Uma vez que os conceitos da estratigrafia de sequências clássica não podem ser diretamente aplicados às bacias rifte, tornou-se necessária uma reavaliação de alguns parâmetros (como o contexto tectônico, a evolução e estruturação geométrica da bacia e os fatores controladores da sedimentação) bem como a aplicação de premissas para a análise estratigráfica.
De acordo com Kuchle et al. (2005), o semi-graben consiste em uma unidade estrutural básica de um rifte e é composto por uma rampa de declive variável e uma falha de borda (Figura 3.1). Em um semi-graben isolado, a região que sofre um movimento ascendente relativo, ou seja, soerguimento é chamada de footwall, ao passo que aquela que sofre subsidência é chamada de hangignwall. No caso de semi-grabens adjacentes, a atividade tectônica (pulso tectônico) ocasiona a rotação da rampa. O setor que sofre subsidência, pertence ao hangingwall do semi-graben, enquanto a porção soerguida corresponde ao footwall do semi-graben adjacente. O ponto de divisão corresponde ao till
Rapozo, B. F. - Evolução tectono-estratigráfica da porção central da Bacia do Rio do Peixe, NE do Brasil point (ponto de rotação), cuja posição varia no espaço ao longo do tempo, a depender da intensidade do pulso tectônico gerador (Kuchle et al., 2005).
Figura 3.1 – Unidade estrutural fundamental de um rifte. Proposta de compartimentação interna de um semi-graben isolado, constituído pelo hangingwall (setor que sofre subsidência) e footwall (setor que sofre soerguimento), divididos pelo till pont (Kuchle et al., 2005).
Bosence (1998) afirma que dentre os fatores controladores da sedimentação em bacias rifte, além da tectônica, o magmatismo e o clima também exercem influência sobre as taxas de criação de espaço de acomodação e de aporte sedimentar. Kuchle et al. (2005), por outro lado, definem seis parâmetros controladores do preenchimento nos riftes, que serão explicados a seguir.
A tectônica, conforme dito anteriormente, constitui o principal fator controlador da estratigrafia nos riftes, exercendo um papel fundamental na preservação sedimentar, uma vez que todo espaço de acomodação é gerado por pulsos. Considerando a rotação dos blocos, um pulso tectônico, na verdade, é capaz de criar espaço de acomodação ao mesmo tempo que destrói.
O Clima, embora não seja um fator determinante para a formação dos riftes, uma vez que ocorrem em todas as zonas climáticas do mundo (Bosence, 1988), é fundamental para o preenchimento e preservação (Kuchle et al., 2005). Determinadas condições
Rapozo, B. F. - Evolução tectono-estratigráfica da porção central da Bacia do Rio do Peixe, NE do Brasil climáticas influenciam diretamente os padrões, os tipos litológicos e os diferentes estilos de sedimentação, controlando as taxas de transporte e de acumulação, intemperismo e erosão, variações no nível de base, ocorrência de rochas carbonáticas, o rumo da diagênese, etc. (Bosence, 1998).
O aporte sedimentar, por sua vez, resulta da interação da tectônica com o clima, controla o preenchimento da bacia e define os padrões de empilhamento. Como a sedimentação em semi-grabens ocorre preferencialmente na margem flexural, os padrões de empilhamento progradacionais são observados no sentido da margem para o depocentro, ao passo que padrões retrogradacionais partem do depocentro em direção à margem flexural (Kuchle et al., 2005).
O espaço de acomodação, conforme supracitado, é controlado pela tectônica, pois de acordo com Kuchle et al. (2005) "não existem bacias sedimentares sem a criação de espaço, não existe preenchimento sucessivo sem um incremento no espaço criado, e não existe preservação se houver destruição do espaço até então criado”. Entretanto, o preenchimento do espaço de acomodação disponível, através da erosão, transporte e deposição, é controlado pelo comportamento do nível de base (nível do lago, nível freático ou perfil de equilíbrio fluvial) que, por sua vez, é diretamente influenciado pelo clima.
O magmatismo é considerado um fator controlador da ocorrência de riftes, visto que a ocorrência de magmatismo é um forte indicativo de rifte ativo, quando associado a plumas mantélicas. Por outro lado, em riftes continentais as variações eustáticas, apesar de subordinada aos fatores supracitados, são associadas ao nível do lago (Kuchle et al., 2005). As variações no nível de base constituem o parâmetro que baliza o preenchimento do espaço de acomodação disponível.
Outro aspecto importante a ser discutido na evolução de riftes é a relação de contemporaneidade entre eventos deposicionais e erosivos. Isto ocorre porque a rotação do bloco gerada a partir de um pulso, como discutido anteriormente, cria espaço de acomodação no hangingwall por subsidência, possibilitando a deposição, ao mesmo tempo que destrói espaço no footwall por soerguimento, gerando erosão (Figura 3.2 a). Assim, eventos deposicionais são cronocorrelatos a eventos erosivos no semi-graben (Kuchle 2004; Kuchle et al., 2005, 2007). Nestes mesmos trabalhos, discute-se o atraso
Rapozo, B. F. - Evolução tectono-estratigráfica da porção central da Bacia do Rio do Peixe, NE do Brasil da deposição do aporte sedimentar em relação ao pulso tectônico gerador. Isto ocorre porque um pulso tectônico cria, instantaneamente (no tempo geológico) espaço de acomodação, mas a área fonte disponível leva um período maior até ser erodida, transportada e depositada. Desta maneira, espera-se para esse contexto, uma sucessão vertical de folhelhos lacustres profundos, sotoposta a arenitos e sedimentos grossos deltaicos e costeiros lacustres associados à progradação atrasada (Figura 3.2 b).
Figura 3.2 – Modelos propostos por Kuchle et al. (2005): (A) para a relação de contemporaneidade entre a deposição no hangignwall e erosão no footwall, e (B) para a chegada atrasada do aporte sedimentar em relação ao pulso gerador. Retirado de Kuchle et al. (2005).
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3.3 MODELOS TECTONO-ESTRATIGRÁFICOS DE EVOLUÇÃO DE