As pesquisas realizadas por Pavão (2005, 2010) e Ericeira (2009), resguardadas notáveis distinções/peculiaridades, têm muito a contribuir com a nossa pesquisa pela semelhança de suas abordagens.
Ericeira (2009) trata da reconstrução do passado da escola de samba Portela nas redes mundiais de computadores. O site foi criado pela equipe Portelaweb e pelos compositores da escola com o objetivo de reconstruir e valorizar o passado da escola de samba da Portela. De acordo com o pesquisador, no processo de reconstrução e preservação desse passado portelense, são utilizados vários mecanismos, entre eles os sambas-exaltação. O pesquisador observou a necessidade dos portelenses de voltar ao passado em busca de suas glórias e de seus valores. Para ele, “graças aos apelos afetivos que empreendem, os sambas de exaltação acionam processos explícitos de identificação coletiva desses aficionados com a Portela” (ERICEIRA, 2009, p. 160). Essa valorização do passado torna-se fundamental no processo de construção da identidade social como portelense. Esquecer esse passado poderia resultar na perda de valores considerados essenciais para a escola e também desfazer os laços afetivos que unem os portelenses e os vinculam à agremiação.
A escola de samba da Portela também é objeto de pesquisa de Pavão (2005), que, por sua vez, discute as transformações nas redes de sociabilidade da escola de samba a partir das mudanças ocorridas nas últimas décadas. De acordo com esse pesquisador, as transformações exteriores às escolas, e no interior da própria escola, contribuíram para mudanças significativas nas redes de sociabilidade, responsáveis por manter o funcionamento das engrenagens das escolas de samba cariocas. Nos últimos anos, houve uma substituição da “comunidade tradicional” pela “comunidade eletiva”, embora a comunhão de ambas seja essencial para o sucesso da agremiação. A comunidade da Portela está localizada no bairro Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Por ser um bairro heterogêneo, a agremiação não desperta o interesse dos moradores, caindo, muitas vezes, no esquecimento. Em contrapartida, a indústria cultural contribui para que a memória da agremiação ultrapasse fronteiras locais, incorporando indivíduos de outras regiões. Há, nesse sentido, um deslocamento das relações sociais do contexto local, levando-se em conta o fato de que algumas pessoas, por afinidade, elegem a escola como elemento de identidade.
Pavão (2010), em sua tese de doutorado, desvela como, num contexto de mundo globalizado e de influências culturais que desencadeiam a chamada crise de identidade, “o samba carioca ressignifica suas práticas e atualiza sua importância para a sociedade nos dias atuais” (PAVÃO, 2010, p. 11). Fundamentado em autores como Hall, Canclini, Martín-Barbero, entre outros, o autor discute sobre identidades, cultura e globalização.
Observa que, sendo o Brasil um país múltiplo, de culturas diversas em todo seu vasto território, torna-se uma utopia a ideia de uma identidade cultural comum a todos, ou uma visão essencialista que desconsidera tal realidade. Uma das justificativas apresentadas pelo pesquisador para explicar a rápida ascensão das escolas de samba no cenário cultural nacional é a de que as “classes populares assumem o protagonismo dos discursos românticos, sendo associadas à pureza pré-capitalista” (PAVÃO, 2010, p. 310), atribuição feita anteriormente aos indígenas, quando, junto à natureza exuberante foram eleitos “representantes originais da nação” (PAVÃO, 2010, p. 310). Destaca também o papel preponderante do mercado editorial na consolidação dos projetos nacionalistas e na construção de uma “comunidade imaginada” (ANDERSON, 1989). Do ponto de vista do autor, houve também “transformações ideológicas do período em questão” (PAVÃO, 2010, p. 311), haja vista o fato de que as teorias raciais que, até então, condenavam a sociedade brasileira ao fracasso, deram lugar a chamada valorização positiva da miscigenação que, para ele, ocorreu também no aspecto cultural.
A dissertação de Matos (2005) analisa as escolas de samba como um elemento ilustrativo no entendimento da metrópole carioca como espaço vivido e espaço construído. O tema é abordado em uma dimensão geográfica, que objetiva “revelar a construção, a percepção, a interpretação e a representação do sentido de lugar por parte dos sambistas cariocas” (MATOS, 2005, p. 2). Para inserir as escolas de samba numa perspectiva geográfica, a análise é realizada a partir de conceitos de lugar, identidade e Imagem Urbana. Em sua concepção, estudar as escolas de samba a partir de uma investigação “atravessada” pela geografia tem contribuído para interpretar como o homem se apropria dos espaços, com eles se relaciona e deles se utiliza em seu cotidiano. Esses espaços são repletos de significados e de valores (CAPEL, 1981). Matos observa ainda que estudar as identidades espaciais torna-se importante na medida em que a contemporaneidade é marcada pela fragmentação e pela multiculturalidade. Ao tomar as festas carnavalescas como objeto de investigação, Matos justifica que esses eventos são elementos importantes não apenas para unificar mas também para tornar as comunidades mais explícitas. Além disso, é o mecanismo pelo qual pode ser explicado o fenômeno urbano, pois representa os valores e as ações de um determinado grupo. A pesquisa parte da hipótese de que as escolas de samba representam um canal de comunicação entre as comunidades urbanas periféricas e a cidade como um todo.
Diferente de outras pesquisas que privilegiam as escolas de samba do grupo especial, em seu estudo, Matos optou por uma escola pertencente ao grupo de acesso, Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Lucas. Para ele, as escolas consideradas menores “mantêm uma identidade ligada ao referencial de lugar ocupado pela comunidade na metrópole de maneira mais forte” que as escolas do grupo especial, como “mangueirense” e “salgueirense” (MATOS, 2005, p. 75). Essas escolas mais conhecidas do público têm admiradores fora da comunidade de origem e, por isso, incorporam identidades paralelas àquela que é assumida ao representar sua comunidade durante o desfile.
E quando se “batiza” a escola com o nome da comunidade, fica evidente a assunção de uma identidade territorial. Esse enraizamento do ser humano e o seu pertencimento a uma comunidade revelaram-se útil na análise do mundo atual. No caso dos sambistas, percebeu-se que estes não ficam presos ao espaço vivido, mas possuem forte consciência de pertencimento à comunidade de origem e se utilizam desse pertencimento na construção de sua identidade individual e coletiva. A comunidade é a principal referência para um sambista. É também uma estratégia usada por eles para dar mais visibilidades a esses espaços.
Na pesquisa de Poubel (2012), a escola de samba Vila Isabel foi analisada a partir de sua relação com o seu bairro. A pesquisadora investiga as relações sociais criadas na convivência dos indivíduos e grupos durante o ciclo que antecede o carnaval. As atividades desenvolvidas na escola de samba evidenciam uma relação de convivência entre os indivíduos do bairro. O sentimento de pertencimento é usado pela diretoria das escolas com o objetivo de mobilizar seus componentes em prol da agremiação.
Isto é, comunidade acaba sendo uma denominação que engloba a todos que se sentirem participantes. As pessoas de uma mesma localidade têm na escola de samba o estabelecimento de discursos e práticas em comum, e pertencer a uma mesma escola de samba influencia e dá significados compartilhados pelas pessoas envolvidas. O gosto pelo carnaval e pelo samba, o gosto pelos bares e pela feijoada, e os laços de vizinhança instauram redes de relações ancoradas numa presença constante em um determinado espaço. Surgem assim, relações de sociabilidade criadas a partir de pertencimento comum (POUBEL, 2012, p. 7).
No decorrer da investigação, Poubel observou que a necessidade de desenvolver o sentimento de pertencimento dentro da comunidade é uma preocupação dos responsáveis pela escola de samba.
Há, na escola de samba de Vila Isabel, um vínculo entre o bairro e essa agremiação, bem diferente do que ocorre em outros bairros e as escolas de samba locais, que foram responsáveis pela construção da tradição relacionada ao bairro. Em Vila Isabel, mesmo antes do surgimento da escola de samba, já existia uma identidade musical referente ao samba, marcada, principalmente, pelo compositor Noel Rosa. Sendo assim, a escola de samba incorporou símbolos e significados já existentes na construção de narrativas sobre o bairro, adquirindo uma relação privilegiada com a comunidade. A pesquisadora observou ainda que
[...] os moradores de uma mesma localidade têm na escola de samba uma referência para a construção de identidades sociais, estabelecendo discursos e práticas em comum. O fato de pertencer a uma escola de samba de determinado bairro cria relações entre as pessoas, atuando na construção de identidades e representações sociais que orientam as práticas dos moradores dessas localidades e, muitas vezes, constroem- se através da escola de samba, relações que distinguem o próprio bairro do contexto mais amplo da cidade (POUBEL, 2012, p. 12).
Após observações participativas realizadas durante a preparação do carnaval da escola de samba de Vila Isabel, Poubel percebeu um grande interesse por parte da diretoria da escola em construir um sentido de “comunidade” visando ao alcance de ganhos para a entidade. Aliás, já até se configura explicitamente uma troca de interesses entre a comunidade e a escola: doam-se fantasias e se exige um bom desempenho durante o desfile do carnaval. Assim, “o conceito de comunidade é aqui forjado visando à obtenção de ganhos para a escola” (POUBEL, 2012, p. 73). Na visão da pesquisadora, porém, isso não significa a inexistência de uma comunidade em Vila Isabel. Durante as entrevistas em locais e em momentos diversos, ela constatou “o uso, a repetição e a reafirmação dos símbolos pertencentes ao bairro como uma característica compartilhada pelos moradores do bairro” (POUBEL, 2012, p. 97). Além disso, notou que ora o sentimento é de pertencimento à escola de samba, ora ao bairro; em certos casos, a ambos. Identidade e escolas de samba também são temas da dissertação de Santos (2013). Essa pesquisadora estudou os processos de construção identitária das escolas de samba de São Paulo a fim de verificar como esse sentimento contribui para motivar o
engajamento dos sujeitos em atividades não remuneradas dentro das agremiações. As escolas de samba constituem-se em um importante instrumento de manutenção da cultura dos negros no Brasil. Mesmo no século XXI, as escolas de samba de São Paulo ainda carregam muito preconceito contra os descendentes de escravos e suas respectivas manifestações culturais. A ascensão das escolas de samba contribuiu para a propagação dos valores, da cultura e dos costumes afrodescendentes. Por sua vez, também foram esses elementos da cultura negra que fizeram das escolas de samba uma manifestação autêntica
Nos relatos das entrevistas realizadas, ela registrou que um dos costumes herdados da cultura negra foi o de se doar para a tribo ou comunidade. Atualmente, a cor da pele não é mais levada em consideração, pois o sentimento de união tornou-se um dos elementos mais importantes para o engajamento dos sujeitos nas escolas de samba. Apesar do reconhecimento das escolas de samba como símbolo cultural nacional, esses sujeitos relataram que existem vários fatores contrários, pois ainda estão às margens da sociedade. Para esses sujeitos, fazer parte de uma comunidade do samba equivale “à valorização na sociedade paulista” (SANTOS, 2013, p. 105). Além disso, contribuiu para a elevação de sua autoestima e para uma nova forma de olhar o mundo.