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3 Rˆ ole d’une r´ ef´ erence

3.1 Rˆ ole d’une r´ ef´ erence unique

O conceito de sujeito, constituinte fundamental da teoria da imagem inconsciente do corpo em Françoise Dolto, é uma das pedras angulares do seu edifício teórico-clínico. É o seu princípio organizador e, paradoxalmente, o menos psicanalítico e o menos redutível a uma exposição didáctica de todos os conceitos. Enquanto que a concepção do mundo (Weltans Chauung) para Freud parte, prioritariamente, da teoria das pulsões e do recalcamento, e para Lacan da cadeia de significantes, para Dolto a concepção do mundo arranca do sujeito e, mais precisamente, da encarnação do sujeito, como sujeito de desejo.

O sujeito, em psicanálise, não é o sujeito gramatical, voluntarista ou consciente, mas aquele je (eu) a respeito do qual Dolto diz: Pour parler en psychanalyse, je n’en sais

rien1. Para Françoise Dolto, o sujeito de desejo é o inconsciente e o desconhecido que há em nós, apesar do seu carácter misterioso de fundador do indivíduo2. Para o sujeito doltoniano não há espaço, nem tempo. Aquilo que se manifesta do sujeito é o moi (eu), limitado pela envoltura corporal. Não tem sexo, nem idade. Cada sujeito é individualizado e particularizado pelo seu próprio corpo sexuado, que pode ser desejado pelo outro.

Segundo a concepção doltoniana do sujeito: a nossa alma é o outro. Ninguém pode conhecer a sua própria alma, pois a consciência confusa que temos da mesma, como ponto fulcral do ser, está no outro, sem o qual não seria possível falar nem comunicar3.

O conceito de sujeito4 evoca a dimensão ético-filosófica da imagem inconsciente do corpo em Françoise Dolto e aparece nas suas três obras maiores5, não de maneira sistematizada, mas discretamente através das malhas significantes do discurso.

Santo Agostinho antecipando-se à polémica actual sobre o conceito de sujeito, refere que o mesmo não é algo de espontaneamente constituído, duma vez para sempre, como a persona jurídica do direito romano, mas uma entidade finita em contínua formação sob a influência de forças contraditórias. A sua configuração é o próprio homem como narrador de si mesmo e como intermediário de Deus. O sujeito agostiniano, na primeira pessoa, passa por muitas identidades à procura da verdade6.

O sujeito positivista com estatuto, poderes e limites determinados pelos filósofos clássicos (Descartes, Kant, Hegel, Pascal) não é o sujeito da palavra dos psicanalistas e, menos ainda, o sujeito dos pensadores contemporâneos (Michel Foucault, Deleuze e Derrida), cuja realidade, se dilui nas malhas dos significantes, dos construtos epistémicos ou, simplesmente, ao ritmo significante da narrativa do texto, sob o pretexto de afirmação de si mesmo7.

Um dos pioneiros do questionamento do conceito de sujeito é Wittgenstein que advoga um conceito de sujeito, não no âmbito experimental das ciências, mas como ideia metafísica não susceptível de verificação. Dentro do movimento da filosofia analítica do seu tempo,

1 Françoise Dolto, Les Images, les Mots, le Corps, p. 149.

2 Cf. F. Yannick, Françoise Dolto, p. 68.

3 Françoise Dolto, Les Evangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 108.

4 Do ponto de vista crítico ou reflexivo, o sujeito de conhecimento é o indivíduo que conhece, considerado não

nas suas particularidades individuais, mas enquanto capaz de estabelecer a unidade dos elementos representativos…

5 L’Image Inconsciente du Corps (1984), Le Sentiment de Soi (1997), Les Évangiles et la Foi au Risque de la

Psychanalyse (1996).

6 J. C. Eslin, Saint Augustin, L’Homme Occidental, pp. 35-47. Ver também Saint Augustin, Confessions, pp. 388

e 405-419.

Wittgenstein admite a existência do conhecimento sem sujeito1. Freud tomará uma posição conciliatória entre as múltiplas reformulações do conceito de sujeito na história do pensamento e posicionar-se-á entre as interpretações de sujeito como res externa e concreta e como algo imaterial e transcendental.

Na fase prepsicanalítica da sua carreira científica, Freud explicará o sujeito a partir da matriz orgânica nervosa, implicada em operações neurológicas, pulsionais e simbólicas de autoorganização identitária, cada vez mais complexas. Admitirá um sujeito primordial inconsciente, como uma espécie de autoconhecimento orgânico2. O processo de subjectivação do sujeito far-se-á através de mecanismos de incorporação, presididos pela sensação interior de permanência, continuidade e identidade de si mesmo. Silvana Dalto refere que o objectivo do seu trabalho é encontrar na obra freudiana a génese do sujeito, a partir das suas determinações materiais … isto é, a partir de um organismo que consegue produzir uma organização não idêntica a ele mesmo, mas equivalente e em função do mundo exterior3. Em resumo, Freud dirá que o sujeito não é senão uma função dos processos orgânicos subjacentes e inconscientes, dinamizadores da vida psíquica, o que pressuporá uma compreensão materialista do sujeito e do homem.

Paul Ricœur concebe o sujeito como submerso, inicialmente, numa multidão de memórias e de representações. A função hermenêutica será a sua recuperação na dupla vertente identitária da ipseidade (ipse) e da mesmeidade (idem), apesar da ambivalência da própria linguagem. Efectivamente, a reflexão hermenêutica de Ricœur, para além dos limites empiristas da realidade imediata, atingirá os fundamentos ontológicos do ser do sujeito pela via simbólica da compreensão, na arte de falar e de narrar4.

O sujeito da interpretação já não é o cogito cartesiano, mas um ente que se descobre a si mesmo por meio da exegese da vida. O sujeito ricœuriano constrói-se no contexto de uma história cheia de indicadores e de testemunhas que o orientam para a sua própria compreensão. O que ao princípio é apenas desejo torna-se reflexão pois, segundo Ricœur, não pode haver verdadeira compreensão e autocompreensão sem desconstrução com a respectiva reconstrução, à medida que o sujeito se narra. A dimensão alteridade é parte integrante do sujeito ricœuriano, já que o outro n’est pas un de mes objets de pensée, mais comme moi, un sujet de pensée, ou, le plus court chemin de soi a soi, c’est toujours la pensée d’autre5.

1 Cf. L. Wittgenstein, Tractus Logicophilosophicus, (5.631-6.1203), pp. 115-120.

2

S. Freud, Esquisse d’une Psychologie Scientifique, pp. 307-396.

3 S. Dalto, La Genése du Suget dans la Perspective du Matérialisme Scientifique de Freud, pp. 263-264.

4 Cf. P. Ricœur, Le Conflit des Interprétations, pp. 15-16.

Françoise Dolto não se aventura a definir, in strictu sensu, o conceito de sujeito mas aplica-o e institui-o como pressuposto princeps da sua teoria. Face ao mistério do sujeito, Dolto hesita. Entre o não se pode saber nada sobre o sujeito e o tudo o que sabemos sobre o sujeito é que ele é uma parcela de Deus envolta em carne1, ela faz um longo percurso interior e acaba por contornar, defensivamente, a problemática do sujeito, dizendo: O sujeito não é o eu nem o indivíduo e está muito aquém do cruzamento do espaço com o tempo2. Sente angústia na consideração do sujeito como vazio, segundo Lacan, o que significa um sujeito sem corpo e orienta-se no sentido da palavra, pois mesmo antes da criança poder falar, já é sujeito, graças aos significantes das palavras daqueles que a constituem como sujeito.

Todas as reformulações posteriores do conceito de sujeito, em Françoise Dolto, realizar-se-ão à volta dos significantes verbais, graças à encarnação do próprio sujeito e em referência ao mistério de Deus: Não existe sujeito sem Deus. Se eu existo é porque Deus existe e eu não posso existir sem Deus3. Ou ainda noutra passagem: Não é possível compreender a vida do indivíduo, já desde a concepção, senão como manifestação do desejo do sujeito4.

Para Françoise Dolto se há vida é porque o sujeito aí está: Estou convencida de que o desejo dos pais induz o filho à existência, através da palavra e de que o ser humano já é sujeito de desejo, autónomo, desde a concepção. O seu aparecimento no mundo é a expressão simbólica do sujeito se assumir como ser independente5.

Toda a obra de Françoise Dolto é perspectivada desde o sujeito e orientada para a plenitude simbólica do sujeito. Contudo, o processo de simbolização do sujeito depende de tal modo da estrutura corporal que a maior questão epistemológica de Dolto é saber qual o contributo da corporeidade à subjectividade. O que é que a subjectividade deve à corporeidade? Assim como para Spitz (em quem se inspirou) o paradigma psicanalítico é a relação de objecto, para Dolto o paradigma em psicanálise é a relação de sujeitos. Misteriosamente, Françoise Dolto não se refere ao sujeito como dotado de intencionalidade, à maneira segura e certa dos psicólogos, mas como ponto de articulação do mesmo com a ordem simbólica dos humanos: o sujeito resulta do encontro simbólico de três desejos: o desejo do pai, o desejo da mãe e o desejo do próprio filho6. Se o sujeito existe com plenos

1

Françoise Dolto, Le Cas Dominique, p. 203.

2 Cf. M. H. Ledoux, Dictionnaire Raisonné de l’Oeuvre de F. Dolto, p. 329.

3 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 9.

4

Cf. F. Chebaux, 30 Mots de Françoise Dolto, p. 47.

5 Françoise Dolto, Séminaire de Psychanalyse d’Enfants - 1, p. 163. G. Guillerault comenta a formação da

imagem inconscciente do corpo em F. Dolto, a partir da articulação sujeito – corpo.

direitos, desde a concepção, então é porque já é dotado de alguma actividade simbólica intersubjectiva, incipiente.

Dolto valoriza o momento da encarnação do sujeito, quando o corpo real é assumido pelo sujeito, para colocar a questão das origens, reformulada mitologicamente em termos duplamente fundadores do indivíduo humano e do seu sistema teórico. O desenvolvimento doltoniano do sujeito processar-se-á mais na clave da interacção sujeito – corpo – desejo – palavra – relação, do que segundo o modelo da ontogénese e da psicogénese clássicas. É meu propósito chamar a atenção para vivências que para além das manifestações comuns, só cada qual conhece. Sensibilizar para a escuta do sujeito que fala em nós. Enquanto sujeitos de desejo (je) não podemos relacionar-nos senão a través do eu (moi), a parte mais exterior de nós mesmos… O problema da psicossomática é a articulação do simbólico com o real ou, em termos da imagem inconsciente do corpo, do esquema corporal com o sentimento de si mesmo1.

Françoise Dolto dirá ainda que a última crise do indivíduo será a morte, marcada pela desvinculação do corpo e a consequente libertação do sujeito2. A morte, segundo Dolto, não afectará o sujeito mas a sua corporeidade. Assim como o sujeito preexiste à concepção, nada consta em que desaparecerá com a morte biológica. A mesma tensão desiderante que o levou a encarnar-se também o libertará no momento da morte. O sujeito humano não se conhecerá verdadeiramente a si mesmo, senão na medida em que tomar consciência da sua morte.

Faz parte da nossa condição de castrados nada saber a respeito do destino do sujeito que assumiu, no tempo, o seu próprio corpo e tem uma história específica3. Françoise Dolto interpreta a morte como a cessação de funções do sujeito, a perda da sua matriz corporal com a dissolução da imagem inconsciente do corpo e a libertação do sujeito: será então que o sujeito, libertado dos condicionamentos das imagens ilusórias, se poderá projectar no transcendente4. Só a morte nos poderá libertar das armadilhas criadas pelas mutações perversas nas sucessivas imagens do corpo.

Na sua peregrinação intelectual e espiritual, Dolto distingue o conceito de sujeito (je) subtil, assexuado e transcendental, do conceito de indivíduo (moi), marcado pela finitude corporal e destinado à morte. O indivíduo (moi), espacio-temporal, é sintónico com o mundo exterior e exprime-se, sexualmente, em feminino ou em masculino, enquanto que o sujeito (je), qual palavra viva e subtil, dinamizada pelo desejo, encarna-se na matéria, tornando-se um

1

Françoise Dolto, L’Image Inconsciente du Corps, p. 361.

2 Françoise Dolto, ibidem, p. 162.

3 Françoise Dolto, Séminaire de Psychanalyse d’Enfants - 1, pp. 162-163.

vivente humano. O eu (moi), na sua envoltura carnal, desaparecerá definitivamente com o corpo, enquanto que o sujeito (je), depois de ter deixado a sua morada corporal provisória, permanecerá.

Nascidos como sujeitos de desejo de pais desiderantes, o sujeito, segundo Dolto, é silencioso, operador de linguagens (linguagem corporal e linguagem verbal) e detentor de sentidos enquanto que o sujeito, segundo Lacan, apesar de subtil e de atemporal não é transcendente, pois inscreve-se, imanentemente, na cadeia de significantes dos humanos. O sujeito lacaniano não é designável, nem localizável fora do acto de significar1. Ao introduzir o conceito de sujeito, Dolto pretende reformular, psicanaliticamente, a vida dos humanos desde os primórdios pré-edipianos, numa altura em que o bebé humano ainda não pode falar nem reflectir sobre si mesmo.

Lacan demarcar-se-á, também, de Dolto pela sua concepção de o outro, desprovido de corporeidade e de temporalidade, inserido na clave imaginária da cadeia de significantes. Para Françoise Dolto, pelo contrário, o outro existirá como sujeito de desejo, encarnado no mundo e protagonizado na história, vocacionado corporalmente para outras realidades simbólicas. Como sujeito de desejo e de palavra, o ser humano não cessará de interrogar-se: où est ce par quoi j’aurai l’être?2

Françoise Dolto interessar-se-á, enfim, pelas fases freudianas mais arcaicas da vida da criança, numa altura em que as instâncias da personalidade ainda não estão suficientemente estabelecidas. Daí as suas denominações originais de pré-eu e de pré-supereu que não correspondem apenas a uma anterioridade temporal, mas à realidade antecipatória que anunciam. Apresentam-se articuladas, entre si, como matrizes psicológicas da imagem inconsciente do corpo3.