2. MACRO DATA ANALYSIS OF WELFARE STATES AND HEALTH CARE SYSTEMS
2.1 Welfare states: conceptual discussion
2.1.1 Decommodification
Como vimos, no decorrer da construção do nosso objeto de pesquisa, consideramos experiência como uma categoria inefável, que foge a qualquer forma de aprisionamento, neste caso, na tentativa de paralisar determinadas vivências para que possa ser analisada, tendo visto que estas se tratam de momentos vivos. Para que possamos analisar a experiência, como enfatizamos, será sobre a forma de narrativa, ou seja, a forma que os rastafáris têm de enxergar sua própria vivência, deixando transparecer o que lhes foi tocado. Para isto, é preciso percebermos como o tempo está sendo construído e faremos isto através da tríplice mimesis abordada por Paul Ricoeur (2010).
Através da narrativa, há uma ficcionalização da história (de como contamos o passado) e uma historização da ficção (de como escondemos a realidade no imaginário). E esta função narrativa se dá através da re-interpretação das noções de Mimesis e Intriga, extraídas da Poética de Aristóteles (GOMES, 2009, p. 04, grifos do autor).
Por mimesis Ricoeur define como sendo a imitação criativa, ou dito de outra forma, a representação criativa da ação. A atividade mimética compõe-se de uma imitação criativa da
experiência temporal a qual está viva através da composição da intriga (RICOEUR, 2010). Por intriga entende-se Ricoeur (2010) lembra que são precisamente o tempo e a tessitura da intriga os elementos centrais em toda narrativa. Para compreender a relação tempo e narrativa
de um lado, encontrei no conceito de tessitura da intriga (muthos) a réplica invertida da distentio animi de Agostinho. Agostinho sofre a coerção existencial da discordância. Aristóteles discerne no ato poético por excelência – a composição do poema trágico – o triunfo da concordância sobre a discordância. [...] Por outro lado, o conceito de atividade mimética (mimese) colocou-me no caminho da segunda problemática, a da imitação criadora da experiência temporal viva pelo desvio da intriga. Esse segundo tema é dificilmente discernível do primeiro em Aristóteles, na medida em que a atividade mimética tende, nele, a confundir-se com a tessitura da intriga. Só desenvolverá, pois, sua envergadura e conquistará sua autonomia na sequência desta obra (RICOEUR, 2010, p. 56)
A mimesis I se trata de uma ação (para nós uma vivência) que ainda não foi narrada. Trata-se da experiência pré-configurada, ou seja, pré-narrada. Sendo assim,
Por mais que seja a força de inovação da composição poética no campo de nossa experiência temporal, a composição da intriga está enraizada numa pré- compreensão do mundo e da ação: de suas estruturas inteligíveis, de suas fontes simbólicas e de seu caráter temporal. Esses traços são mais descritos que deduzidos. Nesse sentido, nada exige que sua lista seja fechada. Todavia, sua enumeração segue uma progressão fácil de estabelecer. Em primeiro lugar, embora seja verdade que a intriga é uma imitação da ação, é exigida uma competência preliminar: a capacidade de identificar a ação em geral por seus traços estruturais; uma semântica da ação explicita essa primeira competência. Além disso, se imitar é elaborar uma significação articulada da ação, é exigida uma competência suplementar: a aptidão de identificar o que chamo de as mediações simbólicas da ação, num sentido da palavra símbolo que Cassirer tornou clássico e que a antropologia cultural (...) adotou. Por fim, essas articulações simbólicas da ação são portadoras de caracteres mais precisamente temporais, de onde procedem mais diretamente a própria capacidade da ação a ser narrada e talvez a necessidade de narrá-la. (Destaque do autor) (RICOUER, 2010, p. 96-97)
Sobre o sentido da mimesis I Ricoeur (2010, p. 112) diz,
imitar ou representar a ação é, em primeiro lugar, pré-compreender o que é o agir humano: sua semântica, sua simbólica, sua temporalidade. É nessa pré-
compreensão, comum ao poeta e ao seu leitor, que se delineia a construção da intriga e, com ela, a mimética textual e literária.
A sociedade, por sua vez, está cheia de uma pré-narratividade que será mote para construção poética (mimesis II). Dessa forma, Ricoeur afirma que uma ação pode ser narrada, isto “é porque ela já está articulada em signos, regras, normas: está, desde sempre, simbolicamente mediatizada” (RICOEUR, 2010, p. 100-101). Esta mediação é composta pela
mimesis II. Esta mediação que vai da passagem do sentido pré-configurado (paradigmático)
para o configurado (sintagmático).
A mimesis II promove a mediação entre acontecimentos individuais (individualidade do sujeito) e uma história considerada como um todo (subjetividade coletiva).
A narrativa faz aparecer numa ordem sintagmática todos os componentes suscetíveis de figurar no quadro paradigmático estabelecido pela semântica da ação. Essa passagem do paradigmático ao sintagmático constitui a própria transição de mimesis I à mimesis II. É a obra da atividade da configuração (RICOEUR, 2010. p. 115)
A mimesis II exige um complemento, o terceiro estágio, ou seja, a mimesis III, o ato refigurado das narrativas. A mimesis III marca o encontro do texto com seu público. Para nós marca o encontro da experiência individual narrada com as experiências da coletividade.
A narrativa estando atrelada ao tempo tem que se atrelar a linguagem que satisfaça a necessidade da época, ou seja, a regras que conformam os esquemas estruturais sem que precisemos ter consciência disso. O problema destas regras é que acabam se institucionalizando e descartando muitas vezes o novo e o empírico.
Narramos as coisas que consideramos verdadeiras e predizemos acontecimentos que ocorrem tal como havíamos antecipado. Portanto, é ainda a linguagem, assim como a experiência e a ação, que ela articula, que aguentam o assalto dos céticos. Ora, predizer é prever e narrar é “discernir pelo espírito”. (RICOUER, 2010, p. 21, grifos do autor).
Esta linguagem é permeada pelo triplo presente, ou seja, “o presente do (de) passado, o presente do (de) presente, o presente do (de) futuro” (RICOEUR, 2010, p. 23). Para Ricoeur que se inspira na teoria agostiniana existe apenas o tempo presente. O tempo é algo que não
alcançamos, por isso trabalha com o tempo que está (in) alma. Sendo assim, o presente do passado é a memória, o presente do presente é a visão e, o presente do futuro é a expectativa (RICOEUR, 2010).
Enfim, “a explicação da mimesis continua subordinada até o fim à investigação da mediação entre tempo e narrativa. [...] A narrativa alcança seu sentido pleno quando é restituída ao tempo do agir e do padecer na mimesis III” (RICOEUR, 2010, p. 122-123). Narrar, portanto, é uma ação que está em constante atualização e o tempo é o da própria narrativa. Nas palavras de Ricoeur, “compor a intriga já é fazer surgir o inteligível do acidental, o universal