2 Pr´ eambule 2.1Notations
4.2 Cas particuliers
No seu livro Solitude3, sob as misteriosas personagens Le Mainate e La Praticienne, Françoise Dolto estabeleceu, consigo mesma, o seguinte diálogo interior:
• La Mainate – Sempre que se atingem os limites dos teus pensamentos psicanalíticos, encontra-se sempre qualquer coisa que não é do domínio da psicanálise.
• La Praticienne – É sempre o sujeito, com o seu desejo, que se manifesta já antes de se tornar visível para o outro. Durante os primeiros momentos da existência ninguém duvida de que já há um ser em evolução com o seu desejo em estado puro.
1 Françoise Dolto, Au Jeu du Désir, pp. 64 e 294. Referimos o já agora mas ainda não bíblico (2 Pe 3, 13 e
Ap 21, 1). Segundo F. Dolto, o hospitalismo de Spitz resulta da hipervalorização do corpo à custa do desinvestimento do desejo.
2 Françoise Dolto, Le Sentiment De Soi, p. 246.
• La Mainate – Uma espécie de ovo primordial, em gérmen, como uma semente espiritual que se encarna.
• La Praticienne – E porque não afirmar que é Deus que se encarna em cada ser humano?
Françoise Dolto interpela e é interpelada pela psicanálise para além de certos limites: a psicanálise não explica tudo, pois detém-se, necessariamente, nos limites da compreensão do ser humano. O sujeito, ao ser impelido para ir mais longe, coloca à psicanálise a questão do sentido e do contra-sentido da vida1.
Encontramos uma certa afinidade de sentimentos e de ideias entre a Solitude de Dolto e a La Capacité d’être seul de Winnicott2. Um e outro são o testemunho de alguém que atingiu o limiar da maturidade humana, através do longo percurso da existência: sob a forma do medo de ficar só, da angústia de ser abandonado, da solidão do desencanto amoroso ou da expectativa da morte.
No âmbito da criação artística, como no da própria existência, quem não se sentiu já alguma vez movido a dialogar consigo mesmo, testemunha da própria solidão? Eis a questão de fundo de ambos os autores. Acontecimentos da minha vida privada como a idade, as leituras, as minhas perdas e até o encontro com o amigo chinês, que me iniciou na mística do Chi Chun, fizeram-me ressurgir para novas realidades3.
Françoise Dolto, na Solitude deixa transparecer a consciência do risco que se corre quando alguém se aventura pelos sendeiros do desejo: É sempre um risco aventurar-se a desejar, sobretudo quando se conhecem os limites da própria liberdade4. Dolto pressente que, para além de certos limites, há sempre qualquer coisa que, sem ser do âmbito do gozo, do desejo ou das satisfações imediatas, se apresenta sob a forma ansiogénica de apetência pelo infinito5. Alain Didier interpreta a Solitude de Dolto como uma necessidade da autora se demarcar das amarras do corpo e projectar-se em dimensões desconhecidas6.
Na interface do Solitude com La Capacité d’être Seul, há o desejo segundo Winnicott e segundo Dolto que, uma vez relançados pelas vias da criatividade, proporcionará ao sujeito novas possibilidades de ser e de comunicar. Como Winnicott, também Dolto, ao evocar os
1 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 223.
2 D. W. Winnicott, De la Pédiatrie à la Psychanalyse, pp. 205-214.
3
Françoise Dolto, Solitude, p. 9.
4 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 288.
5 Françoise Dolto, ibidem, p. 289.
acontecimentos da sua infância1, revive e torna presente algum ser misterioso que a sustentou, interiormente, durante a sua vida: Todos nos sentimos seduzidos e reconfortados por presenças interiores que nos proporcionam paz e fazem ecoar todo o nosso ser2. Tanto para Winnicott como para Dolto, trata-se de uma espécie de bons objectos interiorizados, na presença dos quais é possível permanecer só3.
A vida de Françoise Dolto está repleta de descontinuidades, de perdas e de separações que vão surgindo no seu espírito, já desde menina, e que implicarão um luto permanente das suas idealizações e omnipotências4. Eu creio que chegou o momento em que mais nada deste mundo de aparências e de significâncias verbais poderá impedir o desejo de se desprender das suas últimas amarras. Creio também que o momento da minha morte será aquele em que conhecerei o essencial do meu desejo e o verdadeiro sentido da minha vida. Só então poderei aceder, como na luz de um relâmpago, às delícias inefáveis do encontro absoluto5.
Há uma analogia de sentimentos entre a perelaboração simboligénia de Dolto e a experiência sublime de ser actor e espectador de si mesmo, ao mesmo tempo, no modelo de Winnicott. Resta-nos o que nos fica, interiormente, do objecto introjectado… Vive-se o sofrimento da perda, na disponibilidade de novos investimentos libidinais6. Assim como a capacidade de estar só, segundo Winnicott, se fundamenta no paradoxo primordial de estar só na presença de alguém (relação mãe - bebé) assim o desejo do sujeito, segundo Dolto, se estrutura a partir da experiência fundamental de algo irremediavelmente perdido, no contexto relacional mãe – bebé7.
Embora com linguagens e metodologias diferentes, Françoise Dolto (Solitude) e Winnicott (La Capacité d’Être Seul), parecem convergir na mesma trajectória do desejo do sujeito humano.
1 Particularmente em Enfances (1986) e em Autoportrait (1989).
2 Françoise Dolto, Enfances, p. 58.
3 A capacidade de estar só de Winnicott permite admitir, dentro de nós, um espaço interno (realidade psíquica)
da qual somos, ao mesmo tempo, espectadores e actores porque podemos conservar um bom objecto introjectado, ultrapassadas que foram as angústias persecutórias e depressivas que estiveram na sua origem. In Celeste Malpique, Da Capacidade de Estar Só, pp. 53-81.
4 Em 1920, Françoise Dolto perde a irmã mais velha, Jacqueline. Em 1916 morre o tio na guerra, seu namorado
edipiano. Em 1981 perde o marido Boris Dolto e em 1988 falece Françoise Dolto, curiosa de tudo o que a espera para além do corpo, in Solitude, pp. 474-475.
5 Françoise Dolto, Solitude, pp. 527-530.
6
Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 225.
7 Françoise Dolto distancia-se das interpretações clássicas da relação mãe – bebé de Malher, Groddeck e
Winnicott. A autora usa expressões originais como co-sa-mère, hemidyade e co-naissance para exprimir as ligações profundas e ambivalentes da mãe com o filho.