1. INTRODUCTION
1.2 The conceptual framework
1.2.2 Health status
Como percebemos, esta nova conjuntura, em que a linguagem, pós virada linguística, ganha não apenas centralidade, mas um novo papel na conjectura social, desencadeia novas discussões sobre a relação entre epistemologia e ontologia. O campo epistemológico está, neste sentido, buscando a universalização da estrutura do social através de relações discursivas. Esta tentativa de universalização tende a um fechamento ou estabilização do social, cujas partes constitutivas (as identidades) seriam apreendidas pelo que, na acepção de Laclau e Mouffe (2015), são denominadas de momento. Em contraste a estes últimos, os teóricos em tela chamam de elemento toda diferença não discursivamente articulada e por isso aberta à produção contingente, via experiência, de telos alternativos. Como afirmam Oliveira, Oliveira e Mesquita (2013, p. 1329) “a discursividade é uma condição ontológica de constituição de todo o objeto e de toda a realidade experienciada pelos sujeitos”3. Dessa maneira, “os fenômenos sociais não têm uma única forma de abordar, de escrever, de explicar, não estão sujeitos a uma simples relação de causalidade, não se constituem por um único investimento de sentido” (BURITY, 2013, p.66), sendo sempre contestado pela contingência. Toda relação social é, portanto, uma relação discursiva. Esta compreensão está baseada no entendimento laclauniano de discurso que se trata de uma totalidade estruturada, composta, como já falamos, pelas dimensões linguística e extralinguística.
Na teoria do discurso de Laclau e Mouffe a própria realidade é da ordem do discurso. Ou seja, o linguístico e o extralinguístico constituem, como já apontamos, uma relação inextricável. Por isso que Laclau (2015) afirma que não existe pensamento fora da linguagem. Quando um pensamento é concretizado este já é linguagem, ou seja, discurso. Dessa forma, a linguagem
3O que está aqui em jogo é aquela inseparabilidade entre episteme e doxa a que já nos referimos, posto que toda tentativa de fixação das identidades como momentos de uma estrutura conceitualmente apreendida é uma tentativa de controle do escopo de sentidos capazes de serem produzidos pelos sujeitos.
constitui um importante campo para intervenções políticas e sociais. Foi com o surgimento da virada linguística que a discussão sobre a metáfora se torna possível e esclarecedora. Como já afirmamos, consideramos, neste contexto, a experiência como contingente, potencialmente antagonística, que acontece em um tempo sem predeterminação ou telos único. Esta, por sua vez, ganha efetividade nos já mencionados eixos de articulação – metáfora e metonímia. Por articulação estamos chamando “qualquer prática que estabeleça uma relação entre elementos de tal modo que a sua identidade seja modificada como um resultado da prática articulatória” (LACLAU e MOUFFE, 2015, p.178).
As discussões sobre a teoria da metáfora chegam até nós depois da morte da retórica no século XIX. A metáfora foi abordada por Aristóteles “sobre a base de uma semântica que toma a palavra ou o nome como unidade básica” (RICOEUR, 2005, p.10). Ou seja, para Aristóteles a metáfora ocorre ao nome, podendo chamar de metáfora qualquer transposição de uma palavra pela outra. É o que se chama de impertinência nominal. Ricoeur (2005) nos alerta que a metáfora, se pensada unicamente sobre o prisma de uma impertinência nominal, não se sustentará, pois, para aproximar ou distanciar duas ideias necessita-se de um enunciado, um contexto que não se dá no âmbito do nome, mas do discurso. A metáfora, nestes termos, ao tornar nomes equivalentes, modifica o ambiente discursivo ou metonímico – relação espacial de contiguidade –, regido por uma lógica diferencial, criando assim novos processos retóricos. Trata-se sempre, portanto, da produção de uma tensão entre metáfora/equivalência e metonímia/diferença, na qual, paradoxalmente, elas se requerem mutuamente.
Em outras palavras, a metáfora é uma figura de linguagem baseada na analogia (campo semântico) ou na substituição (campo semiótico), pois usa um termo com significado diferente do usual, tornando-os equivalentes. Já a metonímia é uma relação de contiguidade entre ideias ou conceitos, o que inscreve verossimilhança (factibilidade), num determinado sistema diferencial de relações, à equivalência metaforicamente construída. Por isso que a produção metafórica e metonímica, nas perspectivas de Laclau e Ricoeur, são processos inseparáveis. Concordando com Laclau (2011, p. 196) “contiguidade e analogia não são essencialmente diferentes uma da outra, mas os dois polos de um continuum”. As noções de analogia e contiguidade são transgressões que subvertem a lógica diferencial associada ao eixo sintagmático pelo fato de se transformarem gradativamente uma na outra. Ou seja, “a metáfora é o telos da metonímia” (LACLAU, 2011, p. 195) e sem ela não sobrevive.
Para melhor nos fazer entender sobre a conceituação acima descrita, suponhamos que exista um grupo de rastafáris morando em uma casa de campo no litoral baiano. Esse grupo é fortemente confrontado por seguranças das casas de campo de igrejas evangélicas naquela comunidade. Os confrontos ocorrem por conta do preconceito do modo de vida que os indivíduos rastas levam, chegando ao ponto de quase assassinato. A única força no local é de conselheiros tutelares. Sabemos que a função dos conselheiros tutelares é a atenção e proteção à criança e ao adolescente. Os conselheiros assumem a tarefa de proteção dos rastafáris e esta responsabilidade ocorre por uma relação contingente de forças sociais. Esta assunção deriva de uma relação de contiguidade que é de natureza metonímica. Caso os confrontos perdurem ou surjam novas demandas e esta assunção continue por um longo período, as pessoas ficariam acostumadas com a situação e tenderiam a relacionar os casos futuros como parte integrante do conselho tutelar4. Neste caso, como nos ensina Laclau, o que era um caso de articulação contingente se torna parte do significado central do termo “conselho” e a contiguidade se transforma gradativamente em analogia e a metonímia em metáfora.
Neste caso, a transgressão das regras de combinação chega a um ponto em que não pode voltar atrás. “A metáfora e a metonímia, nesse sentido, não são apenas figuras entre muitas outras, mas duas matrizes fundamentais em torno das quais todos os outros tropos e figuras deveriam ser ordenados” ((LACLAU, 2011, p. 193). A metáfora é um acontecimento semântico que se produz no ponto de intersecção entre vários campos e se efetiva no ambiente metonímico. Por isso que,
longe se serem antagônicas e incompatíveis, a metáfora e a metonímia sustentam uma a outra e se interpenetram uma na outra, e dar o lugar adequado à segunda não consistirá em traçar uma lista concorrente oposta a das metáforas, mas mostrar as relações de coexistência dentro da própria relação de analogia: o papel da metonímia dentro da metáfora (GENETTE apud LACLAU, 2011, p.184).
Exemplificando em termos práticos o surgimento de uma metáfora podemos abordar um episódio que foi quando conheci o grupo rastafári, sendo este composto por membros de uma banda de reggae. A palavra “banda”, que para eles significa “metade”, seria transformada em “inteira” por se tratar de indivíduos completos e não de metades. A prática discursiva ali presente estava sendo construída não apenas para evitar a utilização de palavras que soem de
4 Exemplo retirado de um dos momentos vivenciados na Bahia. Foi necessário antecipar parte da empiria para poder explicar em termos práticos as conceituações sobre a relação entre metáfora e metonímia.
forma pejorativa, mas para, estranhando uma nominação corrente – o que demonstra as origens contingentes e metafóricas do que está entre nós naturalizado (a "banda") –, possibilitar a construção de um novo sentido para um grupo de pessoas reunido em torno de uma atividade musical. Ser uma "inteira" possibilitaria, por exemplo, inscrever esse grupo nas narrativas que procuram dar um sentido anti-mercadológico à sua experiência. Tal prática discursiva, portanto, longe de remeter à mero adorno "criativo" da linguagem, possibilita, a nosso ver, o combate à estigmatização da filosofia criando uma forma positiva de inscrever a filosofia rastafári nos seus cotidianos. Então, longe de mera transposição da palavra “banda” por “inteira”, temos a abertura (metafórica) de um mundo, que permite repensar as prerrogativas e "natureza” de um grupo musical. Esta colocação é vista com estranheza, inclusive por mim, pois se trata de uma metáfora que Ricoeur chama de viva. Deve-se estar atento, segundo Ricoeur (2005, p. 440- 441), que:
a eficácia da metáfora morta só toma seu sentido completo quando se estabelece a equação entre a usura que afeta a metáfora e o movimento de ascendência que constitui a formação do conceito. A usura na metáfora se dissimula na superação do conceito. Por “superação” J. Derrida traduz com muita felicidade a Aufhebung hegeliana. Desde então, reviver a metáfora seria desmascarar o conceito.
Neste sentido, Ricoeur trata a metáfora como ato criativo. Fundamentalmente, para a efetivação de processos metafóricos, é necessário que já haja um conjunto diferencial de regras – ambiente metonímico – desde o qual se dará sentido a uma nova perspectiva semântica. Por ambiente metonímico, tendo em vista aquela articulação envidada por Laclau entre as dimensões linguística e extralinguística do discurso, estamos levando em consideração tanto as regras institucionais da sociedade como sua presença em nossos cotidianos, ou seja, as lógicas sociais hegemônicas.
O ressurgimento da retórica contemporânea se expressa através da ruptura da concepção restritiva de uma retórica meramente literária, confinada na análise da literatura no manual de estilo. A disciplina a que foi submetida a retórica, na metade do século XX, foi se integrando aos mais diversos campos do saber, tornando cada vez mais relevante a comunicação voltada para persuadir.
A retórica foi antes de tudo uma técnica da eloquência; seu alcance é o mesmo da eloquência, a saber, gerar a persuasão. [...] A poética não depende nem
quanto à função, nem quanto à situação do discurso, da retórica, arte da defesa, da deliberação, da repreensão e do elogio. A poesia não é a eloquência. Ela não visa à persuasão, mas produz a purificação das paixões do terror e da piedade. Poesia e eloquência desenham assim dois universos de discurso distintos. Ora, a metáfora tem um pé em cada domínio. Ela pode, quanto a estrutura, consistir apenas em uma única operação de transferência do sentido das palavras, mas, quanto a função, ela dá continuidade aos destinos da eloquência e da tragédia; há, portanto, uma única estrutura da metáfora, mas duas funções: uma função retórica e uma poética (RICOEUR, 2005, p. 23).
Concordando com Ricoeur (2005), a retórica não pode ser reduzida a uma disciplina, pois ela permanece na dimensão intersubjetiva e dialogal do uso público do discurso. A retórica, portanto, não pode tornar-se uma técnica vazia e formal em razão da sua ligação com os conteúdos das opiniões mais prováveis, isto é, admitidas e aprovadas pela maioria. O autor assim enfatiza que, “a retórica não se produz em um vazio de saber, mas em uma plenitude de opiniões” (Ricoeur, 2005, p.54). A retórica abarca necessariamente a dimensão performática, sua análise se transforma no estudo dos efeitos de distorção que a representação exerce sobre qualquer referência e passam a constituir toda experiência. Os rastafáris são sujeitos que se aproximam dessa articulação, pois – como pude observar durante o trabalho de campo – seu processo de construção de conhecimento está fortemente vinculado às vicissitudes de suas vidas.
Em “A Metáfora Viva”, Paul Ricoeur (2005) nos mostra que, quando a metáfora se torna uma significação usual e se reúne à polissemia das entidades lexicais, contribuindo para a construção da linguagem como língua (sistema estável de relações), esta não é mais uma metáfora viva, mas uma metáfora morta – que não serviria, por si só, a um esforço "expressivo" de uma experiência entendida como acontecimento. Somente as metáforas autênticas, isto é, as vivas, são a um só tempo acontecimento e sentido (RICOEUR, 2005). Para Genette (apud LACLAU, 2011) é no cruzamento entre metáfora e metonímia que se garante a existência de uma narrativa. A narrativa, por sua vez, só tem sentido se localizada em uma temporalidade (RICOEUR, 2010); um certo telos entendido aqui como ambiente metonímico. O movimento entre metáfora e metonímia remete à impossibilidade de uma linguagem única, ou seja, de um pensamento fechado, pré-existente à linguagem, pretensamente capaz de significar o vivido. Por isso que haverá sempre a busca por novas formas de comunicação.
Corroborando com as ideias de Laclau (2011), o ambiente metonímico estrutura-se em torno do fechamento do social, pois se organiza a partir de diferenças entre as partes de um sistema de significação. Sendo assim, tal ambiente tende a excluir os processos que não estão
dentro dessa lógica diferencial. Nesta exclusão podem surgir experiências que, não sendo absorvidas pelo sistema político hegemônico, gerem de demandas radicalmente excluídas (como nos parece ser o modo de vida rastafári). Novas relações metafóricas como a noção de "inteira" surgem para que essas experiências possam ser valorizadas e para que ganhem potência política. Por isso que as aproximações metafóricas vivas socorrem os sujeitos subalternizados para que esses – articulando equivalencialmente elementos não fixados numa estrutura discursiva (os chamados elementos) – possam construir um sentido para suas existências. É assim que consideramos que a EP pode se beneficiar da experiência rastafári – devido, justamente, ao vínculo direto com a realidade do sujeito, ou seja, sua experiência. Lembramos aqui que o objetivo principal do projeto educativo popular é/era emancipatório, portanto, consiste em recuperar a capacidade de espanto e de indignação e orientá-la para a formação de subjetividades inconformistas e rebeldes (SANTOS apud PEREIRA e PEREIRA, 2010).