4.1 A PERCEPÇÃO DA ENFERMEIRA SOBRE A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E A DINÂMICA DE PRAZER E SOFRIMENTO: ANÁLISE POR TRIANGULAÇÃO DE DADOS
A análise pelo método de triangulação permitiu confrontar resultados de três diferentes fontes de dados que representavam a expressão de dois olhares distintos sobre o tema estudado, viabilizando a representatividade das partes constituintes desse organismo, com estruturas e sistemas que se interligam e ganham vida na ação do ser humano.
A estratégia de triangulação de métodos na análise e interpretação dos dados nos permitiu, utilizando-nos do pressuposto de Minayo (2005), que os dados da pesquisa estabelecessem um diálogo permanente entre si, respeitando os momentos em que foram tecnicamente distintos e ao mesmo tempo, combinados .
Os dados triangulados emergiram das três diferentes fontes de coleta de dados: as entrevistas individuais, a entrevista coletiva e o resultado do inventário da EIPST.
Para proceder à análise dos discursos proferidos nas entrevistas utilizamos o método de análise dos núcleos de sentido (ANS), uma técnica adaptada a partir da técnica de análise de conteúdo categorial desenvolvida por Bardin (1999), e que caracteriza um olhar particular sobre os dados e informações contidas na mensagem falada, ou nos silêncios, balbucios, repetições e lapsos. Esses elementos reveladores foram levados em consideração no processo de análise desse estudo.
Utilizamos o procedimento sistemático de leitura flutuante e exaustiva de todo conteúdo coletado, identificação dos núcleos de sentido que se encontravam em segundo plano e que foram agrupados conformando quatro categorias que resguardaram os conteúdos das mensagens proferidas, buscando atingir, a partir de significantes e significados manipulados, outros significados de natureza psico, socio, político, histórico e cultural.
O resultado da EIPST nos permitiu processar uma análise qualitativa com referência a diferentes itens relativos às vivências de prazer ou de sofrimento e com referência à classificação geral como satisfatória, crítica ou grave. Na avaliação positiva ou satisfatória procedemos à interpretação das condições da organização do trabalho da enfermeira, que merecem ser mantidas por serem favoráveis às vivências de prazer e ressignificacão do sofrimento e na avaliação negativa (classificação geral crítica ou grave) a sinalização para as
intervenções a médio ou curto prazo, que devem ser implementadas para não se configurar o adoecimento no trabalho.
Os dados coletados sobre a organização do trabalho da enfermeira e a dinâmica do prazer-sofrimento foram submetidos à técnica de análise por triangulação de dados, visando evidenciar as contradições, as discordâncias, as homogeneidades, e quem sabe, suscitar dados divergentes que tencionassem o pressuposto apresentado nesse estudo. Desta forma validaríamos o papel fundamental da pesquisa e do pesquisador na construção do conhecimento sempre inacabado. Descrevemos uma representação triangular com as diferentes fontes de dados e que utilizamos na metodologia dialógica hermenêutica da construção do sentido dos conteúdos expressos pelo sujeito.
Figura 3: Representação da triangulação dos dados coletadas no estudo de caso de um hospital privado da cidade de Salvador, 2007.
Nosso entendimento é que esse método dialoga com os conceitos apresentados pela psicodinâmica do trabalho, à medida que focaliza os processos e produtos centrados no sujeito, os elementos produzidos pelo meio do sujeito e os processos e produtos originados pela estrutura na qual o sujeito encontra-se inserido TRIVIÑOS (1995).
Os dados obtidos através de três diferentes técnicas de coleta de dados, entrevista semi-estruturada, entrevista coletiva e preenchimento da escala de indicadores do prazer- sofrimento no trabalho, permitiram identificar aspectos da organização do trabalho que se relacionam com a dinâmica do prazer-sofrimento no trabalho da enfermeira.
A abordagem da psicodinâmica assegurou a escuta que viabilizou o acesso ao trabalho real executado pelo trabalhador, confirmando que a organização do trabalho não será concretamente refletida se não estabelecer um canal para pensar e falar coletivamente. Foi preciso conhecer e analisar o discurso proferido em um contexto singular, em um dado momento histórico, que confere sentido aos conteúdos manifestos.
Formulário do EISPT Entrevista semi-estruturada Entrevista coletiva A C B
É fundamental ressaltar que a palavra, no instante em que é proferida, age como meio para a inteligibilidade, o que ainda não está na esfera do consciente. Pode-se falar, sem se dizer nada, mas, à medida que a palavra é dirigida ao outro, a objetivação do vivido poderá representar mudanças na gestão coletiva da organização do trabalho. Isso ocorre porque falar com alguém é um meio vigoroso de pensar a experiência vivida subjetivamente (LANCMAN & SZNELWAR, 2004).
A coerência e a interação constantes dos textos produzidos foram observadas na manutenção do mesmo traço semântico com que se processaram as palavras e até pela recorrência e reiteração dos trechos discursados, que revelaram a concepção do mundo, crenças, valores, expectativas, inquietações, entre outros elementos constituintes do meio oculto do enunciador.
Foi observado através dos dados coletados um conjunto de reflexões permeadas de subjetividade que rompeu com o pensamento individualizado e permitiu a construção coletiva de um discurso tecido de convergências, mas com espaço para posições divergentes e complementares que coexistem nas relações de trabalho.
Na construção da identificação individual e grupal elaborada a partir da dinâmica de apresentação (Quadro 2) e da dinâmica da tempestade de idéias (Quadro 3), observamos que a categoria trabalho apareceu em todas as representações elaboradas em uma realidade concreta. Foram referidas palavras que remetem à importância do trabalho na percepção do ser, fazer, sofrer e prazer, como também na construção da identidade a partir do enunciado relacionado a uma data marcante, ao lazer, sonho e habilidades.
No item referente ao sofrer, emergiram palavras que se aplicavam ao contexto de vida e citações específicas à organização do trabalho como dobrar plantão e escala de trabalho e, por fim, a recorrência dos objetivos profissionais como forma de se alcançar o prazer. Essas representações são coerentes com o pressuposto da centralidade do trabalho na estruturação de identidade do sujeito e da sua importância na dinâmica do prazer-sofrimento.
Abaixo, apresentamos dois quadros elaborados com o intuito de demonstrar como a categoria trabalho é referência nas elaborações das enfermeiras que participaram da entrevista coletiva. A partir desses construtos elaborados durante a dinâmica de apresentação no grupo (Quadro 2) e durante a dinâmica de torrente de palavras livremente expressas pelas enfermeiras (Quadro 3) após terem recebido o estímulo de uma palavra-chave que funcionou como disparadora das associações mencionadas.
Quadro 2: Identificação esquematizada pelas enfermeiras participantes da entrevista coletiva, 2007.
NOME DATA
MARCANTE SONHO HOBBY HABILIDADE
GIRASSOL Aniversário da filha Estabilidade: financeira,
emocional e familiar Praia e viagem
Negociação Diálogo TULIPA A formatura: realização de um sonho
Viajar para Paris Ver filmes Ser companheira sempre
ROSA Meu aniversário
Realização profissional (ser enfermeira a vida toda e
destacar-me)
Viajar e sair do
cotidiano Dividir as tarefas
MARGARIDA Aniversário da filha Ter um emprego só Música Ser mãe
AZALÉIA Chegou com atraso e não realizou a apresentação utilizando esse modelo
Quadro 3: Tempestade de idéias para as palavras-chave: Ser – Fazer – Sofrer – Prazer, 2007.
SER