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A psicanálise é, por natureza, uma ciência hermenêutica dos símbolos humanos, mediante a interacção dialéctica e discursiva da teoria com a prática2. Constataremos este nosso pressuposto, a nível da metapsicologia geral (1.1.1.) e a nível da metapsicologia especial (1.1.2.) à luz dos contributos conceptuais de Françoise Dolto à psicanálise.

1.1.1. Conceitos metapsicológicos gerais3

Freud, ao elaborar o seu sistema de pensamento, reconheceu a contingência de algumas das suas reformulações teóricas interferirem na observação dos fenómenos: Infelizmente, raramente se é imparcial quando se trata das últimas realidades ou dos grandes problemas da ciência e da vida. Eu penso que, então, cada um de nós estará sob a influência de preferências profundamente enraizadas4.

Sirva-nos de exemplo l’Avenir d’une Illusion onde Freud, devido a uma visão excessivamente personalizada da religião, reduziu a mesma a um conjunto de mecanismos obsessivos, deixando transparecer, facilmente, a sua própria conflituosidade com a autoridade do pai. O maior contributo de Françoise Dolto à psicanálise insere-se numa versão mais alargada dos estádios libidinais de Freud até aos primórdios préedipianos da vida psíquica.

1 J. Claude Liaudet, Dolto Expliquée aux Parents, p. 24.

2 A psicanálise é uma ciência da alteridade. Não no sentido do outro exterior, mas enquanto confrontação com

tudo o que há de oposto e de diferente dentro de nós.

3 Inspirámo-nos, particularmente, na obra colectiva de A. Haynal, P. Roazen, E. Falzeder, Dans les Secrets de la

Psychanalyse, pp. 45-53.

Ao reformular o tempo do desenvolvimento psicoafectivo e libidinal, na clave da sua teoria da imagem inconsciente do corpo, Françoise Dolto ampliou, consideravelmente, até aos limites da arqueologia do sujeito, nas origens da linguagem e da psicose1, o espaço psíquico do ser humano. No modelo psicanalítico de Françoise Dolto dá-se uma deslocação sensível do centro de interesse da teoria objectal-libidinal freudiana, para o paradigma das interacções sujeito a sujeito. Efectivamente, segundo Dolto, o bebé humano, desde a sua concepção, é um sujeito de desejo, inserido na ordem simbólica das palavras com os outros e, por conseguinte, capaz de reagir a tudo o que se diz e pensa a seu respeito. Não é que Françoise Dolto desvalorize o conceito de libido, mas enquadra-o na clave relacional de sujeitos que se falam2. Neste sentido, enquanto que a castração, para Freud, incide sobre um determinado momento (fálico) da história libidinal do indivíduo, para Françoise Dolto a castração simboligénia abarca o espectro completo das fases libidinais, desde a concepção até ao complexo de édipo. A operacionalidade dinâmica do conceito Doltoniano de castração simboligénia permitirá consubstanciar, numa única conceptualização psíquica, a identidade do sujeito com os conceitos de corpo – sujeito – desejo – palavra – simbolização, sob o nome original de imagem inconsciente do corpo3.

Face à conflituosidade inevitável do desenvolvimento psicoafectivo, o sujeito, segundo Dolto, é susceptível de regredir, não em termos de relação de objecto como preconiza Freud, mas em função dos níveis de intersubjectividade atingidos.

Regredir, segundo Dolto, significa a instalação provisória do sujeito em modus vivendi passados e sob a égide de imagens inconscientes do corpo arcaicas, mas sempre com a possibilidade e na expectativa de recuperação para níveis de ser e de sentir gratificantes e superiores4.

Um dos pontos mais sensíveis na confrontação de Freud com a teoria da imagem inconsciente do corpo em Françoise Dolto é o conceito de inconsciente, reformulado pelos dois autores com linguagens e com metodologias diferentes, mas sob o mesmo paradigma universal freudiano5.

1 Cf. O. Grignon, L’Apport de Françoise Dolto dans la Psychanalyse, pp. 13-37.

2 Cf. W. Barral, Le Corps et la parole : la Régression dans l’Image du Corps, pp. 467-480.

3 Freud reformulou os conceitos de corpo e de espírito de maneira vincadamente clivada: a afectividade, por um

lado, e a representação mental por outro. In G. Guillerault, L’Image du Corps selon F. Dolto, p. 55. 4

Françoise Dolto, Le Sentiment de soi, p.286. Os artigos de Françoise Dolto relativos à regressão são sobretudo: Les Cas Cliniques de Régression (Évolution Psychiatrique, III, 1957), À La Recherche du dynamisme des Images du Corps e de leur Investissement Symbolique… (Psychiatrie, III, 1957), reunidos num único volume Le Sentiment de Soi, (1997). Ver também o artigo Personologie et Image du Corps (Rev. Psychanalyse - 1961), publicado em Au Jeu du Désir (1988).

5 Cf. F. Marone, Suggestions D’Inconscient: Freud, l’Hypnose et le Problème du Corps et de l’Esprit,

Neste aspecto, a imagem inconsciente do corpo em Dolto corresponderá a uma reelaboração do inconsciente de Freud na matriz biológica do sujeito de desejo. De tal modo que a imagem inconsciente do corpo estaria para o corpus teórico de Françoise Dolto, como o inconsciente de Freud estaria para a teoria clássica psicanalítica1. Há qualquer coisa de misterioso que escapa irremediavelmente ao ser do sujeito2, que Freud apreendeu na transversalidade das pulsões, Lacan na dimensão do objecto perdido e Françoise Dolto na trajectória do desejo3. A imagem inconsciente do corpo seria a própria emanência do inconsciente pressionando desde as camadas mais profundas da corporeidade libidinal do sujeito.

Dolto posicionar-se-ia, topicamente, não apenas a nível carnal e pulsional, mas a nível relacional sob a forma de sentimento de si mesmo4. Quer se trate de algo sob a acção do recalcamento (Freud), de alguma coisa estruturada como uma linguagem (Lacan), o inconsciente humano pressupõe sempre um conjunto de dinamismos inacessíveis à razão, que Dolto apreendeu e reformulou, antropomorficamente, como o desejo do sujeito em tensão para o outro. Como diz Lacan, o desejo do homem é o desejo do outro.

Ao elaborar a sua teoria, Françoise Dolto fá-lo para uma melhor compreensão do estatuto do inconsciente no corpus psicanalítico, pois em vez de se manter fiel à trajectória pulsional de Freud, Françoise Dolto empreendeu o seu próprio itinerário, inserindo a pulsionalidade do sujeito na clave da ordem relacional dos sujeitos: Foi Freud que me incitou a criar o conceito de imagem inconsciente do corpo, para melhor compreender a vida psíquica nas origens da linguagem e da psicose5.

1.1.2. Conceitos metapsicológicos especiais

Dentro do movimento intelectual do retour à Freud do seu tempo, nos anos 1953 a 1964, Françoise Dolto, para a elaboração da sua teoria da imagem inconsciente do corpo, embora mantendo-se fiel ao espírito e à doutrina de Freud, reformulou, originalmente, alguns dos conceitos fundamentais da psicanálise, tais como, o narcisismo, as pulsões de vida e as pulsões de morte e a castração. Trata-se de conceitos clássicos da psicanálise, trabalhados à

1 Cf. G. Guillerault, L’Image du Corps Selon Françoise Dolto…, pp. 165-168.

2 Françoise Dolto, Solitude, p. 511.

3

Cf. J. Claude Razavet, De Freud a Lacan, p. 15.

4 Cf. J. D. Nasio, Comment un Psychanalyste que Travaille avec le Concept d’Image Inconsciente du Corps

Ecoute-t-il son Patient ?, pp. 406-407.

sua maneira, como significantes constituintes da imagem inconsciente do corpo: A releitura radical dos textos de Freud, na sua linguagem original e em confrontação crítica com as ideias e a prática clínica da actualidade, tornou-se um verdadeiro regresso às origens da psicanálise1.