1.5 Effets non-linéaires
1.5.1 Non-linéarité quasi-instantanée : Effet Kerr
É um dia de festa a queima do roçado, mas somente para os homens do campo, acostumados a tão penoso espetáculo; e que apenas pensam no resultado pecuniário, como os que se ocupam na matança das reses.
Mas para o poeta, o filósofo, o homem sensível e amante da natureza, é um quadro de luto e de profunda angústia.
A floresta estorce-se dolorida num leito de chamas. Os galhos gemem, soluçam, gritam, agonizam, como que pedindo socorro; os reptis silvam e correm no meio do fogo; as aves voam medrosas, e abandonando seus ninhos à destruição; e as labaredas avançando sempre, rugidoras, horríveis, implacáveis como demônios da ruína! (...)
Então, como que a natureza ergue-se ante a penosa desolação e exclama qual mãe amargurada: ―Homens cruéis! o que fizestes do filho de minhas entranhas — de meu arvoredo frondoso —, dos ninhos de minhas aves, da frescura de minhas relvas e ribeiros? Pois quê! não sabíeis que aquelas árvores me custaram anos... que me custaram séculos de não interrompido labor?! E todavia sem dó, tudo reduzistes a cinzas em poucos dias; tudo trocastes por meia dúzia de alqueires de arroz, que não
446 BELLEGARDE, Pedro de Alcantara. Relatório da Repartição dos Negócios da Agricultura, Comercio e
Obras Públicas apresentado à Assembleia Geral Legislativa na terceira sessão da décima primeira legislatura pelo Ministro e Secretário de Estado, Pedro de Alcântara Bellegarde, no ano de 1862. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1863, p. 42.
447 Por ocasião da visita que fez ao Ceará em 1838, em suas Viagens pelo Brasil, principalmente nas províncias
do Norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841, George Garner fez considerações sobre as qualidades produtivas das populações locais, insinuando que o pouco desenvolvimento das atividades produtivas era razão da ausência de um povo industrioso no Brasil. ―Tendo indagado de varios donos de cannaviais porque não plantavam de preferencia café, que lhes assegurava lucros muito maiores, responderam- me que estando habituados a fazer rapadura, temiam aventura-se num genero de lavoura de que só tinham conhecimentos imperfeitos: na minha opinião, porém, a cauza principal está nos seus habitos ociosos e indolentes e no grande horror que nutrem por tudo quanto pareça innovação dos costumes de seus antepassados; estivésse de posse do paiz o povo industrioso, aquella região seria uma das mais ricas do Brazil‖. A parte da viagem referente ao Ceará foi traduzida por Alfredo de Carvalho e publicada na Revista do Instituto do Ceará em 1912. Ver: Um botânico inglês no Ceará, 1838 a 1839. In: Revista Trimestral do Instituto do Ceará. Tomo XXVI, 1º, 2º, 3º e 4º trimestres, pp. 143-205. Fortaleza: Typ. Minerva, 1912.
176 durarão tanto como os frutos da minha floresta! Deus! Meu Deus! é certo, pois, que me condenastes eternamente a esta luta penosa — a criar, a construir com afã, sem trégua, sem repouso, para que os homens destruam em caprichosos momentos, sem compaixão, sem necessidade às vezes, a minha obra de muitos séculos?!448
Estas palavras foram escritas por Juvenal Galeno e correspondem, como ressaltou o próprio autor, a um breve desvio no meio do conto Dia de feira, um dos textos que compõem a coletânea Cenas Populares,449 publicada pela primeira vez em 1871. Uma digressão fortuita e, certamente, nem um pouco desinteressada, pois por meio deste artifício, Juvenal Galeno inseriu-se num debate consistente acerca da destruição da natureza brasileira,450 imprimindo à sua obra de ficção um forte tom de denúncia contra os usos e abusos dos recursos naturais no Brasil.
É preciso levar em consideração a forma como Juvenal Galeno promove a imersão de sua escrita nas questões sociais vigentes em seu espaço de experiência, tocando em pontos centrais da crítica ambiental realizada também por outros sujeitos e por instituições como a SAIN, o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, o MACOP, etc. Nesse sentido, enraizada na sociedade e comprometida com as condições do espaço, do tempo, cultura e relações sociais,451 a ficção de Juvenal Galeno não deixa de ser um importante meio para perscrutarmos as reflexões sobre a destruição do meio natural no decorrer dos oitocentos.
A condenação das práticas de degradação ambiental que está posta no conto Dia
de feira apela para as sensibilidades, notadamente para a dor, o sofrimento, a angústia, o
desespero, parecendo querer tocar o homem ―insensível e cruel‖, que destrói rapidamente a obra que a natureza levou séculos para construir. É relevante ressaltar a proximidade do pensamento de Juvenal Galeno com as considerações feitas por Giacomo Raja Gabaglia nos
Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à prosperidade da província do Ceará.
448 GALENO, Juvenal. Cenas populares. Fortaleza: SECULT, 2010, pp. 74-75.
449 De Acordo com Sânzio Azevedo, na introdução à quarta edição de Cenas Populares, após a primeira edição,
seguiram-se outras, a segunda em 1902, a terceira em 1969, pela Editora Henriqueta Galeno. A quarta edição foi publicada em 2010 pela SECULT.
450 José Augusto Pádua destacou que reflexões sobre a destruição do ambiente natural no Brasil podem ser
encontradas ainda no final do século XVIII, em pensadores como José Bonifácio, Baltasar da Silva Lisboa, chegando a intelectuais como o cearense Thomaz Pompeo de Sousa Brasil, na segunda metade do século XIX. Uma questão que perpassa as críticas ambientais brasileiras é a ideia de finitude dos recursos naturais, o fim da uberdade ambiental e o comprometimento do futuro econômico e político da nação. Orientados por um viés fortemente cientificista e pragmático, estes pensadores concebiam a destruição ambiental como sinal do atraso das atividades agrárias no país e a permanência da incúria dos homens colocaria em risco o sustentáculo da nação, a agricultura. Ver, PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004.
451 FERREIRA, Antônio Celso. A fonte fecunda. In: PINSKY, Carla Bassanezi; LUCA, Tânia Reina de. (Orgs.).
177 Então, o que resta esperar em meio século, se o fogo e o machado sem regra nem lei incumbirem-se de destruir em um dia aquilo para que foram necessários à natureza, esta obreira incansável e de força infinita, anos, até séculos para produzir?! Significando a profunda mágoa que tenho em mencionar a indiferença dos proprietários brasileiros para o melhor aproveitamento das matas, e sobretudo a daqueles que, dominados por princípios falsos, constituem-se os primeiros destruidores da própria fortuna, claramente expresso a importância que reconheço no assunto que ouso tratar, porque o dever mo impõe.452
A semelhança entre os dois intelectuais dá-se pela crítica à imprevidência dos homens no presente, que movidos pelo afã do lucro, pelo desejo de suprir as necessidades imediatas, destroem as riquezas naturais seculares. Mas a contiguidade entre as ideias com as quais nos ocupamos também está expressa na forma como Juvenal Galeno e Raja Gabaglia relacionam a temática da destruição ambiental e futuro da nação brasileira. Em suma, entedia- se que o permanente ataque ao meio ambiente, decorrente de práticas agrícolas consideradas arcaicas, sobretudo o uso do fogo e do machado como instrumentos de preparação da terra, comprometeriam o futuro político e econômico nacional.
Não se pode negar a existência de uma preocupação com a proteção do meio natural brasileiro no século XIX, ela realmente estava espalhada por todas as províncias do império e caracterizou-se, sobretudo, pelo forte viés produtivista. Guardadas as especificidades de cada região, o elemento que configura certa homogeneidade na crítica ambiental oitocentista é a sua orientação pragmática. Proteger as matas e evitar a destruição do mundo natural significava a continuidade e a sustentabilidade da agricultura, além de garantir o progresso material e político do Brasil.
José Augusto Pádua já demonstrou que o pensamento ambiental no Brasil escravista caracterizou-se justamente por
Culpar a mentalidade de imprevidência e descaso, assim como o predomínio de tecnologias atrasadas, pela destruição ambiental que ocorria no país. Seu enfoque não deixou de ser essencialmente político, já que o principal problema estava na incompatibilidade entre a economia predatória e o projeto de civilização do Império.453
A manutenção de culturas esgotadoras e de métodos ―rotineiros‖ comprometia a sustentabilidade da grande lavoura, sob a qual se sustentava o império brasileiro. Havia um claro entendimento de que o projeto de civilização do país dependia primordialmente da agricultura e que a continuidade dessa marcha civilizatória solicitava novas formas de
452 GABAGLIA, Giacomo Raja. Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à província do Ceará. Op. cit. p.
73.
453 PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil
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produção, novas técnicas agrícolas e métodos racionais, que substituíssem as ―velhas‖ práticas de esgotamento da natureza. O rompimento com a tradição era visto como etapa necessária à emergência de um futuro melhorado.
Em 1883, Nicolau Joaquim Moreira expressou de forma muito evidente a incompatibilidade entre a cultura rotineira e a civilização futura do Brasil em um texto publicado na Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, da qual era diretor.
A cultura rotineira e extensiva já fez a sua época, passou o seu tempo. Permanecer ainda o lavrador nesse systema de cultura que enriquece egoisticamente o presente comprometendo o futuro; que devasta as florestas sem critério, sacrificando uma inesgotável fonte de riqueza, que arvora em elementos de producção, a fouce, o machado, a enchada, o facho e o escravo; que transforma em terras safaras solos feracíssimos, depreciando-lhes o valor, é, em nossa opinião, querer levar o paiz ao estado em que cahirão as férteis regiões da Azia, da Grecia e da Italia.454 É relevante destacar como o passado é utilizado por Nicolau Moreira para reforçar a ideia de que a continuidade de processos devastadores resultaria no esgotamento das fontes de riquezas do país. O passado é evocado para servir de exemplo daquilo que não deveria ser atualizado no presente; os casos exemplares de Nínive, Babilônia, Samaria e Jerusalém,455 que sucumbiram em virtude da destruição de suas fontes naturais, deveriam ser olhados como evidência de que a fertilidade da terra é finita e se esgota.
O passado é visto como guardião de testemunhos, coleção de exemplos que comprovavam a associação entre as práticas degradantes e o declínio das sociedades. Nos dizeres de Thomaz Pompeo de Sousa Brasil,
a natureza, e a historia ahi estão para darem testemunho, para demonstrarem tristes documentos da verdade desta lei eterna, de que o país mais fertil, abundante, e rico pode vir a ser convertido em charneca esteril, e solidão inhabitável, se a imprudencia humana o desguarnecer das matas.456
Cremos que os exemplos já são suficientes para demonstrar a existência de um pensamento verdadeiramente comprometido com os destinos da natureza brasileira, que passou a associar a destruição dos recursos naturais pelo uso contínuo de técnicas esgotadoras
454 MOREIRA, Nicolau. Revista Agricola. In. Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura,
vol. 14º, nº 1, março de 1883, p.4.
455 ―Onde se achão essas campinas tão florescentes que constituião, nos tempos primitivos, os abundantes
celeiros da Europa? Onde estão Ninive, Babilonia, Samaria e Jerusalém?‖. Idem, p. 5.
456 BRASIL, Thomaz Pompeo de Sousa. Memória sobre a conservação das matas, e arboricultura como meio de
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à crise da grande lavoura, embora, obviamente, este não fosse considerado o único fator responsável pelos problemas da agricultura.
Este debate, como já destacamos, estava espalhado por todo o país, sendo muito mais intenso nas províncias agrícolas ocupadas com a produção do café, dado o peso deste produto na economia do império. Ao que parece, foi também este peso da atividade cafeeira uma das razões para que João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, então Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, convocasse para o primeiro Congresso Agrícola457 do Brasil apenas as províncias do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.
Não é difícil avaliar a importância do debate ambiental para uma parte dos produtores rurais do Brasil, mormente para os setores ligados à agricultura de exportação. Somado às muitas dificuldades enfrentadas pela grande lavoura (a falta de braços, a ausência de capitais, a inexistência de uma ciência agrícola e de técnicas modernas), o sistema de exploração rotineiro era visto causa inevitável da queda da indústria agrícola. Para homens como Manoel Ribeiro do Val, lavrador da Paraíba do Sul, o fornecimento de capitais e mão- de-obra não resolveria os problemas da lavoura no Brasil, pois o atual modo de exploração só contribuía para ―explorar o resto de suas mattas, e não de melhorar sua producção, que é essencial, adiando por mais alguns annos a sua quéda, mas não evitando que ella se realize, e então ainda mais desastradamente‖.458
Embora o Congresso Agrícola tenha se restringido às províncias do Sul, gerando descontentamento e oposição das outras regiões do país,459 o problema ecológico era entendido como uma questão nacional. A diminuição da capacidade produtiva da terra, a
457 O Congresso Agrícola aconteceu em 1878 no Rio de Janeiro, e representou, segundo José Murilo de
Carvalho, a primeira iniciativa do governo para dar aos produtores rurais a possibilidade de falar direta e abertamente ao governo, em vez de fazê-lo por intermédio parlamentar ou por associações de classe. Sobre o Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, ver: CARVALHO, José Murilo de. Introdução ao Congresso Agrícola. Edição fac-similar dos anais do Congresso Agrícola realizado no Rio de Janeiro em 1878. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1988.
458 VAL, Manoel Ribeiro do. Discurso do Sr. Manoel Ribeiro do Val no Congresso Agrícola do Rio. In:
Congresso Agrícola. Edição fac-similar dos anais do Congresso Agrícola realizado no Rio de Janeiro em 1878. Rio de Janeiro: Fundação casa Rui Barbosa, 1988, p. 164.
459 A principal reação ao Congresso Agrícola do Rio de Janeiro ocorreu em Recife, também em 1878, quando a
Sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco decidiu convocar um congresso semelhante que se realizou em Recife, reunindo proprietários do Nordeste, mormente daquelas províncias que comercializavam com aquela cidade. O Congresso Agrícola do Recife nasceu como reação ao que se entendeu por exclusão das províncias do Norte no Congresso do Rio de Janeiro e acabou reforçar a ideia de distanciamento entre as províncias do Sul e as províncias do Norte, serviu para fortalecer o discurso de exclusão e marginalização nordestina das políticas do império. Sobre o Congresso Agrícola do Recife, consultar: Trabalhos do congresso Agrícola do Recife. Edição fac-similar comemorativa do Primeiro Centenário 1878-1978. Recife: Typ. de Manoel Figueiroa Faria & Filhos, 1879. Durval Muniz de Albuquerque Júnior também destaca que o Congresso do Recife fez emergir um discurso regionalista articulado em torno de temas como a crise da lavoura, a falta de braços, a exclusão das províncias do Norte das politicas de investimento agrário. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Preconceito contra a origem geográfica e de lugar: as fronteiras da discórdia. São Paulo: edições MMM, 2012.
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destruição das matas, os abusos contra os recursos naturais deviam ser tratados por todos os produtores. Manoel Ribeiro do Val começou seu discurso lembrando que ―A natureza, prodiga e liberal em nossa infância, hoje se retrahe e nos nega agua e pao de Norte a Sul‖,460
demonstrando que a questão era de interesse geral.
Destarte, cabe avaliar como esta crítica ambiental foi tratada nas áreas afastadas do centro do império brasileiro, de modo especial como foi sentida e discutida na província do Ceará. Outrossim, é fundamental discutirmos as implicações desta discussão ambiental para a economia cearense, mormente para a indústria pastoril, acentuadamente o ramo mais importante, e, segundo às interpretações correntes na segunda metade do século XIX, a mais dependente das leis da natureza. Duas questões me parecem fundamentais para seguirmos nossa investigação. A primeira diz respeito à natureza desses impactos: Quais os principais problemas ambientais da província? A segunda questão: Quais os impactos da devastação da natureza sobre a pecuária semi-selvagem?
Nos já citados Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à prosperidade da
província do Ceará, Raja Gabaglia fez algumas considerações sobre as secas artificiais
provocadas pelo uso do fogo, um gosto extravagante, segundo as considerações do cientista. Vejamos o registro:
(...) outra sorte de seca artificial preparada pelos próprios habitantes com vigor colossal vai imperando e concorrendo para agravar o mal: refiro-me às extensas queimadas que algumas vezes vingam durante semanas e na distância de léguas, transformando em inóspitos descampados os terrenos pouco antes cobertos de viçosas e verdejantes capoeiras e de uma pastagem abundante.461
Ocupado em perscrutar as razões destas práticas incendiárias, que podiam ocorrer como método de preparação da terra para roçados, por exemplo, o que mais pareceu causar espanto aos olhos de Raja Gabaglia foi a constatação de que os incêndios denotavam um gosto estético pela natureza devastada, vencida pelas labaredas. Um terreno limpo, que os trabalhadores do sertão costumavam apresentar como resultado de muito trabalho, tratava-se, na verdade, de um campo desbastado, limpo pelo fogo, e que dava ―gosto de ver‖.462
460 Ibidem, p. 161.
461 GABAGLIA, Giacomo Raja. Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à província do Ceará. Op. cit.,
pp. 68-29.
462 Vale destacar a passagem em que Gabaglia narra o seu diálogo como um desses trabalhadores do sertão. ―...
lembro-me da conversação que tive com um morador do sertão... ao apear-me no alpendre de sua casa e em seguimento de outros objetos me disse... ‗Veja, em poucos meses tenho feito bastante... como vê: tudo isto... tudo isto‘. Olhei com curiosidade, perscrutando ao que se referia; mas, em vão: era noite, e, diante de mim, divulgava a custo um amplo espaço que deixava ver ao longe duvidosos limites da estrada. ‗O quê?‘ – perguntei
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O registro de Gabaglia é indicativo de uma herança da sensibilidade colonial profundamente caracterizada por duas cores fundamentais, o vermelho do fogo e o verde das matas, como destacou Nicolau Sevcenko em texto clássico. Uma paisagem destituída de sua cobertura vegetal era expressão da vitória humana contra o verde. ―Porque o verde é o perigo, a possibilidade iminente de sua extinção física‖, e na direção da paisagem ausente se ―constrói a lógica da ocupação predatória da terra e é assim que se desenvolve a sensibilidade nativa com relação à natureza‖.463
Raja Gabaglia era representante de uma sensibilidade diferente, de outra leitura do mundo natural, que pressupõe uma paisagem devastada como sinônimo de incúria e imprevidência, própria de um povo que ―por inclinação, gosto ou sistema é perseverante na destruição dos tesouros botânicos que a natureza formou‖.464
Numa província já castigada pelas irregularidades climáticas, o uso indiscriminado do fogo só contribuía para exacerbar as agruras dos sertanejos e dos gados entregues a um sistema de criação extensiva e dependente dos pastos naturais. Além do mais, o incêndio das matas e as derrubadas de árvores, eram imputados como responsáveis pelo aumento da ocorrência das secas no Ceará e em províncias vizinhas. Thomaz Pompeo de Sousa Brasil acreditava que o fenômeno da estiagem tornara-se muito mais recorrente em meados do século XIX,465 e a razão para as mudanças climáticas era justamente a diminuição da vegetação nas áreas de serras, como na Ibiapaba.
Quem viajou a serra grande (Ibiapaba) ainda há 30 annos à parte, e percorre-la hoje, notará uma diferença imensa nas aguas e fenomenos atmosfericos.
de novo sem bem atinar ao que se aludia. ‗Não vê!! – retorquiu-me o interlocutor – pois não vê todo este limpo? Tudo isto era um matão e eu pus-lhe fogo que agora faz gosto de ver‘‖. Idem, p. 70. (Grifos do autor).
463 SEVCENKO, Nicolau. O front brasileiro na guerra verde: vegetais, colonialismo e cultura. Op. cit. p. 111.
Keith Thomas também demonstrou como persistiam na Inglaterra do século XVIII ideias que associavam as florestas à rusticidade e ao perigo, pensamento que impulsionou vários atos de destruição das matas e da substituição de áreas de florestas em campos cultivados. O processo de destruição das florestas ―simbolizava‖, para muitos ―o triunfo da civilização‖ e ―as matas não cultivadas eram vistas, assim, como obstáculos ao