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Poverty and health insurance effects on access to health care

5. THE AFFORDABLE CARE ACT IN CALIFORNIA

5.3 Regression analysis

5.3.3.1 Poverty and health insurance effects on access to health care

Muitas são as formas e os contextos para se aprender, fazendo-nos isso ver que estamos em contato diário e constante com a educação. Essas formas e contextos são parte da construção da subjetividade. Dessa forma, a primeira questão que queremos levantar e que é mote de toda investigação é como os sujeitos se veem como Rastafáris e qual a implicação disto em suas vidas. O que faz esses sujeitos estarem juntos?

O primeiro contato de todos os envolvidos nesta pesquisa com a filosofia Rastafári foi através da música reggae. A música representou para esses jovens a abertura de novos mundos, já que estamos diante de uma comunidade em que o tráfico de drogas é comum, levando muitos adolescentes e jovens a morrerem por conta deste envolvimento, seja através dos confrontos com a polícia, seja pelos próprios traficantes. Leo Carlos, que já esteve envolvido neste mundo (quando ainda era o homem velho, como o mesmo se apresenta), era uma espécie de Robin Hood (roubava e distribuía aos pobres). Depois de ter sido introduzido na arte e apresentado a filosofia Rastafári, através de Ciro Lima, Leo continuou ajudando os mais necessitados, mas agora sem a prática ilícita. Hoje faz o mesmo com muitos jovens vivendo diariamente o que prega em suas palestras e nas letras das músicas. Como Igor afirma, “a música reggae me tirou do mundo da criminalidade, me livrando de caminhos tortuosos. Quando eu comecei a estudar música eu já não queria mais andar com más companhias (se refere aos traficantes e assassinos do bairro), só queria andar com o pessoal do movimento”. Sobre a música Ciro diz: “eu aprendi muitas músicas quando jovem. Desde criança eu aprendi tocar tudo, todo tipo de música, eu tinha um grande repertório. Mas, na fé em Jah todo este repertório se acabou, não ficou nada, ficou apenas o reggae. As palavras ditas nas músicas são verdadeiramente inspiradas por Jah” (Ciro).

Sendo assim,

Viver como rastafári é buscar, resgatar minha ancestralidade enquanto imagem e semelhança de Jesus Cristo tendo autoridade para cuidar do outro, preservando a natureza que é divina, delegando poderes, autoridade para exercitar o bem buscando o equilíbrio e revitalizar o amor. Ser Rastafári é ser a bíblia viva, ser livre (Leo Carlos).

Para mim viver como Rastafári é bem melhor que antes. A minha vida espiritual era muito conturbada. Rastafári para mim é isto, viver uma vida espiritual com Jah. Antes eu vivia na loucura, no mundão tomando cachaça. E o rastafári veio para me ensinar essas coisas, a onda do perdão, de você viver da retitude (retidão). Viver a palavra de Deus com seriedade (Raimundinho).

Todas as mensagens que o líder Rastafári compartilha são baseadas nas palavras de Jah existente na bíblia. Mas observe que essa é uma "bíblia viva", que "revitaliza o amor" e só ganha sentido concreto em contexto, que os faz decidir não seguir o convite desse "mundão" para tomar a cachaça.

Todos os dias que passei em seu convívio líamos a bíblia diariamente e discutíamos sobre as palavras ali existentes. No início sentia um desconforto por ter que ler em voz alta e as leituras eram muitas vezes longas e cansativas. Com o passar dos dias fui me acostumando com as leituras, e vendo um sentido especial com seu entusiasmo de proferir aquelas mensagens. Era visível a gratificação que ele sentia por ensinar baseado na veracidade de sua crença. Dias depois deste desconforto eu mesma iniciava as leituras e disto surgiam muitas conversas. A vivência dos Rastafáris se baseiam como uma pré-configuração (mimesis I) na tradição bíblica cristã para a partir destes ensinamentos criarem sua narrativa (mimesis II). Essa mimesis é criativa no sentido de que sua estrutura de intriga não é a mesma que o Estado capitalista e a democracia liberal. Os termos ou categorias bíblicas passam a alimentar um estilo de vida alternativo e que eu pude experimentar com essa comunidade. Algo que me chamou a atenção foi sua relação com o alimento.

As minhas atividades diárias eram as cotidianas, limpar, lavar, cozinhar. Cozinhar era a parte mais difícil, pois muitas vezes não sabia se estava exagerando na comida já que eles têm um contato diferenciado com o alimento. Ou seja, o alimento é visto como algo sublime, que existe para manter a saúde física, a dádiva da subsistência, e não comer pensando unicamente no prazer. Este valor de comer por satisfação, que teve crescimento com o processo de industrialização dos alimentos, retira do nosso campo de percepção toda uma energia mística em torno dos alimentos. Era assim que, nos momentos das refeições, sempre eram realizados rituais de orações. Fazíamos orações de agradecimentos pelo alimento e fazíamos pedidos por todos aqueles que não tinham o que comer. Aprendi, para além de rituais mecânicos e ossificados, que a relação com a comida pode ser viva, sagrada e emocional. Pode, inclusive, como acredito ter vivenciado, ser veículo potentes processos de subjetivação:

O alimento e a forma de se alimentar são também uma das tradições carregadas de sentidos e emoções que são passadas pelas famílias ao repetir esses ensinamentos, a pessoa não apenas relembra a família, como também tem uma ideia de pertencimento e de continuidade (MATURANA, 2010, p. 10).

Veja que essa "ideia de pertencimento e continuidade" a que se refere Maturana é exatamente o sentimento que eu vivenciei no Bairro da Paz, ou seja, vi e senti como através do alimento se pode "alimentar" a alma, a pertença à subjetividade rastafári. Esse é exatamente, nos termos de Laclau, um processo de construção de um ambiente metonímico desde o qual, processos alternativos de articulação metafórica podem ocorrer. Sobre esta ampliação da disponibilidade de elementos a serem articulados metaforicamente nos esforços de significação, recorremos mais uma vez a relação com a comida de acordo com a autora acima citada:

O ato de comer torna-se não apenas uma forma de sobrevivência, mas também uma forma de prazer. O antropólogo Lévi-Strauss compara o alimento ao sexo. Ambos são essenciais à vida humana e, nos dois, há uma escolha ligada ao prazer e não apenas à finalidade de nutrir-se ou de procriar-se (MATURANA, 2010, p. 11).

Note-se que a autora pode nos ajudar a entender uma relação metafórica viva entre comida e prazer na prática de significação rastafári. Deslocando a comida de um terreno material e mundano, os rastafáris conseguem propiciar um sentido completamente diferente (mais rico, em minha opinião) ao prazer associado ao consumo capitalista (campo metonímico hegemônico). Essa relação metafórica então, conforme a lógica argumentativa de Laclau, alimenta e proporciona um telos potencial – mais espiritualizado – ao campo metonímico de onde se originou. É assim que podemos falar de abertura de mundos ou, em outros termos, de emergência de subjetividade.

Mas também percebemos, desde a teoria do discurso de Laclau, que não existe nunca uma autonomia absoluta, que toda autonomia é relativa – em relação a algo. Ou seja, sabemos que não existem identidades ou projetos que possam se pretender puros, autênticos. É assim que, diferente dos demais sujeitos que tive contato, Cássio não se considera um Rasta. Afirma que, embora simpatize e se aproxime do modo de vida rastafári, não tem como se desvencilhar do mundo capitalista. Para ele, para ser verdadeiramente um rastafári teria que viver longe de toda

estas influências da sociedade capitalista. Os objetos, para Laclau, sempre existem em contextos, dentro de uma determinada estrutura discursiva. Não se pode definir conceitualmente um objeto, pois sempre existe uma relação inextricável entre conceito e contexto. Essa sensibilidade se faz presente na seguinte fala de Cássio: “Eu não me considero um Rasta porque no dia que eu for um Rasta eu não vou me considerar, eu vou ser”. O fato de viver com sua família na cidade, comprar produtos industrializados, seus filhos estudarem em escola comum impede Cássio de ser um Rastafári conceitualmente idealizado. Ciro, por sua vez, nos faz perceber que, aquela subjetividade emergente ou abertura de mundo a que nos referimos, mesmo que não seja capturada conceitualmente, não deixa de existir: “Rastafári é um nome, uma placa, um título. As vezes a gente nem precisa falar que é rastafári. Não estamos vivendo uma coisa nova, uma coisa diferente. O mundo que ficou diferente, nós somos iguais a criação de Jah”. Rastafári, nos disse ele, é o cristão primitivo, apenas na época não tinha esta nomenclatura. Estamos aqui diante, na minha opinião, de uma demonstração empírica da radical heterogeneidade que caracteriza a sociedade moderna, pois esta comporta em si a coexistência de tempos e espaços que não se coadunam em nenhuma unidade que se possa fechar como totalidade (seja em perspectiva funcional ou dialética). É nesses termos que acredito a experiência rastafári pode dialogar de forma profícua com o campo da educação popular.

Percebe-se, de acordo com os dados, que ser Rastafári não é tão fácil, pois vivem diariamente tensões com a sociedade que remetem à existência de diferenças radicais, irredutíveis a um fundamento ou centro. “A sociedade aprendeu a ver maldição onde tem benção e benção onde tem maldição”, enfatiza Ciro. Ao falar isto Ciro se refere à discriminação que os rastas sofrem por ter seus cabelos longos e emaranhados. A rejeição da sociedade brasileira e da civilização capitalista pelos sujeitos Rastas contribuiu para formação de um grupo social contra a opressão desses subalternizados. Ao circular com Leo Carlos pela cidade e ele sempre pregando a palavra de Jah às pessoas, era notório a cara de estranheza que elas faziam quando ouviam um homem com muitas tatuagens, com cabelos todos emaranhados vestindo-se de forma simples falando de Jesus e incentivando a luta que temos que ter diariamente pela igualdade social. Muitas vezes as pessoas se afastavam, revelando-nos de forma contundente que seu discurso não poderia se arvorar à ambição de construir uma unidade em torno de si. Claramente, os que se aproximavam eram sujeitos que se identificavam com a aparência de Leo Carlos, mas este era um "símbolo" que, pelo que entendemos, não projetava a construção de uma universalidade.

A relação com o dinheiro, a qual já nos referimos, vai nesse mesmo diapasão, pois é uma das grandes tensões tanto na comunidade/sociedade como um todo, como no seio do próprio grupo. Os entrevistados não têm a música como meio de sustento, pelo contrário, ela é vista como forma de levar a palavra de Jah ao próximo, portanto, não pode ser cobrado ingresso aos shows, nos quais sequer recebem cachê. Esta relação com o dinheiro é motivo de discordância no grupo, pois, enquanto uma parcela acredita na propagação da palavra de Deus através da música sem ter a ligação com cachê, a outra a mantém como instrumento de luta a ao mesmo tempo é um trabalho que precisa ser remunerado. “Vemos os cantores de reggae que para mim são os apóstolos de hoje em dia, muito preocupados, muitos ansiosos com questões do mundo, e o dinheiro é o mais agravante de todos eles” (Cássio). A música não é trabalho, e por isso vivem do artesanato, dos trabalhos informais, principalmente na área de construção civil.

O trabalho assalariado nem sempre é garantido por conta da aparência do rasta. Raimundinho, que já trabalhou como padeiro no bairro, era constrangido diariamente por conta do seu cabelo. O dono da padaria colocava tesouras e giletes próximos a ele para que cortasse o cabelo, até o dia em que ele teve que escolher entre o trabalho e o cabelo. Raimundinho escolheu o cabelo, que não se trata apenas da aparência física, mas faz parte da sua subjetividade e do mundo (heterogêneo) que teima em abrir. Isto não quer dizer que se o mesmo cortasse não seria mais um rasta. Não se trata disso, quero chamar a atenção para o fato de que a imposição de um estereótipo especifico, requerido para trabalhar em determinados ambientes, é um sinal empírico de que esse valor (o cabelo rasta) não pode ser mobilizado nos espaços hegemônicos. Assim como a comida, precisam de outras práticas que gerem ambientes ampliadores do horizonte de percepção das pessoas.

As conversas informais que tivemos com membros da comunidade mostraram a necessidade que eles têm de ocupar esses lugares padronizados, mas sem deixar de lado seu modo de viver.

Eu estou aqui como um 007 do sistema de Deus. Estou aqui como um espião para saber as fortalezas e as fragilidades do sistema. Para emancipar meu povo. Então a título de ganhar aquelas pessoas para mim que estão lá perdidas. A título de ocupação, até mesmo para desvanecer aquele lance de que rasta é um "drogadito", é preguiçoso é um zero à esquerda, que só fica fumando maconha. Aí a gente... pô meu irmão...o cara que quebre os protocolos e tal, não é? Como Marley [refere-se ao cantor Bob Marley] que no princípio disse - eu nem entrava em um lugar desses, mas com a maturidade eu vou em qualquer lugar, eu “colo na banca” dele. Eu só não vou para um lugar se ele

disser que tem que cortar meu beautylocks (dreadlocks). Não podemos viver o sectarimo, o radicalismo, não o radical (Leo Carlos).

Esta fala remete a ocupação de todos os lugares da sociedade, mas como um "007 do sistema de Deus". Um "espião", ou seja, alguém que não pretende ser visto, notado pelo sistema, como alguém "radical" ou "perigoso". Entretanto, de acordo com minha leitura, como experiência do heterogêneo, da diferença radical, tem muitas possibilidades de denunciar as "fragilidades" do sistema. Mostram assim, como o mundo homogêneo, que pretensamente trata a todos como cidadão na igualdade, é incapaz de atender a todos, na sua radical diversidade, e termina sendo um sistema voltado para uma parcela pequena e privilegiada da sociedade. Essa ideia de poder alcançar uma cidadania plena parece animar muitos dos idealizadores da política pública para EP, que passa a pensar nos termos de um modelo participativo de democracia que a todos homogeneízam, desconsiderando as diferenças radicais, principalmente nas sociedades não europeias. É por isso que penso empobrecedor o projeto de fechar diretrizes institucionais para delimitar o que deve ser e como deve atuar a EP. Esta inserção em ambientes dentro de uma lógica diferencial, muitas vezes acarretam grandes problemas do ponto de vista contra- hegemônico.

A necessidade de ter que ter dinheiro, por exemplo, é um dos problemas vivenciados pelo líder Rasta, pois desta necessidade imposta ocorre o descontrole das pessoas, fazendo com que muitos se deixem levar pela luxúria, apostando em "novos" modelos de vida. Ou seja, o ambiente metonímico que estávamos falando, que pode, ao menos potencialmente, ampliar o horizonte discurso dos rastafáris - ou seja, propiciar a construção de novas intrigas (mimesis II) através de elementos que aí circulem em disponibilidades que não ocorrem nos espaços hegemônicos -, deixa de ser nutrido. A respeito desta questão Leo Carlos afirma: “tínhamos possibilidades de tirar daqui o presidente da república". E, continuou, demonstrando essa possibilidade de perda de potência política:

Também está rolando a questão da fragilização internamente como, por exemplo, o negão [indivíduo] está desestruturado, então nós vamos lá ajudamos ele, colocamos em uma faculdade – anel no dedo e pá – de repente se candidata a vereador entra e quando chega lá não aguenta a pressão. Na lança da luxúria, da suntuosidade, o cara bye-bye [cai na lógica do capital]. Já lutamos para os garotos se tornaram grandes jogadores e quando isto aconteceu bye-bye [vai embora da comunidade].

Havia nos discursos de Leo Carlos a necessidade de ser ouvido, muitas vezes era quase que um apelo. Tratava-se de dar voz aos sem vozes, de abrir um mundo no qual seu discurso fizesse sentido. As políticas públicas, os projetos sociais do governo não chegam nas comunidades de forma que possam dar um mínimo de liberdade aos sujeitos presentes. Ao contrário, suas lógicas e racionalidades, os tolhem. O que acontece, muitas vezes, é o assistencialismo, o famoso jargão “calar a boca” da periferia tem um sentido muito radical aqui, porque cala pelo sufocamento de um espaço onde sua voz faça sentido. E foi assim em relação a esta pesquisa, um pedido de socorro de poder ser ouvido para além daqueles de sua comunidade. Leo Carlos é um líder que não acredita que possa fazer as coisas sozinho e planta diariamente uma semente para despertar no outro esse desejo de luta por igualdade social, por aberturas de novos mundos para além das políticas governamentais.

Existe esta mentalidade de liderança, mas as pessoas que estão na linha de frente não são confiáveis e os que são confiáveis são muito imaturos. Os que estão maduros dificultam o processo. No momento não temos representante dentro da comunidade que vá ao planalto e nos represente. Sacou como é que é? A gente exerce a política em nós mesmos. É a questão do faça você mesmo. Fazemos por nós os que eles não fazem. Nos organizamos com parcos recursos, ou muitos recursos angariados ou com riquezas angariadas. Vivemos isto, suprir as necessidades dos mais carentes, estimulando “esta onda” sem a questão do assistencialismo (Leo Carlos)

A prática do assistencialismo, rebatido pelo líder, não é capaz de transformar a realidade social em que vive os assistidos, pois atende apenas as necessidades pontuais individuais. O que se busca com a assistência rastafári é a mudança do coletivo. Não estamos dizendo que as assistências pontuais não ocorrem, mas busca-se erradicar as carências existentes, não apenas as financeiras. Embora este seja um caminho lento e longo devido aos parcos recursos e à resistência de luta dos demais membros da comunidade.

Um dos problemas da sociedade é que eles aprenderam a viver do assistencialismo. A pobreza educa as pessoas a apenas receber. Não podemos deixar de ajudar ao próximo, não se trata disso porque as pessoas precisam comer, vestir. Mas em decorrência disso o povo ficou acostumado a receber (Raimundinho).

Ao criticar a ação assistencialista Leo Carlos deixa claro a necessidade de ocupar lugares de “poder” como os cargos públicos. Ocupar todas as esferas, mas para servir.

Cada pessoa tem poder de mando, mas para servir. Todos têm que ter este poder de mando. Não só nossa comunidade, mas servindo de modelo para todas as comunidades. Dar suporte a todas. Instigar para que o cara tenha autonomia. Que a finalidade é essa, não é estar o cara aqui imperializando, monopolizando. Não é ficar aqui ditando, [...] sendo ditatorial, na onda do totalitarismo. Ou então aquela questão da hegemonia perpetuando clãs para ficar cerceando, entendeu. Aquela coisa assim... Hum... como eu posso colocar a questão ... a onda do gangsterismos, a onda do servilismo. Não queremos isto, queremos que as pessoas tenham autonomia. Na onda underground alternativa, que é o cara ter liberdade, ser livre. Uma liderança com responsabilidade. Por que você tem que ter os parâmetros, tem que ter uma legislação. Essa legislação perpassa na seguinte lança. Você correr a atrás de tudo e todas as coisas, mas com uma finalidade, você subsidiar outros. Dar suporte a outros. Até mesmo como uma questão de segurança. Porque quando você governa bem naturalmente não haverá aglutinações, mutilamentos. Embora nossa natureza humana seja podre (Leo Carlos).

Conforme a fala de Leo Carlos, ainda que obviamente ele não esteja comungando dos nossos termos, a heterogeneidade deve estar garantida a partir da compreensão de que "todos têm que ter poder de mando" e não se pode estar "imperializando". Ou seja, ele não vislumbra uma racionalidade técnica única capaz de dar o tom das políticas públicas. Ao contrário, para o entrevistado, "governar naturalmente" implica em evitar "aglutinações", ou seja, ele acredita que não se deve homogeneizar a partir da agência estatal.

É assim que faz uma crítica contundente as cerca de 21 entidades, entre culturais e religiosas, presentes no bairro no sentido de que estas se isolam em suas individualizações ou, nos termos de Laclau, demandas democráticas, em vez de unirem para fortalecimento de um ambiente mais autônomo no bairro. Isso parecia ocorrer no início da ocupação dos moradores, quando as lideranças eram tidas como fortes no bairro. Isso fazia com que toda comunidade se unisse em torno da reivindicação de seus direitos e a se unirem formando (equivalencialmente) um grande grupo. Entretanto, quando todos já tinham conseguido suas casas (demandas atendidas) foram se dispersando vivendo o mais comum das vivências, ou seja, a individualista. Essa questão de se alimentar modos alternativos de vida, que possa articular valores e percepções marginais, se esvai – apesar de a experiência rastafári apontar para outra possibilidade.

Este modo alternativo de vida, para nós, é construído muito informalmente pelos grupos.