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la peur au Nord et l’espoir au Sud (2001-2008)

O oferecimento mútuo de olhadelas – característico da infração ao ritual da desatenção civil – não era o único aspecto dos processos de paquera quando dois indivíduos estavam engajados numa interação desfocada. Eles poderiam instaurar uma paquera focada, ou seja, para uma situação social em que há um único foco de atenção e de engajamento. Porém, por diversos motivos, os indivíduos poderiam continuar nesse ritual de olhadelas mútuas e nenhum deles tomar iniciativa e prosseguir na paquera.

A passagem da paquera como interação desfocada para um encontro ou “engajamento de face” era autorizada pelos gestos corporais e, principalmente, pelos olhares recíprocos que tinham um papel especial na comunicação social de expressar ritualmente uma abertura para possíveis interações focadas (GOFFMAN, 2010, p. 104-105). Alysson explicitou a importância que o olhar acompanhado de gestos possue para definição da situação de paquera:

Porque a paquera na festa, você tem que ser, tipo assim, astucioso. As pessoas têm que olhar para pessoa e demonstrar pelo olhar que você está com interesse. Fazer algum gesto e tudo. É diferente porque você está ali, você não conheceu a pessoa antes, as pessoas lá vão, de cara a cara, né, assim de longe ou então de pertinho. [...]. Acho que pessoalmente, você tem que, você fica mais ali na sua e demonstrando através de olhares ou gestos. Aí se a pessoa corresponder, você chegar mais perto e tudo, aí puxa o papo, quem sabe. Pelo menos comigo foi assim né (Alysson, 2016).

No engajamento de face ou encontro, os indivíduos se juntam com a finalidade de sustentar um único foco de atenção visual e cognitiva (GOFFMAN, 2010, p. 101). Um conjunto de atos, gestos e direitos – de falar e ser ouvido, por exemplo –, organiza o encontro, o qual varia de acordo com o ambiente, os objetivos, a função e o número de participantes (Id., 2011, p. 97).

As imagens de si eram comunicadas aos outros fundamentalmente através dos gestos, condutas, atos, vestuário e movimentação corpórea nos contextos festivos. As estilizações dos participantes se relacionavam ao contexto regulador. Manter um porte apropriado e ostentar deferência sobretudo aos frequentadores que se aproximavam para iniciar algum estado de

fala positivava a fachada individual. Ao contrário, se o indivíduo “cortasse” quase todas as deferências direcionadas a ele, poderia ser avaliado negativamente como “bicudo”, besta, riquinho e outros adjetivos (Romeu, 2013). O gay “bicudo” ou que “faz carão” numa acepção excludente e esnobe é comum em espaços GLS – boates ou festas eletrônicas gays, por exemplo (BRAZ, 2009). Entretanto, essa performance bicuda se mostrou ausente nos clubes de sexo masculino em São Paulo – etnografados por Braz (2009).

Da mesma forma que “pegar o olho” do paquerado era uma forma do paquerador ser visto e demonstrar sua paquera, evitar que alguém “pegue seu olho” constituía a forma cortês de bloquear ou interromper uma paquera em curso, pois um dos rituais para controlar o acesso das pessoas ou as aproximações para interagir é evitar o olhar (GOFFMAN, 2010, p. 106). O indivíduo que almejava evitar encontros ou investidas de paquera não deveria se envolver nas olhadelas mútuas, visto que elas permitiriam aberturas para engajamentos de face (Ibid., p. 108). Dito de outra forma, o primeiro ritual da paquera focada era uma “jogada de abertura” praticada regularmente através do olhar fixado e correspondido, cujo retorno poderia ser emitido através da postura corporal ou sinais nos próprios olhos (Ibid., p. 104).

Anterior ao estabelecimento da paquera focada, os processos de aproximação eram permeados, também, de rituais. Nessas aproximações se estabelecia um jogo de “deslocamentos, piscares, olhares, alusões, pequenos gestos quase imperceptíveis para um estranho”. Neste período, sinais de poder, libidinosidade, desejo, status social (PERLONGHER, 1987, p. 45) eram trocados e permitiam o prosseguimento do encontro.

Depois do ritual de “jogada de abertura”, a interação focada da paquera poderia prosseguir através do ritual cerimonial da deferência. Esse ritual era utilizado para se aproximar ou fazer investidas aos corpos paquerados. Entretanto, era a fase mais complexa porque lidava, principalmente, com a confirmação das fachadas ou das performances exibidas pelos indivíduos durante a fase desfocada ou não verbal. Aqui, ocorria uma exacerbação/manipulação/reformulação dos significados atribuídos aos dois polos da paquera- cálculo e desejo.

Além de comunicar estima ou apreciação, os atos de deferência prometem expressar um compromisso de tratar o indivíduo de forma especial (GOFFMAN, 2011, p. 63). O comportamento da deferência é constituído pelos rituais de evitação e os rituais de apresentação. No primeiro, objetiva-se manter distância do indivíduo. E, no segundo, que dá continuidade à paquera, expressa interesse por alguém. Num engajamento de paquera, os rituais de evitação e os de apresentação, especificavam, o que não deve e o que deve ser praticado, respectivamente (Ibid., p. 74). Durante a deferência, também o jogo binário de

atribuição performática era acionado, como em todo o processo de paquera analisado: os indivíduos eram avaliados como “performers” másculos ou “rasgados” – bem afeminados. Este marcador da paquera será discutido na próxima seção.

Alguns indivíduos podem aferir que estão recebendo deferência que os identificam erroneamente ou serem tratados de forma impessoal e sem-cerimônia em relação aos tratamentos que ele considera apropriado (GOFFMAN, 2011). Os jovens também poderiam ser tratados com excesso de intimidade e pessoalidade por outros recém-conhecidos nas aproximações de paquera. Tais atos poderiam ser interpretados como falta de respeito, invasivos à intimidade e ao “círculo de proteção do eu” (Op. Cit.). Quem pratica tais atos poderiam ser desmerecidos ou estigmatizados automaticamente como “galinhas” ou “pegadores”: sem critério nenhum (Luís, 2016).

Os rituais de apresentação nas investidas de paquera nos contextos culturais analisados geralmente eram constituídos por perguntas usuais que objetivavam “quebrar o gelo” (João, 2016) – comentários sobre a festa ou perguntas padronizadas direcionadas a alguém sobre a sua cidade, o estado civil – por exemplo – que buscavam “quebrar” a vergonha e a timidez iniciais de ambos envolvidos na paquera. Essas perguntas também eram realizadas no bate- papo do Facebook.

Ah! Nome, saber nomes, de onde, mora aonde, porque essas festas também dão muito, bastante gente de fora, certo. Perguntar de onde, onde mora, é, tipo, faz o que, trabalha em que, estuda, se estuda ou não. Mas eu estou traçando para o lado pessoal. Certo? (Hugo, 2016).

O ato de perguntar se estava tudo bem com o outro e pelo seu nome eram os rituais de apresentação mais utilizados nas paqueras das festas eletrônicas nos termos dos colaboradores. E a reação do receptor seria avaliada rapidamente sob critérios pré- estabelecidos antes de iniciado o ritual de apresentação: os eixos de diferenciação que serão analisados no quarto capítulo. Qualquer resposta considerada negativa em relação às expectativas positivas esperadas era interpretada como um indício do aproximador terminar o estado de fala nos termos dos colaboradores. Geralmente, os que insistiam tinham percebido alguma indecisão do receptor.

Anterior a esses rituais de apresentação poderiam ocorrer, durante a fase desfocada da paquera “offline”, pequenas colisões ou toques intencionais em partes do corpo, tais como no antebraço, nas mãos ou nos ombros. Esses toques e colisões constituíam rituais indiretos menos frequentes para iniciar as apresentações. Em alguns momentos das vivências,

determinados jovens colidiram comigo ou tocaram em mim. Todas as vezes, as desculpas por tais ações eram seguidas por rituais de apresentação de paquera. Neste ínterim, os rituais de evitação eram acionados para “cortar” as investidas. O ritual mais utilizado era sustentar que estava acompanhado, pois a exposição da condição de pesquisador social não era aceita. Iniciado o encontro conversacional “online” e “offline”, o indivíduo poderia ficar envolvido de forma intensa, leve ou mergulhar nele de forma impensada (GOFFMAN, 2011, p. 110). O componente interacional da fase focada da paquera mais avaliado pelos corpos em paquera era o grau de envolvimento. Ele poderia ser considerado o sinal de interesse ou desejo.

Na paquera focada, parece haver a exigência de ambos os indivíduos direcionem envolvimentos principais e dominantes durante o encontro: mesmo se ocorrer pequenos eventos sociais que distraiam a atenção de algum dos indivíduos no engajamento, um foco maior de interesse, precisa estar subordinado à paquera. Assim, permanecer envolvido na conversação da paquera poderia ser considerado um dos rituais mais avaliados dessa fase.