No futebol, os segmentos anatómicos mais solicitados são o pé, o tornozelo, o joelho, a cintura pélvica e a coluna (Aires & Horta, 2000).
O desporto apresenta características próprias que propiciam lesões tráumato-ortopédicas. Observamos na literatura que alterações posturais como genu varum ou valgum, curvas lordóticas ou escolióticas estruturadas, discrepâncias verdadeiras no comprimento dos membros, anca com anteroversão ou retroversão, exagerado genu recurvatum e tipo anormal do pé, estão associadas a lesões no Futebol (Aires & Horta, 2000; Gould, 1993)
2.3.2.1. Coluna Vertebral
No futebol, a coluna vertebral é solicitada quer nos gestos dos membros inferiores, quer no acto de cabecear a bola, quer como alvo de solicitações desequilibrantes (Aires & Horta, 2000). Assim, não podemos dissociar desvios posturais localizados no trem superior com o trem inferior.
2.3.2.1.1. Cifose/Hiperlordose
Cifose é uma curvatura posterior excessiva da espinha midotorácica superior. A espinha torácica superior apresenta normalmente um contorno arredondado, mas esta curva pode ser acentuada por factores congénitos, factores compensatórios, desequilíbrios musculares entre outros factores. Contrariamente à cifose, a hiperlordose é uma curvatura anterior excessiva da espinha lombar. Um aumento da curva lordótica pode ter causa congénita, mas também pode dever-se a desequilíbrios musculares, como fracos abdominais, fortes flexores da coxa e fortes extensores das costas, que favorecem a rotação anterior da zona pélvica (Palmer, 2000; Shultz, 2000).
- 18 - 2.3.2.1.2. Escoliose
A escoliose é comummente observada na espinha torácica e lombar ou em ambas as áreas.
Os processos espinhosos das vértebras ficam localizados lateralmente à linha média do tronco (Palmer, 2000) e podem ser identificadas como uma linha C ou linha S (Houglum, 2001).
Uma linha C é identificada consoante a orientação da convexidade (esquerda ou direita). A linha S pode ser uma compensação da linha C.
As escolioses podem ser causadas por deformações congénitas da espinha, dismetrias dos membros inferiores e hipersolicitação unilateral.
As escolioses podem causar fadiga muscular e um aumento do stress ligamentar do lado convexo devido á sua fraqueza estrutural (Houglum, 2001).
Poderemos verificar esta anomalia na vista posterior.
2.3.2.2. Pelve/Quadril
Na inclinação pélvica lateral, a pélvis desvia-se no plano coronal para a esquerda ou direita, isto é, um lado da pélvis situa-se mais elevado que o outro (Palmer, 2000).
Poderemos verificar esta anomalia tanto na vista anterior como posterior
2.3.2.3. Joelho
2.3.2.3.1. Genu Valgus/Varum
Nos joelhos, articulações muito solicitadas, os desalinhamentos favorecem a patologia microtraumática como entesites dos ligamentos e músculos, tendinites e microlesões meniscais, facilitadoras de lesão de maior dimensão, obrigando muitas vezes a intervenção cirúrgica (Aires, 2000).
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No genu varum, o segmento distal desvia-se na direcção da linha média em relação ao segmento proximal, e a articulação do joelho ocupa uma posição lateral no eixo mecânico do membro inferior (Palmer, 2000). É um aumento do normal ângulo valgus ou angulação medial da tíbia relativamente ao fémur.
Genu varum pode estar relacionado com pé cavus, rotação interna da tíbia,
abdução da anca ou excessiva rotação externa da anca (Shultz, 2000). O varismo origina sobrecarga cápsulo-menisco-ligamentar externa, facilita a hiperpressão interna da rótula e estreita o espaço femuro-tibial interno, o que pode condicionar lesões meniscais internas (Aires, 2000).
O valgismo condiciona alterações inversas, ou seja, o valgismo caracteriza-se pelo desvio lateral do segmento distal em relação ao segmento proximal e deslocação medial do eixo articular. (Aires, 2000; Palmer, 2000; Shultz, 2000) .
O valgismo pode ser causado por fraqueza dos quadricipites, pronação do pé, pé plano, estruturas mediais da articulação do joelho alongadas e retracção do trato iliotibial e das estruturas laterais da articulação do joelho.
Um joelho varo predispõe a lesões cápsulo-ligamentares externas e a lesões meniscais, em termos macrotraumáticos e a síndrome de hiperpressão interna da articulação tíbio-femoral, síndrome da banda ílio-tibial, entre outras lesões microtráumaticas (Aires & Horta, 2000).
Poderemos verificar ambas as anomalias na vista anterior.
2.3.2.3.2. Genu Recurvatum
No genu recurvatum, o joelho situa-se em hiperextensão e o stress gravitacional incide muito adiante do eixo articular (Palmer, 2000). Pode estar relacionado a uma excessiva rotação interna da anca com pes planus ou rigidez do tornozelo ou do gastrocnemius, restringindo a dorsiflexão (Shultz, 2000).
O genu recurvatum, predispõe a lesões capsulares posteriores, a lesões dos ligamentos cruzados, principalmente do cruzado posterior, a rotura dos gémeos e isquiotibiais e a lesões meniscais, em termos de macrotraumáticas, e
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a tendinites dos gémeos e isquiotibiais, em termos de lesões microtraumáticas (Aires & Horta, 2000).
Esta anomalia poderá ser verificada na vista lateral.
2.3.2.4. Tornozelo/Pé
Alterações funcionais e estruturais no pé podem alterar os arcos de suporte, levando à diminuição da estabilidade e/ou capacidade de absorção dos choques. Estas alterações podem ter uma forte influência no alinhamento e mecânica do membro inferior, não só ao nível do pé, como das zonas lombar, pélvica, joelho e tornozelo (Aires, 2000; Shultz, 2000).
Massada (2006) acrescenta que as alterações anatómicas que aumentam ou diminuem as arcadas plantares, tal como se observa no pé
planus ou no pé cavus, afectam gravemente o apoio plantígrado, actuando
obrigatoriamente de forma nefasta na marcha, na corrida, e mesmo no simples apoio unipodálico.
2.3.2.4.1. Pés Cavus/Planus
O pé adquire, no futebolista, papel importante pois é o elemento preferencial do contacto com a bola. A sua integridade arquitectónica é necessária para a conjugação da elasticidade requerida para o amortecimento das forças ascendentes e descendentes que nele actuam, com a rigidez própria das alavancas ósseas (Aires & Horta, 2000).
Tanto um pé cavo muito rígido, como um pé plano demasiadamente laxo e elástico prejudicam a biomecânica do pé e predispõem a lesão (Aires & Horta, 2000).
O pé cavus é caracterizado por uma elevada rigidez e elevado arco longitudinal, contractura das estruturas plantares, cabeças do metatarso
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proeminente, elevação dos dedos e o osso navicular fica acima da linha de Feiss (Palmer, 2000; Shultz, 2000).
O pé planus é caracterizado por um reduzido arco longitudinal medial. O tendão de Aquiles é convexo medialmente e a tuberosidade do osso navicular fica abaixo da linha de Feiss (Palmer, 2000). É causado por hipermobilidade, resultado do aumento da laxidez e fraqueza muscular da superfície plantar (Shultz, 2000).
2.3.2.4.2. Pé Varum/Valgus
O valgismo e varismo condicionam desequilíbrios a nível da articulação do tornozelo, facilitando o aparecimento de entorses.
O pé varum coloca o eixo do calcâneo e o eixo da perna sobre a mesma linha longitudinal, facilitando o aparecimento de periostites e mesmo fracturas de fadiga. O calcâneo varo, assim como o pé cavum, caracteriza-se por uma verticalização da barra de torção, com rigidez articular, perda da função amortecedora, que passa a ser desempenhada pelos músculos (Aires & Horta, 2000).
No valgismo e pé plano há horizontalizarão da barra de torção com hipermobilidade, de que resulta um défice da rigidez necessária à propulsão e sobrecarga muscular, em particular ao nível dos músculos próprios do 1º dedo (Aires & Horta, 2000).
2.3.2.4.3. Hallux Valgus
O hallux valgus é caracterizado pelo desvio lateral do primeiro dígito da articulação metatarsofalangeana (Palmer, 2000).
Esta deformidade pode ser causada pelo crescimento excessivo da cabeça do primeiro metatarso, luxação articular, músculo abdutor do hallux alongado ou músculo adutor do hallux retraído (Houglum, 2001).
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2.3.2.5. Dismetrias nos membros inferiores
A nível dos membros inferiores, a medição dos mesmos permite o despiste de dismetrias, condicionadoras de alterações da estática vertebral no plano frontal e sobrecarga a nível dos membros inferiores (Aires, 2000).
A medição torna-se mais importante ainda quando a dismetria dos membros inferiores é significativa e afecta indivíduos que praticam desporto, onde a repetição gestual determina a solicitação cíclica e intensa das estruturas anatómicas dos membros inferiores (Massada, 2006).
O mesmo autor acrescenta que essa alteração significativa do comprimento dos membros inferiores executa no membro mais curto uma série de compensações semelhantes às que se observam num pé plano. São característicos o aumento da rotação interna da tíbia, da pronação do retropé e a rotação interna da coxa, factos que hipersolicitam as articulações do joelho, tornozelo, subastragaliana, mediotársica e coxofemoral.
O aumento dos esforços devidos à repetição gestual, associado às alterações mecânicas determinadas pela dismetria dos membros, poderá determinar em alguns desportistas o aparecimento de uma patologia de
overuse chamada de short leg sindrome (Massada, 2006).
Esta anomalia poderá ser verificada tanto na vista anterior como posterior.