Foto 17 – Flávia Gaudêncio construindo espaço imaginário. Foto: Alessandra Nohvais, 2013.
A primeira experimentação neste fluxo, que intitulei Chegando à Brincadeira, surgiu através das minhas lembranças e memórias das sensações que tive ao ver, pessoalmente, a brincadeira do Cavalo Marinho pela primeira vez82.
Criar o experimento através de improvisação deste momento foi um meio sensível de comunicar, resignificar, refletir e expressar o que há de memória no meu corpo diante de uma determinada ocasião muito significativa para mim. A minha intenção era “despertar a memória, não lembranças reprimidas, mas a memória ontológica liberando uma potência de vida de uma força quase infinita” (FERRACINI, 2006, p. 202).
Revisitar, em sala de ensaio, a memória de momentos vividos foi essencial para a criação cênica. Foi também através do mergulho nas
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lembranças, experimentando movimentos e entendendo como elas reverberavam em mim, que fui liberando corporalmente tudo que senti, sentia e sinto. Desta forma, a improvisação foi tomando forma e conta do meu corpo.
Algumas memórias da comunidade da Zona da Mata Norte de Pernambuco se misturavam com as memórias vividas na minha infância, como, por exemplo, o cheiro forte da cana-de-açúcar queimada, a sensação do tempo dilatado, a poeira que subia através de um vento forte de meio dia, as estrelas brilhando no céu, a brincadeira no chão de terra.
Em experimentação, a música foi essencial na reconstrução das imagens e sensações revisitadas através do meu corpo. Neste momento, também vieram se fundir memórias de Condado-PE e as minhas mais recentes. Lembrei-me do dia em que conheci um açude desta comunidade. A imagem que tenho deste momento é o rio rodeado de mato refletindo, nas suas águas, as nuvens e o azul do céu iluminado. Senti, na improvisação, a sensação de entrar naquela água gelada, a mesma do município de Ibicoara- BA, local que frequentei recentemente.
Trabalhei com imagens de algumas palavras que me remetia àquele universo (como, por exemplo, noite, vento, poeira, estrela, areia, cavalo), na intenção de perceber como elas se reverberavam no meu corpo. As palavras se transformavam em dinâmicas corporais, através de imagens corporais, sonoras, olfativas, visuais, táteis. Tive o cuidado de fugir dos estereótipos e das soluções fáceis na improvisação, quando se fala da zona canavieira, ou seja, falar de seca, de pobreza, de miséria, de exploração, entre outros.
A improvisação realizada fazia com que o meu corpo reverberasse ações dançadas, já que não existia um roteiro pré-definido, apenas palavras soltas. E eram as sensações que iam surgindo nesta relação, enquanto jogo, em diálogos não verbais. Assim, eu ativava as imagens que ficaram impregnadas no meu corpo, a capacidade de jogo e de invenção.
Através das palavras pré-definidas que me remetiam ao universo desejado, começaram a surgir, como ações principais, reconhecimento de lugares, que se materializavam por meio de uma série de ações físicas. Como por exemplo, o cheiro do local, o tocar o outro, o espaço, os objetos, bater o pé no chão, ver a cana balançando, brincar no chão de terra batida, entre outras.
Visitando as memórias vividas, sentia-me remetida a outro espaço, outro tempo criado por mim, a momentos lúdicos preenchidos de um estado de jogo. Desta forma, o jogo, como potência presente na minha experimentação, está pautado em regras específicas na intenção de gerar a liberdade improvisacional. Ele é a interseção entre tensão e relaxamento, divertimento e seriedade, liberdade e regra, previsível e imprevisível, ordem e desordem.
Na improvisação, o jogo surgia como um acontecimento vivo, um revelar-se, uma potência de geração de sentidos, trazendo o acaso, o fluxo e a ludicidade, através das experiências vividas com fluidez e concentração.
O importante para mim, no momento de improviso, era deixar as palavras se materializarem no meu corpo, sem a intenção de criar personagens. E tudo ia acontecendo sem nada previamente pensado ou definido, como expõe Spolin (2003, p. 18): “A improvisação só pode nascer do encontro e atuação no presente, que está em constante transformação”.
Neste caso, improvisar é jogar articulando vários elementos (corpo, voz, ação, espaço, tempo, público, entre outros) para estabelecer e compor uma experimentação através da experiência. Então, na improvisação a ideia de jogo está intrínseca como forma de organizar e brincar através das memórias. Spolin (2003, p. 341) define improvisação como “jogar um jogo, predispor-se a solucionar um problema sem qualquer preconceito quanto à maneira de solucioná-lo”. Pavis (2008) traz a ideia de jogo dramático como forma de improvisação coletiva, de acordo com um tema anteriormente escolhido.
Assim, na experimentação prática, trabalhando com os elementos do jogo e do improviso, na interface do teatro e do Cavalo Marinho, percebi que me encontrava num entre-lugar, num estado de brincadeira, dentro de uma memória atualizada. Era nesse fluxo, entre memória e corpo, que encontrava o equilíbrio de criação da atriz-brincante, revelado num tempo de jogo.
Nessa experimentação foram construídas ações físicas a partir de estímulos sonoros, de palavras sugeridas por mim e de diversos ritmos no corpo. A ação física, segundo Bonfitto (2006), foi uma expressão empregada, primeiramente, por Stanislavski e que influenciou autores, diretores e coreógrafos do século XX. Burnier (2009, p. 35) considera a ação física como “a menor partícula viva do texto do ator” e afirma que a sequência dessas ações físicas compõe a partitura corporal do artista.
Esse autor ainda identifica que
há de se levar em conta que uma ação física pode ser vista isoladamente, ou como o conjunto de informações que formam o signo global de uma única ação física. […] Neste sentido, uma linha de ações físicas é uma sucessão de signos que serão lidos e interpretados pelos espectadores. […] O signo global, tanto de uma única ação física como de uma linha de ações, é de importância primordial, pois, não se decompondo em sinais, permite penetrar um universo incomparavelmente mais amplo e complexo. (Ibid., p.37)
Assim, ia transformando imagem em ação e ação em imagem, com a minha corporalidade que agia e reagia. Percebia-a com todos os sentidos, materializando-a em uma variação de ritmos, direções, impulsos, formas, níveis. A minha intenção, na criação de ações físicas, era chegar a uma organicidade, manter “viva” cada ação encontrada. Burnier (2009, p. 53) define organicidade da seguinte forma:
a palavra organicidade vem de órgão, relaciona-se com o que é orgânico (de organicus), que diz respeito aos órgãos e aos seres organizados. A organicidade é algo que pede um nível de organização interna extremamente complexo. […] Para se obter uma organicidade em uma ação física, ou em uma sequência de ações físicas, há de se desenvolver um conjunto complexo de ligações e interligações internas à ação ou à sequência das ações.
Na medida em que fui experimentando a criação de ações físicas, fui, aos poucos, conquistando uma espontaneidade orgânica, uma harmonia dentro de um tempo e espaço determinado. O que era dançado pelo corpo, agora era dançado no corpo.
A construção do experimento Chegando à Brincadeira foi preenchida de memórias do vivido, que se transformou em poesia corporal através de releituras, recheadas de imagens, lembranças e sensações. Encarei este momento de experimentação como uma melodia de significados e afetividade. Como diz Barba (1994, p. 119), “a memória é a canção que cantamos para nós mesmos. É a vereda de hieróglifos e perfumes com os quais nos aproximamos de nós mesmos”.