Dejours (1994), apropriando-se dos conceitos trazidos por diferentes autores, apresenta o estado de angústia e as emoções como afetos psíquicos que possuem traduções somáticas, como as palpitações, HAS, os tremores, os suores, as parestesias, as cãimbras, a desidratação das mucosas, a hiperglicemia, o aumento do cortisol sanguíneo, a poliúria, entre as mais citadas.
Na prática, a ocorrência dessas manifestações dificilmente é quantificada como pertencendo ao campo do sofrimento vivenciado no trabalho, apesar da clara expressão de angústia, muitas vezes estampada nos rosto, nos gestos e no olhar. O prazer, a satisfação, a frustração e a agressividade dificilmente se deixam dominar por números. A carga psíquica não é mensurável porque se inscreve na subjetividade, mas é real enquanto vivência no cotidiano do trabalho (DEJOURS, 1994).
A orientação do autor nesse sentido é de que a subjetividade da relação homem- trabalho tem muitos efeitos concretos e reais, e mesmo que sejam descontínuos, encontramos marcas dele no absenteísmo, nos acidentes do trabalho, nas greves ou, paradoxalmente, no presenteísmo, isto é, no engajamento excessivo a uma tarefa como forma de atenuar a dor.
O trabalho pode propiciar sofrimento insuperável para o ego, empobrecendo-o e restringindo sua ação a mecanismos defensivos repetitivos e ineficazes, não lhe possibilitando aferir, de acordo com suas atividades, a satisfação de determinadas pulsões, que, não satisfeitas, tensionariam o aparelho psíquico, gerando angústia, estados depressivos, ansiedade, medos inespecíficos, sintomas somáticos, como sinais marcantes de sofrimento mental. Assim, prazer e sofrimento originam-se de uma dinâmica interna das situações e da
organização do trabalho. São decorrências das atitudes e dos comportamentos franqueados pelo desenho organizacional, cuja tela de fundo constitui-se de relações subjetivas e de poder (HELOANI e CAPITÃO, 2003).
Tomaremos o esquema referido por Dejours (1994) para explicar as três vias de descarga da energia retida que provêm dos estímulos do exterior (origem psicossensorial) e do interior (excitações instintivas e pulsionais): a via psíquica, a motora e a visceral.
Através da via psíquica, o trabalhador, tomado por sua hostilidade, pode eventualmente criar fantasmas agressivos, denominados de representações mentais, que podem por si só ser suficientes para consumir a energia pulsional retida. Outros sujeitos não conseguem relaxar por meio dessa via e utilizarão a via motora para proceder à liberação da pulsão, sob a forma de descargas psicomotoras ou comportamentais. Observa-se nessas circunstâncias a crise de raiva, fuga, atuação agressiva, por exemplo. Por fim, existe a via visceral, que só será utilizada se as vias mentais e motoras não estiverem disponíveis. Nesse caso, a energia pulsional retida é descarregada no sistema nervoso autônomo, provocando desordenamento das funções somáticas. É a via visceral que estará atuando no processo de somatização e é através dessa orientação teórica que buscaremos evidenciar o adoecimento e somatização como manifestações últimas do sofrimento no trabalho.
O bem-estar, em matéria de carga psíquica, advém da liberdade de funcionamento no conteúdo da tarefa, o prazer resulta da descarga de energia pulsional que a tarefa autoriza, com conseqüente diminuição da carga psíquica do trabalho (DEJOURS, 1994).
A partir dos pressupostos apreendidos, consideramos que seria pertinente não favorecer o ocultamento do sofrimento. A busca de mecanismos para expressão do sofrimento no âmbito do trabalho deve ser perseguida. A identificação do sofrimento conduz a importantes indicadores que poderiam ser elaborados com a finalidade de se estabelecer alternativas coletivas para minimizar as zonas de conflitos.
Ocorre que o sofrimento não é escutado pelos pares, pelos gestores e pelos profissionais encarregados de cuidar da saúde do trabalhador, pelo menos não na expressão da sua totalidade, origens e vinculação com o trabalho. Não existem validações dos conteúdos manifestos e, normalmente, a condução dá-se no sentido de fortalecer os recursos pessoais para prover o reajuste psíquico ou através da medicalização excessiva que acabam por conduzir à dependência farmacológica e ao verdadeiro adoecimento. Por quanto tempo ainda observaremos a ansiedade, o medo e as angústias cristalizarem as marcas do sofrimento na somatização? (BRANT, 2005; DEJOURS, 1994).
Na tentativa de assegurar a sua saúde-normalidade, o trabalhador utiliza mediações subjetivas, quer sejam estratégias de defesa, aceleração e negação frente aos constrangimentos do trabalho. Quando as estratégias já não são suficientes para mediar o sofrimento, evidenciam-se diferentes formas de manifestação do sofrimento, expressas consciente ou inconscientemente, pela fala, atos e atitudes, bem como através do adoecimento físico e mental.
Nesse ponto, e sem a intenção de nos distanciar do pressuposto teórico de Dejours, escolhido como caminho norteador das nossas análises, apresentamos a compreensão conceitual trazida por Brant (2004), que postula ser o sofrimento e a dor elementos distintos, mas facilmente confundidos. Segundo ele, em razão de uma visão dicotômica, a palavra sofrimento está associada ao psíquico, ao mental ou à alma. Em contrapartida, a palavra dor é geralmente localizada no corpo.
Diríamos que a dor e o sofrimento, nesse sentido, são como duas partes de uma mesma moeda: inseparáveis, porém não necessariamente complementares. Essa é uma questão que não se restringe apenas ao plano conceitual; dor e sofrimento coexistem no sujeito e a sua expressão não deve ser reconhecida apenas no adoecimento físico ou mental.
O processo de adoecimento no trabalho normalmente ocorre de forma silenciosa e invisível, como resultante de exposição contínua, prolongada, permanente ou intermitente aos agentes agressores ambientais e organizacionais. Os fatores que desencadeiam o sofrimento no trabalho se articulam a um sujeito particular, com diferentes modos de interagir e adoecer, portador de uma história singular pré-existente ao seu encontro com o trabalho. Nasce daí a proposta de colocar-se disponível para escutar, um modelo apresentado por Dejours a fim de compreender o que ocorria com o trabalhador e quais as suas defesas contra o adoecimento.
Optamos pela metodologia da psicodinâmica de Dejours (1993, 1994, 1999, 2005), por compreendermos que será possível dialogar de forma coerente e consistente com o objeto desse estudo, o sofrimento vinculado à forma como se organizam o trabalho da enfermeira e a psicodinâmica do trabalho.
De forma esquematizada, traduzimos nossa compreensão sobre a dinâmica do sofrimento e como se processa a sua ressignificação em prazer na organização do trabalho, através de uma metáfora da balança, onde a organização do trabalho pode funcionar como eixo da saúde psicofísica do trabalhador.
O esquema apresentado abaixo busca direcionar a análise da dinâmica do prazer- sofrimento sobre o eixo da organização do trabalho em uma base estruturada, com os conceitos considerados na psicodinâmica como elementares para que ocorra o processo de
ressignificação, evitando a evolução do sofrimento psíquico em sofrimento patológico e adoecimento.
Figura 1: A Organização do Trabalho como pilar na transformação do sofrimento em prazer, 2007. IMPOSSIBILIDADE DE
RESSIGNIFICAR
USO INADEQUADO DAS ESTRATÉGIAS INDIVIDUAIS
Ocorre uma latência que permite ignorar e negar o sofrimento e suas causas. Se
persistirem as causas e a negação, o trabalhador obstaculiza o pensar, agir e lutar. É nesse instante que se
observa a banalização das injustiças e práticas antiéticas e
aceitação do mal. SOFRIMENTO PATOLÓGICO RESSIGNIFICAÇÃO TRANSFORMAÇÃO USO EFICAZ DE ESTRATÉGIAS INDIVIDUAIS OU COLETIVAS Ocorre a possibilidade de se explorar a subjetividade, a criatividade e inventividade na
execução das tarefas – é a personificação do modus operandi favorável à integralidade e realização do trabalhador. PRAZER SOFRIMENTO O R G A N I Z A Ç Ã O D O T R A B A L H O
Mobilização da inteligência prática Espaço público da fala
Cooperação Reconhecimento Trabalho com investimento Sublimação e simbolismo
3 METODOLOGIA