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Healthcare systems: conceptual discussion

2. MACRO DATA ANALYSIS OF WELFARE STATES AND HEALTH CARE SYSTEMS

2.2 Healthcare systems: conceptual discussion

Nossa proposta foi realizar uma pesquisa de campo por meio de um estudo biográfico através da narrativa de indivíduos da filosofia rastafári. Este grupo é composto por 15 pessoas que compõe bandas que mistura o Reggae com outros ritmos musicais, como, por exemplo, o Rap. A pretensão deste trabalho, como dito anteriormente, foi compreender quais têm sido os processos de subjetivação desses sujeitos e como suas experiências podem contribuir com a perspectiva contra-hegemônica. Os critérios para escolha dos sujeitos se basearam nos objetivos da pesquisa que, lidando com a questão da subjetivação, tornava necessário que o sujeito se denominasse rastafári.

Nossa proposta metodológica, detalhada nesta seção, construída a partir do encontro entre a abordagem teórica aqui exposta e as nossas intuições no contato com a empiria, nos possibilitou criar quatro categorias analíticas, a saber: 1. Pontos de tensão entre Rastafári e a sociedade; 2. Disputas de sentido que estão sendo postas nesse campo; 3. Aproximações metafóricas (lógica equivalencial) e articulações metonímicas (lógica diferencial) postas em ação; e 4. Disputas em termos espaciais que influenciam (para o bem ou para o mal) os esforços expressivos dos sujeitos rastafáris. Dessa forma, a articulação que estamos propondo – e que será detalhada mais adiante – tem o intuito de abrir caminhos para narrativas a serem posteriormente analisadas, ressaltando que o ambiente narrativo faz parte da própria narrativa dos sujeitos.

É importante observar que ser rastafári é muito mais que um movimento, religião ou filosofia. Ser rastafári é um propósito de vida que visa igualdade e unidade entre todos os povos com base na fé em Jah (Deus). Nesse contexto, podemos dizer que foi através da música reggae com suas letras libertárias, visando quebrar toda "alienação" mental ou espiritual que me foi

fomentado o desejo de descobrir mais informações sobre esse povo que luta contra o capitalismo e busca solidificar a fé em Jesus Cristo e o amor ao próximo.

Vale salientar que a metodologia que estamos anunciando, mais do que uma “coisa”, “tecnologia”, “instrumento” ou um “artefato” a ser utilizado na produção do conhecimento, é uma dimensão no processo de estruturação social (MESQUITA, 2010). Desta forma, é preciso ter em mente que devemos

[...] renunciar à ideia de um método único que nos conduza sempre à verdade, e que a garanta, não implica de nenhuma maneira que estamos dispostos a desistir da utilização de instrumentos ou dispositivos, técnicas ou procedimentos. Só implica que não anteporemos o método à experiência, que não cremos que haja um só caminho ou um só dispositivo adequado para pensar, explorar, inventar, conhecer. Só renunciamos ao fetiche do método e podemos ainda desdobrar uma infinidade de dispositivos, construir caminhos, trilhas, estradas, ou escolher ir através do campo ou entre o mato, ou preferir o bosque à estrada. Renunciar ao método não implica cair no abismo do sem sentido, mas abrir-se à multiplicidade de significados. (GARCIA, 2003, p.35)

Sendo assim, para não cair neste abismo metodológico, utilizaremos como método de coleta de dados a entrevista narrativa. O que nos interessa nesta pesquisa, e por isso a escolha da entrevista narrativa, é a forma como os sujeitos pesquisados dão sentido (interpretam) suas experiências. Por isso, a narrativa não é somente um método, mas uma forma de construir realidade. Ou seja,

la narrativa no solo expresa importantes dimensiones de La experiencia vivida, sino que, más radicalmente, media La propia experiencia y configura La construcción social de La realidad. Además, un enfoque narrativo prioriza um yo dialógico, su naturaleza relacional y comunitaria, donde La subjetividad es una construcción social, intersubjetivamente conformada por el discurso comunicativo. El juego de subjetividades, en um proceso dialógico, se convierte en un modo privilegiado de construir conocimiento (BOLÍVAR, 2002. p.4).

Concordando com o que nos apresentou Bolívar, a escolha desse tipo de abordagem surge do interesse de, a partir das narrativas, entender melhor os princípios que balizam o estar juntos de sujeitos rastafáris e como sua experiência pode contribuir para reforçar valores contra- hegemônicos no campo da educação popular. A narrativa, nestes termos, é caracterizada pela sua ênfase na experiência e no seu significado, emergindo nas dimensões afetivas, biográficas

e sociais. Trataremos justamente da vida, das experiências vividas e narrada pelos sujeitos. É por isso que a narrativa é, por assim dizer, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o "puro em si" da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Seu interesse é mergulhar na vida do narrador para em seguida retirá-la dele e assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso (BENJAMIN, 1994). É por isso que o ato de narrar dar ao narrador vida própria, transformando- se em autor. Concordando com Barthes (2004, p.5), quando o mesmo afirma que, este autor “se quisesse exprimir-se, pelo menos deveria saber que a coisa interior que tem a pretensão de “traduzir” não passa de um dicionário totalmente composto, cujas palavras só podem explicar- se através de outras palavras, e isso indefinidamente”.

Nesse contexto,

[...] o conhecimento de si próprio é uma interpretação – a interpretação de si próprio, por sua vez, encontra na narrativa, entre outros signos e símbolos, uma mediação privilegiada, esta última serve-se tanto da história como da ficção, fazendo da história de uma vida uma história fictícia ou, se preferir, uma ficção histórica, comparáveis às biografias dos grandes homens em que se mistura a história e a ficção (RICOUER, 2000, p. 2).

Dessa forma, “a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte que recorrem todos os narradores e, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (BENJAMIN, 1985. p.198).

Através de pesquisas sobre a filosofia rastafári realizadas na internet e através da troca de ideias com alguns amigos foi que chegamos a descobrir os sujeitos que nortearam este trabalho. Em contato com tais sujeitos, eles se disponibilizaram a contribuir com esta pesquisa, nos proporcionando a honra de participar do seu dia a dia, como também nos concedendo entrevistas para buscarmos um entendimento do modo de vida do homem rastafári, nos levando a testemunhar desde o agradecimento através da oração por ocasião das refeições, passando pela participação em eventos culturais, até a dura realidade de quem vive à margem da sociedade nos guetos (favelas) do nosso país.

Durante todo processo de pesquisa sempre fui muito bem recepcionada, me deixando tranquila para desempenhar minhas atividades em comunhão com seus afazeres. Nosso desafio nesta subseção é então refletir – num esforço teórico de construção do nosso método de análise –, levando em conta os processos retóricos de tensão entre os referidos eixos metafórico e

metonímico sempre presentes nos processos de subjetivação coletiva. É através de inovações semânticas, as quais remetem à criação de novas intrigas, que encontramos os pontos de tensão

– primeiro passo do nosso método de análise – entre Rastafáris e sociedade nas narrativas

desses sujeitos. Estas tensões não ficam apenas nas crenças ideológicas, mas fazem parte da vida prática/cotidiana dos Rastas. Observe o que Ras Mc Leo Carlos afirma quando parabeniza a presente pesquisa, que, para ele, pode valorizar de alguma maneira seu modo de viver. “Temos que nos sentir contemplados, pois este trabalho é de suma importância. Dá uma pausa no derramamento de sangue. Evitam que homens como eu sejam mortos covardemente, evitam que homem como eu e minha família que tenham um destino de [...] essa história corrupta que impunham a nós há mais de 1500 anos” (Ras Leo Carlos).

Tendo encontrado os pontos de tensão entre rastafáris e sociedade, percorremos o caminho de perceber quais as disputas de sentidos – segundo passo do método de análise – que estão sendo postas nesse campo. Percebemos como estes sujeitos teimam em não se enquadrar dentro de determinadas racionalidades ou a estas cedem, de forma consciente ou não. Isto, a partir da sua "própria" narrativa, tendo o papel do narrador como construtor, ao menos potencial, de suas experiências. Este “narrador retira da experiência o que ele conta – sua própria experiência ou a relatada pelos outros” (BENJAMIN, 1985. p.201). O terceiro passo do método de análise foi perceber como os sujeitos estão construindo seus discursos, ou seja, identificar quais as aproximações metafóricas (lógica equivalencial) e quais articulações

metonímicas (lógica diferencial) estão sendo postas em ação. Aqui podemos evidenciar, de

maneira mais concreta, a participação destas últimas na constituição mesmo da segunda e vice-

versa, de maneira a não cair naquela perspectiva essencialista que evitamos.

O que norteou nossa análise, entretanto, foi a percepção de que as narrativas, embora agenciem um ambiente metonímico para sua realização, não se fixam neste, sendo-lhe mero complemento. Ao contrário, sua característica de excesso, permitiu-nos observar nas práticas dos sujeitos pesquisados a necessidade de se criarem novas aberturas de mundos – ambientes metonímicos outros, heterogêneos – não precisamente algo ligado a obviedade, mas um ambiente de verossimilhança. Seguindo esta percepção, e considerando a definição de discurso de Laclau, elaboramos nosso quarto passo do método de análise que consistiu em perceber

como as disputas em termos espaciais têm influenciado os esforços expressivos dos sujeitos. A

que tipos de relações estão se submetendo ou lutando contra os sujeitos pesquisados?

Os dados coletados, que trouxeram subsídios para o desenvolvimento da pesquisa, surgiram a partir de narrativas de sujeitos rastafáris em dois momentos distintos. Em um

primeiro momento foram vivenciados 11 dias e no segundo momento foram 22 dias. Ambos aconteceram em forma de visita participante a Ras Mc Leo Carlos e seus companheiros da

inteira, entre outros sujeitos por ele conhecidos, residentes na cidade de Salvador, no estado da

Bahia. Os dias de convivência com estes sujeitos foram, como já mencionado, fazendo parte de suas atividades diárias, bem como, o trabalho, ou seja, sua forma de sustento. Neste, fizeram parte quinze membros de inteiras de reggae. Os dados incluem entrevistas, conversas informais, gravações de conversas diárias, filmagens, fotografias, bem como a nossa própria experiência. O objetivo foi analisar as múltiplas experiências e não uma realidade única que possa nos interessar, por isto a utilização da entrevista narrativa como método de coleta de dados. Estes dados, por sua vez não tem objetivos de confirmar ou revogar hipóteses construídas anteriormente, mas de construir um pensamento a partir da experiência que vem se agrupando através destes contatos.

Neste contexto, o conhecimento está em constante processo de construção e “implica uma atitude aberta e flexível por parte do pesquisador, que não se fixa rigidamente no seu referencial teórico de apoio, mas fica atento a aspectos novos que podem se mostrar relevantes no decorrer do trabalho” (ANDRÉ, 2009, p.09). A interação com estes sujeitos rastafáris baianos, assim como nos mostra Bogdan e Bilklem (1994), tem que carregar princípios de naturalidade, de forma não intrusiva, não ameaçadora, de modo que as atividades que ocorrem na sua presença possam ser o mais próximo daquilo que se passa na sua ausência. Embora estivesse naquele ambiente como estudante de pós-graduação, esta naturalidade veio agregar-me como mais um membro da família – como chamam os que fazem parte da inteira. Todas estas características apontam para um estudo que se preocupa com a constante reformulação dos seus pressupostos, uma vez que o conhecimento não está pronto. Percebemos também que para compreensão de determinados objetos tem que se levar em consideração a forma e o contexto em que acontece tais ações. Por isso que, como nos disse o líder da inteira Ras Leo, “sabemos que o Rasta da cidade é diferente do Rasta do campo, sabemos que o Rasta da montanha é diferente do Rasta da favela”. Devemos então levar em consideração o ambiente narrativo em que se encontram estes sujeitos. Como salienta Roland Barthes (1993),

a narrativa está presente no mito, lenda, fábula, conto, novela, epopeia, história, tragédia, drama, comédia, mímica, pintura (pensemos na Santa Úrsula de Carpaccio), vitrais de janelas, cinema, histórias em quadrinho, notícias, conversação. Além disso, sob esta quase infinita diversidade de formas, a narrativa está presente em cada idade, em cada lugar, em cada sociedade; ela começa com a própria história da humanidade e nunca existiu,

em nenhum lugar e em tempo algum, um povo sem narrativa. Não se importando com boa ou má literatura, a narrativa é internacional, trans- histórica, transcultural: ela está simplesmente ali, como a própria vida (p. 251- 252)

Quanto a escolha da narrativa como instrumento de coleta de dados advém do fato de a hermenêutica de Paul Ricoeur,

[...] não consistir tanto na construção/captação do sentido dos símbolos, dos mitos e das metáforas, num primeiro momento, pelo seu excesso de sentido ou pelo seu potencial de sentido, ou seja, porque contêm sempre mais sentido do que aquele que exprimem verbal e literalmente e por isso mesmo necessitam de ser interpretados, e, posteriormente, sobre a narrativa, na qual salienta o seu carácter inventivo e criador, mas no esforço efetivo de compreensão de nós próprios e do mundo. É que a narração permite a compreensão de nós próprios numa dimensão temporal, isto é, histórica, mas, mais que isso, permite a compreensão de nós próprios na nossa historicidade (FONSECA, s/d. p.03).

Como já nos fora mencionado, a entrevista utilizada foi a entrevista narrativa autobiográfica, a mesma está embasada em três marcos teóricos, o interacionismo simbólico; a fenomenologia social e a etnometodologia. O processo da entrevista narrativa autobiográfica, de acordo com a teoria de Fritz Schutze, compreende três partes, a saber: a primeira será a “narrativa autobiográfica inicial”, nesta o pesquisador-entrevistador deixará o entrevistado livre para falar sobre a sua vivência sem interrupção, apenas será interrompido com a indicação de uma coda narrativa. Nesta coda narrativa o pesquisador-entrevistador poderá fazer pequenas perguntas a partir do que o entrevistado narrou. Na medida em que os sujeitos forem trazendo elementos que mostre como se dá o processo de socialização entre os membros da comunidade, o pesquisador entrará na segunda parte – parte central da entrevista – que será explorar os fios temáticos narrativos, estes que se tornaram fragmentos da primeira parte da entrevista. Estes fios temáticos (SCHUTZE, 2010) se darão com intuito de identificar as práticas educativas presentes. “É importante que essas perguntas sejam efetivamente narrativas” (SCHUTZE, 2010, p.212). Na terceira parte foi, por um lado, a descrição das situações abstratas em que serão articuladas as discussões com o campo da educação popular e, por outro, percursos, contextos que se repetem. “A entrevista narrativa autobiográfica produz dados textuais que reproduzem de forma completa o entrelaçamento dos acontecimentos e a sedimentação da experiência da história de vida do portador da biográfica” (SCHUTZE, 2010, p.213). A

pretensão será adentrar na subjetividade dos sujeitos envolvidos para, se possível chegar a uma possível objetividade.