De acordo com a literatura sobre o tema, processos de gramaticalização podem ser acionados por fatores de natureza pragmática/comunicativa, cultural e cognitiva – embora, em nossa compreensão, o último se refira, na verdade, aos mecanismos pelos quais a gramaticalização se desenvolve, conforme se explica a seguir.
Do ponto de vista pragmático/comunicativo, Traugott e Dasher (2005), tendo em vista a complexa relação entre falante/escritor e ouvinte/leitor na interação, em reconhecimento do “papel ativo
dodestinatário/leitor naelaboração de estratégiasretóricas e de indexar e organizaroato comunicativo” (TRAUGOTT; DASHER, 2005, p. 5)150
, chamam a atenção para as inferências induzidas pelo contexto como motivação para o desencadeamento de processos de mudança.
Destacando as relações intersubjetivas, Traugott (2010a, p. 2), para além de considerar a semantização de implicaturas, destaca que “o falante/escritor evoca implicaturas e convida o ouvinte/leitor a inferi- las”151
. Desse modo, para esses autores, uma inferência já nasce da relação entre os participantes da interação – não se trata, portanto, de significados produzidos por um falante apenas, mas por um falante/escritor em sua relação com um ouvinte/leitor.
De igual modo, para Hopper e Traugott (2003), a constituição dos recursos mais rotinizados da língua é dirigida por motivações pragmático-discursivas, entendidas como estratégias comunicativas dos (inter)locutores, uma vez que, tendo experiências muito particulares e individuais com a língua, suas representações cognitivas podem ser diferentes em inúmeros aspectos e, por isso, numa dada interação, precisam assumir a “responsabilidade para o sucesso da comunicação” (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 72)152.
Com esse compromisso, os (inter)locutores transcendem os limites do material linguístico dos enunciados, promovendo adaptações comunicativas, como inferências ou implicaturas conversacionais, para atingirem seus propósitos, constituídos à luz de contextos específicos de interação. Considera-se, pois, que a mudança semântico-pragmática, por exemplo, nodal no processo de gramaticalização, é motivada pela atitude subjetiva do falante, que inscreve sua perspectiva na interação, enriquecendo o que é dito (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).
Essa noção converge com a visão de que
[s]e a língua é um instrumento de comunicação, então é bizarro tentar entender a estrutura sem referência ao contexto comunicativo e à função
comunicativa. Portanto, restrições gramaticais,
regras de sintaxe, transformações estilísticas e
150
“[…] active role of addressee/reader in rhetorical strategizing, indeed indexing and choreographing the communicative act”.
151
“[…] speaker/writer evokes implicatures and invites the addressee/reader to infer them”.
152
coisas assim não estão lá “porque elas são pré- instaladas no código genético do organismo”. Nem estão lá sem razão alguma. Ao contrário,
elas estão lá para servir a funções comunicativas específicas (GIVÓN, 2012 [1979], p. 49, grifos
nossos).
Operando, portanto, com uma concepção interacional de língua, reconhece-se que as intenções comunicativas orientam as escolhas linguísticas:
[o] comunicador humano não é um usuário determinístico de uma gramática autônoma, subconsciente, conforme Chomsky nos faria crer. Ao contrário, ele faz escolhas comunicativas. Ele usa regras para obter um efeito comunicativo (GIVÓN, 2012 [1979], p. 50; grifos do autor). Pelo motivo anterior, então, admite-se que o “elo entre gramática e uso153 se concretiza na relação entre falante e ouvinte, que negociam sentido de maneira interativa, tanto respondendo ao contextoquanto criando contexto” (MARTELOTTA; ALONSO, 2012, p.92).
Já do ponto de vista cultural, Hopper (1998), por exemplo, argumenta que a gramaticalização tem início em tipos específicos de texto. Para exemplificar o ponto de vista, o autor retoma, dentre outros, o estudo de Susan Herring (1991)154 sobre perguntas retóricas na língua Tamil (falada no sul da Índia e também no sul e no leste da África).
Segundo esse estudo, a gramaticalização de frases retóricas nessa língua se iniciou com uma mudança nos hábitos culturais dos falantes: comum entre contadores de história para atrair a atenção dos ouvintes, as perguntas retóricas passaram para a cultura geral dos falantes de Tamil, assumindo a função de organizar as informações nos mais diversos pronunciamentos dos falantes; tornando-se mais
153
Em nossa compreensão, a referência, nesse excerto, à gramática e uso (/discurso) refere-se às faces mais e menos regulares da língua, respectivamente.
154
HERRING, S. The grammaticalization of rhetorical questions in Tamil. In: E. Traugott and B. Heine (eds.). Approaches to Grammaticalization, Volume I. Amsterdam/Philadelphia: Jonh Benjamins, 1991, p. 253-285.
frequentes em um número maior de contextos de uso, essas perguntas se gramaticalizaram na língua (HOPPER, 1998).
Segundo Hopper, o que esse estudo evidencia é que há “uma estreita ligação entrepráticas culturaisespecíficas emudanças linguísticas” (HOPPER, 1998, p. 151; grifos nossos)155, de maneira que um importante princípio dos estudos sobre gramaticalização deve ser a investigação das fontes de um item gramatical, tendo em vista discursos específicos de que derivam.
Para o autor, mesmo que não se tenha certeza dessas fontes, em muitos casos de gramaticalização, o princípio não pode ser invalidado, pois “[n]ão devemos perder de vista o fato de que o contexto [cultural] é muito importante [para os processos de mudança], nem sucumbir muito facilmente à tentação de assumir protótipos cognitivos e saltos cognitivos em cadeias de gramaticalização” (HOPPER, 1998, p. 153; grifos nossos).156
Do ponto de vista das motivações cognitivas, destacam-se as necessidades de resolução de problemas (quanto à representação cognitiva), de modo que, nesse contexto, a gramaticalização consiste no “resultado de um processoque tema resolução de problemas [de representação cognitiva] como seu principalobjetivo, e sua funçãoprincipal éa conceituaçãoexpressandouma coisa emtermos de outra [ao que se denomina] princípio da exploração de significados antigos para novas funções”157
(HEINE; CLAUDI; HÜNNEMEYER, 1991a, p. 150).
Antes de se especificar as motivações cognitivas para esse processo, é importante destacar que, como os problemas de representação só emergem por conta das adaptações contextuais do uso da língua, essas motivações podem ser vistas, na verdade, como decorrentes de problemas de comunicação pragmática. Nesse sentido, as motivações cognitivas para a gramaticalização referem-se, na verdade, a fatores ou mecanismos que ocorrem na mente dos falantes
155
“[...] a close link between specific cultural practices and linguistic changes”.
156
“We should not lose sight of the fact that context is all important, nor succumb too readily to the temptation to assume cognitive prototypes and cognitive leaps in grammaticalization chains”.
157
“[...] result of a process which has problem-solving as its main goal, its primary function being conceptualization by expressing one thing in terms of another [...] principle of the exploitation of old means for novel functions”.
para a efetivação da eficácia comunicativa, tendo em vista a necessidade de se fazer referência a conteúdos para os quais não há designações linguísticas adequadas. Em outros termos, os processos cognitivos considerados no estudo da gramaticalização se referem a processos que criam a estrutura linguística (BYBEE, 2016 [2010]).
Esses processos cognitivos e fatores a eles relacionados, no processamento da gramaticalização, costumam ser assim especificados na literatura: (i) metáfora, (ii) metonímia, (iii) reanálise, (iv) analogia, (v) contexto, (vi) frequência de uso, (vii) inferência, (viii) direcionalidade, (ix) desbotamento ou generalização semântica (HEINE, 2002, p. 84), com destaque ainda para a (x) inferência sugerida (invited inference) e (xi) (inter)subjetivização (TRAUGOTT; DASHER, 2005; TRAUGOTT, 2010a)158. Interessam a esta pesquisa, particularmente, os mecanismos cognitivos da metáfora e da metonímia, e os processos a eles relacionados de reanálise e de analogia, além de também se destacar a unidirecionalidade, a (inter)subjetivização e a frequência – embora nenhum desses aspectos sejam exclusivos do processo de gramaticalização, dado que outros tipos de mudança podem contar com esses mesmos recursos.
Os fatores metáfora, metonímia, reanálise, analogia e direcionalidade podem ser explicados conjuntamente. O processo metafórico, para Hopper e Traugott (2003), é mais impactante no processo de mudança e caracteriza-se por promover o mapeamento de um domínio ou conceito mais abstrato, como os significados gramaticais, em termos de domínios ou conceitos mais concretos, de modo discreto, ou seja, sem estágios intervenientes. Trata-se de uma mudança paradigmática, motivada por analogia, que permite que experiências não físicas sejam compreendidas em termos de experiências físicas.
É o que acontece na gramaticalização do verbo ir, por exemplo, em que tempo é compreendido em termos de espaço (ESPAÇO> TEMPO), em conformidade com uma trajetória unidirecional, em que os domínios à direita (mais abstratos) são compreendidos nos termos dos domínios mais à esquerda (mais concretos). Heine, Claudi, Hünnemeyer (1991a), propuseram a representação a seguir sobre esse tipo de mudança entre domínios conceptuais:
158
Não é objetivo desta pesquisa discutir todos esses mecanismos, fartamente descritos na literatura.
PESSOA > OBJETO > ESPAÇO > TEMPO > QUALIDADE (HEINE, CLAUDI, HÜNNEMEYER, 1991a) Já a metonímia, vista como o processo mais produtivo da gramaticalização (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 87), consiste numa transferência semântico-pragmática, por reinterpretação induzida pelo contexto ou inferência, mediante implicaturas conversacionais, que pode levar a mudança entre as fronteiras dos itens em gramaticalização, por um processo sintagmático de reanálise estrutural. A frequência de uso desses itens reorganizados pode promover a semantização, ou convencionalização, de novos significados que antes estavam apenas implícitos no contexto (HOPPER; TRAUGOTT, 2003). Analogia e reanálise são, portanto, mecanismos associados a metáfora e metonímia, respectivamente.
Assim, enquanto metáfora correlaciona-se com a tarefa de resolver problemas de representação cognitiva, nos termos de Givón (2001), a metonímia e a semantização de inferências pragmáticas correlacionam-se com a resolução de problemas de comunicação pragmática de expressar atitudes do falante, além do fato de que
[m]udança metafórica envolve especificação de uma coisa, mais abstrata em termos de outra, que não está presente no contexto. Mudança metonímica, por outro lado, envolve especificação de um significado em termos de outro que está presente no contexto. (HOPPER, TRAUGOTT, 2003, p. 93)159.
No caso da gramaticalização da construção ir + infinitivo, argumenta-se (BYBEE; PERKINS; PAGLIUCA, 1994; HOPPER; TRAUGOT, 2003) que não se tratou de uma transferência metafórica (espaço > tempo), mas metonímica, em primeiro lugar, tendo em vista que o significado temporal que passou a dominar a semântica da construção já estava presente, como uma inferência, no significado
159
Metaphorical change involves specifying one, usually more complex, thing in terms of another not present in the context. Metonymic change on the other hand, involves specifying one meaning in terms of another that is present, even if only covertly, in the context.
espacial do verbo ir, pois movimento no espaço implica movimento no tempo. Tratou-se, muito mais, portanto, de semantização de inferência pragmática motivada pelo verbo ir e também pela preposição para. Em outras palavras, tratou-se da resolução do problema de expressar atitudes do falante.
Em relação aos fatores ou mecanismos desencadeadores de mudança semântica de que falam Traugott e Dasher (2005) e Traugott (2010a), tem-se a subjetivização e a intersubjetivização, compreendidas como mecanismos independentes do processo de gramaticalização, uma vez que também atuam em outros processos de mudança.
Enquanto (inter)subjetividade refere-se à manifestação sincrônica da subjetividade, (inter)subjetivização consiste em mecanismos diacrônicos de semantização da subjetividade e da intersubjetividade (TRAUGOTT, 2010a). Embora reconhecendo que o fato de haver comunicação entre duas pessoas implica (inter)subjetividade, a questão de pesquisa a que se dedica Traugott (2010a) são itens linguísticos (inter)subjetivizados, ou seja, itens que codificam semanticamente significado (inter)subjetivo e os processos dos quais esses itens decorrem.
Para a autora, subjetivização refere-se a um mecanismo pelo qual significados são recrutados pelo falante para codificar suas atitudes e crenças; e intersubjetivização, a um mecanismo pelo qual significados, uma vez subjetivizados, podem ser recrutados para codificar significados centrados no destinatário.
Destaca-se que a autora sinaliza para uma forte correlação entre gramaticalização e, especialmente, a subjetivização, uma vez que “a gramaticalização por definição envolve recrutamento de itens que marcam a perspectiva do falante” (TRAUGOTT, 2010a, p. 7).160 A gramaticalização da construção ir + infinitivo no PB, e também nas demais línguas românicas em que processos análogos a esse ocorrem, acionou, portanto, o mecanismo da subjetivização, semantizando nuances modais/aspectuais implicadas nos contextos de origem dessa construção. O verbo ir estaria mais subjetivizado na construção perifrástica de futuro que o verbo de movimento, uma vez que “overbo
160
Traugott (2012) também passou a considerar a relação entre intersubjetivização e gramaticalização, principalmente porque tem se ocupado de estudos sobre marcadores discursivos, recursos linguísticos de forte natureza interativa.
de movimentoexige quea direção do movimentosejaancorada tanto nosujeito quanto no pontovista dofalante.Masoauxiliar podeserancorado apenas no ponto de vista subjetivodo falante, e não no ponto de vista de vista do sujeito” (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 92)161
, como em “parece que vai chover”.
Traugott (2010a, p. 18) observa ainda que o que motiva a subjetivização é a “subjetividade do evento discursivo”162
, dada a constante negociação de significados entre falante e ouvinte. Sendo assim, a autora afasta uma visão passiva de gramaticalização e de (inter)subjetivização, reconhecendo que desempenham importante papel na mudança linguística toda a organização social (crianças, adolescentes e adultos) e destacando que um modelo sobre a relação entre os participantes de uma interação é fundamental para a abordagem:“[p]or causa dasalternânciasdêiticasentrefalante eouvintenodiálogo da díade,precisamos de um modelode mudança quedê conta decomo acontece a interação” (TRAUGOTT, 2010a, p. 18).163
Dentre os fatores sobre os quais os falantes podem imprimir sua perspectiva, Traugott (2010a) destaca, dentre outros: (i) tempo, considerando como uma proposição (ou expressão ideacional) se relaciona com o momento de fala ou com a temporalidade de outra proposição; (ii) modalidade, tendo em vista a relativização de uma dada situação em relação às crenças do falante, (iii) pessoa do discurso, pois as de relação mais estreita com o falante são emocionalmente mais salientes, por isso mais propensas a participarem da codificação da subjetivização; (iv) polaridade do enunciado, considerando que a expectativa do falante é incongruente com a negação; (v) tipos de verbos, como verbos de atitude avaliativa e cognitivos; (vi) transitividade, tendo em vista que contextos de baixa transitividade
161
“A similar development to increased subjectivity is evidenced by be going
to; the motion verb requires that the direction of motion be anchored in the
subject as well as in the speaker's viewpoint. But the auxiliary can be anchored i n the speaker's subjective viewpoint alone, not in that of the subject”.
162
“the subjectivity of the speech event”.
163
“Because of the deictic shifts of Speaker and Addressee in the speaking dyad, we need a model of change that accounts for how members of the dyad interact, and aboveall a production model of how speakers construct “arguments about propositions, and [assign] degrees or statements of confidence to those propositions” (Moxey and Sanford 1997: 229)”.
tendem a ser mais subjetivos; (vii) usos ilocucionários de atos de fala; (viii) modais epistêmicos, que codificam a atitude do falante para com a verdade de uma proposição.
Note-se que os fatores (i) tempo, (ii) modalidade, (vii) usos ilocucionários e (viii) modais epistêmicos estão diretamente relacionados com as formas que codificam o domínio funcional da futuridade; já os fatores (iii), (iv) e (v) podem ser investigados, quanto à expressão do futuro, via variáveis independentes (cf. 5.3.2.4.5) , a fim de se detectar a relação entre esses itens linguísticos subjetivizados e a expressão de futuro.
Por fim, cabe novamente acentuar que todos os mecanismos de mudança vistos nesta subseção não são exclusivos do processo de gramaticalização: outros tipos de mudança contam com esses mesmos recursos e, inclusive, tendem a seguir a mesma direção de mudança (concreto > abstrato).
Traugott e Dasher (2005, p. xi), por exemplo, referindo-se à mudança semântica de modo mais abrangente, alertam que as
tendências de mudança [que] são notáveis e amplamente comprovadas, [...] podem ser
violadasgeralmente porcircunstâncias sociais particulares, circunstâncias que variam, considerando desdemudanças de valores ideológicos até o desenvolvimento de tecnologias164(TRAUGOTT; DASHER, 2005, p. xi; grifos nossos).
Nesse sentido, entende-se que universalidade e direcionalidade são características da gramaticalização em termos de tendências gerais que devem ser verificadas a cada fenômeno investigado.
A despeito desse amplo leque de aspectos que, em diferentes instâncias, envolvem a gramaticalização, destaque-se, porém, que a motivação de processos de gramaticalização de fenômenos específicos tem sido mais frequentemente investigada em termos cognitivos e sociocomunicativos ou pragmáticos, com foco na análise de contextos
164
“tendencies that are remarkably widely attested, but that can be violated under particular, often social, circumstances ranging from shifts in ideological values to the development of various technologies”.
linguísticos165 que propiciam a mudança, a despeito do alerta de Hopper de que, se quisermos entender fases iniciais ou finais de processos de gramaticalização, é indispensável observar o uso de textos, a fim de se compreender informações contextuais, “expandindo a imagem do domínio linguístico” (HOPPER, 1998, p. 156).166