4 Physiopathologie
4.2 Risque thrombotique
No final do ano 2007, o Grupo Finos Trapos foi contemplado com o edital Prêmio Carlos Petrovich, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), para desenvolver o projeto “Auto da Gamela – Temporada 2008”. A ocasião de levar a cabo as atividades deste projeto determinaria, mais tarde, no grupo as decisões do grupo em montar seu quinto espetáculo de repertório. Tal projeto, elaborado pela Finos, dizia respeito a um conjunto de ações que foram realizadas na cidade originária do grupo, Vitória da Conquista, e tinha três grandes frentes de trabalho, a saber: a realização de uma temporada do espetáculo “Auto da Gamela”; a organização de duas mesas redondas para discutir o teatro conquistense (atividade inédita em Conquista); e o oferecimento gratuito de uma oficina de teatro, durante pouco mais de um mês, com a mostra pública de um resultado cênico. Dentre todas as atividades desenvolvidas entre dezembro e fevereiro no projeto, foi a experiência da Finos com o “Oficinão Finos Trapos” que trabalhou, sobremaneira, o imaginário do grupo para montar o espetáculo “Gennesius...”.
A oficina, oferecida gratuitamente a 30 (trinta) jovens iniciantes em teatro na cidade, teve como proposta fundamental sociabilizar o modo como a Finos “funciona”, tanto do ponto de vista administrativo, quanto no que se refere ao modo como o coletivo cria seus espetáculos colaborativamente. Durante a oficina, a turma, formada eminentemente por jovens iniciantes de teatro, teve aulas diversas, ministradas por todos os membros do grupo – aulas de interpretação, produção, teorias de criação – com fins a culminar numa vivência, na qual, colaborativamente criaram um resultado cênico. A criação deste resultado, com o envolvimento de todos os membros da Finos desempenhando funções diversas, foi dirigida por mim, e intitulava-se: “Escravos de Jô – Fragmentos de um Discurso”.
A empatia da Finos com a turma foi tão intensa e sensível, que a pretensão de vivenciar apenas um procedimento pedagógico, no qual o grupo sociabilizaria seu modus operandi, resultou numa experiência terna, doce, delicada entre todos e determinante no trajeto do grupo.
A primeira semana de trabalho na oficina foi destinada às aulas e aos treinamentos. A partir da segunda semana, a dramaturgia da sala de ensaio começou a ser aplicada. No levantamento dos experimentos planejados, das improvisações, criados pela turma da oficina, era recorrente, em grande parte dos fragmentos expressivos, as discussões sobre: o fazer teatral na cidade, a hostilidade do município para com o artista da região e o desprestígio relegado ao teatro local. Soava, na maioria do material cênico expressivo levantado, a
questão: “o que é, e o que produz o teatro conquistense?”. Quando, como encenador deste resultado cênico, identifiquei estes grandes temas como recorrentes, propus à turma que os conceitos estruturantes da mostra fossem: a) criação – inquietações do artista cênico em processo de montagem; b) marginalização – o desprestígio social do teatro feito na cidade; e c) identidade – especulações sobre a identidade do teatro local. Como o tempo era curto, a turma, junto à Finos, decidiu optar por apenas um dos conceitos, o primeiro deles (conceito “a”). Decisão ponderada.
Imagem 6: Fotografia do resultado cênico do “Oficinão Finos Trapos”, “Escravos de Jó”, dia 09 de fevereiro de 2008, no Teatro Municipal Carlos Jehovah, em Vitória da Conquista.
De mais a mais, não preciso delongar-me na descrição pormenorizada sobre a delicada experiência do “Oficinão Finos Trapos”. O que, realmente interessa no relato desta atividade do grupo é o fato de que essa experiência gerou, na Finos, duas impressões que, sem dúvida, foram determinantes nas decisões para a montagem do quinto espetáculo de repertório. São elas: a alta importância da sistematização pedagógica do processo de criação, que o grupo precisou empreender, com vistas a alcançar os objetivos didáticos da oficina, e que fortaleceu o próprio coletivo, reafirmando a maneira com que a Finos gere seus procedimentos criativos; e a sensibilização gerada nos artistas do grupo por conceitos que apareceram como recorrentes nas improvisações de jovens que estão iniciando sua trajetória com teatro na cidade: criação, marginalização e identidade.
No dia 08 de março de 2008, a Finos se reuniu para avaliar coletivamente os saldos do projeto “Auto da Gamela – Temporada 2008”, realizado em Vitória da Conquista. Foi unânime: por mais que o grupo quisesse direcionar o discurso para a análise da temporada ou
das mesas redondas, a discussão sempre recaía na experiência com a oficina e a mostra que dela resultou. A Finos havia sido fisgada pela experiência.
O grupo estava se preparando para voltar à sala de ensaio naquele mês. Com o fim de concluir o meu mestrado, de natureza teórico-prático, eu havia proposto ao grupo fazer da experiência de montagem do quinto espetáculo o meu objeto de estudo e investigação. A proposta inicial consistiu em montar um projeto antigo da Finos, o “São Miguel Arcanjo”. Na reunião de 08 de março de 2008, porém, tudo mudou. Senti imediatamente, enquanto encenador do grupo, no andamento da reunião de avaliação, que a Finos precisava se propor uma vez mais a questão: “o que queremos dizer com nosso teatro no próximo espetáculo?”. E para mim a resposta estava evidente nos depoimentos apaixonados de cada artista do grupo, ao descrever a vivência com a oficina: o ponto de partida seria a sensível experiência com a oficina desenvolvida pelo grupo em Vitória da Conquista, como exponho no diário de bordo da montagem:
No apartamento de Francisco e Polis, a Finos Trapos se reuniu para avaliar o segundo semestre de 2007, a experiência do projeto “Auto da Gamela – Temporada 2008” e construir perspectivas para 2008. A reunião começou com um tom informal, todos conversando de maneira muito entusiasmada sobre o semestre que passou. Foi inevitável que o tema de maior debate fosse o “Oficinão Finos Trapos”, tanto pela organização como pelo arrebatamento que foi a investidura pedagógica a que a Finos se propôs neste retorno de dois meses a Vitória da Conquista. Ademais, foi unânime o apreço do grupo pela mostra do “Oficinão” – “Escravos de Jô” – que tinha como temática falar sobre o fazer teatral e a marginalização do artista de teatro. O entusiasmo foi tanto, ao tratar da mostra, que expus meu desejo de fazer com que o resultado do “Oficinão”, seus conceitos, seus temas, fosse nosso ponto de partida para o próximo espetáculo. Todos concordaram excitadíssimos. Definimos o tema central do nosso espetáculo: de um lado, o fazer teatral e o que ele implica, inspirados no “Oficinão”, de outro lado a identidade nordestina – um cruzamento temático que não pudemos desenvolver na ocasião da oficina.
(Registro do diário de montagem do espetáculo “Gennesius...”, tomo I, dia 08 de março de 2008)
Nessa primeira reunião, a Finos havia chegado a um acordo comum acerca de quais seriam os conceitos motores e geradores do quinto espetáculo de repertório: a) Criação – inquietações do fazer teatral; b) Identidade – noções identitárias sobre a região nordeste do Brasil, sua relação com a identidade teatral que tal discurso cria e produz, e o discurso identitário que o próprio grupo vem encerrando em seus espetáculos de repertório. Neste início do processo, não houve necessidade nem preocupação mais direta em estabelecer o conceito de abordagem, o conceito da forma, na abordagem do tema, uma vez, afinal de contas, ele só seria, de fato, útil e necessário quando o grupo fosse verdadeiramente para a
prática, para a sala de ensaio, ou seja, após o término da primeira etapa da dramaturgia da sala de ensaio – que se refere ao levantamento de referências diversas..
Em suma, era chegada a hora de o Grupo Finos Trapos voltar ao trabalho expressivo de composição. Com a criação de “Gennesius...”, o grupo compôs seu quinto espetáculo de repertório, oportunidade em que eu, como encenador/pesquisador, apliquei a abordagem metodológica da dramaturgia da sala de ensaio. De antemão, anunciava-se um processo de criação prenhe de transbordamento e vigor investigativo.