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H) II.4.1 Cas général

II.6 Autres marqueurs des pluies .1 Eléments dissous

II.7.2 Quantification de l’évapotranspiration

4 Parto do pressuposto de que existe uma visão do mundo pré e pós-feminista. Pelo menos

na teoria antropológica do campo de estudos sobre o género tal é evidente. Nalguns sectores sociais de hoje, a prática do quotidiano também foi transformada pelo feminismo. Mas, na maior parte dos contextos, o que temos é uma mistura de paradigmas, com comportamentos diferenciados pela geração, classe social e, sobretudo, pelos percursos individuais. Por cima dessa realidade heterogénea, um divórcio entre a teorização antropológica e o real. Neste capítulo pretendo entretecer um panorama do pensamento antropológico sobre o género antes da teoria crítica do feminismo e as práticas sociais a que ele correspondia. Os traços de união entre as sociedades do Antigo

Regime europeu e alguns aspectos da teoria folk e da prática do género em Pardais são iluminadores, algo que se pode verificar também na relação entre as teorias (religiosas, proto-científicas, e positivistas) e a «política do sexo e do género» praticada nas sociedades europeias pré-modernas.

5 É quase inevitável começar-se pelo nosso mito fundador, o Genesis:

«E disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (…) E criou Deus o homem à sua imagem: ele o criou à imagem de Deus, macho e fêmea os criou. Deus os abençoou e disse: Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra e sujeitai-a [segue-se a proibição de comer da árvore da ciência do bem e do mal]. Infundiu pois o senhor Deus um profundo sono a Adão: e quando ele estava dormido, tirou uma das suas costelas, e encheu de carne o lugar de onde se tinha tirado. E da costela que tinha tirado de Adão formou o senhor Deus a mulher, e a trouxe a Adão. Então disse Adão: Eis aqui agora o osso de meus ossos, e a carne de minha carne. Esta se chamará Virago porque de varão foi tomada [seguem-se os episódios da serpente, da nudez sem vergonha, da mulher tentada pela serpente, do comer o fruto, e da vergonha da nudez] Disse também [Deus] à mulher: eu multiplicarei os teus trabalhos e os teus partos. Tu em dor parirás os teus filhos, e estarás sob o poder do teu marido, e ele te dominará. A Adão porém disse: pois que destes ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore (…) a terra será maldita na tua obra: tu tirarás dela o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida (…) tu comerás o teu pão no suor do teu rosto [e segue-se a expulsão do paraíso]».

6 No mito fundador temos inscrita uma relação hierárquica entre homem e mulher; uma

definição do primeiro como superior, mas condenado ao sacrifício do trabalho, da transformação da natureza, por ter sucumbido à sua parte feminina (já que saída de si, e invertendo assim a consciência empírica de o homem nascer da mulher); e a mulher condenada à obediência ao homem e definida pela sua função reprodutiva. A expulsão do paraíso, que pode ser interpretada como fundação da vida em sociedade, assenta em razões sexuais. A sociedade nasce com a divisão sexual e, na linguagem de hoje, com a definição de dois géneros.

7 As grandes mudanças que se verificaram com a sociedade moderna no campo da

sexualidade e dos géneros foram igualmente mudanças na interpretação do corpo, do sexo, da reprodução, da identidade individual e das emoções. Foram, sobretudo, resultado da laicização e substituição da religião pela ciência como modelo interpretativo e explicativo do mundo e da sociedade. É, todavia, legítimo perguntar-se o que têm as pessoas de Pardais que ver com Adão e Eva, com Gregos e Romanos, ou Europeus do Antigo Regime? Aparentemente pouco. Mas uma vez que a diferenciação entre pré- modernidade e modernidade seja entendida como charneira, torna-se importante delinear as diferenças. Sobretudo quando num contexto rural semi-industrializado como o de Pardais os aspectos da pré-modernidade e da modernidade coexistem numa autêntica mudança histórica que tem como locus os corpos e emoções das pessoas concretas. Em grande medida, esta mudança opera-se na linguagem da «Pessoa», como entidade neutra reivindicada pelas mulheres no campo da desigualdade sexual, e pelos homens, no campo da desigualdade social.

8 O cristianismo, segundo Marcel Mauss (1980[1938]) fez da pessoa moral uma entidade

metafísica, operando a passagem da «pessoa» (o Homem revestido de um estado) para a noção de homem como pessoa humana; a partir da noção de Um da pessoa divina, transpôs-se esta noção para as pessoas humanas: substância e modo, corpo e alma, consciência e acto (1980[1938]:357). Todavia, a «substância racional individual» não era ainda o mesmo que a actual catégorie du moi:

« La mentalité de nos aieux jusqu’au XVIIe, et même jusqu’a la fin du XVIIIe siècle, est hantée par la question de savoir si l’âme individuelle est une substance, ou supportée par une substance — si elle est la nature de l’homme, ou si elle n’est qu’une des deux natures de l’homme (…) si elle est libre, source absolue d’actions — ou si elle est determinée et enchainée par d’autres destins, par une predestination » (1980[1938] :359)1

9 Numa nota de pé-de-página, Weber (1983[1901]:179-80) desenvolve um raciocínio que nos

remete para a importância que o puritanismo teve na nova concepção de pessoa. Entre os pietistas a forma mais elevada de casamento era a que preservasse a virgindade, seguindo-se-lhe a que visasse unicamente a procriação, prosseguindo a escala até aos casamentos eróticos, equivalentes à concubinagem. A filosofia racionalista deveria retomar a teoria ascética dizendo que o que é prescrito como meio com vista a um fim, a concupiscência e a sua satisfação, não deve ser tido pelo próprio fim. A passagem ao utilitarismo, acentuando a higiene, dá-se com alguns lideres que entendiam por castidade, no tempo de Weber, a limitação das relações sexuais ao nível desejado para a saúde. Weber põe fora de discussão o modo como essa interpretação racional da vida sexual nos povos influenciados pelo puritanismo deu origem a um certo refinamento espiritual e ético nas relações entre os esposos: «ela contrasta com o bafio patriarcal ainda existente entre nós» (Weber 1983 [1901]: 180). As influências Baptistas teriam contribuído para a emancipação da mulher, dada a protecção da sua liberdade de consciência e a sua inclusão na ideia de sacerdócio universal. Para Weber foram as primeiras brechas abertas na fortaleza do patriarcalismo (1983[1901]:216), um processo a que teria ficado alheio o Sul Europeu da Contra-Reforma2.

10 Em que mundo germinou o pensamento cristão? O exemplo da homossexualidade pode

ser usado como paradigmático das definições que unem o sexo biológico ao género e à sexualidade. Na Grécia Antiga, por exemplo, não era possível classificar certos indivíduos como «homossexuais», ao contrário do que hoje acontece. Os indivíduos de sexo masculino adultos viviam a sua sexualidade privada com as mulheres e a pública com os rapazes, vida pública esta que servia de base à obtenção do prestígio social. Eram relações hierárquicas e desiguais, com uma atribuição de papéis bem definidos, em que o homem adulto era o amante «activo» e o jovem rapaz o «passivo»: «La reciprocité dans la relation homosexuelle entre adultes jette le discrédit sur elle»3 (Sartre 1991:63). Numa linha

similar, Paul Veyne dá conta da homossexualidade na Roma Antiga, desmentindo a ideia feita de que os pagãos teriam um olhar indulgente perante esta prática: a realidade estaria, antes, no facto de nem sequer a verem como um problema à parte, uma coisa em si mesma (Veyne 1982:69): «Ils avaient trois repères qui n’ont rien a voir avec les nôtres: liberté amoureuse ou conjugalité exclusive, activité ou passivité, homme libre ou esclave»

4 (1982:69). Ou seja, não era o sexo do parceiro que determinava o grau de prestígio ou

desprestígio de uma relação, mas sim o estatuto social dos participantes e o simbolismo hierarquizante dos actos (a passividade ou a actividade): «Être actif c’est être un mâle, quel que soit le sexe du partenaire dit passif»5 (1982:72). Assim, a atenção dos romanos

não se dirigia para as orientações sexuais mas antes para os pormenores ínfimos da aparência, da gestualidade e postura corporal (1982:73) — em suma, algo que em Pardais perdura: a vigilância sobre as brechas na masculinidade enquanto «performatividade».