Como visto anteriormente, a frequência de uso de uma estratégia comunicativa exerce grande influência no processo de constituição de usos mais rotinizados, porque promove um “armazenamento na memória dos detalhes da experiência com a língua, incluindo detalhe fonético de palavras e frases, contextos de uso, significados e inferências associadas a enunciados” (BYBEE, 2010, p. 7)176.
O armazenamento na memória177 desses detalhes faz com que as estratégias comunicativas de uso frequente sejam mais acessíveis e de processamento mais automático. Por isso o processo de automatização, rotinização ou gramaticalização dos usos criativos cumpre a função de agilizar a comunicação, uma vez que se pode chegar a conclusões/compreensões mais rapidamente, demandando menos atenção consciente e menos monitoramento do contexto, à medida que as formas adquirem significados gramaticais, ou seja, significados mais abstratos. A frequência, assim, tanto estabelece quanto mantém a língua/gramática.
Bybee e Hopper (2001), por exemplo, analisam os seguintes efeitos da frequência na rotinização de elementos da língua em uso: (1) redução fonológica em palavras e frases de alta frequência; (2) alteração funcional devido à alta frequência; (3) formação de construções; (4) acessibilidade; (5) retenção de características conservadoras; e (6) noção de que uma gramática estocástica é um resultado do conhecimento
176
“[...] memory storage of the details of experience with language, including phonetic detail for words and phrases, contexts of use, meanings and inferences associated with utterances”.
177
Memória, para Bybee (2016 [2010], p. 27), “se refere à estocagem mental de detalhes da experiência com a língua”.
linguístico com base na experiência. Nessa direção, Bybee (2010), destaca que a frequência ou repetição de itens impacta tanto a (i) a ritualização de fenômenos culturais em geral quanto (ii) a representação cognitiva, estando, por isso, diretamente relacionada com a gramaticalização, uma vez que pode tanto promover mudança quanto
retercaracterísticas[...], mesmo em face de novos
padrõesmorfossintáticosprodutivos.Bybeee Thompson(1997) afirmam que até mesmoconstruçõesmorfossintáticaspodem apresentar essetipo deenraizamento, devido à
força da representaçãodaconstrução (BYBEE,
2003, p. 619)178.
Ainda segundo a autora, a frequência de uso dos itens em processo de mudança é proporcional ao estágio da mudança: quanto mais avançada, mais frequente é o item em mudança, porque a alta frequência token– que se refere ao o número total de ocorrências de um item - desencadeia mudança quanto aos padrões cognitivos de representação, facilitando, assim, o aumento da frequência type – que se refere à frequência dos diferentes tipos de funções exercidas por um item. Pode-se ilustrar esses tipos de frequência com a construção ir + infinitivo: a contagem de ocorrências dessa construção em um corpus, por exemplo, constitui a frequência token, ao passo que a contagem das diferentes funções que ela desempenha constitui a frequência type179.
Afrequência de uso de itens em processo de gramaticalização é, portanto, um importante fator analítico para o diagnóstico do estágio em que se encontram no processo – muito embora há que se ter em conta também que uma construção pode ser frequente em um determinado contexto e isso não representar o estágio de gramaticalização da
178
“High frequency constructions can also retain conservative morphosyntactic characteristics even in the face of new productive morphosyntactic patterns. Bybee and Thompson (1997) argue that even morphosyntactic constructions can exhibit this type of entrenchment due to the strength of the representation of the construction”.
179
Fonseca e Gonçalves (2009), por exemplo, analisando a multifuncionalidade dessa construção no Banco de dados IBORUNA179, examinam as funções do complexo TAM e encontram 550 ocorrências expressando tempo (frequência
token); dentre elas, 532 ocorrências expressando futuro próximo e 18, futuro remoto (frequências type).
construção, além do fato de que, segundo Heine e Kuteva (2007), nem sempre formas gramaticalizadas são mais usadas do que os itens dos quais se originam.
Além disso, “como a gramaticalização não ocorre na verdade com o item – também envolve o contexto em que o item está –, é preciso também se observar a frequência de tudo que aparece junto com ele” (CEZÁRIO, 2012, p. 26; grifos nossos.). Ilustrando a questão com o caso de gramaticalização de verbo pleno a auxiliar (como ocorre com o verbo ir), a autora sugere observar, por exemplo, (i) o tipo semântico de sujeitos, (ii) o tipo semântico de verbos que ocorrem com o verbo em processo de mudança ou mesmo cada item verbal que se combina com ele (na perífrase, por exemplo).
Frente a essas considerações, admite-se que além da criatividade humana em fazer mapeamento entre diferentes domínios e das inferências pragmáticas, há algo a mais (relacionado à frequência de uso das construções) que motiva e conduz o processo de constituição da gramática e cujas consequências se sentem em todos os níveis – do fonológico ao textual (CEZÁRIO, 2012).
2.3 ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA – E (ALGUMAS)
TENDÊNCIAS ATUAIS DA PESQUISA FUNCIONALISTA NO BRASIL
Nesta seção, objetiva-se apresentar brevemente alguns aspectos metodológicos que orientam o campo funcionalista, em geral, e a abordagem da gramaticalização, de modo mais particular. Nesse contexto, focalizam-se alguns aspectos que são considerados tendências atuais dos estudos funcionalistas, segundo indicação de pesquisadores brasileiros.
Do ponto de vista metodológico, o funcionalismo, de um modo mais geral, se ocupa da correlação que se estabelece entre forma e função, no uso efetivo da língua, focalizando, nesse âmbito, a multifuncionalidade dos recursos linguísticos – que pode ou não estar associada ao processo de gramaticalização, à mudança categorial das formas. Ao se dedicar, de um ponto de vista mais específico, ao processo de gramaticalização, o campo funcionalista fornece uma explicação sobre como e por que categorias gramaticais emergem e se desenvolvem ao longo do tempo.
Os estudos de gramaticalização, então, costumam conferir tratamento empírico aos recursos linguísticos, sob três perspectivas: (i) histórica ou diacrônica – investigação das fontes de formas gramaticais
e das etapas de mudança pelas quais passam; (ii) sincrônica – investigação de fenômenos sintático-semântico-pragmáticos do ponto de vista dos padrões fluidos da língua em uso; (iii) pancrônica – investigação que reúne, de modo complementar, as duas dimensões anteriores (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).
Em termos gerais, uma vez definido o fenômeno a ser pesquisado, a primeira tarefa metodológica dos estudos sobre gramaticalização é o estabelecimento de um corpus para a investigação. Como esses estudos, na perspectiva diacrônica, buscam a origem e o percurso de mudança semântico-pragmática e categorial de uma forma, a fim de se detectar as funções que foi exercendo durante a trajetória, dados de diferentes épocas e de diferentes tipos de textos são mais produtivos, uma vez que, como explica Tavares (2003, p. 70), orientando-se por Craig (1991)180, “é raro mapearmos todos os elos de uma cadeia de gramaticalização em textos referentes a um período de tempo particular, mas elos ‘perdidos’ podem aparecer em textos de outro período”.
Já na perspectiva sincrônica, o estudo da gramaticalização é considerado a partir de um ponto de vista sintático e semântico- pragmático, tendo em vista o princípio da persistência (cf. 2.2.3), segundo o qual nuances estruturais e semântico-pragmáticas de uma forma fonte são preservadas na construção em gramaticalização; com isso, dos diversos usos (ou da multifuncionalidade sincrônica) da construção sob exame se pode depreender diferentes graus de gramaticalização e, com isso, projetar, retrospectivamente, seu percurso de mudança. Nos termos de Braga e Paiva (2015, p. 142), nesse tipo de procedimento está implicado
o pressuposto [...] de que os diferentes usos/significados de uma mesma forma/construção [podem] ser alocados em um
continuum segundo o grau de gramaticalidade de
cada uso, continuum este que [corresponde] aos estágios do processo diacrônico que
180
Craig, Colette. 1991. Ways to go in Rama: a case study in polygrammaticalization. In: Elizabeth C. Traugott & Bernd Heine (eds.).
Approaches to Grammaticalization. Vol.2: Focus on Types of Grammatical
[desencadeou] a mudança de estatuto categorial da referida forma/construção.
Contudo, considerando que nem sempre o continuum sincrônico de gramaticalização corresponde aos estágios diacrônicos de mudança (BRAGA; PAIVA, 2015), admite-se que a perspectiva pancrônica atribui um grau maior de adequação e confiabilidade às análises, pois os resultados de análises empíricas de estudos diacrônicos lançam luz sobre a variação sincrônica, explicando, com isso, a distribuição dos usos – que pode se mostrar como aparentemente aleatória.
Seja qual forma a perspectiva a partir da qual se olha para os fenômenos em processo de mudança, os corpora de análise mais produtivos são aqueles cujos dados são provenientes de diferentes épocas e de diferentes tipos de textos, pela razão mencionada. Nesse âmbito, cabe destacar que, considerando que a pesquisa diacrônica pode ser inviabilizada pela ausência de registro de usos de um determinado fenômeno, os estudos funcionalistas podem, nesses casos, ou examinar os graus de gramaticalidade sincrônica de uma determinada construção ou também recorrer a métodos variacionistas desenvolvidos para estudar a mudança linguística em geral, como o do tempo real de curta duração181 (BRAGA; PAIVA, 2015).
Além disso, em qualquer uma das dimensões precedentes, no estudo da gramaticalização o levantamento da frequência de uso é metodologicamente relevante: quantifica-se (i) o número total de ocorrências de um item (frequência token) e também (ii) a frequência dos diferentes tipos de funções exercidas pelo item (frequência type) nos diferentes contextos linguísticos do corpus sob exame – porque a frequência aponta para o grau de gramaticalização da construção, ao mesmo tempo em que promove a gramaticalização (BYBEE, 2003).
Para os fins desta tese, o que mais diretamente importa destacar nesta seção são algumas tendências teórico-metodológicas atuais do funcionalismo (em geral) e do estudo da gramaticalização (em particular), conforme indicações de pesquisadores brasileiros.
De modo geral, destaca-se a reflexão de Sousa (2015) sobre o fato de que, se cabe ao funcionalismo explicar a correlação entre padrões linguísticos e funções comunicativas, a associação entre formas
181
Cf. em Labov (1994) especificações quanto ao tipo de pesquisa denominado
linguísticas e suas propriedades semânticas recebeu historicamente prioridade, uma vez que conforme Givón (1998)182 mesmo adverte, segundo a autora, a intuição semântico-proposicional (sobre agentes, pacientes etc.) (do analista) é mais acessível e replicável do que a intuição pragmático-discursiva sobre a função comunicativa da gramática. O efeito disso, ainda segundo a pesquisadora, é uma falta de uniformidade (quer em termos terminológicos quer em termos de concepção quanto ao que sejam as funções comunicativas) e de abrangência da análise. Mais importante que essa constatação, para os fins desta tese, é a consideração de Sousa quanto ao que motiva esse fato: a “ausência de uniformidade nas concepções [...] do que seja o fenômeno da comunicação edos fatos a ela concernentes passíveis de exercerem pressões sobre as estruturas gramaticais” (SOUSA, 2015, p. 88; grifos nossos).
Em nossa compreensão, essas constatações quanto à falta de consonância, entre os autores, em relação a esses aspectos está no cerne do que Oliveira (2015) aponta como “verdadeiro desafio aos funcionalistas” (p. 22): a questão da tratativa do contexto de uso da língua e da especificação de seus aspectos constitutivos e motivadores dos fenômenos linguísticos. O contexto, segundo a pesquisadora, mesmo sendo uma questão cara aos estudos funcionalistas, ainda “é tratado como entidade vaga, genérica, de contornos pouco ou nada definidos e, por isso mesmo, sua abordagem, tanto do ponto de vista teórico quanto do metodológico, tona-se tarefa de difícil e complexa execução” (p. 22).
Tomando como base a proposição de Croft (2001) e Croft & Cruse (2004), no âmbito dos estudos da gramaticalização de construções183, Oliveira adverte que a análise da dimensão contextual
182
The functional approach to grammar. In: Michael Tomasello (edição), The
new psychology of language: cognitive and functional approaches to language
structure, New Jersey: Lawrence Erlbaum, 1998, p. 41-66.
183
A perspectiva da gramaticalização de construções, conforme formulação de Traugott (2008; 2011), também em interface com estudos cognitivistas na linha de Croft (2001) e Croft & Cruse (2004) – cf. referências em Oliveira (2015) – ,distingue-se da perspectiva da gramaticalização considerada nesta tese (cf. algumas das principais características dessa perspectiva e o modo como pesquisadores brasileiros vêm operacionalizando-a na obra Linguística centrada
no uso: teoria e método, de Oliveira e Rosário (2015), por exemplo). Mesmo
dos usos linguísticos deve dar conta da correlação entre o contexto do nível da forma (em suas propriedades sintáticas, morfológicas e fonológicas) e o contexto do nível da função (em suas propriedades semânticas, pragmáticas e discursivo-funcionais). Assim, no estudo do processo de gramaticalização, todos esses aspectos contextuais devem ser levados em conta.
Especificando ainda mais essa questão, Oliveira cita o estudo de Machado (2010)184, que formulou, para cada um desses seis aspectos contextuais correlacionados, um conjunto de parâmetros implicados nos usos do fenômeno investigado (a construção marcadora discursiva “vamos lá”). Mesmo se referindo a parâmetros constituídos para o exame de um fenômeno específico, destaca-se aqui o parâmetro contextual discursivo-funcional, uma vez que ele convocou questões relacionadas aos participantes da interação, ao gênero e à tipologia textual, no exame de fenômenos em processo de gramaticalização.
Nessa mesma direção, Hopper e Traugott (2003, p. 82) já haviam destacado que “antes de se chegar a conclusões sobre a gramaticalização, é essencial olhar, além de sentenças individuais, para contextos mais amplos”185
, tendo em vista que nos casos em que uma forma se especializa para uma dada função nem sempre as demais formas desaparecem, porque
a especialização não implica necessariamente a eliminação de alternativas, mas pode manifestar-se simplesmente como preferênciastextuais,condicionadas por tipos semânticos, contextos sociolinguísticos, gêneros