nos dias de hoje), constantemente ameaçada de remoção por força de ações judiciais.
Desde seu aparecimento, a favela da Mangueira foi centro de grandes manifestações da cultura popular. Mesmo antes da fundação da escola, já era considerada reduto de sambistas (CABRAL, 1996).
A escola de samba da Mangueira foi fundada em 28 de abril de 1928, sob a liderança de Cartola, que também foi quem escolheu o nome e as cores da Estação Primeira; por isso o compositor tornou-se menção obrigatória quando se fala da Mangueira. A escola é também conhecida por possuir grandes compositores. Esse diferencial levou-a a ganhar mais prestígio no universo do samba carioca.
Contando com o patrocínio de grandes empresas, essa agremiação mantém inúmeros projetos sociais para o desenvolvimento da educação, da cultura, do esporte e lazer dos moradores da comunidade. De acordo com Costa (2002), a escola mantinha-se sem a contribuição do tráfico de drogas ou do “jogo do bicho”, prática muito comum entre as escolas de samba no século passado. Tudo isso contribuiu para dar-lhe mais credibilidade.
Sua história revela que, desde seu advento, a Estação Primeira de Mangueira sempre se colocou numa posição de destaque em relação às demais escolas, ficando conhecida na história do carnaval carioca por construir toda uma “marcha de glórias” (ALBIN, 2009, p. 253).
O período de maior destaque da Mangueira situa-se entre as décadas de 30 e 40, quando (juntamente com a Portela) liderou, com hegemonia, os desfiles das escolas de samba. Albin (2009) observa que, nesse período, as escolas de samba da Mangueira e da
15 Dados da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Portela inseriram traços da ideologia de Prestes16 nas composições dos sambas e se firmaram com grande liderança frente as outras escolas. Depois desse longo período de vitórias e de supremacia, essas escolas tiveram seu protagonismo desafiado com a chegada da escola de samba Império Serrano e, logo depois, da Beija-flor de Nilópolis. Com a inauguração do Sambódromo, em 1985, a Mangueira “sinalizaria uma volta profética aos tempos idos e vividos” (ALBIN, 2009, p. 258).
A comunidade da Mangueira “inflama-se” de orgulho pela escola, pois foi graças a essa agremiação que deixou de ser considerada lugar estranho à cidade (FERNANDES, 2001). Por isso mesmo, faz questão de divulgar e preservar a história da escola e das principais figuras com a criação da sede “Palácio do Samba”.
5.1.2.1 Samba-exaltação Exaltação à Mangueira
No processo de levantamento do corpus, verificamos que, apesar de existirem vários sambas-exaltação em homenagem à mangueira, a escola de samba registra, em seu site, apenas um deles como hino oficial desde de 1956.
Exaltação à Mangueira (hino da Mangueira)
Compositor: Enéas Brites Da Silva / Aloísio Augusto Da Costa Intérprete: Jamelão
Ano:1956
Mangueira teu cenário é uma beleza Que a natureza criou, ô...ô... O morro com seus barracões de zinco,
Quando amanhece, que esplendor, Todo o mundo te conhece ao longe,
Pelo som de teus tamborins E o rufar do seu tambor
Chegou, ô... ô... A mangueira chegou, ô... ô... Ó Mangueira, teu passado de glória,
Ficou gravado na história, É verde-Rosa a cor da tua bandeira,
16 Esse período Prestes e Getúlio Vargas disputavam o poder pela presidência. Prestes defendia uma ideia de evolução social vinda das classes sociais mais baixas, das massas.
Pra mostrar a essa gente, Que o samba, é lá em Mangueira !
Nesse hino de exaltação, os espaços apresentam-se como lugares de beleza “que a natureza criou”, ao mesmo tempo em que os elementos típicos dos morros e das favelas, os “barracões de zinco”, símbolos de simplicidade e pobreza, mostram-se em todo o seu esplendor: “Quando amanhece, que esplendor”. Todas essas escolhas lexicais visam construir uma descrição de lugar, em que os elementos caracterizadores do objeto em foco estabelecem a relação de alteridade entre a escola e a comunidade. A valorização do lugar e das paisagens é muito comum no discurso patriótico, que visa fixar não apenas um imaginário de lugar mas também uma identidade, construída a partir de uma ideia de pertencimento territorial.
Nesse samba-exaltação, as escolhas lexicais contribuem para ressaltar as virtudes da escola e ainda enaltecer o seu “passado de glórias”. A valorização do passado em busca de vitórias (e glórias) é também uma característica do gênero hino pátrio. Recordar o passado reiteradamente é uma estratégia de manutenção do sentimento de pertencimento dos que fazem parte da comunidade/nação. Esse apelo afetivo e a valorização do lugar, visam fortalecer ainda mais o vínculo com a escola.
Essa insistente valorização de um “passado feito de glórias” também se faz recorrente nos hinos nacionais. No caso em foco, a alusão a um “passado feito de glórias” é uma forma de colocar-se superior a outras agremiações; afinal, diferentemente das demais, conta com uma história gloriosa. Essa constante repetição dos grandes feitos pode ser considerada uma tática de sobrevivência, uma forma de ser diferente e também de afirmação da identidade dessas instituições culturais.
A Mangueira ainda reforça sua identidade por meio da marcação simbólica da bandeira da escola, como se verifica no verso “É verde-Rosa a cor da tua bandeira”. Ao dizer que verde-rosa são as cores da bandeira, a escola, indiretamente, alude ao “sentimento patriótico” que a comunidade deve desenvolver pela escola, tal como se processa com as cores da bandeira nacional.
No discurso autoritário nacionalista, também é muito comum a exaltação à bandeira como estratégia para reforçar os principais símbolos de uma nação. Em seus sambas-exaltação, a Mangueira utiliza semelhante estratégia: lança mão de um modo de dizer com o propósito de conquistar a adesão do público por um discurso “patriótico” que supervaloriza os principais símbolos da escola.
Fica, pois, evidenciado o fato de que a identidade da Estação Primeira de Mangueira é construída a partir da relação de alteridade da escola com o morro/comunidade onde está localizada. Tanto é que as referências ora remetem à escola de samba, ora ao “morro com seus barracões de zinco”. Reforçar essa relação das escolas de samba com suas comunidades parece fundamental para o fortalecimento de suas identidades e o enfrentamento das dificuldades criadas em razão das exigências a serem satisfeitas para que se possam manter no grupo das campeãs.
Como revelamos nas seções anteriores, a relação de alteridade é assimilada com frequência no nome da própria escola de samba, visto que muitas delas adotam o nome da comunidade ou do bairro como marcação de origem, a exemplo da escola de samba da Mangueira que leva o mesmo nome do morro onde está localizada; da Unidos da Tijuca, localizada no bairro da Tijuca; da Beija-flor de Nilópolis, entre outras escolas. As comunidades são, para algumas escolas de samba, um “prolongamento de sua própria identidade” (POUBEL, 2012, p. 4). Desde sua criação histórica, elas estiveram ligadas à ideia de comunidade, pois foi nesses espaços que se constituíram e se afirmaram. Vale salientar que essa associação surge como uma necessidade de sobrevivência para essas agremiações e a interação com esses espaços fortalece a relação de alteridade, pois é nessa troca que a escola constrói sua identidade.
A escola de samba Mangueira também quer ser reconhecida pelo “som de seus tamborins” e o “rufar de seu tambor”. Afinal, é lugar de samba; e de samba de qualidade! De fato, é uma identidade que a escola de samba da Mangueira tenta preservar, pois, como vimos, mesmo antes de seu surgimento, a comunidade da mangueira era reconhecida pela qualidade de seu samba, pelo destaque de compositores, como Cartola, que deu esse título à Mangueira.
Por fim, é importante registrar que esta escola de samba, ao narrar sua história (em seu site), “alardeia” sua relação com os batuques e os cantos advindos de várias nações africanas, e também as religiões afro-brasileiras, o candomblé e a umbanda. Não obstante, em seu samba-exaltação, observamos poucas referências de origem afro-brasileira.