COMITE EXECUTIF
III.2.3. Principaux dirigeants
Em 2010/2011 foi realizada mais uma edição de curso de formação dirigido a profissionais da educação da educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; estudantes de licenciatura; gestores da educação e demais profissionais que atuam na escola intitulado IGUALDADE DE GÊNERO NA ESCOLA: ENFRENTANDO O SEXISMO E A HOMOFOBIA65 que teve como objetivos:
Oportunizar o acesso a um referencial teórico que faça a discussão de conceitos como igualdade de gênero, homofobia, sexismo e diversidade sexual
Provocar reflexões críticas entre os profissionais da educação sobre a construção dicotômica de gênero em nossa sociedade e suas consequências quanto à discriminação, preconceitos e violências;
Contribuir para a reflexão da importância da promoção da equidade de gênero e o reconhecimento da diversidade sexual e o enfrentamento ao sexismo e a homofobia.
A elaboração e planejamento desse curso foi feita com base nas experiências anteriores onde o grupo de pesquisa - GeTec - já havia trabalhado com cursos para professores abordando e problematizando as questões que envolvem gênero e educação, as concepções e consequências das discriminações e preconceitos dessa natureza na escola.
A edição do curso do ano de 2010/2011 foi ofertada para mais de 500 profissionais da educação. A organização dos conteúdos se deu em cinco módulos e mais a elaboração de um projeto de intervenção desenvolvido pelos participantes do curso visando à passagem das aprendizagens para uma ação voltada às suas necessidades práticas nas escolas.
Os módulos presenciais variaram entre 10 e 15 horas, num total de 60 horas/aula presenciais e mais 20 horas para confecção do trabalho final, com o seguinte programa:
Módulo 1 (10 horas/aula):
Gênero, sexualidade e diversidade sexual
Apresentação do curso;
Breve trajetória histórica dos conceitos de gênero e sexualidade;
Diversas abordagens para gênero, sexualidade e diversidade sexual;
Construção do feminino, masculino e da heterossexualidade normativa e suas implicações;
Diversidade sexual (LGBTT);
Módulo 2 (15 horas/aula):
Gênero, educação e diversidade sexual
Enfoques teóricos sobre educação e gênero;
Gênero e diversidade sexual no Ambiente Escolar: nos livros didáticos; nos intervalos; datas comemorativas; currículo explícito e oculto
Combate à homofobia e sexismo no ambiente escolar;
Direitos humanos e inclusão no ambiente escolar.
Módulo 3 (10 horas/aula):
Gênero, diversidade sexual, ciência e tecnologia.
Divisão sexual do trabalho e dos processos de formação profissional: escolha da profissão e gênero; Invisibilidade da mulher na ciência;
Gênero, diversidade sexual e a identificação com as disciplinas escolares;
Gênero e diversidade sexual no acesso, produção e uso de tecnologias;
Tecnologias de reprodução humana;
Tecnologia como facilitadora/propagadora das violências de gênero.
Módulo 4 (10 horas/aula):
Gênero, diversidade sexual e mídia
Representações e manifestações de gênero, diversidade sexual, sexismo e homofobia na mídia impressa, internet, cinema e televisão.
Módulo 5 (15 horas/aula):
Enfrentamento às violências de gênero
Violência contra a mulher, sexismo e homofobia
Construção e naturalização social da violência;
Direitos humanos, Políticas públicas,
Promoção dos direitos sexuais e reprodutivos.
Políticas para promoção da equidade de gênero - políticas de gênero, políticas para as mulheres, políticas de criminalização da homofobia; e inclusão social;
Formas de enfrentamento da violência, do sexismo e da homofobia;
Políticas públicas de combate à violência - Lei Maria da Penha; Programa Brasil sem Homofobia; redes de combate à violência contra a mulher;
Módulo 6 (20 horas/aula)
Projeto de intervenção educacional
Os participantes do curso, individualmente ou em grupo, desenvolveram um projeto de intervenção educacional que seria aplicado em sua escola com o apoio da comunidade escolar como requisito obrigatório para conclusão do curso.
Carga horária total: 80 horas/aula, das quais 60 horas/aula distribuídas em
cinco módulos presenciais e 20 horas destinadas a elaboração, discussão e apresentação de projeto de intervenção educacional.
As aulas foram realizadas nas dependências da UTFPR nas sextas-feiras à noite e sábados o dia todo. A metodologia mais utilizada foi de aulas dialogadas, visto que, a necessidade dos e das cursistas de participar com exemplos e dúvidas nesse tipo de curso geralmente é grande. Com apresentações do conteúdo teórico em power-point, com discussões e exemplos relacionando os conteúdos com a prática pedagógica, mais a utilização de vídeos com campanhas e documentários relacionados aos temas as aulas presenciais foram expandindo e aprofundando as discussões.
No módulo de gênero e educação, por exemplo, foram trabalhados os livros didáticos e também livros de literatura infantil como espaços de representações de gênero a serem observados e problematizados66. Assim cada módulo, sob a responsabilidade de uma docente-pesquisadora do então Grupo de Estudos e Pesquisas sobre gênero e Tecnologia –GeTec, da UTFPR, foi trabalhado com os cursistas envolvendo teoria, discussões e possibilidades de ação pedagógica.
Nesse curso a participação da(o)s cursistas foi grande. Houve o mesmo movimento de reconhecimento das desigualdades, preconceitos e estereótipos relacionados ao gênero, raça, orientação sexual e classe social. Da mesma forma que nas edições anteriores houve uma série de relatos, alguns carregados de emoção em todas as turmas. Assim como Rohden e Carrara (2008) colocam em sua avaliação das turmas que passaram pelo projeto-piloto do curso de Gênero e Diversidade na escola em 2006 pelo CLAM-UERJ, e Cabral e Minella (2009) relataram sobre sua experiência com o curso GDE, alguns aspectos percebidos pelos docentes daqueles cursos foram percebidos nesse curso e em suas edições anteriores.
A disposição para o debate vinda pelo reconhecimento das mudanças na vida social, a compreensão que a sociedade, a família, as instituições vêm passando por mudanças estruturais e que a escola e os educadores estão implicados nessas mudanças é ponto comum nos relatos. A urgência de uma escola alinhada com a defesa dos direitos humanos e da igualdade de direitos também se faz presente nos discursos dos docentes, assim como o reconhecimento de que a escola que se tem é baseada em desigualdades, preconceitos e estereótipos dos mais variados. Esse reconhecimento apareceu sobretudo nos relatos pessoais, em várias situações a teoria trabalhada foi ilustrada e exemplificada pelos próprios participantes67.
No entanto a escola que se vive parece estar baseada em valores de outras épocas bem sintetizado por Silva e Silva (2009, p. 104):
66 Detalhes sobre como o trabalho foi realizado podem ser conferidos em Tortato (2008).
67 Silva e Silva (2008) comentam sobre os relatos pessoais em sua experiência com o GDE em Santa
Nas falas das cursistas, fica bem claro que a escola ainda é representada a partir dos ideais iluministas, sendo o aluno a representação de um modelo ideal inexistente na atualidade tanto quanto no passado, quando forjado sob os auspícios do poderoso padrão hegemônico: homem branco e heterossexual, consciente do papel da escola e do Estado em seu percurso linear em busca do ideal civilizatório e modernizante.
Uma situação frequente durante as aulas foi o “descobrimento” do próprio preconceito (ROHDEN; CARRARA, 2008, p. 23), muitas vezes esse descobrimento foi colocado pelas próprias colegas de curso num exercício de tornar o invisível visível. Esses momentos frequentemente eram circundados de importantes reflexões e conexões sobre os temas trabalhados e a vida pessoal e profissional.
Outro argumento comum entre a(o)s docentes foi a dificuldade com os temas de gênero e diversidade sexual por desconhecimento o assunto ou insegurança quanto à sua capacidade de trabalhar com esses assuntos. Muitos dizem preferir recorrer a especialistas (ROHDEN; CARRARA, 2008). A questão da diversidade sexual apresentou-se como um grande desafio para a(o)s participantes do curso em todas as edições. Uma postura frequente foi de contra argumentar, frente às questões da diversidade sexual com dogmas religiosos fazendo com que posturas pessoais definissem a discussão. Percebeu-se que uma das bases dessa dificuldade relaciona-se a uma interpretação essencialista e biologizante do masculino e do feminino. A sexualidade de forma geral revelou-se como um assunto difícil e evitado pela(o)s docentes, como diz Deborah Britzman (2000, p. 85), “a cultura da escola faz com que respostas estáveis sejam esperadas e que o ensino de fatos seja mais importante do que a compreensão de questões íntimas”.
A justificativa dada quanto ao receio em trabalhar com os temas do curso está relacionada à reação das famílias, da direção, dos pares, e vinha sempre com uma marcação da heterossexualidade como norma e da patologização do diferente. Termos como anormal, antinatural, inaceitável, esquisito, representam a dificuldade de entender a sexualidade como um dispositivo histórico (FOUCAULT, 1988) e superar os binarismos. Silva e Silva (2009, p. 103) chegaram a percepções semelhantes: “Conceitos como identidade(s) e heteronormatividade foram os mais difíceis de aprofundar, pois careciam, para além das leituras, de um tempo maior para amadurecer”.
As dificuldades foram diminuindo conforme as pessoas iam se apropriando dos conceitos e elaborando outras formas de entender e interpretar a si mesmas e
aos outros. A abordagem de questões relacionadas como violência, mídias, direitos humanos, trabalho, etc., foram oferecendo novas dimensões para os conhecimentos e ampliando, segundo os próprios cursistas, as suas aprendizagens. Como docente do curso esta pesquisadora passou pelo processo inteiro e presenciou, mais de uma vez, a intensidade desse trabalho. Dessa vivência veio a ideia de pesquisar e documentar os impactos que esse curso causou na prática pedagógica e na vida pessoal da(o)s participantes.
A realização desse curso proporcionou material de pesquisa e aprofundamento para o grupo de pesquisa e culminou na publicação do livro Igualdade de gênero: enfrentando o sexismo e a homofobia organizado por Lindamir Salete Casagrande, Nanci Stancki da Luz e Marília Gomes de Carvalho, coordenadoras do curso e docentes no mesmo. O livro foi publicado em 2011 (CASAGRANDE et al., 2011). A avaliação do curso foi feita no final por parte das (os) cursistas que preencheram uma ficha de avaliação geral onde apontaram pontos positivos e negativos relativos relativos ao curso ou aos módulos. Os projetos de intervenção propostos pelas (os) participantes foram avaliados por docentes do curso quanto à sua pertinência aos objetivos propostos.
É importante mencionar que a proposta pedagógica do curso não relaciona o mesmo com empoderamento feminino, essa premissa não consta especificamente nos materiais do curso, nos conteúdos dos módulos nem nas especificações oficiais. A relação entre o conhecimento das questões de gênero e empoderamento feminino está sendo suposta por esse trabalho com base na fundamentação teórica da pesquisa, do curso e nas observações feitas a partir da experiência da pesquisadora como docente.