4. Risques, blocages et options de sortie
4.7. Quel rôle de l’Etat pour quelle régulation ?
3.2.1. Un régime d’exploitation extensive/intensive
3.2.1.1. Les limites de la mécanisation
A temática da Guerra Fria permeava todos os debates na ESG. Em sua palestra datada de maio de 1954, Gomes (1954, p.1-2) teceu uma análise a respeito do cenário mundial conforme estava configurado àquela época. O elemento de partida foi a identificação das “principais causas da fricção entre os dois blocos de nações” em que o mundo se encontrava dividido, sob a liderança ou influência dos EUA e da URSS151. No sentido de encontrar um ponto de partida para o problema, ele afirmava que por mais complexa que se apresentasse a compreensão das causas das divergências entre o Ocidente e o Oriente, não se poderia “deixar de reconhecer que elas têm origem, principalmente na power politics, a política do poder ou da força, e na política ideológica”.
149 O termo “Geistória” é explicado por Golbery como uma tentativa de atribuir a Geopolítica uma nova
denominação. Isso seria em decorrência das “gravíssimas suspeições” que lhe eram imputadas pela associação que se fazia desse ramo do conhecimento com “imperialismos megalomaníacos”, em uma clara referência ao nazismo (SILVA, 1981b, p. 64).
150 Ibidem, p. 70
151 Não deixa de ser interessante a distinção feita por Rodrigues a respeito da composição das alianças político-
militares que envolviam as superpotências. Os alinhados com os EUA eram definidos como “aliados”; já com os soviéticos, eram denominados “satélites”151. Tais definições, entendo, traziam embutidas as ideias de
liberdade, relativa ao mundo Ocidental, e de imposição, no tocante ao mundo comunista. Justamente à época da sua palestra na ESG, estava em curso a reunião que daria origem ao Pacto de Varsóvia. Ele destacou que o bloco liderado pela URSS colocaria em prática “medidas tendentes à reorganização de suas forças armadas e dos respectivos comandos, bem como o aumento de seu potencial defensivo”, em uma nítida resposta à inclusão da Alemanha Ocidental na OTAN. (1955, p.17 e 19). Naquele contexto, a opinião de Austregésilo de Athayde sobre a Rússia, é de que seria ela portadora de uma falsa mensagem de paz. O imperialismo soviético, cuja face mais visível era a Cortina de Ferro, era o inimigo em “compasso de espera”, enquanto avaliava a hora ideal de atacar o Ocidente. (ATHAYDE, 1955, p.23)
O que se expunha era aquilo que ele denominou “absoluto antagonismo152” entre as ideologias que orientavam os blocos contendores da Guerra Fria153. Evidentemente, a sua fala correu no sentido de destacar as supostas vantagens da ideologia que sustentava o mundo ocidental frente àquela que servia de norte para o bloco dito oriental154. Destacava a “doutrina democrática” estar assentada em duas bases, o individualismo e o Estado personificado na Nação. Tal construção valorizaria “a autonomia e a dignidade do homem-indivíduo, como ente racional, legitimamente portador, portanto de direitos naturais”.
Valores como a “autodeterminação, liberdade, igualdade e participação comum na criação do poder político” eram ressaltados como “conquistas multisseculares da civilização ocidental cristã”, sendo portanto não passíveis de restrições por quaisquer motivos. O marxismo-leninismo, diferentemente, seria um conjunto doutrinário dotado do poder de restringir “a autonomia e a liberdade de consciência crítica, despersonalizando o ser humano e reduzindo-o a simples peça, de utilidade puramente material no complexo mecanismo social”155.
Nesse sentido, a descrição feita da União Soviética e seu poderio pelo diplomata Oswaldo Aranha foi carregado por tons sombrios, que bem expressaram o temor que o poderio do mundo comunista representava para o Brasil e o mundo ocidental. Para ele, aquilo que se poderia denominar como “mundo soviético”, estaria “entre as realidades mundiais que melhor fora nunca tivéssemos que conhecer e enfrentar”. Aranha afirmava que qualquer tentativa de
152 Ver Gomes, 1954, p. 4 e 5.
153 Athayde (1955, p.1-3) comparou a Guerra Fria, em termos de conjuntura político-militar, às Guerras Púnicas,
os conflitos entre Roma e Cartago pela posse do Mediterrâneo ocidental, um “choque entre duas culturas”. Tal analogia aparecia, dentro da realidade contemporânea, na situação mundial demarcada pela existência “de dois centros de força, competindo pelo predomínio e servindo-se para realizar seus objetivos, de alianças ditadas pela geografia e pelo interesse”.
154 Na prática, a definição dos elementos presentes no processo da guerra fria, não era diferente do modelo que pautou a identificação do estrangeiro, amigo ou inimigo, nos contextos históricos de períodos anteriores. Fala- se aqui da definição dada pelo geógrafo Jean Gottmann aos “sistemas de imagens, de valores que distanciam uns dos outros e criam a diferença”, que seriam então as “iconografias”, aplicadas, inclusive, a Estados e coletividades. (GOTTMANN Apud DUROSELLE, 1992, p. 50-51)
155Para Duroselle, em “um país totalitário, onde existe uma única propaganda, a do Estado, do partido único, ela é a tradução da psicologia de um sistema de constrangimento”, exatamente contra o que lutava o mundo ocidental, conforme o pensamento construído e partilhado por Golbery e pela ESG, ocidente este aberto ao pluralismo de ideias, base de uma democracia que abrigava e dava liberdade de expressão, inclusive, às ideias que tentavam lhe sabotar e extinguir. (1992, p. 202)
“ignorar ou mascarar esta realidade” seria o maior dos erros156. Concluiu assim, sua fala, dizendo:
O mundo soviético existe, reúne quase a metade da população mundial e é um novo poder agressivo, técnico, científico, econômico, político e militar que intervirá, queiramos ou não, na vida de todos os povos, seja a da guerra ou a da paz. A ignorância deste fenômeno de nossa parte será não só um erro, como fonte de insegurança para o nosso país. Todos quantos o quiseram ignorar, como os próprios Estados Unidos, estão pagando caro por essa atitude e mais caro pagarão os que entendem que esse novo mundo se renderá ao velho sem lutas, capazes de ameaçar e até subverter a ordem ocidental (ARANHA, 1955, p. 2).