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CHAPITRE 2. ANALYSE DES PACTES D’ACTIONNAIRES LORS DES INTRODUCTIONS EN

2.2. PRESENTATION DES HYPOTHESES ET DES VARIABLES

2.2.2. Présentation des mesures

O suicídio como arma política tem uma longa história. O exemplo de Cato, recusando a clemência de César e suicidando-se depois de uma leitura do Fédon, contribuindo assim para o declínio do imperador, mostra o quão poderoso pode ser o suicídio como instrumento político. A morte de Cato "reflected a desire to have a political impact which his continued life could not have" (Silke, 2006). Mais recentemente, nos anos 80 do século XX, vários membros do IRA, encabeçados por Bobby Sands, iniciaram uma greve de fome que levou à morte de 10 militantes.

Apesar de reclamar vitória, o governo britânico "in truth it was almost complete defeat. Virtually all of the prisoners' demands were quietly conceded in the months after the protest" (Silke, 2006).

O suicidio como arma política tem uma longa história. Em ambientes de guerra, há inúmeros casos que se podem invocar. Os ataques kamikaze durante a segunda guerra mundial são provavelmente os mais proeminentes. Os comentários do General japonês Kawabe sob interrogatório americano, depois da guerra, são notáveis pela semelhança com depoimentos de actuais protagonistas do suicidio.

"We believed that our spiritual convictions and moral strength could balance your material and scientific advantages. We did not consider our attacks to be 'suicide'. The pilot did not start out on his mission with the intention of committing suicide. He looked upon himself as a human bomb which would destroy a certain part of the fleet . . . [and] died happy in the conviction that his death was a step towards the final victory." (Silke, 2006)

Enquanto o suicídio no caso de Cato e dos militantes do IRA se restringe à própria morte, a um acto de auto-imolação, no terrorismo suicida conjugam-se a

vontade de morrer e de matar, conjugação tão bem captada por Mia Bloom no título do seu livro Dying to Kill.

O terrorismo suicida moderno inicia-se no princípio dos anos 80, mas houve, ao longo da História, vários momentos que a literatura refere como antecedentes do fenómeno contemporâneo. Vários autores situam os primórdios do terrorismo suicida nos tempos biblícos e Sansão, o primeiro terrorista suicida. O antigo testamento descreve como Sansão provocou a morte de 3.000 filisteus "knowing that he himself would die with his victims. Samson used his extraordinary power to bring down the two pillars that supported the temple, crushing his enemies, in the name of God" (Salib, 2003; cf. Hafez, 2006b, p. 3; Moghadam, 2008, p. 10; Silke, 2006; Speckhard, 2006, p. 278). Este episódio realça algumas das características do fenómeno moderno,

coincidindo, até, num dos palcos mais frequentados pelos suicidas de hoje, "in what is today Gaza" (Hafez, 2006b, p. 3). O apelo a Deus "deixai-me morrer com os Filisteus" proferido por Sansão antes de derrubar o templo "embodies the very essence of the tactic of suicide operations, namely the confluence of the willingness to kill and

die"(Moghadam, 2008, p. 10). Esta díade, morrer/matar, como sede conceptual do que constitui o terrorismo suicida é comumente aceite na literatura. "Suicide terrorism requires the interplay of two conditions: a willingness to kill and a willingness to die" (Pedahzur, 2006, p. 17; cf. Merari, 1990; Moghadam, 2003)

Num ou noutro momento do devir histórico, grupos de praticamente todas as confissões utilizaram ataques suicidas (Moghadam, 2008, p. 10). "Muslim (Shi'ite and Sunni), Christian, Hindu, Sikh, Jewish and secular organizations all employed suicide attacks"(Bloom, 2005a, p. 1).

Dois grupos são sistematicamente referidos na literatura (Anderson & Sloan, 2009; Atran, 2003; Bloom, 2005a; Chaliand & Blin, 2007; Combs & Slann, 2007;

Laqueur, 2001; Lutz & Lutz, 2005; Pape, 2005; Rapoport, 1984; Schweitzer, 2000; Sloan, 2006, p. 38) como os exemplos mais antigos de terrorismo suicida de que há conhecimento. "The world's first suicide terrorists were probably two militant Jewish revolutionary groups, the Zealots and the Sicarii" (Pape, 2005, p. 11). Rapoport tratou- os como sendo o mesmo grupo, o que também faremos, "I do not distinguish Zealots from Sicarii, although they are distinctly different groups, as Smith (1971)

demonstrates. The Sicarii terrorized mostly Jews, whereas the Zealots were more concerned with Romans and Greeks. But for our purposes this is not a critical distinction" (Rapoport, 1984).

Estes grupos actuaram no primeiro século da nossa era, até à destruição do segundo templo em 70 d.c. Eram nacionalistas e tentavam, usando a violência, gerar "a mass uprising against the large Greek population that lived in Judea and against the Romans who governed them both" (Rapoport, 1984). As suas vítimas, judeus

moderados e colaboracionistas com o império, eram assassinadas com uma espécie de punhal, sica, donde a origem do nome sicários (Laqueur, 1999, p. 11; 2001, pp. 7, 8). Usavam "unorthodox tactics such as attacking their enemies by daylight, preferably on holidays when crowds congregated in Jerusalem"(Laqueur, 2001, pp. 7, 8). Os seus muitos e audaciosos ataques públicos "must have been suicide missions, since the killers were often immediately captured and put to death" (Pape, 2005, p. 12).

Um antecedente também sistematicamente referido, é o da ordem dos

Assassinos, uma ramificação de uma seita muçulmana, os ismaelitas e activos na Pérsia, Síria e Palestina. Sobreviveram cerca de 200 anos, 1090-1275, e tinham como principal objectivo a purificação do islão (Rapoport, 1984). As suas vitimas eramcristãos e,

principalmente, sunitas. A sua contribuição mais importante foi a de criarem a "strategy of the terrorist disguised . . . as a devout emissary but in fact on a suicide mission, in

exchange for which he was guaranteed the joys of paradise" (Laqueur, 1999, p. 11). Os assassinos "always used a dagger" (B. Lewis, 1967, p. 127) "never poison or missiles, and not just because the dagger was considered the safer weapon: murder was a sacramental act" (Laqueur, 2001, pp. 8, 9). Depois de um assassinato, o perpetrador "usually indeed makes no attempt to escape; there is even a suggestion that to survive a mission was shameful" (B. Lewis, 1967, p. 127). Silke classifica a campanha dos assassinos como terrorismo suicida (Silke, 2003, p. 93).

Também os hindus tiveram a sua organização, os Tugues que sobreviveu "for 2500 years . . . making them the longest lasting terror group in history" (Bloom, 2005a, p. 5). Acreditavam que deviam alimentar Kali, "the Hindu goddess of terror and destruction" (Rapoport, 1984), com sangue, em ordem a manter o mundo equilíbrado entre o Bem e o Mal. Os novos membros vinham das famílias dos próprios membros do grupo "making it an inherited profession" (Bloom, 2005a, p. 5). Atacavam viajantes, "strangled their victims with a silk tie; (Laqueur, 2001, p. 9), que ofereciam como sacrifícios a Kali. As vítimas, em troca das suas vidas, acediam ao paraíso.

Rapoport interrogou-se se, apesar de assim rotulados na literatura, os Tugues eram de facto terroristas (Rapoport, 1984). De facto, apesar de normalmente incluídos na literatura, não foram, em sentido estrito, um grupo terrorista como se infere das palavras de Laqueur "[t]heir political aims, if any, were not easily discernible; nor did they want to terrorize the government or population" (Laqueur, 2001, p. 9).

O terrorismo contemporâneo veste-se muitas vezes com a fé islâmica e há, para além da seita dos Assassinos, uma longa tradição de associação entre muçulmanos e terrorismo, incluindo a variante suicida. "Muslims have been using religion sanctioned suicide as an effective tool against the West for several centuries" (Kushner, 1996). Um caso particularmente interessante é o de três comunidades muçulmanas de três regiões

diferentes: da costa de Malabar, de Achém na ilha de Sumatra e de Mindanao e Sulu no sul das Filipinas.

"[T]he suicidal attack . . . has been used repeatedly over several centuries by Muslims in three Asian Muslim communities as a means of attacking militarily superior European and American colonial powers" (Dale, 1988).

A luta destas comunidades contra os poderes coloniais, entre os quais Portugal, foi relatada por escrito no fim século XVI por Zayn al-Din al-Ma'bari, numa obra intitulada The Gift to the Holy Warriors in Respect to Some Deeds of the Portuguese. Nessa obra, "Zayn al-Din called upon the Muslims to conduct a jihad, a war for the faith against the Portuguese, in order to galvanize Muslims to counter the Portuguese

usurpation of Muslim trade and their assault on the Muslim community" (Dale, 1988). Não se trata de uma mera narrativa, mas de um manifesto e de um chamamento para a Jihad. Zayn al-Din, sublinhando o facto dos muçulmanos terem sido atacados no seu próprio país, de terem visto o seu comércio prejudicado, mesquitas destruídas e

muçulmanos mortos, "argued that Muslims were obliged by Islamic law to undertake a jihad, pointing out that those who would be killed in the struggle would be worshipped as shahids, or martyrs, by members of the Islamic community" (Dale, 1988).

Em 1512, Afonso de Albuquerque, numa das suas cartas "reported that a Calicut Muslim had been "canonized," that is, he had come to be revered as a shahid, because he had died fighting against the Christians" (Dale, 1988).

O primeiro século das guerras dos sultões de Achém contra os portugueses pelo controlo do importante nervo geoestratégico do estreito de Malaca, foi chamado de contracruzada, "linked religion and patriotism more closely than elsewhere in Indonesia" (Dale, 1988). Nesta guerra contra os poderes coloniais, os muçulmanos utilizaram os ataque suicidas como ultima ratio. Segundo o cronista, milhares de

muçulmanos morreram nestas guerras, "members of these communities realized that they were ultimately incapable of succeeding against the Europeans, and attempted merely to terrorize European troops or settlements by carrying out jihads in which they intentionally sought to martyr themselves."(Dale, 1988)

Existe uma história longa na literatura sobre os antecedentes do terrorismo suicida com particular ênfase nos sicários e nos assassinos (Atran, 2003; Pedahzur, Perliger, & Weinberg, 2003; Schweitzer, 2000; Sprinzak, 2000). Mais do que afirmar a filiação desses grupos nesta forma de violência, o que releva é que existem muitas semelhanças no despreendimento à vida de tempos passados com os tempos actuais. De facto, alguns destes grupos não podem ser tecnicamente classificados de terroristas suicidas. Classificar estes grupos de terrorismo suicida é, no entendimento de Merari,

"erroneous since these groups carried out attacks that involved great risk for the perpetrators, sometimes their almost sure death, but they were not suicide in the strict sense of self-immolation" (Merari, 2006, p. 102).

De facto, de entre todos os casos apontados na literatura o que corresponde ao entendimento actual de terrorismo suicida é o caso de Achém relatado por Zayn al-Din.

A fase moderna do terrorismo suicida inicia-se no princípio dos anos 80, no Líbano, e alastra-se progressivamente para outros países: Israel, Sri Lanka, Turquia, India, Paquistão, Turquia, Russia. A taxa de crescimento do número de ataques tem sido alta e constante, "from an average of only 3 suicide attacks per year in the 1980s to 10 per year in the 1990s to 50 per year from 2000 to 2003 and to 300 per year from 2004 to 2009" (Pape & Feldman, 2010, p. 5).

Figura 11. Crescimento dos ataques suicidas, Pape (2010).

Fonte: (Pape & Feldman, 2010, p. 5).

O tópico do terrorismo suicida esteve fora das preocupações fundamentais dos académicos durante muito tempo. Só em 2001, foi publicado o primeiro livro escrito sobre o terrorismo suicida moderno, Countering suicide terrorism: an international

conference, resultado de uma conferência realizada em 2000, em Herzliya, Israel. A

temática era "relatively ignored by terrorism researchers, considered more of a curiosity than a major subject for analysis" (Silke, 2009, p. 43; cf. Moghadam, 2003).

Naturalmente, a situação mudou depois de 2001 e "[n]ot surprisingly, in the first three years after 9/11, nearly 12 percent of all articles looked at suicide terrorism" (Silke, 2009, p. 44). A figura seguinte ilustra a evolução no número de artigos publicados.

0 50 100 150 200 250 300 350 80s 90s 2000/03 2004/09

Figura 12. Percentagem de artigos sobre terrorismo suicida.

Fonte: (Silke, 2009, p. 43).

Igual evolução se verificou na publicação de livros sobre a temática

"(Moghadam, 2006b, p. 101). Existe hoje, uma imensa literatura sobre o assunto. Jornalistas, cientistas políticos, sociólogos "have examined this phenomenon from a variety of angles, including in-depth interviews with suicide bombers, comparative studies, historical accounts, or a combination of those" (Moghadam, 2006d). Pelas suas características muito próprias, alguns académicos têm advogado que deve ser estudado separadamente do terrorismo comum (Moghadam, 2008, p. 277). Pape, por exemplo, afirma "the account I offer for the origins of suicide terrorism should not be viewed as a general explanation for terrorism as a whole" (Pape, 2005, p. 9).

Também Merari concorre com esta opinião. "The self-immolation element makes this form of terrorism substantially different in both its psychological

foundations and potential consequences from other terrorist" (Merari, 2006, p. 101). O ponto de vista contrário alega que apesar de alguma singularidade, é essencialmente, um fenómeno do mesmo tipo do terrorismo já conhecido "a combination of familiar

methods, targets, and motives" (Crenshaw, 2001). 0% 2% 4% 6% 8% 10% 12% Pré 11 setembro 2002-2004 2005-2007 0,5% 11,5% 7,9%

O que não oferece dúvidas é que um dos atributos que distingue o terrorismo suicida é, desde logo, a sua letalidade, "the most aggressive form of terrorism" (Pape, 2003) e "the most difficult tactic to counter" (Post, 2007, p. 227). Rapoport refere-se- lhe como "the signature tactic of the fourth or 'religious wave' of modern terrorism" (Rapoport, 2006, p. xv) e "no weapon in the history of terrorism has produced so many casualties for so little cost" (Rapoport, 2006, p. xvi). No mesmo sentido, Gambetta afirma que o terrorismo suicida é "the defining act of political violence of our age" (Gambetta, 2005, p. v) e é, para Atran, "the most virulent and horrifying form of terrorism in the world today" (Atran, 2006).

O que faz do terrorismo suicida uma arma temida, é a conjugação de dois factores. Em primeiro lugar, a sua forte carga simbólica e, em segundo lugar, a sua eficácia do ponto de vista operacional.

Do ponto de vista simbólico, o terrorismo suicida impressiona, sobretudo porque parece desdenhar a primeira das assumpções da racionalidade humana e a primeira regra de direito natural, como expresso em Hobbes: a sobrevivência.

"The right of nature . . . is the liberty each man hath to use his own power as he will himself for the preservation of his own nature; that is to say, of his own life; and consequently, of doing anything which, in his own judgement and reason, he shall conceive to be the aptest means thereunto" (Hobbes, 1972, p. 72).

Desprezando o valor mais alto, a própria vida, os suicidas comunicam, de forma poderosa, que não temem nenhuma forma de punição. "Deterrence, punishment, and retaliation all become meanimgless when faced with an agressor who will impose the utmost penalty on himself at the very moment of his victory" (Reuter, 2004, p. 3).

Ao oferecerem a própria vida, os suicidas pretendem demonstrar possuir uma superior integridade moral e um conjunto de valores mais alto do que o dos seus opositores que faz deles vitoriosos e que nenhuma ameaça ou punição pode deter.

Quando defendem causas partilhadas por uma parte ou a totalidade de uma comunidade, os suicidas, que cedem as vidas pelos ideiais comuns para além de sinalizarem "to the terrorist group's target audience its determination to win" (Piazza, 2008) ganham um extraordinário estatuto, de imensa força atractiva e mobilizadora para a causa. "Terrorist martyrs always generate recruits, revitalize morale, and usually create favorable sentiments among potential supporters" (Rapoport, 2006, p. xvii).

No seu estudo sobre o suicídio, Émile Durkheim elaborou sobre diferentes categorias. Ao contrário do suicidio egoísta em que os suicidas só pensam em si próprios, os terroristas suicidas podem ser incluídos numa outra categoria de suicidio "that of altruism . . . where the ego is not its own property, here it is blended with something not itself, where the goal of conduct is exterior to itself, that is, in one of the groups in which it participates" (Durkheim, 2002, p. 180).

Esta dimensão simbólica justifica as repercussões mediáticas, o "echo effect" nas palavras de Hoffman, que os ataques suicidas atingem e superiores às formas mais regulares de terrorismo. Se a ela acoplarmos a terrível letalidade dos ataques suicidas, compreende-se a força comunicativa e coerciva do terrorismo suicida.

"The violence of the average suicide attack is impossible to ignore. Equally significant is the inherent drama of the attack itself, which not only ends in the self- destruction of the attacker, but the death and injury of a specifically selected group of victims . . . The choreographed brutality of the act commands attention. (Hoffman & McCormick, 2004)

As vantagens do terrorismo suicida sobre o terrorismo comum do ponto de vista operacional são várias e, de forma geral, consensuais na literatura:

(1) Altamente eficaz. Os bombistas têm mais flexibilidade aqui do que utilizando métodos tradicionais. Podem ajustar o tempo e o espaço em cada ataque, "the bombers themselves are able to provide real time course corrections on the way to their objective" (Hoffman & McCormick, 2004; cf. Speckhard, 2006, p. 279).

(2) Altamente letal. Resultante do ponto anterior, o terrorismo suicida é altamente eficaz na sua capacidade de gerar vítimas. Enquanto o número médio de mortos em ataques a tiro é de 3.32 e em ataques com explosivos controlados

remotamente é de 6.92, o número médio de mortos num ataque suicida com um cinto de explosivos é de 81.48 (Hoffman, 2006, p. 133; Pedahzur, 2006, pp. 1, 2; Speckhard, 2006, p. 279).

(3) De difícil contenção. O terrorista suicida, na sua forma mais comum, é uma bomba móvel que pode mudar trajectórias e explodir quando for conveniente. Por isso, é muito difícil parar esta ameaça. "[O]nce a bomber is equipped and on the way to his target he is virtually impossible to stop . . . as he can always explode himself upon detection" (Speckhard, 2006, p. 279). Como disse Ramadan Shalah, secretário geral da Jihad Islâmica Palestiniana "human bombs cannot be defeated, not even by nuclear bombs" (apud Sprinzak, 2000).

(4) Simples. Muitas vezes um ataque terrorista é de planeamento complexo pela necessidade de contemplar planos de fuga. Ora, no caso dos ataques suicidas o plano de fuga é dispensável. Acresce, que do ponto de vista dos atacantes, há a vantagem

adicional de não se incorrer no perigo do terrorista ser feito prisioneiro e poder

denunciar a rede na qual opera "(Hoffman, 2006, p. 133). Também Seckhard contempla estes pontos, "the bomber if successful, is killed in the attack and unlike in other terror

acts needs no resources or risk dedicated to an escape plan, and once killed he cannot be caught and interrogated later revealing who sent him" (Speckhard, 2006, p. 279; cf. Hafez, 2006a, p. 57)

(5) Barato – O terrorismo é de forma geral um método barato. Neste caso particular, tendo em consideração a relação custo/benefício, ainda o é mais. "The variable costs of these operations are insignificant. The improvised explosive devices worn or carried by a suicide bomber, for example, can cost less than $150 to produce. The bombers themselves are expendable assets" (Hoffman & McCormick, 2004). O mesmo custo é referido em Hassan "about a hundred and fifty dollars" (Hassan, 2001). É claro, que o custo de uma acção deste tipo radica essencialmente nas vidas humanas dos operacionais, no entanto, se o grupo tem uma comunidade que o suporta e com a cultura do martírio que caracteriza tantas, a oferta é ilimitada e o custo insignificante e um longo combate de atrição está garantido (Speckhard, 2006, p. 279).

Estas características, forte simbolismo e vantagens operacionais, fizeram do terrorismo suicida o método de eleição dos terroristas actuais até porque "raises the profile of its sponsors in addition to causing death and injury" (Hassan, 2006, p. 29).

Os primeiros estudos dedicados ao terrorismo suicida centraram-se em factores pessoais, "either religious indoctrination . . . or psychological predispositions"(Pape, 2003), donde a cultura e a organização estavam ausentes. Merari, assegurava em 1990, "[c]ulture in general and religion in particular seem to be relatively unimportant in the phenomenon of terrorist suicide . . . it is done by people who wish to die for personal reasons" (Merari, 1990, p. 206). Também Post, psiquiatra, defendia que "political terrorists are driven to commit acts of violence as a consequence of psychological forces" (Post, 1990, p. 25).

O terrorismo suicida era visto como uma forma irracional de comportamento, o que de resto, espelhava a perspectiva predominante noutras ciências. "From the 1960s on . . . the dominant perception of suicide came to view it as an illness. Suicide became seen first and foremost as a pathological and psychologically deviant behaviour which should be treated and studied in those terms alone" (Silke, 2006). Mesmo em relação ao terrorismo comum, muitos "psychologists and psychiatrists advocated theories that people who suffered from various forms of mental deficiencies and personality

disorders and flaws dominated the membership of most terrorist groups" (Silke, 2006). Terroristas eram geralmente retratados como "psychopaths, paranoids, and narcissists" (Silke, 2006). Se juntarmos agora o suicidio, a um fenómeno já antes visto como produto de patologias psiquícas, não é de estranhar que os executantes de ataques suicidas tivessem sido visto como mentalmente perturbados, percepção aliás correntemente transmitida pelos media que encontravam "in the imagination and expectations of the general public a receptive and satisfied audience" (Silke, 2006) e, assim, "public opinion commonly perceives suicide terrorists as both bad and mad"