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Observamos nos tópicos anteriores claros indicativos de uma leitura parcial do pensamento marxiano, pendendo ora para a objetividade ora para a subjetividade. A leitura e adesão à interpretação de Althusser (1979), marcada pela classificação epistemológica das obras de Karl Marx, propicia grande parte desses desdobramentos nos estudos sobre o trabalho e as organizações. Conforme expusemos, Burrell e Morgan (1994) cindiram os estudos marxianos e aqueles estabelecidos em tais bases em dois quadrantes – humanismo radical, de cunho subjetivista; e estruturalismo radical, objetivista. Nesse esteio, identificamos as leituras de Braverman (1981) que, ao optar pela incursão no primeiro volume de O capital, entendeu que partia então de um prisma apenas objetivo, retirando de cena os aspectos subjetivos. Os teóricos do Labour Process Theory, com destaque para Burawoy (1979; 1983; 1985), criticaram a interpretação e o estudo bravermaniano em busca de uma análise social crítica que contemplasse os aspectos subjetivos e simbólicos do processo de trabalho. Os

adeptos do movimento Critical Management Studies caminharam nesta mesma direção, a fim de incorporar essas dimensões supostamente negligenciadas e que, a seu ver, não eram contempladas nas bases marxianas. Assim, incorporaram perspectivas pós-estruturalistas com destaque para as ideias de Michel Foucault. Por fim, os estudiosos brasileiros das organizações aderiram a essa mesma leitura objetivista acerca das ideias marxianas e, para sanar tal limitação, incorporaram o weberianismo e, posteriormente, a psicossociologia e a Teoria Crítica Frankfurtiana.

Todavia, leituras mais recentes nos Estudos Organizacionais brasileiros apontam para os limites dessa interpretação parcial e polarizada do pensamento de Marx. Conforme Paço-Cunha (2008) nos apontou, existe uma relação e não uma cisão entre objetividade e subjetividade e tal relação seria mediada pela práxis, em uma leitura ontoprática. Seus lineamentos são tecidos a partir de duas bases principais, a interpretação de José Chasin e György Lukács e no próprio Karl Marx, embora os dois primeiros não sejam necessariamente transitivos entre si.

Resgatando tais bases, percebemos que uma análise marxista que penda para a objetividade ou para a subjetividade é lacunar e não contempla os indicativos próprios do filósofo em questão. Karl Marx, nos ‘Manuscritos econômico-filosóficos’, já aludiu não haver tal cisão entre objetividade e subjetividade: “Pensar e ser não são pois, na verdade, diferentes, mas, ao mesmo tempo, formam em conjunto uma unidade” (MARX, 1974a, p. 16, destaques no original).

Anos após, especificamente em 1859, em uma de suas obras classificadas como de maturidade por Althusser (1979), no prefácio de ‘Para a crítica da economia política’, Karl Marx menciona tal relação.

O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao revés, é seu ser social que determina sua consciência (MARX, 1974b, pp. 135-136).

Esta passagem pode ser interpretada, numa leitura rasa, como a demarcação do objetivismo empedernido do Marx-maduro. Todavia, Lukács (1979) nos apresenta uma visão distinta e consonante com a acepção que estamos construindo.

Nesse trecho, o mundo das formas de consciência e seus conteúdos não é visto como um produto direto da estrutura econômica, mas da totalidade do ser social. A determinação da consciência pelo ser social, portanto, é entendida em seu sentido mais geral. Só o marxismo vulgar (desde a época da Segunda Internacional até o período stalinista e suas consequências) é que transformou essa determinação numa declarada e direta relação causal entre economia — ou mesmo entre alguns momentos dessa — e ideologia. E isso quando o próprio Marx, pouco antes do trecho ontologicamente decisivo que acabamos de citar, afirma, por um lado, que “correspondem [à superestrutura] formas determinadas de consciência social”; e, por outro, que “o modo de produção da vida material condiciona, em geral, o processo social, político e espiritual da vida” (LUKÁCS, 1979, pp. 41-42).

Essa constatação de Lukács (1979) pode ser reforçada pela continuidade da passagem do próprio Marx (1974b), na qual a forma ativa da superestrutura idealista se apresenta como mediação para o esclarecimento das contradições sociais nas quais os homens estão implicados.

Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no interior das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento econômico transforma-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem de se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições econômicas da produção, o qual é constatável rigorosamente como nas ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em que os homens ganham consciência deste conflito e o resolvem pela luta [ausfechten]. Do mesmo modo que não se julga o que um indivíduo é pelo que ele imagina de si próprio, tão-pouco se pode julgar uma tal época de revolucionamento a partir da sua consciência, mas de explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, do conflito existente entre forças produtivas e relações de produção sociais (MARX, 1974, pp. 135-136). Percebemos então o relacionamento recíproco entre os elementos objetivos e subjetivos sem o qual qualquer explicação do mundo social padece de um mecanicismo fotográfico. Tal reciprocidade é, em si mesma, reforço daquela aludida unidade existente entre ser e pensar, cujo relacionamento é ineliminável, embora, por vezes, contraditório.

Para concluir as alusões ao posicionamento de György Lukács a propósito da relação objetividade-subjetividade para Marx, segue uma passagem de outra obra em que ele é taxativo a respeito da reciprocidade existente entre tais categorias na realidade.

Por um corrente mal-entendido se crê às vezes que a imagem do mundo própria do materialismo – prioridade do ser sobre a consciência, do ser social sobre a

consciência social – é também de caráter hierárquico. Para o materialismo, a prioridade do ser é antes de tudo uma questão de fato: há ser sem consciência, mas não há consciência sem ser. Mas isso não significa de forma alguma uma subordinação hierárquica da consciência ao ser. Ao contrário: essa prioridade e seu reconhecimento concreto, teórico e prático, pela consciência, criam por fim a possibilidade de que a consciência domine realmente o ser. O simples fato do trabalho ilustra isto de modo mais conclusivo (LUKÁCS, 1982, p. 19)41.

Na mesma direção, José Chasin demarca de modo bastante preciso a relação entre objetividade e subjetividade pela reciprocidade, erigida por meio da atividade humana sensível. Essa ontoprática, característica do pensamento marxiano, cumpre o papel de mediação entre as atividades ideal e real como momentos distintos e relacionados do ser social. Nesse sentido, parece-nos ser Chasin quem melhor capturou o complexo de problemas que este relacionamento entre subjetividade e objetividade apresenta nos lineamentos marxianos:

Pela mediação da prática, objetividade e subjetividade são resgatadas de suas mútuas exterioridades, ou seja, uma transpassa ou transmigra para a esfera da outra, de tal modo que interioridade subjetiva e exterioridade objetiva são enlaçadas e fundidas, plasmando o universo da realidade humano-societária – decantação de subjetividade

objetivada ou, o que dá no mesmo, de objetividade subjetivada. É, por conseguinte,

a plena afirmação conjunta, enriquecida pela especificação do atributo dinâmico de cada uma delas, da subjetividade como atividade ideal e da objetividade como

atividade real, enquanto momentos típicos e necessários do ser social, cuja potência

se expressa pela síntese delas, enquanto construtor de si e de seu mundo (CHASIN, 2009, p. 98, grifos no original).

Evidenciamos a interpretação de Chasin (2009), que no esteio de György Lukács se posiciona contrariamente ao “imperialismo gnosiológico ou epistêmico que dominou a marxologia nos últimos decênios”. A seu ver, as interpretações lógico-gnoseo-epistêmicas da obra marxiana estabeleceram uma disputa sobre o “estatuto científico” que fundamentava as suas linhas sem, contudo, “se indagarem pela adequação do caráter de suas abordagens ao objeto pesquisado”. Nesse sentido, defende que “a obra marxiana é a negação explícita daquele parâmetro na identificação da cientificidade, tendo sua própria arquitetônica reflexiva, por consonância, natureza completamente distinta daquela suposta pelo epistemologismo” (CHASIN, 2009, p. 26-27).

      

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“Por un corriente malentendido se cree a veces que la imagen del mundo propia des materialismo - prioridad del ser respecto de la consciencia, del ser social respecto de la consciencia social - es también de carácter jerárquico. Para el materialismo, la prioridad del ser es ante todo una cuestión de hecho: hay ser sin consciencia, pero no hay consciencia sin ser. Pero de eso no se sigue en modo alguno una subordinación jerárquica de la consciencia al ser. Al contrario: esa prioridad y su reconocimiento concreto, teorético y práctico, por la consciencia, crean por fin la posibilidad de que la consciencia domine realmente al ser. El simple hecho del trabajo ilustra esto del modo más concluyente”. 

Uma análise dos lineamentos marxianos que respeite o seu espírito e sua letra, como fez sobretudo Chasin, indica que inexiste viés gnosio-epistemológico, mas um trabalho a respeito do ser, ou seja, de base ontológica . A passagem seguinte, de autoria de György Lukács reitera que o pensamento marxiano se distancia de um viés epistemologista em prol de um caráter ontológico.

Todos os seus enunciados concretos, se interpretados corretamente (isto é, fora dos preconceitos da moda), são entendidos – em última instância – como enunciados diretos sobre um certo tipo de ser, ou seja, são afirmações ontológicas. Por outro lado, não há nele nenhum tratamento autônomo de problemas ontológicos; ele jamais se preocupa em determinar o lugar desses problemas no pensamento, em defini-los com relação à gnosiologia, à lógica, etc., de modo sistemático ou sistematizante (LUKÁCS, 1979, p. 11).

Como fruto do trabalho de orientação de José Chasin e Ester Vaisman sobre a relação objetividade-subjetividade, a dissertação de mestrado elaborada por Frederico Almeida Rocha analisa o complexo categorial subjetividade nos textos marxianos redigidos entre 1843 a 1846. Nesta, Rocha (2003, p. 69) conclui, entre outros pontos, que

a objetivação das forças essenciais pelos indivíduos é a confirmação da sua própria individualidade, tanto física quanto espiritualmente. No interior da produção, subjetividade e objetividade são enlaçadas e encontram-se em transitividade insuprimível. O objeto social é a confirmação das faculdades humanas e a vida dos indivíduos exteriorizada. O homem se objetiva nos objetos externos e os objetos externos se tornam objetos sociais. A própria riqueza subjetiva dos indivíduos depende da forma como os objetos sociais estão em relação com eles, forma essa que por sua vez depende da extensão da esfera circunscrita pelas suas relações práticas. E tal relação é socialmente determinada.

Tal conclusão corrobora com os argumentos expostos anteriormente, principalmente por se tratar do resultado de uma investigação criteriosa que retorna aos textos de Karl Marx para entender, a partir deles próprios, como aparece a categoria alvo, no caso o complexo categorial subjetividade. Há quem possa desconsiderar tais resultados pelos momentos históricos desses escritos, já que seriam ainda insipientes por estarem exatamente na fase de transição das obras de juventude para as obras de maturação, incluindo neste interim as obras de cesura, conforme apregoado por Althusser (1979). Entretanto, vimos acima a recorrência da determinação da relação entre a subjetividade e a objetividade surgir no prefácio de 1859, um texto considerado de maturidade.

Assim, para consubstanciar a inseparabilidade entre esses momentos do ser social é importante uma análise imanente da obra de maturidade de Karl Marx, O capital, a qual pretendemos elaborar. A análise que propomos se mostra ainda mais relevante quando nos deparamos com os argumentos expostos neste tópico, a partir dos quais questionamos como

se sustentaria uma análise marxista das organizações que parta da cisão do pensamento marxiano nesses termos.

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