O método das entrevistas está sempre associado a um método de análise do conteúdo. Por esta razão, e seguindo os critérios de Vala (1986), Bardin (1977) e Grawitz (1993), submetemos o nosso corpus de estudo a esta técnica. De facto, esta análise oferece a possibilidade de tratar de forma metódica informações e testemunhos que apresentam um certo grau de profundidade e complexidade, o estudo do não dito, do implícito, permitindo um controlo posterior do trabalho através da reprodução em suporte material (Quivy e Campenhoudt, 2003).
A análise de conteúdo é uma técnica de tratamento da informação que não se limita a uma simples descrição (Vala, 1986), manifestando como finalidade a descrição objectiva e sistemática do conteúdo da comunicação, efectuando inferências sobre as mensagens (Bardin, 1977). São vários os autores que sugerem a utilização desta técnica quando se trata de analisar palavras, frases ou textos pelos quais as pessoas que integram a investigação se expressam. Como
assinala Pais (1996), um dos objectivos da análise de conteúdo parece ser justamente o de des-cobrir, des-ocultar a realidade através de processos de reconstrução a partir da “matéria-prima” informativa. Este método apresenta ainda a enorme vantagem de poder exercer-se sobre material que não foi produzido com o fim de servir a investigação empírica, matéria não estruturada.
Submetemos as transcrições das entrevistas à análise de conteúdo com o intuito de formular interpretações sobre as mesmas e atribuir determinado sentido no contexto pretendido para o estudo (Bardin, 1977).
De acordo com Bardin (1977), a análise de conteúdo possui duas funções, ou seja, uma função heurística, na qual existe uma tentativa exploratória, de descoberta do material e uma função de administração de prova, segundo a qual se colocam hipóteses que servem de directrizes que poderão ser confirmadas ou não. Nos termos de Vala (1986), a análise do conteúdo pode ser a posteriori e a
priori, respectivamente.
Qualquer análise de conteúdo pressupõe quatro operações mínimas, nomeadamente a delimitação dos objectivos e definição de um quadro de referência teórico orientador da pesquisa, a constituição de um corpus de estudo, a definição de categorias e de unidades de análise (Bardin, 1977). A estas, Vala (1986) acrescenta ainda a etapa de quantificação. É importante salientar que estas operações não têm que ser efectuadas rigorosamente pela ordem anunciada.
Entendendo o objectivo como a finalidade geral a que nos propomos, os nossos objectivos para esta análise foram:
1) conhecer os traços de personalidade mais marcantes do animador, indicados e percebidos pelos diferentes tipos de entrevistados e ainda se entre estes existe ou não coincidência;
2) conhecer as capacidades e competências fundamentais do animador, indicados e percebidos pelos diferentes tipos de entrevistados e ainda se entre estes existe ou não coincidência;
3) conhecer as funções que o animador exerce nos campos de férias, indicados e percebidos pelos diferentes tipos de entrevistados e ainda se entre estes existe ou não coincidência;
4) conhecer a forma como é realizada a formação do animador, indicados e percebidos pelos diferentes tipos de entrevistados e ainda se entre estes existe ou não coincidência.
Com o intuito de atingir os objectivos mencionados, constituímos o nosso
corpus de estudo, ou seja, as transcrições das entrevistas, respeitando as quatro
regras referidas por Bardin (1977). Ou seja, a exaustividade, de forma a que nenhum dos seus elementos seja excluído, a representatividade face ao universo inicial, a homogeneidade dos documentos, devendo estes obedecer aos mesmos critérios de escolha, e a pertinência, ou seja, a adequação do corpus de estudo enquanto fonte de informação, de modo a corresponder ao objectivo da análise.
Após seleccionado o corpus de estudo, e na continuidade deste processo, efectuámos uma primeira leitura, definida como flutuante (Bardin, 1977), e que consiste em estabelecer contacto com os documentos a analisar, em conhecer o texto, de modo a deixar algumas impressões e orientações. Pouco a pouco esta leitura vai-se tornando mais precisa, em função das hipóteses emergentes.
Posteriormente, passámos à elaboração das categorias que são rubricas ou classes que reúnem um grupo de elementos sob um título genérico ou termo chave efectuado em razão dos caracteres comuns desses elementos. A construção do nosso sistema de categorias foi elaborada a priori, uma vez que surgiram categorias da interacção entre o quadro teórico de partida e o problema a estudar. Assim, as nossas referências teóricas orientaram a exploração do material (Vala, 1986). Seguindo o mesmo autor, tivemos o cuidado de assegurar a exaustividade e a exclusividade dessas categorias, para que todo o segmento de conteúdo pudesse ser colocado numa e apenas nessa categoria.
Finalmente, passámos à elaboração das unidades de registo e de contexto, e à definição das regras de enumeração. Uma unidade de registo é o segmento determinado de conteúdo que se caracteriza colocando-o numa dada categoria.
As unidades de registo podem ser a palavra, o referente, um item, uma personagem ou um tema (Grawitz, 1993). A unidade de contexto é o segmento mais largo de conteúdo que se examina quando se caracteriza uma unidade de registo, ou seja, corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões são óptimas para que se possa compreender a unidade de registo (Bardin, 1977; Vala, 1986). Para esta operação foram necessárias a etapa do inventário, durante a qual se isolam os elementos, e a etapa de classificação, na qual os elementos são repartidos de forma a organizar as mensagens (Bardin, 1977). As regras de enumeração consistem no modo de contagem das unidades de análise. Para o nosso estudo foram definidas como regras de enumeração a presença/ausência de determinada unidade e a frequência. Na análise da presença/ausência de uma dada unidade pretendemos constatar a importância da mesma através da sua presença, assim como discutir a sua pertinência aquando da sua ausência no discurso dos entrevistados. Na análise da frequência, partimos do pressuposto de que quanto maior for o interesse do entrevistado por uma dada unidade maior será a frequência desta no seu discurso, ou seja, uma determinada unidade é tão mais importante quanto maior é a sua frequência (Bardin, 1977).