Vários pesquisadores já se detiveram para compreender o significado da palavra Kalunga5, procurando em especial a sua ligação com a África, querendo provar, assim, que essa comunidade tem ascendência africana.
Segundo Brasil (2001), calunga é uma palavra de muitos significados, que se incorporou à língua do povo brasileiro. Quer dizer coisa pequena e insignificante, como o ratinho camundongo que, no Nordeste do Brasil, se chama calunga ou então catita, e, por outro lado também significa pessoa ilustre, importante. É também o nome que se dá à boneca que sai nos cortejos dos reis negros dos maracatus de Pernambuco, e ainda significa morte, inferno, oceano, senhor. No entanto, na terra do povo Kalunga, calunga é mesmo o nome de uma plantinha (simaba ferruginea) e do lugar em que ela cresce, perto de um córrego que também tem esse mesmo nome.
Kalunga é uma palavra comum entre muitos povos africanos. Talvez os próprios africanos fossem chamados de calungas, pode ser apenas um outro modo de referir-se aos negros. Como os colonizadores portugueses consideravam todos os negros inferiores, é fácil entender motivo de utilizarem a palavra calunga para designar os negros. A palavra também passou a significar coisa pequena e insignificante, como o camundongo catita do Nordeste (BRASIL, 2001).
Para os povos chamados congo ou angola, por exemplo, os primeiros a serem trazidos
para o Brasil como escravos, calunga6 era uma palavra ligada as suas crenças religiosas. Ela se referia ao mundo dos ancestrais. Os negros acreditavam que as pessoas deviam prestar culto aos seus antepassados, porque deles provinha a sua força. Para eles, o mundo era representado como uma grande roda cortada ao meio e, em cada metade, havia uma grande montanha. Em uma metade da roda, o pico da montanha ficava virado para cima, mas, na
5
De acordo com o Dicionário Aurélio da língua português, calunga tem vários significados:Calunga: s.f.1. Bras. Divindade secundária do culto banto. 2. P.ext. O fetiche dessa divindade. 3. Bras. Coisa qualquer de tamanho reduzido. 4. Bras. BA e MG. Arbusto da família das simarubáceas (simaruba Ferrugínea), de folhas penadas, que têm quatro a oito folíolos coriáceos, pilosos, ferrugíneos e abovados, flores muito pequenas, rifas e agregadas em amplas panículas terminais, e frutos constituídos de quatro a cinco carpídeos drupáceos. Ocorre no cerrado e na caatinga. 5. Bras. Uma espécie de libélula 6. Bras. Boneco pequeno 7. Brás. Figuras humanas, nos desenhos infantis 8. Bras. O ratinho doméstico, camundongo (FERREIRA, 2004, p. 227).
6
De acordo com Nei Lopes (2006), calunga é termo usado no Brasil em várias acepções: qualquer boneco pequeno, camundongo; pessoa de pouca estatura, sobretudo por ser aleijada da coluna vertebral; indivíduo de cor preta; cada um dos habitantes da comunidade dos calunga em Goiás; falar banto da região do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba; cada uma das bonecas que fazem parte do cortejo de maracatu; o mar; o céu; a morte (p.36).
outra metade, estava invertida, de cabeça para baixo. De um lado da roda, a montanha de cima representava o mundo dos vivos e do outro, a montanha de ponta cabeça representava o mundo dos mortos, terras dos ancestrais. As duas montanhas eram separadas por um grande rio, que eles chamavam de Kalunga. Por isso, para os negros, kalunga era o nome desse lugar de passagem, por onde os homens podiam entrar em contato com a força de seus antepassados (BRASIL, 2001).
Kalunga era o que tornava uma pessoa ilustre e importante, porque mostrava que ela
tinha incorporado em sua vida a força de seus antepassados. Assim agiam os reis, que só governavam enquanto eram capazes de manter seu povo unido em torno da força comum dos antepassados. No cortejo dos reis e rainhas dos maracatus, sempre foi obrigatória a presença da boneca que chamavam calunga. Ela é um símbolo da realeza africana e do poder dos ancestrais (BRASIL, 2001).
Nos cultos sagrados de umbanda e candomblé, calunga7 significa mar, campo sagrado
para repouso dos ancestrais (cemitério).
Segundo Almeida (2004, p.2), “a divulgação do substantivo Calunga, mais
precisamente Kalunga com K maiúsculo ao invés de C, empregado tanto para designar o povo quanto o lugar onde vive esse povo, é atribuído à antropóloga Mari Baiocchi.”.
A questão da denominação de comunidades negras rurais, como Kalunga, conforme Velloso (2007), é complexa e tem sido abordada por pesquisadores como Danielli Jatobá (2002):
Essa denominação sofreu total inversão de significado para a população residente nos municípios próximos ao território Kalunga, chamava-os historicamente de Calungas ou calungueiros, mas essa denominação sempre teve caráter negativo, associando-os aos pretos que vivem nas serras ou nos vãos (VELLOSO, 2007, p.93).
Para Velloso (2007), a identidade denominada Kalunga foi atribuída e não construída
pelo próprio grupo social. As comunidades referiam-se e continuam referindo-se umas às outras pelo lugar que elas habitam, ou seja, fulano de Tinguizal, de Vão das Almas, da Contenda, do Saco Grande etc. A denominação Kalunga sofreu mudanças de significado para
7
De acordo com o Dicionário de cultos afro-brasileiros (CACCIATORE, 1988, p.76), o termo calunga corresponde ao conjunto ou falange de seres espirituais que vibram na Linha de Yemanjá (água) e cujo chefe é a entidade-guia Calunguinha (U.p.) F. – Kimb. “Kalunga” – mar. V. Falange.
a população residente na região, tanto para os que são assim chamados, quanto para os que os identificam. O projeto Kalunga – povo da terra, trabalho coordenado pela Doutora Mari Baiocchi, conforme referenciado por Velloso (2007), contribuiu para a expressão Kalunga deixar de ser negativa e passar a ser referência identitária positiva. Os sujeitos sociais moradores da região passaram a assumir essa nova forma de identificação.