CHAPITRE 1 : Recension des écrits scientifiques
1.6 Les pratiques d’intervention les plus répandues face au suicide
1.6.1 Les pratiques en prévention du suicide
Após o séc. III d.C., o modo de interpretação plotiniana do Parmênides de Platão e a esquematização da realidade em hipóstases passam a ser uma constante em todo o neoplatonismo de cunho pagão. No entanto, “[...] depois de duas gerações, a tensão dialética dos opostos, que é central no sistema plotiniano, ameaçava introduzir afirmações de incompatíveis significações; e a ‘unificação’ (ἕνωσις) deixou de ser uma experiência ou ideia
viva para ser uma formula de piedade nos lábios dos mestres”147. Teria sido o método
introduzido por Jâmblico que teria sustentado o pensamento grego neste período148. Tal posição
parece justificável, dado que a introdução de elementos religiosos no inteiror do sistema não só sustentou a dialética dos opostos, como se contrapõs e protegeu o espírito durante a vigência do Édito de Milão e da expansão do cristianismo, que se deu nos primeiros séculos da nossa
144 Berti, para tratar da passagem da unidade à multiplicidade nos sistemas neoplatônicos se utiliza do termo Emanação. No entanto, para tratar da passagem da unidade à multiplicidade optamos por utilizar o termo
Processão, dado que o termo mais utilizado em grego para se referir à tal passagem é πρóοδος. Ademais,
entedemos que o termo processão é o que melhor se adéqua ao pensamento neoplatônico por refletir a concepção de um processo marcado por três momentos: processão, permanência e retorno. O movimento de Processão, diferente do que seria em um movimento emanatório, não tem um fim, dado que na processão sempre há o retorno e o proceder da e para a causa.
145 BERTI, Enrico. No princípio tudo era maravilha: as grandes questões da filosofia antiga. Tradução Fernando
Soares Moreira. São Paulo: Loyola, 2010. p. 55.
146 PLOTINO, Tratados das Enéadas, V4, 2.
147 “But within two generations the dialectical tension of opposites which is the nerve of the Plotinian system was
threatening to snike into a meaningless affirmation of incompatibles; and 'unification'(ἕνωσις) had ceased to be a living experience or even a living ideal and had become a pious formula on the lips of professors”. DODDS, Op.
cit., 2004, p. XIX.
era. Com Jâmblico teve início o que seria classificado como o neoplatonismo de tendência especulativa-teúgica. Diretamente ligada à tentativa de salvaguardar o politeísmo grego está a multiplicação das hipóstases, que se configura como uma das principais características do sistema de Jâmblico. Tal multiplicação é fundamental para o neoplatonismo tardio porque é por
ela que o panteão grego é inserido nos sistemas filosóficos149.
Como Plotino, Jâmblico interpreta o Parmênides de Platão considerando uma análise do Uno e o faz dividindo o diálogo em nove hipóteses que corresponderiam aos graus
da realidade. As hipóstases seguiriam esta ordem150:
a) Deus e os deuses;
b) Os intelectivos e os inteligíveis;
c) Os seres superiores (anjos, demônios e heróis);
d) Almas racionais;
e) Almas de patamar inferior;
f) Formas unidas à matéria;
g) Matéria;
h) Corpos celestes;
i) Corpos sublunares.
Contudo, vale ressaltar que mesmo sendo o iniciador de uma forma de raciocínio, Jâmblico é pouco reconhecido na história da filosofia, uma vez que sobre sua metafísica o que nos resta ou é dado por Proclo em seus comentários, ou em alguns fragmentos conservados por Stobaeus, ou ainda no tratado Sobre os mistérios egípcios, ou De mysteriis, que é uma refutação da Carta a Anebon, de Porfírio, em que Jâmblico defende a teúrgia contra os ataques de Porfírio151.
Mesmo não sendo devidamente reconhecido na história da filosofia, é um erro não dar os devidos méritos às ideias de Jâmblico, que nesta pesquisa é de grande importância, já que é com ele que se dá a multiplicação das hipóstases. No Comentário ao Timeu de Platão, Proclo indica o início da multiplicação que ocorre no sistema de Jâmblico. Segundo o Bizantino,
o sistema do Sírio é marcado pela multiplicação triádica de cada hipóstase, é dito: “Ele atribui
ao Demiurgo, depois as tríades de Deuses Inteligíveis e as três tríades de Deuses ‘Inteligíveis
149 Cf. REALE, Op. cit., 2008, p. 161.
150 Cf. SAFFREY; WESTERINK, Op. Cit., 1968, p. LXXXII-LXXXIII.
151 FINAMORE; DILLON. Introduction. In: IAMBLICHUS. De Anima. Text, Translation and commentary by
e’ Intelectivos, o terceiro lugar entre os Pais na sétima tríade, o Intelectivo.”152 Como se vê,
ademais da divisão triádica das hipóstases, tem-se, no sistema de Jâmblico, a admissão de deuses. E, ainda que na citada passagem não haja referência a deuses específicos do panteão grego, coisa bem diferente ocorre na grande maioria das referências a Jâmblico no Comentário
ao Timeu de Proclo153.
Diante da introdução dos deuses gregos no sistema filosófico, uma estrutura que culminou no desenvolvimento dos sistemas da escola de Atenas já pode ser vista quando se tem em conta que a escola siríaca é central para as vertentes do neoplatonismo que surgiram após ela.
Do sólido tronco da metafísica plotiniana, enraizada em Roma e mantida viva no mesmo lugar pelos ensinamentos de Porfírio, saiu uma potente luz da Escola da Síria, representada por Jâmblico, que conseguiu combinar a metafísica plotiniana com as teorias e as práticas da theúrgia em voga no oriente grego. A escola siríaca dá duas ramificações de desiguais valores: de um lado, a Escola de Pérgamo, francamente voltada para a magia e abandonando inteiramente o velho racionalismo grego; de outro, a Escola de Atenas, ramo vigoroso que virá a se enxertar sobre o velho toco da Academia de Platão e a fará dar seu último fruto na tentativa de desabrochar a flor do platonismo sob o sol místico da religião pagã.154
Uma vez que se tem claro a associação entre religião e sistema filosófico, torna-se cada vez mais evidente a filiação do Bizantino ao Sírio. Isto porque a tendência especulativo- teúrgica é seguida pela escola de Atenas, escola na qual Proclo se associa em 430. Faz-se importante falar da escola de Atenas antes de ocupar-nos da formação de Proclo propriamente dita, já que foi nesta escola que o Bizantino redigiu suas obras. Antes de discorrer sobre a reabertura da escola por Plutarco de Atenas no séc. IV, é interessante pontuar que apesar de ter havido um contato entre a filosofia desenvolvida em Atenas e a fundada por Plotino, durante o séc. III, quando Eubolos presidia os estudos de filosofia platônica em Atenas - Porfírio informa que Plotino tinha contato com o então Diadoco -, não se pode falar de uma influência múltua.
152 « Il attribue au Démiurge, après les triade des Dieux Intelligibles et les trois triades des Dieux <Inteligible et>
Intellectifs, le troisième rang parmi les Pères dans la septième triade, l’Intellective ». PROCLUS. Commentaire
sur le Timée. Tome II. Traduction et notes par A. J. Festugière. Paris : J. VRIN, 1967. 308.20-23.
153 Uma das citações em que se pode ver a introdução dos deuses no sistema filosófico é no passo 65.10 - 67.19
do quarto livro do Comentário ao Timeu de Proclo. PROCLUS. Commentaire sur le Timée. Tome IV. Traduction et notes par A. J. Festugière. Paris : J. VRIN, 1968.
154 “Du tronc solide de la métaphysique plotinienne, enraciné à Rome et maintenu vivant sur place par
l’enseignement de Porphyre, est sortie la branche puissant de l’École de Syrie, illustrée par Jamblique qui réussit à combiner à lá métaphysique plotinienne les théories et les pratique de la théurgie en vogue dans l’Orient grec. A son tour, cette école syrienne donna deux ramifications d’inégale valeur : d’abord l’École de Pergame, franchement adonnée à la magie et délaissant entièrement le vieux rationalisme grec, et ensuite l’École d’Athènes, rameau vigoureux qui parviendra à se greffer sur la vieille souche de l’Académie de Platon et lui fera donner son dernier rejeton en essayant d’épanouir la fleur du platonisme au soleil mystique de la religion païenne ». PROCLUS. Théologie Platonicienne; Livre I. Texte établi et traduit par H. D. Saffrey et L.G. Westerink. Paris: Les Belles Lettres, 1968. p. XXXV-XXXVI. (Tradução nossa).
Sobre isso, é dito: “Se Plotino e a Academia não se ignoraram completamente, em contra
partida, nenhuma influência recíproca se exerce de uma sobre a outra.”155
Com Eubolo não se pode falar de uma escola propriamente dita, mas de uma cátedra. A escola de Atenas, na qual Proclo se filia, só foi reaberta entre o fim do sec. IV e
início do séc. V, por Plutarco de Atenas156. Neste período, o cristianismo era religião oficial do
Império Romano do Oriente e Teodósio (346-396 d.C.) tinha promulgou um decreto no qual proibia a conversão dos cristãos ao paganismo e ordenava o fechamento de todos os templos
pagãos157. Sob a proteção do Império, o cristianismo ganhava a cada dia mais adeptos e como
os pagãos tiveram seus ritos proibidos e seus templos fechados, professar a antiga religião era cada vez mais difícil. Diante destes acontecimentos, a religião, bem como a filosofia grega, só puderam sobreviver dentro dos centros de estudos e em especial, no de Atenas. Sobre a importância da escola de Atenas para defesa do espírito grego comparada às demais escola, é dito:
Em Constantinopla, o cristianismo doravante dominava sem oposição. Em Alexandria, a “escola catequética” tinha proporcionado fundamentos especulativos à mensagem cristã [...]. No mundo latino a filosofia grega não tinha mais nenhuma possibilidade de ser reproposta e relançada.158