H) II.4.1 Cas général
IV. EAUX MINERALES DU FOREZ
IV.2.3 Indices de saturation
98 O percurso de vida do sr. Altino Valente é, como vimos, emblemático de uma identidade
social estreitamente ligada à agricultura e às relações de produção suscitadas pela estrutura da propriedade. Abordemo-la com algum detalhe, pois conduzir-nos-á a elementos de género associados àquelas. Para tal, os depoimentos de Altino Valente passam a ser, em si, texto.
99 O sr. Altino Valente nasceu em 1913. «Quando era pequeno, os meus pais viviam sem
dificuldades… e depois fui crescendo. Andei a estudar até aos doze anos, fui sempre burro para as letras, não aprendia, e o meu pai que Deus tem, como o meu irmão tinha a quarta classe, queria que eu ficasse com ela também. Íamos a Évora, aqui há 60 anos, os exames eram lá, e então eu adoeci e já não fui fazer exame. Pedi ao meu pai que não me obrigasse a ir estudar. Queria ir a trabalhar, com os empregados que ele tinha. Meteram-me uma égua na mão e fui fazer uma sementeira com o carreiro e então passei a andar nessa vida».
100 Então, tinha eu uns vinte anos, o meu pai que Deus tenha faleceu. Trazíamos ali aquela
propriedade além à renda [a Quinta do Panasco]. Eu fiquei além com a minha mãe quatro anos. E depois, não sei porquê, o dono da propriedade embirrou com a gente, pôs-nos fora. Saímos dali, viemos para aquela casa além em baixo, da minha prima, onde está o sotôr, e aí estivemos ainda uns anos. Daí mudei para aqui. Depois arrendei a Fonte da Moura e andava o tempo nisso aquando de dia e fazia o serviço da Casa do Povo à noite, nos domingos. Estive ali 35 anos e oito meses, na Casa do povo. É de aonde estou hoje a receber a minha reforma.
101 Os meus pais eram do Alandroal. A minha mãe nasceu numa herdade, até grande — é o
Conjeito —, no caminho para o Redondo. O meu avô trazia essas herdades à renda, o Conjeito e o Vale do Pio. Ou não? Bom, o meu pai era aqui mais dos lados do…, eu nem sei o monte onde o meu pai nasceu, mas era aqui da Mina do Bugalho. Casaram com vinte e tal ou trinta anos, coisa assim. Isso foi…a minha mãe faz agora no dia 19 de maio vinte e oito anos que faleceu, nesta casa. O meu pai e o meu irmão faleceram lá na quinta do Panasco… Eu nasci em 1913. O meu irmão tinha mais quatro anos que eu e a minha mãe ainda teve uma garota que nasceu morta, ou qualquer coisa dessas, portanto, aí em 1905, coisa assim, eram capazes de ter casado. Eu acho que o meu pai quando casou foi logo a morar para os Torneiros e — como é que se chamava a outra? —, a Igrejinha. Pró lado de Vila Boim. O meu irmão nasceu lá (…).
102 Depois dali vieram para Vila Viçosa. O meu pai comprou um prédio, um prédio grande e
arrendou a quinta esta. A do Panasco, e trazia a Nave de Baixo à renda também. A quinta do Panasco era duma irmã do sr. Manuel Joaquim da Costa. Ele é que administrava aquilo, que a irmã não estava lúcida, coitadita, teve qualquer doença mental. Depois passou para os sobrinhos… era o doutor Botelheiro. Quem ficou com aquilo foram as filhas do Dr. Botelheiro. Era a dona Virgínia, que era mulher do Dr. Botelheiro. Era irmã dessa senhora (…) Aquilo hoje é do Ferreira do Amaral. É talvez ministro das Obras Públicas, parece- me….
103 Fiquei sozinho com a minha mãe. Íamos pagando as rendas, ia trabalhando além na quinta
e vinha além um criado e nós fazíamos serviço além. Tudo. A minha mãe estava administrando a casa, pois. Tinha uma mulher a trabalhar lá a dias. Primeiro tinha uma criada permanente e depois… já não teve. Ainda ficámos quatro anos e qualquer coisa. Depois é que viemos aqui prá casa do meu tio. Esta minha prima, foi herança do pai. Essa casa e uma courela ali mais abaixo e não sei quanto, quarenta contos em dinheiro. Nessa altura era muito. O marido desta minha prima é que era daqui. E foi casar com ela, no Alandroal. Depois, como ele tinha aqui propriedades… e dos irmãos. Era do pai dele.
104 [Questionado sobre se ficara sem nada quando foi para casa da prima, o sr. Altino
respondeu]: Sem nada. Fiquei a fazer uma courelazita de terra lá fora e…, era um seareiro, passei a ser um seareiro. Deixei de ter uma lavoura maior para ter uma lavoura pequena. Depois mudei para aqui ainda a minha mãe estava viva. Quando eu arrendei a Fonte da Moura a minha mãe poucos anos viveu (…) A fonte da Moura era dos Conceições. Eles é que também cederam esta casa. A Fonte da Moura é terra de 4 moios de trigo. Era umas terras já médias. Não se pode dizer que eram boas, mas também não eram ruins. Depois de deixar além aquilo — ou de me a tirarem, pra dizer melhor, pra explorarem aquilo em pedreiras —, nunca mais fiz arrendamentos. Liguei-me ali à casa do Povo até que fui reformado.
105 [A terra do sr. Altino foi-lhe «tirada» há cerca de doze anos]: Já tinham buracos abertos. Já
lá havia duas ou três pedreiras. E depois quando eu saí ficaram lá sete ou oito pedreiras a trabalhar, tanto que algumas dessas pedreiras não davam rendimento, a pedra não prestava. Não dava para as despesas e para pagarem a renda e então tornaram a fechá-las. Eu, quando me tiraram a terra, ainda pedi às senhoras para me darem lá um bocado de terra, para fazer lá uma exploração. E elas nessa altura disseram-me que já tinham dado tudo. Deram aos afilhados, primeiro ao Fernando — o Fernando já lá tinha uma pedreira também e agora abriu outra. Aqui o Quim mais o irmão abriram outra19. Abriram os
Galrões. Abriram os Saloios. Ali o Pardal, o pai desse que tem a padaria lá em baixo, abriu outra. Aquela pedreira da Marmetal, isso eram duas quando eu trazia aquilo à renda (…)
Afilhados, eles nem eram afilhados!, um é que era, o mais velho era afilhado da senhora Gertrudes, da mais velha, mas eles eram primos. Segundos primos, estes Capuchos. O pai destes Capuchos é que era primo direito delas. O pai destes três irmãos. Dos quatro, eles são três rapazes e uma rapariga.
106 [Mas uma das características fundamentais da identidade social de Altino Valente é o seu
estatuto de celibatário]: Ainda tive o casamento tratado com uma senhora. Aqui nesta casa. E essa senhora, faltava um mês para o casamento, desistiu. E eu nessa altura aborreci-me, porque quem era a madrinha do casamento (o padrinho era um dos Conceições, eu não tive trabalho nenhum de convidar padrinhos porque eles é que se ofereceram) era a minha prima lá em baixo, aquela que faleceu, que era a minha madrinha. Na minha parte. Da parte dela era uma irmã e um irmão. A senhora arrependeu-se e mandou aqui um moço, o marido de uma afilhada que tinha, dizer que já estava disposta a casar outra vez. E nessa altura mandei dizer que da outra vez não estava ela disposta e agora que não estava eu! Nunca mais pensei em casar. E depois ainda namorei por aí uma rapariga, mas já parecia mal, já tinha cinquenta anos. Já ficava feio. Ainda pensei em casar com uma outra rapariga, mas depois a família dela também não queira que eu a namorasse».
107 [De como conheceu a primeira pretendente]: O sr. António Simões, eu trabalhei muito
com ele. Vinte e tal anos. E ele teve um acidente lá em Lisboa. Eu fui lá vê-lo. E quando ele veio pra casa, tornei a ir ali falar-lhe. E essa dita senhora era costureira lá de casa. Não sei porquê, tive assim uma certa simpatia por ela e depois vim para casa e escrevi-lhe. E ali andámos entretidos uma remessa de meses, talvez um ano, a trocar cartas e sem resolvermos aquilo definitivamente. Um dia em Vila Viçosa disse «bom, isto assim não pode continuar, com a idade em que a gente está andarmos tanto tempo a passar tempo assim, a escrevermos um ao outro». Eu tinha quarenta. Quase cinquenta anos. E vi ela lá um dia e dirigi-me a ela e digo: «Isto assim não pode ser. Eu agradecia que me desse uma decisão, se sim ou não!» Para arrumar a minha vida. Ela então veio aqui a casa, ver a casa, ver o que havia, e então combinámos aqui o casamento. Faltava aí um mês para o casamento, mandou-me uma carta desistindo do casamento.
108 [Com tantos revezes de fortuna, o sr. Altino prefere recordar o seu papel na Casa do
Povo]: Aqui o presidente da direcção da casa do Povo, convidou-me. Era o sr José Conceição. O Zé Borrego. Da Quinta dos Passos. Era o mais velho. Eles eram muito meus amigos. Eu saía muito com eles. Com o afilhado é que saía, mas ele começou a ter as pedreiras e não tinha vagar e a família pedia-me para saír com ela no carro. Ao princípio ainda eram pessoas assim… Isto era uma freguesia muito pobrezinha, havia aí 4 ou 5 casas melhores, o resto estava tudo falido. O meu pai que Deus tenha deixou-se ir abaixo porque era fiador de um outro e ainda teve que pagar, aqui há 70 anos, cento e tal contos. Hoje era mais do que não sei quantos mil. Um golpe. O meu pai assinava-lhe letras, ele ia levantar dinheiro20. Era lavrador, trazia aqui as Almagreiras. Mas eram dessas letras que
se faziam em branco e ele ia e endossava-as a outras pessoas. Meu pai que Deus tem não sabia disso. E depois apareceu isto tudo…
109 [A sua relação privilegiada com os Conceição e os Capucho surge ambígua, como todas as
relações de clientelismo]: Os Conceições, parte dessas coisas que eles tinham, aquilo foi um tio ou primo que lhes deixou. Eles também eram pessoas… não eram muito endinheiradas. Nem tinham muita propriedade nem nada. Aquilo foi uma deixa. E depois como aquela deixa lhes ficou…. Eles também ainda trouxeram herdades à renda. Depois passaram a ser eles a arrendar. Ficaram só com as propriedades deles. A explorarem, eles
também não faziam nada… Eu acho que eles nasceram até ali na Quinta dos Passos. Mas não foram eles que a fizeram. Herdaram. Depois apareceram as pedras, que eles viveram ainda também com dificuldades. Eram umas pessoas consideradas aqui da freguesia. Mas quando começaram a aparecer as pedras é que eles começaram a desenvolver a vida deles. E a juntar dinheiro. Há talvez trinta anos, começaram-se a encher».
110 [Mas o facto de ter sido padrinho de muita gente conferia ao sr. Altino uma posição
relativamente privilegiada]: O primeiro afilhado foi este Altino que mora ali em baixo [tio paterno do sr. Morais.]. Tinha eu 9 anos. O pai dele era criado do meu pai. Era cozinheiro. Estava lá parece-me que nessa herdade. Ele convidou-me, era eu um gaiato, para padrinho do filho. E assim por ali fora fui padrinho de muitos criados que existiam lá em casa. Rapazes novos que se casavam (…) E depois era, vamos ali a ver se o nosso senhorio quer ser padrinho, e lá ia eu ser padrinho. As obrigaçõs é levá-lo ao registo, registá-lo e depois, conforme for podendo, olhar também elo afilhado. Ao longo da vida. Ter aquele respeito por ele, aquela consideração, ajudá-lo. E entre compadres sempre fica aquela intimidade: «É meu compadre», parece que é assim uma alegria. Uma pessoa já asssim mais dedicada para nós. Aquele prazer. Um novo parente.
111 A história de vida de Altino Valério exemplifica um mundo que ficou para trás. Mas
também a relação entre a noção de identidade pessoal, masculinidade e reprodução através de um código de honra que se apoia nas relações sociais, com a terra, o trabalho, os patronos e o casamento.