gruesa, porque le falta cuerpo, siendo preferibles los aceites ani¬
9. El acite de oliva es el mejor de todos los vegetales. Los
Esta subseção destina-se à apresentação e discussão dos elementos implicados na expressão gramatical de tempo, tomando como ponto de partida uma compreensão lógico-formal da questão, de acordo com as proposições de Reichenbach (1947)22 e de Corôa (2005), até chegar a uma perspectiva funcionalista, tendo em mira principalmente as concepções de Fleischman (1982), de Comrie (1985) e de Givón (2001). Antes, porém, tecem-se algumas considerações gerais à guisa de introdução do tópico em pauta.
Uma das experiências mais ricas que temos no mundo é a experiência temporal. Por meio dela, de maneira geral, contamos nossos dias, organizamos nosso cotidiano, lembramos do que foi e já não é, reclamamos de e/ou apreciamos o ponto em que estamos, e vivemos na expectativa do que pode vir a ser. Tudo isso se relaciona ao modo como percebemos o tempo no fluxo de nossa existência e, uma vez que essa percepção se refere a uma noção conceptual, todas as línguas do mundo codificam, linguisticamente, essa experiência (COMRIE, 1985).
Contudo, há que se distinguir tempo enquanto experiência (percepção) no mundo e tempo enquanto categoria da língua. No inglês, essa especificação está garantida lexicalmente: time, para o primeiro caso; e tense para o segundo. Como não dispomos desse recurso distintivo no PB, buscamos utilizar, ao longo desta discussão,
22
Reichenbach adverte que não devemos nos surpreender se alguns aspectos da língua em uso não se encaixarem no esquema lógico-simbólico proposto por ele, uma vez que a linguagem matemática pode ser coordenada à linguagem real
expressões como tempo verbal, tempo gramatical e categoria de tempo para a expressão gramatical; e tempo para a experiência temporal que temos no mundo.
No português, “[a] categoria linguística TEMPO [...] está gramaticalizada nos tempos verbais” (MATEUS et al., 1989, p.76; grifo dos autores), embora, nas línguas naturais, a categoria verbal não codifique apenas tempo, mas, concomitantemente, funções variadas, tais como valência, voz, aspecto, modo/modalidade e concordância. Qualquer investigação quanto à categoria de tempo, portanto, lida com essa multiplicidade funcional.
A depender do contexto, expressões e itens lexicais também funcionam como localizadores temporais das situações, ampliando grandemente as possibilidades de os sujeitos23 reportarem tempo na língua (COMRIE, 1985, p. 9).
Para além do tempo gramatical e do tempo enquanto experiência no mundo, há mais um tipo de tempo que precisa ser considerado: o tempo que independe de nossa existência ou percepção e também independe da própria língua: o tempo cronológico. Em Corôa (2005) encontra-se a seguinte distinção entre esses três diferentes tipos de tempo:
O primeiro – tempo cronológico – é caracterizado por um ponto em contínua deslocação em direção ao futuro, de duração constante, uniforme e irreversível. O segundo – psicológico – não tem duração constante e uniforme porque existe em função do mundo interno do indivíduo: pode parar, retroceder, acelerar-se, etc. O terceiro –
gramatical – é aquele caracterizado em português
por um radical acrescido dos morfemas típicos (CORÔA, 2005, p. 24; grifos nossos).
Se, nos estudos linguísticos, é comum a compreensão de tempo cronológico enquanto dimensão linear, tal como se verifica no excerto
23
Nesta tese, a princípio, não se faz distinção entre os termos sujeito, indivíduo, falante e locutor, embora carreguem conotações distintas nos campos teóricos acionados ao longo da tese.
precedente, cujas situações24 estão nela localizadas, tempo gramatical é definido justamente como “a gramaticalização da localização das situações no tempo [cronológico]” (COMRIE, 1985, p. vii; grifos nossos). A questão, porém, não é simples, porque a própria localização das situações na linha temporal (tempo cronológico) sofre influência do tempo psicológico, i. é, do modo como os falantes concebem (/percebem) as situações.
Trazendo essas noções para o âmbito das relações entre formas e funções – que é a perspectiva que orienta a tese –, pode-se, grosso modo, associar a ideia de tempo cronológico/psicológico à função, e a ideia de tempo gramatical à forma. Saliente-se, no entanto, que qualquer categoria gramatical envolve não apenas a estrutura da língua, mas também a significação que dada forma codifica. Assim a chamada categoria tempo gramatical carrega, naturalmente, uma associação entre forma (codificação gramatical) e função (significação).
Em vista disso, apresentam-se, a seguir, três noções envolvidas na codificação gramatical do tempo e que, em alguma medida, evocam as ideias de tempo cronológico e tempo psicológico. Tome-se, como ponto de partida, a interpretação lógica sobre tempo gramatical formulada pelo filósofo e matemático Reichenbach (1947), muito difundida na literatura, por ser “bastante próxima das intuições do falante e [que] se aplica bem ao português” (ILARI, 1997, p. 13).25
Esse lógico formalizou uma proposta explicativa sobre o funcionamento da categoria verbal de tempo, alicerçando-se nas seguintes questões: (i) o tempo gramatical determina o tempo cronológico das situações em relação ao tempo do ato de fala; nesse sentido, o tempo (cronológico) ou o momento26 de fala é o ponto de partida para a referência (gramatical) temporal – o que está antes desse momento é passado; o que é simultâneo a ele, presente; e o que está depois dele, futuro, constituindo-se, assim, três tempos verbais; (ii) como o número de tempos verbais nas línguas naturais é maior que três,
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Usa-se situações em referência a eventos, estados, processos, etc. para que não seja necessário especificar a todo instante o conteúdo codificado pelo verbo (cf. COMRIE, 1990). Por essa razão, na localização de situações futuras na linha temporal, conforme a seguir, empregamos o termo ‘Situação’ (‘S’).
25
Vale lembrar que Aristóteles foi o primeiro a abordar a categoria de tempo nos verbos, notando que diferenças na relação temporal com a elocução promoviam diferenças na forma verbal (NEVES, 2002b, p. 42).
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é preciso considerar que a questão é mais complexa: há que se levar em conta ainda o momento de referência que se toma para se reportar às situações, as quais, em relação a esse ponto, podem ser anteriores, simultâneas ou posteriores.
Em vista disso, a explicação de Reichenbach para a constituição dos tempos gramaticais não abre mão de três momentos a serem considerados, quais sejam:
1.
o momento da fala (point of speech, a que o autor se refere comoS27), compreendido como o intervalo de tempo de cada oração no ato da comunicação, referindo-se diretamente ao sujeito que fala;2.
o momento em que ocorre a situação descrita (point of the event, a que o autor se refere como E28), ou seja, o intervalo de tempo que se atribui ao referente de um verbo;3.
o momento de referência (point of reference, a que o autor se refere como R) dos acontecimentos naturais ou históricos, isto é, o intervalo de tempo da contemplação do ato verbal pelo falante que transmite essa perspectiva ao ouvinte (REICHENBACH, 1947, p. 288).Para o autor, é a partir de diferentes combinações entre esses três momentos ou pontos que os diferentes tempos gramaticais se constituem29, conforme se pode visualizar na Figura 330, com destaque (nosso) nas combinações para a expressão do futuro.
27
Para fazer referência a esse momento, utilizaremos ‘F’, em referência à tradução “momento de fala”.
28
Por termos anunciado que faremos referência a situações e não a eventos, utilizamos S e não E para nos reportamos ao momento da situação.
29
Reichenbach sugere 13 combinações possíveis para a expressão temporal nas línguas naturais, embora destaque que a totalidade delas não costuma ocorrer em uma mesma língua e que apenas nove delas são fundamentais.
30
A Figura 3 exibe, além das 13 fórmulas combinatórias, também os nomes sugeridos para os nove tempos, alinhados aos nomes tradicionais no inglês. O leitor deve ainda observar que o autor reúne seis combinações em dois grupos distintos. A um grupo, denomina posterior past; a outro, anterior future. Esses dois grupos contêm três diferentes combinações para um mesmo tempo gramatical, o que significa que diferentes construções gramaticais, apesar de representarem o mesmo tempo gramatical, provêm de diferentes relações entre o momento de fala, o de referência e o da situação reportada.
Figura 3: Proposta da representação gramatical de tempo nas línguas humanas
New Name Tradicional Name
S – R – F Anterior past Past perfect
S, R – F Simple past Simple past
R – S –F
Posterior past _________ R –F, S
R – F – S
S – F, R Anterior past Present perfect
F, R, S Simple present Present
F, R – S Posterior present Simple future
F – S – R
Anterior future Future perfect
F, S – R S – F – R
F – R, S Simple future Simple Future
F – R – S Posterior future _________
Fonte: Reichenbach (1947, p. 297; grifos nossos)
As fórmulas devem ser compreendidas da seguinte maneira: a vírgula representa coincidência entre os momentos; e o hífen, não coincidência. Assim é que no tempo verbal present na nomenclatura gramatical do inglês, e renomeado simple present, na proposta do autor, a fórmula significa que o momento da situação reportada pelo verbo coincide com o momento de fala e com o tempo de referência (F, R, S), como em “I see John” (Eu vejo John).
Em relação à expressão do futuro, a proposta de Reichenbach prevê que o que se denomina, no inglês, simple future, na verdade, pode ter duas interpretações, a depender se o ponto de referência coincide com o momento de fala (F, R – S), ao que o autor designa posterior present, ou se o ponto de referência coincide com o momento da situação (F – R, S), ao que o autor designa simple future. A especificação de um caso ou de outro, segundo o autor, pode decorrer não da morfologia verbal, mas do uso de circunstanciadores temporais – para o autor, em “Now I shall go” (Agora eu deverei ir), o ponto de referência (now) coincide com o momento de fala, ao passo que em “I shall go tomorrow” (Eu deverei ir amanhã) o ponto de referência (tomorrow) coincide com o momento da situação.
Considerando o próprio termo que designa a expressão de futuro em que o ponto de referência coincide com o momento de fala, o posterior present, Reichenbach (1947) assinala também que alguns tempos gramaticais indicam, adicionalmente, duração ou repetição de
uma situação. Um desses tempos é o que o matemático denomina present extended. O autor ilustra a argumentação com a sentença “I am seeing John” (Eu estou vendo John), em que a situação se efetiva no momento de fala, mas não se encerra ao final dela; antes, é uma situação que se prolonga por um tempo. A representação para essa sentença, bem como para o conceito de presente estendido é assim formulada por Reichenbach (1947).
Figura 4: Diagrama representacional do conceito de presente estendido
Fonte: Reichenbach (1947, p. 291)
Isso posto, tem-se que, como essas situações podem ser vistas como, embora localizadas no momento de fala, não limitadas nem necessariamente contemporâneas a ele, mas associadas a uma
fração de tempo que inclui o momento da fala [,]
o presente [pode], às vezes, ser associado ao passado, às vezes ao futuro: identifica-se mais ora
com a parte da fração de tempo que veio antes do momento da fala, ora com a parte da fração de tempo que vem depois do momento da fala propriamente dito (CORÔA, 2005, p. 44; grifos nossos).
Considerando especificamente a expressão gramatical do futuro, a relevância que o falante confere ao estado de coisas do presente para se reportar a situações previstas tem sido descrita como central para a indicação de contextos de futuridade, pois, através da avaliação que os sujeitos fazem do estado de coisas do presente, o futuro passa a ser visto em termos “daquilo que agora constitui futuro” (CORÔA, 2005, p.40; grifos da autora).
Destaque-se, contudo, que nem sempre o momento de fala é o ponto de referência para se reportar a situações futuras. Nesse sentido, em relação à expressão do futuro, há:
(i) casos em que a situação referida é anterior a um ponto de referência, que pode coincidir ou não com o momento de fala, ao que Reichenbach denomina anterior future (no inglês, future perfect); representados a partir das fórmulas F– S – R/ F, S – R/ S – F – R; e exemplificados a partir de “I shall have seen John” – Eu deverei ter visto João [antes de você ir embora];
(ii) casos em que a situação referida é posterior a um ponto de referência, que, por sua vez, é posterior ao momento de fala, ao que o autor denomina posterior future31, não havendo, para essa representação, feita a partir da fórmula F – R – S, termo no inglês; e cuja exemplificação é feita com a sentença “I shall be going to see him” – Eu deverei ir vê-lo [depois de acabar a festa].32
Ademais, para os fins desta tese, destacam-se da proposta de Reichenbach os seguintes aspectos: (i) o momento de fala ou de enunciação33 é que é tomado, como ponto de partida para a explicação dos tempos gramaticais; é, pois, em relação a ele que a situação e o ponto de referência se localizam; (ii) além disso, assume-se que a determinação do ponto de referência a partir do qual as situações são referidas é dada pelo uso contextual da língua: assim, em uma narrativa, explica o autor, os acontecimentos referidos estão no passado, porque são vistos a partir do momento de fala; mas alguns eventos de uma narrativa podem ainda ser referidos em relação ao ponto de referência determinado pela própria história.
As proposições de Reichenbach também estão presentes nas considerações funcionalistas sobre a expressão do tempo gramatical – embora sob uma nova e, por vezes, diferente ótica. Givón (2001), por exemplo, também considera que, para os casos em que a ancoragem ou referência temporal coincide com o momento de fala, as situações que
31
Segundo o autor, o futuro posterior focaliza não a situação, mas a preparação para ela.
32
Note-se que em (i) e (ii) a leitura dos dois tipos de futuro (futuro anterior e futuro posterior) fica mais evidente com o acréscimo (nosso) de circunstanciadores temporais.
33
estão antes desse momento, referem-se ao passado; as que são concomitantes a esse momento, ao presente; e as que estão depois dele, ao futuro, conforme a representação na Figura 5.
Figura 5: Diagrama da representação temporal que se ancora no momento de
fala
Fonte: Givón (2001, p. 286)
Diferentemente de Reichenbach, contudo, depreende-se da figura anterior a concepção de que a expressão do futuro se ancora no momento de fala – visão que só está presente em Reichenbach quando o autor se refere ao posterior presente a uma das representações do anterior future (F, R –S). Para todos os demais casos de expressão do futuro, o autor formalista considera que o ponto de referência não coincide com o momento de fala e sim com o próprio momento do evento, podendo ser identificado por meio de um circunstanciador temporal.
Considerando que passado, presente e futuro seriam tempos naturais (MATEUS et al., 1989, p.76) – porque relacionam, linearmente, o tempo em relação a um momento de referência específico (a saber, o momento da fala) –, o aqui/agora do sujeito que fala é, tanto em Reichenbach quanto na visão funcionalista, o ponto central para a representação temporal, já que se refere ao “ponto zero” da relação espaço-tempo do momento de fala. E tempo gramatical, na literatura funcionalista referida, é categoria relacional ou dêitica, já que relaciona o tempo da situação reportada ao momento de fala (FLEISCHMAN, 1982; COMRIE, 1985), além de ser também: (i) uma propriedade da sentença, já que os morfemas verbais temporais representam uma categoria formal da gramática que indica uma gramaticalização no modo de referenciar tempo (FLEISCHMAN, 1990, p.43); e (ii) uma propriedade da pragmática, uma vez que se ancora em unidades que são externas à língua, tais como o momento de fala e o próprio sujeito (GIVÓN, 2001). A esses tempos que se ancoram no momento de fala, a
literatura da área denomina tempos absolutos (FLEISCHMAN, 1982; COMRIE, 1985; CORÔA, 2005).
Contudo, há casos também em que o ponto de referência para a localização temporal de uma situação não coincide com o momento de fala, mas com outras situações projetadas no contexto. A esses tempos, que não têm o momento presente como centro dêitico, Comrie (1985) denomina tempos relativos. No português, casos típicos de tempo relativo são os que correspondem às formas nominais do verbo (gerúndio, infinitivo e particípio), presentes nas chamadas orações reduzidas. Nesses casos, o tempo é dado, geralmente, pelo tempo do verbo da oração principal – ex: João chegou ao anoitecer (= passado); João chegará ao anoitecer (= futuro).
Além disso, Comrie também considera o caso de tempos verbais que combinam esses dois tipos de referência temporal, tendo, então, como parte de seu significado, referência a uma situação localizada antes ou depois de um ponto de referência que, por sua vez, está localizado de forma anterior, posterior ou simultânea ao momento de fala. A esses tempos Comrie (1985) denomina absoluto-relativos, “uma vez que seu significado combina localização temporal absoluta de um ponto de referência com localização temporal relativa de uma situação” (COMRIE, 1985, p. 65).34
Das discussões sobre tempo absoluto, tempo relativo e absoluto-relativo pode-se inferir que, se os tempos absolutos são dêiticos, os tempos relativos, ao ancorar-se em aspectos linguístico- contextuais (/textuais), são anafóricos, e ostempos absoluto-relativos, por conseguinte, evocam uma perspectiva dêitico-anafórica. Quer de uma forma, quer de outra, a questão é que a literatura da área compreende que “no fundo, o contexto [linguístico] e a situação [extralinguística] operam conjuntamente para determinar a significação das palavras de acordo com a intenção do falante”(VARGAS, 2011, p. 42).
Exemplificando o tipo de tempo absoluto-relativo com o caso do futuro anterior ou futuro perfeito (future perfect) do inglês, uma oração como “I Will have left” (Eu terei saído/partido), para Comrie (1985, p. 69), “indica que há um ponto de referência no futuro e que meu ponto de partida [para reportar a uma situação] está localizado
34
“[...] since their meaning combines absolute time location of a reference point with relative time location of a situation” (COMRIE, 1985, p. 65).
temporalmente antes desse ponto de referência”35
– ou, em outros termos, indica que uma situação futura se localiza antes de um ponto de referência, que é posterior ao momento de fala.
Note-se que Givón (2001, p. 294; grifos nossos) considera que perfect, já que o que está em questão é o futuro perfeito, “é funcionalmente o aspecto gramatical mais complexo e mais sutil” porque envolve, dentre outras características, anterioridade e, às vezes, contra-sequencialidade, associadas, respectivamente, ao fato de que o ponto de iniciação da situação reportada, nesse tempo, precede o ponto de referência temporal, localizado no tempo do seguimento seguinte, tal como na sentença “(Quando ele chegar,) [tempo de referência] Ela (já) terá comido [tempo da situação/do evento]”36
, e ao fato de as situações serem apresentadas fora da sequência quanto à ordem natural temporal, já que primeiro, ela comerá; depois, ele chegará.
A representação desse tempo que, no PB, conta com forma gramaticalizada para sua expressão, pode ser conferida a seguir:
Figura 6: Diagrama representacional do tempo futuro anterior ou perfeito
Fonte: Givón (2001, p. 294).
Para além disso, se Reichenbach considera que alguns tempos gramaticais indicam duração ou repetição, Givón (2001, p. 286) reconhece que situações reiteradas constituem mais um tempo (além de passado, presente e futuro), ao que denomina tempo habitual, também fazendo ver a noção aspectual associada à expressão temporal – embora o que Givón entende como tempo, nesse caso, seja mais comumente tratado na literatura (COMRIE, 1990; TRAVAGLIA, 1994) como aspecto. Nesse contexto, se o formalista reflete sobre os tempos
35
“[...] indicates that there is a reference point in the future, and that my departure is located temporally prior to that reference point”.
36
estendidos, como o caso do presente estendido que, incluindo o momento da fala, associa-se ao futuro, por exemplo, Fleischman (1982) confere grande destaque ao conceito de relevância do presente, segundo o qual o falante estabelece (psicologicamente) uma conexão entre presente e futuro, independentemente do tempo cronológico da situação futura (pode estar distante ou não do momento de fala), já que essa (a situação futura) é avaliada pelo falante como estando relacionada ao estado de coisas do presente.
Justamente por esse motivo, a autora, então, considera que “o futurorepresentauma projeção dealguns de nossosestados mentais e emocionais” (FLEISCHMAN, 1982, p. 80)37
, do que se depreende a forte presença da modalidade na expressão do futuro. Dessa visão funcionalista, infere-se que o modo como o falante avalia/percebe as situações futuras em relação ao presente (conectando-as a ele ou apartando-as dele) pode motivar variações quanto à representação da própria expressão de futuro.
Feitas essas considerações, que põem em relevo a complexidade da expressão gramatical de tempo frente a seus elementos constituintes (quais sejam: o momento de fala, o momento da situação e o momento de referência), passa-se agora a especificar as noções de posterioridade e de futuridade, sob escopo das quais se situa o domínio funcional do futuro do presente. Assim, de uma perspectiva hiponímica, com base em Fleischman (1982) e Görski e Tavares (2017), por exemplo, tem-se a seguinte hierarquia (cf. Figura 2):
Posterioridade (R – S): refere-se a uma situação que, cronologicamente, se projeta à direita de um ponto de referência, que pode estar localizado em qualquer ponto da dimensão temporal;
Futuridade (F – S): refere-se a situações que se estendem para alémdo momento de fala; tomando ou não o momento de fala como referência.
Resta, então, saber, para os fins desta tese, como definir o domínio funcional do futuro do presente, tendo em vista a relação que se estabelece entre os elementos envolvidos em sua expressão. Considerando que em todos os casos o momento de fala está implicado,
37
“[...] the future represents a projection of certain of our mental and emotional states”.
ainda que indiretamente, opta-se, nesta tese, por definir esse domínio