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102 La typologie issue de la recherche fondamentale

UN AGRICULTEUR SE SUICIDE TOUS LES DEUX JOURS EN FRANCE

1.4 L’efficience de la sémiotique pour le projet

1.4.1 La question du sens

Intruge-se é uma espécie de conto-referência de Tutaméia, uma vez que é nessa narrativa que encontramos dois importantes personagens que aparecem em outros contos. Ladislau, chefe dos vaqueiros, é o mesmo do conto Zingaresca. Ele aparece também como o apelido de So Lau em Vida Ensinada. Seo Drães, outro personagem de Intruge-se, que aparece como o futuro dono da Fazenda da Gralha, está também presente no conto Retrato de Cavalo. Tio Dô, delegado do conto Faraó e a água do Rio, é mencionado em Intruge-se, como Tio de Ladislau, como já afirmou Novis (189, p. 38). O mesmo Tio Dô corresponde ao delegado que ouve o depoimento do guia no conto Antiperipléia. Esses deslocamentos de personagens são mais freqüentes em Tutaméia, mas estão presentes em outras narrativas

rosianas. Miguel, o veterinário de Buriti, de Corpo de baile, é o mesmo Miguilim de Campo geral. O cego, que aparece perdido em A hora e a vez de Augusto Matraga, nos remete ao cego do primeiro conto de Tutaméia. A boiada, conduzida pelo Major Saulo em O burrinho pedrês, de Sagarana, tem um sintonia com a boiada comandada por Ladislau, no último conto de Tutaméia, Zingaresca. Até mesmo o espaço costuma se repetir de uma estória para outra. O povoado do Ão, onde se refugiaram Soropita e Doralda, personagens de Dão-lalalão, tem o mesmo nome do vilarejo onde Damásio, protagonista de Primeiras estórias, pergunta ao doutor o significado do vocábulo “famigerado”. Esse mesmo povoado é também mencionado no conto O outro ou o outro, de Tutaméia.

Deslocando personagens de uma narrativa para outra, Guimarães Rosa vai criando uma escrita nômade e nesse nomadismo textual, o retorno dos personagens funciona como um recurso de escrita que, ao se repetir, se torna cada vez mais compacta, à medida que é construída, possibilitando ao leitor criar, a cada leitura, um novo livro.

De todos os contos de Tutaméia, Intruge-se se apresenta como uma das narrativas em que a linguagem não-verbal mais se evidencia como suplemento da verbal. O protagonista Ladislau está guiando uma boiada com vários vaqueiros e tem pela frente um desafio: descobrir o assassino do vaqueiro Quio. “Nem o cão latiu, na ocasião [...]”. (Intruge-se, p.71). Ladislau, tentando descobrir o autor do crime, arranja vagens de jubaí e, à medida que descarta possíveis pistas do criminoso, vai inocentando os vaqueiros, desfazendo-se das vagens. Mas há uma nica textual que perpassa por todo o conto, representada pelo toque de mão que ele dá em cada vaqueiro que interroga e por uma frase sugestiva: “Será o Seo Drães adquire a Gralha“? No texto, Gralha é o nome de uma fazenda que está para ser comprada por Seu Drães, patrão de Ladislau e personagem de outras estórias de Tutaméia. À medida que Ladislau vai perguntando aos vaqueiros, a frase vai diminuindo. A primeira frase é: “Será, o Seo Drães adquire a Gralha?”, pergunta feita ao vaqueiro Rigriz. Ao vaqueiro Amazono, o chefe lança a seguinte frase: “Será a Fazenda da Gralha, o Seo Drães vai mesmo comprar?” Essa frase é seguida de um toque de mão. Segundo Ladislau, aquele que reagisse diante do toque seria o assassino. A partir daí e à medida que avança a narrativa, a frase de Ladislau – “Será o Seo Drães Adquire a Gralha” – vai diminuindo, chegando ao silêncio. Ao vaqueiro Antônio Bá, ele apenas diz: “Se a Gralha [...]”. A Joãozão e a Liocádio ele só pronuncia o nome do patrão: “Seu Drães”. Com relação ao vaqueiro Zegeraldo, não há uma pergunta do chefe, mas a resposta do vaqueiro, construída pelo narrador, deixa a pergunta em silêncio: “Da gralha o geral achavam. E Zegeraldo respondeu: que nas mãos tivesse ainda calejo, das capinas de janeiro e de dezembro – sem embatuque.” (Intruge-se, p. 72).

Quando indaga a Zéquiabo, a pergunta de Ladislau é apenas suposta, sendo também tecida em silêncio: “O Zéquiabo, cozinheiro! Mas que sem desconversa respondeu: – “A gralha é uma fartura [...]” (Intruge-se, p. 72). Não há pergunta ao cozinheiro nem toque de mão. Aparece apenas a resposta: “já carecia de cortar as unhas”. (Intruge-se, p. 72). Assim, a frase “Será, o Seo Drães adquire a Gralha” vai diminuindo durante a narrativa, insinuando- se e se ausentando, à medida que Ladislau pergunta a seus homens, até desaguar no silêncio, o mesmo acontecendo com o toque de mão, explícito em alguns encontros com vaqueiros e suposto em outros, como é o caso do diálogo com Zé Quiabo.

Ladislau toca pela segunda vez na mão de Liocádio. Na primeira vez, Liocádio lhe respondeu: “Munheca para vara e laço!” (Intruge-se, p. 72). O chefe não desconfiou. Na segunda vez em que Ladislau lhe esbarra, Liocádio saca da faca. Com essa reação, o vaqueiro se denuncia. E é muito sugestivo o nome do lugar onde acontece esse segundo toque: Sítio do Jerônimo Maneta. A palavra “maneta” significa “sem mão”. Desse modo, o crime se desvenda num lugar cujo proprietário não tem mão. Em outras palavras, fechou-se o cerco, descobriu-se o assassino, não há mais o toque de mão. Um outro dado importante na narrativa: “Nem o cão latiu na ocasião...” (Intruge-se, p. 71).

Essas reticências trazem um significado: o assassino era amigo do cão. E no final do conto, pouco antes da luta entre Ladislau e Liocádio, o narrador afirma que este último agradava o cão: “Um vaqueiro passou, Liocádio, agradou o cão – que latiu ou não latiu, não se ouviu.” (Tutaméia, p. 73). A regência do verbo “agradar”, como transitivo direto, significa afagar, em outros termos, usar a mão, a munheca. Desse modo, o toque de mão é como um suplemento do texto escrito, representado pela frase “Será o Seo Drães adquire a Gralha?” Trata-se de um texto não-verbal tão ou mais importante do que a frase dita, linguagem silenciosa, mas eficaz, desencadeadora do desenlace da narrativa.

Mas, além do toque, a frase – “Será o Seo Drães adquire a Gralha?” – tem uma palavra que merece destaque: Gralha. O vocábulo “gralha” significa pássaro colorido de voz estridente. Gralha é, pois, metáfora da voz. Ninguém sabe quem é o assassino, no início da narrativa. Ladislau, agindo como um detetive, quer descobrir o culpado. Como o assassino não vai se manifestar pela voz, mas pode desconversar, engrolar, como a gralha, o chefe lança mão de uma linguagem silenciosa, o toque de mão, acompanhado de uma palavra sugestiva – “Gralha” – como se buscasse, pelo toque, uma voz em off. Mas a palavra gralha desliza também para outro sentido no dicionário: “Erro tipográfico, que consiste em tipo virado, deslocado do lugar, ou trocado”. Desse modo, num nível metafórico, podemos perceber que o chefe Ladislau quer retirar a gralha, isto é, o erro tipográfico, o crime, que mancha a página,

no caso, sua comitiva. Assim, o narrador, através do vocábulo “gralha”, vai possibilitando a conjugação do excesso do sentido (engrolar, mancha tipográfica, crime) com a redução ou ausência de palavra, que precisa de ser substituída pelo toque de mão.

Como vimos, a frase “Será. O seu Drães adquire a Gralha?”, representada pelo signo “Gralha”, é complementada por um outro texto não-verbal, o toque. Guimarães Rosa nos dá aqui um belo exemplo da relação entre o verbal e o não-verbal, da oscilação entre o excesso e a falta de sentido, da defasagem, já apontada por Barthes, entre o que se perde no par linguagem e corpo.

Zumthor (2005, p. 147), ao estudar a relação entre a poesia e o corpo, nos ensina que a palavra não existe em um contexto puramente verbal: “Para aquele que observa o gesto, a decodificação implica fundamentalmente a visão, mas também, numa medida variável, a escuta, o olfato e o toque.” (Grifo nosso).

4.7

A dança da letra na relação Oriente e Ocidente

Orientação, conto de Tutaméia, narra o casamento entre Yao Tsing-Lao, vulgo Quim, e Rita Rola ou Lola-a-Lita. Entre eles não havia afinidade, mas acabaram se unindo. A união trouxe desentendimento, principalmente por parte da esposa, que reclama. Quim, silenciosamente abandona Rita, que fica triste e abatida. A única lembrança que ela traz do marido é o andar à chinesa. Vamos ver a seguir de que modo a escrita minimalista, com suas nicas textuais, isto é, as letras e seus elementos tipográficos, mimetizam a relação entre dois amantes de culturas diferentes.

Vera Novis salienta que neste conto e em O outro ou o outro existe uma relação entre Ocidente e Oriente. No caso de O outro e o outro, há uma aproximação entre Tio Dô e os ciganos. Tio Dô gosta de Prebixim e acaba deixando o roubo do acusado em segundo plano. Já em Orientação, segundo a pesquisadora, há uma relação de diferença entre dois mundos. Quim e Rita Rola não se entendem. Acreditamos que, além das diferenças entre o casal e da aprendizagem do silêncio por parte de Rita, como afirma Vera Novis, é possível detectar no conto um processo de troca cultural. O mais importante a ressaltar é que essa troca se plasma no corpo da linguagem.

Guimarães Rosa mostra, de modo original, como a relação Oriente e Ocidente se processa. No casamento de uma sertaneja e um chinês, seres tão díspares, como a rapadura e a escada, segundo o narrador, cria-se um espaço de reterritorialização cultural mediada pela