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Quelques appareils d’étude de l’interface

2.5 Étude expérimentale du comportement d’interface

2.5.2 Quelques appareils d’étude de l’interface

A Cidade de Natal encontra-se em um período de transição. Está no meio do caminho entre a cidade colonial (negada e desprezada) e a cidade moderna (sonhada e idealizada). Observou-se que até os anos 1920 vários prédios carregados de valor simbólico foram construídos na Ribeira. Todos os exemplos aqui citados localizam-se no entorno da Praça Augusto Severo. Para melhor evidenciar esse momento modernizador, ao pesquisar a cidade de São Paulo, Sevcenko afirma que:

Os anos 20 assinalam uma etapa decisiva desse processo e tem particular significação pelas iniciativas de definição de um padrão cultural de identidades que caracterizam o período. Essas iniciativas, em parte deliberadas, em parte reativas, e em parte surpreendentes até mesmo para os agentes que a assumiam, se destinavam, por um lado, a mediar os confrontos sociais que atingem ápices críticos nesse momento e, por outro reorganizar os sistemas simbólicos e

perceptivos das coletividades, em função das demandas de ritmo, da escala e da intensidade da vida metropolitana moderna (1992, p. 18).

Levando em consideração as diferentes dimensões entre a cidade de São Paulo (estudada por Sevcenko) e a Cidade de Natal (objeto desta pesquisa), apesar da grande discrepância espacial e demográfica, exaltamos a crescente globalização que estava se desenvolvendo com a evolução dos meios de comunicação e de transporte, atuando, nesse sentido, como um potencial difusor de ideias, podendo-se considerar o fato de que esse processo se deu em ambos os espaços com maior ou menor intensidade: “na década de 1920, Natal viveu uma espécie de belle époque, com ações públicas voltadas para a educação, atividades artísticas e culturais. Junto com a ordenação física da cidade, a intendência de Natal também buscava o disciplinamento da população” (LIMA, 2006, p. 112). Diante das inovações tecnológicas que invadiram o imaginário coletivo, a população foi adaptando e readaptando suas heranças sociais ao novo cenário da cidade moderna.

A funcionalidade, as sociabilidades e as diferenças econômicas inseridas agora no contexto espacial da Cidade de Natal, nos indicam uma ruptura no modo de se construir e praticar o espaço urbano. Desde a implantação da República, as ruas e avenidas adquiriram maior importância, e passaram a ser consideradas como representantes da cidade. Observamos que no século XIX, segundo o relato de Koster feito em 1810, não havia nenhum tipo de pavimentação nas ruas, que se constituíam de “areia solta”. Durante as três primeiras décadas do século XX, aconteceu o “empedramento” das ruas da Ribeira, que era feito com pedras irregulares retiradas das praias de modo bastante rudimentar. Segundo o relato de um jornalista no ano de 1930:

Estes calçamentos além da aspereza das arestas cortantes das pedras, eram completamente desnivelados, o que permitia a formação verdadeiros lagos na Cidade, após as chuvas. O que se passava a este respeito na Ribeira, especialmente, constitui história de ontem. Não é possível que haja alguém que já tenha esquecido o que ocorria, em regra, desde a fábrica de tecidos, por toda a Praça Augusto Severo, ruas Dr. Barata, José Bonifácio, Avenida Nísia Floresta etc... Fenômeno idêntico ocorria na Avenida Junqueira Aires, a via única de acesso da parte baixa da Capital à Cidade Alta... (A República, Natal, 10 jun. 1930).

A citação acima foi publicada após serem feitas melhorias na pavimentação da cidade, efetuadas no decurso da administração do então prefeito Omar O’Grady, que

construiu 21.01619 metros quadrados de calçamento (paralelepípedos e macadame pichado). Observa-se que a antiga pavimentação nada mais é que “história de ontem”, o que torna claro o interesse em destruir a cidade atrasada e sobre ela, construir a cidade moderna. Fica evidente então que o bairro da Ribeira valorizou-se bastante após a pavimentação, quando foram resolvidos os problemas relativos às inundações após as chuvas. Essa pavimentação teve continuidade durante a administração do prefeito Gentil Ferreira de Souza, de 1930 a 1940.

Continuando nesse contexto é importante articular com relação à construção da Avenida Tavares de Lira20, que foi um marco no traçado urbano do bairro da Ribeira, sendo esta uma artéria minuciosamente projetada. Para sua construção fez-se necessário a desapropriação dos prédios que obstruíam o seu alinhamento. O presidente da Intendência Municipal Manoel Teixeira de Moura instituiu, através da Resolução nº 118, em 25 de fevereiro de 1908, no artigo 5º, a criação da Avenida Tavares de Lira21. Sua construção foi feita com muito precato, desde a desobstrução do traçado até o seu embelezamento, o que denota a representatividade do bairro da Ribeira no contexto urbano natalense. O então governador Alberto Maranhão disse em mensagem apresentada ao Congresso Legislativo em 1º de novembro de 1911, o que pretendia realizar nesse espaço:

A Avenida Tavares de Lira já inteiramente desapropriada e em grande parte se reconstruindo para receber a decoração já encomendada na Europa e constante de obelisco de cinco metros de granito, com o medalhão de Senador Tavares de Lira e escudos de armas da União, do Estado e da Cidade[...] bancos e guarnições para mobiliamento e arborização[...] (MARANHÃO, 1911, p. 18-19).

19 Cf. A República, Natal, 1 jul. 1929.

20 Augusto Tavares de Lira, político e intelectual, genro de Pedro Velho, governou o Rio Grande do Norte no período de 1904 a 1906. Interrompeu seu mandato para exercer o cargo de Ministro do Interior e da Justiça durante o governo do Presidente Afonso Pena, em 1906. Depois foi eleito Senador do Rio Grande do Norte e, outra vez, Ministro da República. Por conseguinte, foi um norte-rio-grandense que se projetou no cenário político nacional nos tempos da República Velha.

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Figura 36 – Avenida Tavares de Lira, Ribeira22

Fonte: Natal ontem e hoje, 2006.

Em seu relato o governador transparece não apenas seu empenho na construção e no embelezamento da avenida em questão, como também a inspiração europeia, o que nos incita a pensar sobre a globalização e sua influência nos modos de construir e gerir as cidades no período em pauta. A Avenida Tavares de Lira tornou-se uma das mais e movimentadas – se não a mais importante e mais movimentada – da Cidade de Natal, considerada pela historiografia potiguar como “a alma da Ribeira”. Nessa avenida brilharam os antigos carnavais natalenses. Registrou-se, em 1926, na Imprensa Potiguar:

Corso – Efetuou-se na Avenida Tavares de Lira e Praça Leão XIII. As tardes decorreram frias, quase sem movimento, intensificando, porém, de maneira crescente, a vida noturna, das 18 às 21 horas. Tocaram durante os corsos duas afinadas bandas de música, a dos Escoteiros,

defronte da redação d’República, e a banda da Polícia Militar, diante

da casa M. Machado. Estiveram animados combates de serpentina, confete e lança perfume, sobretudo na última noite, quando mais concentrada se fez a multidão de carnavalescos nos passeios da avenida [...] (A República, Natal, 18 fev. 1926).

A Avenida Tavares de Lira concentrou diversas atividades, era a vitrine de tudo de melhor que se vendia em Natal, como também possuía um forte caráter político. No

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café “Cova da Onça”, ao final das tardes, encontravam-se todas as facetas da elite natalense, fossem políticos, intelectuais ou comerciantes.

O “Cova da Onça” era um café ali na Avenida Tavares de Lira, que só

tinha duas portas. Era só o café. Tomava-se uma cerveja, mas o grosso

era café. Era um “café” político, principalmente dominado pelo

governo, [...]. Ali se organizavam planos, ali se ganhavam eleições, ali se faziam eleições, era um movimento enorme [...] (PINTO, 1980

apud LIRA, 2003, p. 24-25).

Segundo Pedro de Lima (2006, p. 23), “os grupos de rendas mais altas habitavam os bairros da Ribeira e da Cidade Alta”. A Ribeira também é o berço de importantes personalidades natalenses. Lá viveram: Café Filho, Henrique Castriciano, Ferreira Itajubá, Pedro Velho, Newton Navarro, Aderbal de França, Erasmo Xavier, Januário Cicco, entre outros. No entanto, o bairro também era habitado por classes mais baixas, se consolidando como uma área heterogênea. A partir do Censo de 1897, realizado pelo então vice-presidente da Intendência Municipal, o Sr. Olympio Tavares, observa-se a diversidade da população residente na Ribeira. Levantamento por profissão:

Sem profissão – 1669; criados – 190; catraeiros – 93; militares – 92; negociantes – 88; pescadores – 61; costureiras – 60; engomadeiras – 51; jornaleiros – 49; empregados públicos – 44; operários – 37; artistas – 35; aprendizes marinheiros – 28; lavadeiras – 27; cozinheiras

– 24; estudantes –19; tipógrafos – 11; alfaiates – 10; carpinas – 10;

proprietários – 10; marceneiros – 9; padeiros – 8; rendeiras – 8; sapateiros – 8; barbeiros – 6; industriais – 6; pedreiros – 6; práticos da barra – 7; agricultores – 4; calafetes – 4; magistrados – 4; telegrafistas

– 4; ferreiros – 4; hoteleiros – 3; advogados – 2; charuteiros – 2;

estivadores – 2; médicos – 2; modistas – 2; músicos – 2; encadernador

– 1; engenheiro civil – 1; engenheiro mecânico – 1; funileiro – 1;

maquinista – 1; ourives – 1; farmacêutico – 1; fotógrafo – 1; serralheiro – 1; tanoeiro – 1; tecedeira – 1 (A República, Natal, 5 fev. 1897).

Conforme visto acima, a heterogeneidade da população da Ribeira entrou em conflito com um novo conceito de organização social das cidades, através do discurso higienista. O discurso higienista veio a legitimar as pretensões das elites que propunham mudanças no contexto social de civilização, dos hábitos e de adaptação da malha urbana a nova ordem. Para as elites, o centro da cidade estava contaminado pela presença das classes sociais mais baixas, denominadas “classes perigosas”, devido ao fato de

atribuírem a estas o poder de disseminar as epidemias devido a seus maus hábitos, como contraponto à valorização da Ribeira. Ao estudar esse processo na cidade do Rio de Janeiro, Chalhoub afirma que:

Tal ordem de ideias iria saturar o ambiente intelectual do país nas décadas seguintes, e emprestar suporte ideológico para a ação

“saneadora” dos engenheiros e médicos que passariam a se encastelar

e acumular poder na administração pública, especialmente após o golpe militar republicano de 1889 (1996, p. 35).

Assim, identificamos esse processo também na Cidade de Natal, onde, de acordo com Pedro de Lima (2006, p. 68), “[...] a preocupação com a higiene e a salubridade contribuiu, em Natal, para a recriação da cidade através do saneamento, regularização e embelezamento dos seus espaços”.

O planejamento do Bairro de Cidade Nova viria a preencher a situação específica de moradia das elites em busca de diferenciação e salubridade: “o plano da Cidade Nova [...] se constituiu no primeiro espaço destinado exclusivamente à burguesia natalense” (LIMA, 2006, p. 23). Segundo Chalhoub, essa zona central da sociedade desejava realizar a implantação de uma civilização europeia nos trópicos, a partir dos conceitos modernos e republicanos, através da implantação de ideias europeias que incentivavam a divisão dos espaços geográficos da cidade por classes sociais distintas.

A leitura da obra de Luís da Câmara Cascudo mostra como, entre o final do século XIX e os anos 20 do século XX, foi se desenhando o primeiro esboço da distribuição social e espacial da população da cidade, embora, à exceção da Cidade Nova, ainda não existissem espaços totalmente exclusivos23 (LIMA, 2006, p. 46, grifos nossos).

Pedro de Lima, ao tratar o plano de urbanização da Cidade de Natal, expõe que “A Cidade Nova, um espaço exclusivo para o uso das elites, cuja construção começou em 1901, logo se transformou emblemática e simultaneamente, em um dos marcos da segregação social e espacial [...]” (2006, p. 23). A construção de um novo bairro (Cidade Nova), que ofereceria uma melhor condição de moradia, representou para a Cidade de Natal a necessidade de diferenciação e de homogeneização ecológica do

23 Destacando o trecho totalmente exclusivos, buscamos enfatizar que o bairro da Ribeira também era habitado por pessoas de classes mais baixas.

espaço. O que resultou, ao longo dos anos, na migração de muitos dos habitantes mais abastados do bairro da Ribeira para a Cidade Nova.

Com a implantação do Plano Geral de Obras nos bairros centrais, os proprietários de lotes nos bairros de Tirol e Petrópolis iniciaram a transferência de suas residências. As obras do Plano, de certa forma, haviam prejudicado as condições de moradia com as escavações e com as diversas intervenções promovidas nos espaços públicos. Estas inviabilizaram, inclusive, as atividades sociais e culturais, tornando o centro uma “cidade morta” (FRANÇA, 1936).

Contudo, até o final dos anos 30 do século XX, de acordo com Giovana Paiva de Oliveira, “a área urbana da Cidade de Natal girava em torno de dois eixos viários: a Avenida Rio Branco, no bairro da Cidade Alta, e a Avenida Tavares de Lira, na Ribeira” (2008, p. 58). O bairro da Ribeira passou por um intenso processo de valorização no contexto urbano da capital potiguar. O bairro alagado e miasmático não existe mais, está adornado com artefatos europeus, iluminado e repleto de símbolos sociais, políticos e econômicos.

CAPÍTULO II – AS TRANFORMAÇÕES NA CIDADE DE NATAL E NO