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Multilevel logistic regression analysis

4. MULTILEVEL ANALYSIS OF THE EFFECTS OF WELFARE STATES AND HEALTH CARE

4.2 Multilevel logistic regression analysis

Para realização desta pesquisa foram vivenciados 33 dias in loco dividido em dois momentos, como já foi dito. Inicialmente foram compartilhados 11 (onze) dias para conhecer o grupo, o lugar, se familiarizar. No segundo momento foram 22 (vinte dois) dias. O meu contato na comunidade foi Ras Mc Leo Carlos (doravante Leo Carlos), um Rasta que conheci através de vídeos no youtube. Seus vídeos sempre políticos, arraigados de muita luta em busca de igualdade social me despertou o interesse de conhecer este homem que no vídeo rasgava dinheiro12 enfatizando que o mesmo é apenas uma moeda, nada mais. Para nós que vivemos em uma sociedade em que o dinheiro é a chave para aberturas de muitas portas, ver este vídeo é um tanto quanto inquietante, para mim de forma positiva.

O grupo é composto por 15 pessoas (predominantemente masculina) que têm em comum a música reggae. São membros de banda, ou melhor dizendo, de “inteiras” que utilizam a música como instrumento de luta. Além do convívio diário foram realizadas 5 (cinco) entrevistas. Vale ressaltar que o contato de convivência maior foi com Leo Carlos, tendo visto que minha estadia foi em sua residência. Os entrevistados foram: o próprio Leo Carlos (líder espiritual rastafári), Cássio Aprendiz (ex integrante do grupo musical Irmandade Brasmorra, hoje fundador da Irmandade e Família), Igor Ribeiro (músico integrante da “inteira” Holy Bible), Raimundinho (músico integrante da “inteira” Holy Bible) e Ras Ciro Lima (líder espiritual de Leo Carlos). As entrevistas variaram em seu tempo, umas foram concluídas em 10 minutos, outras em 40 minutos. Embora, tenha sido de grande importância a utilização da

entrevista narrativa para o perfil desta pesquisa buscando dá ao entrevistado maior abertura para representar sua experiência criando os laços que lhes são necessários, houve dificuldade na realização porque alguns participantes não estão acostumados a dar entrevistas e por mais que conduzisse através dos fios condutores, os mesmos não conseguiam se expressar contando sua história. A questão central da entrevista era saber “Como é viver como Rastafári? ” Como é esta experiência?

Na comunidade em que residem os sujeitos não vivem apenas rastafáris e sim pessoas de distintos segmentos, sejam religiosos ou culturais, mas Leo Carlos é considerado líder do povo. Um lutador nas mais diversas situações que vai da luta para tirar jovens do mundo do crime, bem como realizar festas beneficentes em prol da coletividade. Isso demonstra que os rastafáris estudados procuram construir um modo alternativo de estar no mundo sem, contudo, se isolar das pessoas que pensam diferente. Com seu estilo de vida singular, com seus longos dreads é preterido por uns e visto como benfeitor por outros. Logo, liderar em um lugar assim não é um tanto simples. A ideia de Leo Carlos, coerente com nosso argumento da ausência de desejo de se impor como projeto/pensamento único, é incentivar para que existam mais líderes na comunidade.

Os Rastafáris em todos os lugares atraem muita atenção para si por seu caminho filosófico, espiritual e cultural de vida. Liberdade é a questão-chave que eles acreditam que poderia ser alcançado pela rejeição da escravidão da supremacia branca e inferioridade negra. Amor, paz, justiça, igualdade e unidade tornam-se os maiores valores da filosofia Rastafári (BRYNDA, 2000, p.77, tradução nossa).

O grupo – exceto Cássio, que se aproximou de Leo Carlos por afinidades de pensamento e propósito de vida, e Ciro Lima, que foi o responsável por apresentar a música reggae a Leo Carlos – reside na periferia da cidade de Salvador capital baiana chamado bairro da Paz. O bairro surgiu de uma ocupação ocorrida no ano de 1982. Nesta ocasião o bairro chamava-se Malvinas, pelo fato de ter começado na época da guerra entre a Argentina e a Inglaterra pela posse das Ilhas Malvinas. Aos poucos o bairro vai crescendo e a cidade vai ficando com dificuldade para absorver a mão de obra da sua população com serviços básicos como educação, saúde, segurança, saneamento, energia. Com essas dificuldades e precariedades o bairro aparece nos noticiários de forma criminalizada.

O bairro da Paz, assim como outros bairros periféricos, é colocado no hall de criminalidade e os indivíduos residentes nesta região são olhados preconceituosamente, dificultando sua inserção tanto no convívio com a sociedade como no mercado de trabalho.

Lá fora se retratava como se a comunidade fosse violenta e a partir daí começou a discriminação das pessoas que moravam aqui, tanto para chegar no mercado de trabalho, nas escolas, para entrar num ônibus. Os moradores achavam que era por conta do nome, Malvinas, e decidiram na praça das decisões a mudar o nome para bairro da Paz (Antônio Carlos)13.

Com a troca do nome não houve grandes mudanças em relação a essa radical exclusão, que, como argumentamos, coloca o sujeito rasta numa posição enunciativa de quem respira o preconceito, a discriminação, as dificuldades para conseguir o básico para sobreviver. O direito à sobrevivência era reivindicado diariamente. “Tudo que foi feito no bairro da Paz por parte do poder público não foi por vontade própria, mas por luta da comunidade, por pressão, foram várias manifestações” (Bira – Membro do conselho de Moradores). Havia, neste contexto, a formação de cadeias de equivalências entre rastafáris e outros sujeitos da comunidade para reivindicação de demandas que não eram facilmente atendidas. Os distintos grupos, como as igrejas cristãs, os membros de culturas afrodescendentes, o conselho de moradores, bem como a população que não fazia parte de grupo algum, se uniam para tentar minimamente serem contados como cidadãos.

Isso, entretanto, parece estar longe de acontecer. Isso porque essa visão de criminalização do bairro da Paz, que ocorre deste a sua ocupação e se estende até os dias atuais, parece lhes dizer constantemente que eles não fazem parte do mundo "civilizado" dos brancos. Vejamos essa fala do Membro do Conselho de Moradores Antônio Carlos:

O bairro da Paz parece vender muitos jornais, principalmente algo relacionado à violência e mortalidade de jovens. Quando é assassinado um jovem num bairro de classe média alta eles falam, “morre jovem estudante de jornalismo, de direito, que queria ser ator, ele tinha sonhos”. O jovem da periferia para mídia não tem sonhos. Pega o noticiário do final de semana e coloca: “ morre mais cinco jovens em Salvador e região metropolitana”. Então ele trata os jovens da periferia como um bocado.

13Documentário “Malvinas: do outro lado da ocupação”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NRD__2DmwA8. Todas as falas dos Membros do Conselho de Moradores foram retiradas deste documentário, sendo assim, não colocaremos mais notas de rodapé com essa informação.

Leo Carlos enfatiza,

Nossas casas não são antros, e se de repente sai nos noticiários, nos jornais sensacionalistas essas notícias escabrosas, que fabricam a miséria, a gente sabe quem tira as fontes de empregos, a gente sabe o que acarreta e promove a falta de economia e renda, a falta de emprego. Dão aos homens bons um trabalho sujo e de exterminar o descontente, tá sabendo como é que é? O braço armado do sistema causando problemas, até uma criança treme quando ver o braço armado do sistema colando no Estado devedor, que é o único ponto de ligação entre nós e a escória que se diz elite, o Estado devedor, o braço armado truculento, violento pra caramba. Aí pinta o quadro da forma que eles querem, você até mesmo em off está sentindo como é viver em uma comunidade tachada como a pior comunidade da América Latina. Não pontua que é uma comunidade grande que é desassistida a 30 anos que nem uma quadra poliesportiva tem, entretenimento e cultura quem faz e promove somos nós (grifo nosso).

A mídia sensacionalista criminaliza povos, o jovem da periferia, negro, pobre. Observe na fala de Antônio Carlos que ele se refere ao direito a ter sonhos, que lhes é negado. É como se por dentro dessa sociedade, nos termos de sua democracia e de sua cidadania, eles não conseguissem espaços para produzir sentidos, ou seja, sonhar. Essa posição de margem, de não lugar, é reforçada "braço armado truculento, violento pra caramba" do Estado. Um Estado que é visto como "devedor", mas que não se pode reclamar dentro de um direito positivo, como cidadão. Frente a 30 anos de desassistência, a comunidade, que é "grande" (ou seja, tem potência), é quem promove entretenimento e cultura. Iniciativas como estas vão além do que postulavam os primeiros moradores ocupantes das Malvinas (hoje bairro da Paz), que se juntaram tão somente pelo direito de moradia. Com o passar dos anos havia necessidade de lutar pela sobrevivência e permanência digna no local. “Nós ficamos levantando faixas, nós paramos as paralelas para reivindicar o direito de morar, o direito de sermos preservados vivos. E os irmãos sendo comprados pelo dinheiro”. Esse final da fala de Leo Carlos é relevante no sentido de mostrar que a união nem sempre permanece entre os moradores. Notamos, nas nossas conversas diárias que quando uma demanda particular é atendida por esse Estado excludente, o grupo que foi beneficiado se afasta da luta do grande grupo. Mas, como vimos argumentando, a maneira rastafári de estar no mundo parece nos ensinar algo sobre a luta contra-hegemônica e os processos aí contidos de subjetivação. Vejamos, na próxima, o que podemos extrair seção da experiência que analisamos.

4.3 Narrativas Rastafáris e sua dimensão contra-hegemônica: um olhar a partir da