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2 Description de la gamme 2.1D´emarche g´en´erale

3.3 R´ esultats du transfert

O Logos opera como dador de sentido das interacções verbais, conscientes e inconscientes, dos humanos. O mecanismo universal e paradigmático, subjacente à comunicação verbal humana, é a transferência (transfert). Nas suas primeiras reformulações da transferência, Freud não fala de transfert mas de expectativa e, mais exactamente, de expectativa confiante (glaubige Erwartung).

Num artigo de 1890 de divulgação popular, Le Traitement Psychique2, Freud sublinha a influência da vida psíquica no corpo, que pode mobilizar energias psíquicas imprevisíveis. Freud distingue duas formas de expectativa: a expectativa ansiosa (angstliche Erwartung) que pode dar origem a situações patológicas e a expectativa confiante que induz forças benéficas capazes de operar curas milagrosas. No mesmo texto de 1890, Freud refere que o maior obstáculo ao processo da cura é o autocratismo (Selbstherrlichkeit) das personalidades psíquicas, isto é, a auto-suficiência que não espera nada de ninguém.

Em 1924 Freud retomará o conceito de autocratismo, no contexto clínico da psicose e da neurose, para dizer que: o psicótico empreende uma via mais autocrática3. No mesmo escrito Freud evocará a questão da hipnose para sublinhar a influência do hipnotizador na persuasão do sujeito.

1 Françoise Dolto, La Difficulté de Vivre, p. 37.

2 S. Freud, Le Traitement Psychique - I, Résultats, Idées, Problèmes, pp. 231-268.

Nos Études sur l’Hystérie de 1895, Freud, depois de reconhecer uma certa disposição neurótica dos indivíduos para a transferência, dirá que o histérico sofre principalmente de reminiscências1. Efectivamente, a transferência exprime o sofrimento de representações passadas e de fragmentos duma história não suficientemente elaborada nem conscientemente revivida. Com a famosa carta a Fliess, de 6 de Dezembro de 1896, Freud dará um passo importante na reformulação da transferência: O ataque histérico (isto é, o transfert) não é uma simples descarga, mas uma acção, motivo de prazer2. A transferência implica, pois, uma deslocação temporal de eventos passados, vividos no presente, de maneira intemporal.

Freud prossegue as suas reflexões, sobre a transferência, em vários artigos técnicos. Em 1912, na Dynamique du Transfert, Freud escreve: a transferência cria situações dificilmente concebíveis na vida real3, o que implica o reconhecimento da diferença entre a análise e a vida quotidiana. Nos Conseils aux Médecins, de 1913, juntamente com a regra fundamental de deixar fluir os pensamentos, Freud aconselha os médicos a deixarem-se surpreender por tudo o que é inesperado4.

A transferência, como a crença e a paixão, precede os objectos que irão ser investidos. Não é o analista que cria a transferência, mas os eventos e os acontecimentos passados, que desejamos reviver, e que nos ajudarão a eleger e a investir os nossos objectos.

A partir de 1920, com a introdução da compulsão de repetição5, inerente à própria vida psíquica, Freud admitirá a possibilidade da transferência se manifestar não só sob o efeito das forças neuróticas, mas também sob a acção da vida psíquica normal. Neste sentido, a transferência dos neuróticos não seria senão um movimento pulsional exagerado, espécie de concentração de energias libidinais, sob a forma clínica e psicanalítica de neurose de transferência. Paradoxalmente, a transferência será o fenómeno de maior resistência e de maior dinamização curativa da vida psíquica do sujeito6.

S. Resnik dirá que a transferência é o conceito mais clínico e fenomenológico de Freud, capaz de mobilizar sentimentos, afectos e representações mentais do passado para o presente. Contudo, se o tempo, no sentido husserliano, é presença, e se a história pessoal é memória, então a transferência, no contexto relacional, é revelação de realidades ocultas. É evidente que o recalcado, o deslocado e o projectado fazem parte da bagagem pessoal de cada

1 Cf. S. Freud, Études sur l’Hystérie.

2

S. Freud, Lettre nº52, décembre - 1896, Naissance de la Psychanalyse, p. 159.

3 S. Freud, La Dynamique du Transfert, pp. 56-57.

4 S. Freud, Conseils aux Médecins, p. 65.

5

Freud evocará o fenómeno da rememorização como antídoto da repetição compulsiva, na medida em que reviver e recordar tem efeitos terapêuticos na vida afectiva do sujeito. In S. Freud, La Prédisposition à la Névrose Obsessionnelle, pp. 606-610.

um, pois o ser do homem é portador de histórias, mesmo que as mesmas se deneguem: Não tenho nada para contar. Transferir alguma ideia, alguma fantasia ou algum evento é dizer algo de si mesmo o que significa narrar-se e, por conseguinte, correr um risco1.

O outro relacional da transferência dos meus afectos não é um espelho capaz de reflectir, exactamente, as minhas ideias mas um retroprojector vivo que as reflecte, inconscientemente, à sua maneira e como suas, depois de as ter interiorizado na sua história pessoal.

À maneira duma regressão fantasiada, a transferência é o retorno imaginário e ritualizado ao passado, pela necessidade do paciente neurótico se defender do presente intolerável. A transferência, no quadro clínico da psicanálise, adquire a forma de sintoma e torna-se um foco misterioso de resistências, onde o recalcado e o denegado são susceptíveis de se revelarem, sob o efeito dinâmico das palavras significantes2.

Françoise Dolto coloca a cura psicanalítica do sujeito na clave do desejo, o qual se exprime verbalmente e se transfere simbolicamente para a pessoa do outro, o analista. O processo de simbolização das fantasias e dos sentimentos arcaicos na relação transferencial, de sujeito para sujeito, já é em si mesmo terapêutico. A originalidade transferencial de Dolto consiste na disponibilidade do terapeuta em acolher, em si, as manifestações corporais e não corporais do sujeito, dificilmente descodificáveis verbalmente, e reformulá-las segundo o seu desejo mais profundo. À medida que o trabalho interior de simbolização das vivências arcaicas progride, diminui o risco exterior de traumatização3.

No contexto temático transferencial, constatamos uma certa analogia de significantes entre a arqueologia do sujeito infans em Dolto, nos primórdios pré-edipianos da vida, a zona de criatividade de Balint, onde o sujeito sem objectos relacionais se inspira em si mesmo, e os objectos transicionais de Winnicott, numa área ilusória e intermediária exterior – interior da vida psíquica. Ainda que por vias e com modelos diferentes, o denominador comum dos três autores é a capacidade precoce do ser humano resolver, criativamente, os seus conflitos4.

O modelo doltoniano de transferência implica a aceitação do analisando, como sujeito de desejo, e a fé no ser humano como capaz de simbolizar e de dar sentido à sua existência na

1 Cf. S. Resnik, Transfert Infantile, p. 16.

2

Cf. M. Benassy, Le Moi et les Mécanismes de Défense, pp. 285.

3 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 237.

4 Cf. M. Balint, Le Défaut Fondamental, p. 37 e M. Davis, D. Walbridge, Winnicott, Introduction à son Oeuvre,

p. 60.

L. N. Arzel refere que o conceito de imagem inconsciente do corpo de F. Dolto, pelo seu carácter dialéctico e dinâmico com sucessivos reajustamentos pulsionais, já é em si mesmo transferencial. In L’Image Inconsciente du Corps, L’Invention d’un Espace Transférenciel et Résolutif, p. 480.

relação com o outro. Testemunha atenta e perseverante, o psicanalista, sob a acção das projecções do analisando, disponibiliza-se a acolher, mediatizar e decifrar as suas vivências pessoais. A ressonância afectiva do analista é fundamental no movimento transferencial da relação interpessoal.

Françoise Dolto valoriza a vivência corporal do analista, como espaço de consolidação transferencial entre sujeitos de desejo. No processo tranferencial da cura, o analista não é um simples observador, pois com o seu imaginário e fazendo-se eco da sua própria imagem do corpo perelabora, inconsciente e conscientemente, as permutas afectivas entre ambos os sujeitos da relação. Do ponto de vista transferencial, uma psicanálise é um trabalho associativo efectuado a dois, onde cada qual se implica e onde a função principal do analista é despertar o analisando para que veja à luz da sua própria luz1. Na situação clínica da cura, o fio condutor da transferência, entre sujeitos de desejo, é a palavra, pois é a palavra que insere o sujeito na nova ordem simbólica dos humanos. Cada indivíduo tem a sua palavra, cada corpo tem a sua narrativa própria, que variam segundo a veracidade da história pessoal de cada um2.

Para Dolto, a palavra na relação transferencial só simbolizará e efectuará o que significa, se o sujeito falar a verdade (parler vrai). É evidente que se pode falar sem nada se dizer e, pior ainda, sem nada se significar. Falar a verdade é utilizar as palavras justas e apropriadas, segundo a veracidade e não segundo o imaginário de cada um. Falar a verdade é delimitar uma situação já vivida, corporalmente, e explicitá-la, significativamente, em ordem ao futuro. Já todas as palavras nos foram ditas, mesmo antes de as podermos compreender, o que significa que falar a verdade é incitar o sujeito a associar as palavras já ouvidas às experiências vividas3.

1.3.2. O Logos compreensivo

Dotada de uma sensibilidade especial para escutar com os ouvidos, com os olhos e com o coração, Françoise Dolto instituiu, como matriz significante da sua teoria, o princípio universal do tout est Langage, onde a palavra se revela4:

1

Cf. M. H. Ledoux, Dictionnaire Raisonné de l’Oeuvre de F. Dolto, p. 342.

2 Cf. C. Schauder, Transmission de la Névrose et Image Inconsciente du Corps…, pp. 70-73.

3 Françoise Dolto, La Difficulté de Vivre, pp. 37-39.

• Sob o paradigma da vida (A); • Sob o paradigma do sentido (B).