dans les aires de plancher (Voir l’annexe A.)
Section 3.4. Exigences relatives aux issues
3.4.2. Nombre et emplacement des issues
Ainda que seja muito difundida a idéia de que a presente sociedade se manifeste estando ausente de valores morais mínimos, valores estes que possam agregar indivíduos sob uma ordem moral comum, sob um conjunto de regras simplista, porém, necessário para que as relações sociais aconteçam de forma a promover uma aceitação de limites para o agir individual sempre que este afete o próximo, Lipovetsky parece não compactuar com tal proposição. Segundo o autor,
145 Ibid, p. 121.
146 Lipovetsky levanta esta questão e a contradiz, dizendo que “a realidade é mais complexa”. Gilles
É preciso abandonar a idéia fictícia de um mundo em que todos os critérios foram por água abaixo, em que os homens não se deixariam mais guiar por nenhuma crença ou dispositivo da natureza moral. A socialização do pós-dever exaure a obrigação de se consagrar aos demais, mas cristaliza aquilo que Rousseau chamava de “compaixão”, sentimento entendido como repugnância em ver sofrer e fazer sofrer seu semelhante. [...] Sociedade pós-moralista não significa o desaparecimento de todas as inibições, mas uma busca da moralização de cada indivíduo pela repulsa “sentimental”, vivenciada diante das brutalidades, crueldades e ações desumanas.147
Há a manifestação de valores que atuam de modo a orientar, ainda que de forma marginal, as ações dos indivíduos em seu meio social. Há aquilo que pode ser denominado de valores éticos de base, necessários para que o viver em conjunto seja possível. São valores que alcançam um consenso ético mínimo entre pessoas de um mesmo grupo, e que não agridem a integridade física, emocional e psíquica de seus indivíduos.
Um dos valores que tem sido legitimado diz respeito à tolerância, o respeito pelo outro, pela sua maneira de se comportar e de responder ao mundo e suas interpelações.148 Contrariamente ao que se acreditava na era do dever correspondente aos primórdios da modernidade, a religião não desapareceu em virtude do avanço tecnológico e do elevado status que a ciência alcançou. Pelo contrário, o que se vê é um desabrochar de novas espiritualidades, de novas formas de religião, enfim, testemunha-se na atualidade de um retorno a uma fase de reencantamento do mundo, porém, de natureza diferente, pós-moralista
Deixando de se guiar pelas autoridades oficiais, as concepções religiosas se desestruturam; tornam-se mais fluídas, ficam pautadas pelo self-service e pela diversidade dos elos de ligação. Simultaneamente, as crenças passam a gravitar mais propriamente em torno de uma busca pessoal subjetiva, incorporando, cá e lá, promiscuamente, ingredientes de tradição do Oriente e do Ocidente: espiritualidade e esoterismo, visão de absoluto e bem- estar holístico, meditação e relaxamento, mistérios e terapias corporais.149
A sociedade hipermoderna testemunha também de focos de manifestações religiosas de caráter fundamentalista, porém, ainda que em alguns casos a expressão alcançada seja relevante, tais movimentos pouco abarcam as massas. Esta incapacidade de grupos
147 Gilles LIPOVETSKY, A sociedade pós-moralista, p. 125.
148 Lipovetsky cita como exemplo que “nos países europeus, a tolerância aparece em segundo lugar no espectro
das virtudes que os pais desejam incutir aos filhos.” Segue dizendo que “um em cada dois indivíduos a inclui entre as cinco virtudes tidas como primordiais”. Ibid, p. 126.
fundamentalistas em contagiar o todo em torno de um ideal comum também é reflexo da dominação da lógica pós-moralista se fazendo presente, inclusive, na esfera da religião
Não laboremos em erro; esse neofundamentalismo de modo algum nos reconduz ao antigo universo da tradição, pois também corresponde a uma faceta da liberdade individual, isto é, a uma procura da própria identidade, a uma livre opção que se caracteriza por casar a autoridade dos dogmas e a submissão à comunidade.150
Lipovetsky considera, portanto, que “por todos os lados, os extremistas conseguem semear a perturbação no seio do público, mas fracassam na tentativa de subverter o ethos do individualismo tranqüilo, amplamente tolerado pela grande maioria”.151
É neste universo religioso pluralista que o valor da tolerância se faz evocar prioritariamente, sendo admitido como valor de massa, aplicável ao âmbito público tanto quanto privado.
A tolerância é um valor necessário não apenas no campo da religião, mas também em outras esferas sociais, como a esfera sexual, política e educacional, entre outras. Lipovetsky constata, no entanto, que “enquanto virtude ética, a tolerância é vista mais como uma ampla ruptura em relação aos sistemas de forte densidade conceitual do que como idéia de obrigação a ser cumprida”.152 Sob esta perspectiva, Lipovetsky propõe que a tolerância, como valor moral, também contribui para a manifestação do projeto individualista de cada indivíduo em sociedade. Trata-se de um valor que se articula de modo a desestabilizar quaisquer que sejam as intenções de manutenção ou promulgação de valores absolutos em quaisquer que sejam as esferas sociais. Neste sentido, tolerar significa mais suportar do que respeitar e aceitar conviver. Desde que não agrida ou ultrapasse as fronteiras da individualidade, cada um roga para si o direito à liberdade de expressão e pensamento, no entanto, não será tolerável a imposição destes como absolutos, pois tal proclamação afetaria diretamente o âmbito de interesses individuais de outros. Segundo o autor
A tolerância de massa é uma virtude indolor, seu crédito se sustenta pelo refluxo das ideologias ascéticas, pelo declínio dos deveres relativos a elucidação, compenetração e conversão das almas. Num ambiente social em que a prioridade de cada um está voltada para si mesmo, todo indivíduo pode pensar e agir livremente, desde que não cause dano a terceiros.153 150 Ibid, p. 132. 151 Ibid, p. 133. 152 Ibid, p. 126. 153 Ibid, p. 127.
A conclusão, portanto, de que a sociedade atual manifesta uma ausência de valores ou que caminha em direção a um quadro social cujas amarras do hiperindividualismo prenderiam os seus atores a tal ponto que um caos social se instalaria a partir dos confrontos oriundos da falta de interesses coletivos, se mostra equivocada. O hiperindivíduo reafirma a sua identidade quando sustenta as suas relações sobre o primado de um conjunto de valores comuns, tais como o respeito pelo outro, a tolerância, a aceitação de pontos de vista divergentes de concepções próprias, entre outros.
As novas possibilidades de expressão individual que a sociedade hipermoderna confere aos seus indivíduos, não trazem como reveses a formação preponderante de um contexto social que se caracterize como um palco de enfrentamentos simbólicos entre os seus atores. Ainda que esta realidade seja existente, sob os imperativos do hiperconsumo e da lógica pós-moralista nas consciências, o que se expressa é mais uma busca por autenticidade identitária, por uma expressão de vida que corresponda a concepções próprias, portanto, de fundo, do que uma inquietação quanto à necessidade de fazer valer uma personalidade prevalecente sobre o outro. Em épocas passadas, quando a sociedade ainda se encontrava cativa da lógica de diferenciação social como fator que justificava a corrida desenfreada ao consumo por parte de seus representantes, sendo campo de batalha e cenário de exposição simbólica de signos diferenciais, neste tempo então se podia dizer de uma ausência de valores básicos a permear as relações. Os enfrentamentos de classes entre os indivíduos excluíam a possibilidade de aceitação e convívio mútuo. A necessidade de prevalecer sobre o outro se tornava prioridade social. No entanto, um novo paradigma está posto. Uma vez em que as mercadorias são adquiridas para fazer jus às aspirações subjetivas e para fins de conforto e bem estar pessoal, a necessidade de se destacar socialmente em relação ao outro deixa de ser prioridade e preocupação. Como conseqüência, o outro é visto como alguém que também deseja reafirmar a sua identidade e não mais como um competidor. Sua presença é aceitável e, portanto, cabem valores que legitimem a sua presença e que definam de maneira satisfatória os campos e limites de atuação de cada indivíduo separadamente. Para o hiperindivíduo hipermoderno, a afirmação de valores de base nas relações sociais contribui para que o seu projeto de felicidade pessoal seja garantido. A hipermodernidade não caminha em direção a um mundo sem valores, pelo contrário, ela faz ver hoje pequenos lances de um futuro regido pelo fortalecimento de consensos básicos. E ainda que estejam desprendidos do caráter do “dever”, tais consensos minimalistas sustentarão a vida comum em sociedade.