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Touraine trabalha especificamente com a idéia de sujeito como alternativa à modernidade e, mais precisamente, às ameaças que a sociedade de consumo impõe hoje aos indivíduos. Em sua perspectiva, o autor reconhece a manifestação de um individualismo cada vez mais assíduo e praticado, de fato, sua negação seria uma pontuação contraditória aos eventos expressados pela sociedade contemporânea, porém, a reconstrução e a conscientização da importância da figura do sujeito social podem ser uma ação alternativa em direção a um modo de vivência social responsável, fraterno, pacífico e que garanta a continuidade da sociedade.311 Touraine compreende o sujeito dizendo que

O sujeito é, assim, tanto pós-religioso como anti-religioso; tanto racionalista como anti- racionalizador. Rejeita a religião porque pertence à modernidade, ao universo da ação; mas também rejeita, com a mesma energia, toda forma de positivismo, quer seja no pensamento social ou no direito, em nome da instransponível distância que vai da utilidade ao valor. Não se situa a meio-caminho entre o pensamento religioso e o progressismo utilitarista ou positivista; não é tampouco ambivalente, amando e repelindo ao mesmo tempo o progresso e a visão religiosa. Está centrado em si mesmo, o que exige uma certa combinação dos dois universos entre os quais se acha colocado, mas também e sobretudo uma luta ativa contra um e outro. O sujeito não é nem o ser eterno nem a humanidade que o progresso libertou. Não é nem deus nem homem.312

À luz da constatação acima, compreende-se que o sujeito detém em si a competência necessária para a produção de uma reflexão crítica a respeito da sociedade e de seus movimentos e tendências. Em diversos momentos de sua reflexão, o autor atesta para esse fato

De modo mais concreto ainda, todo apelo a uma figura do sujeito implica uma crítica da ordem, a afirmação que esta tende a degradar-se sob o efeito daquilo que constitui a face

311 Ver também a obra Ética sem moral, onde Cortina trabalha com a temática do “individualismo possessivo à

autonomia individual” e também do “coletivismo ao individualismo solidário?”. p. 281-295.

sombria do individualismo e que é o desejo (que gera a paixão) e sobretudo a submissão ao dinheiro e ao poder.313

Em sua perspectiva, “a idéia de sujeito nos arrasta para uma direção diferente. Ela procura em todas as sociedades um princípio de recurso contra a ordem”.314

As experiências e infortúnios que a sociedade moderna têm legado ao sujeito podem capacitá-lo a um auto-reconhecimento em seu meio social. Touraine comenta a respeito da ilusão criada pelo projeto moderno quanto à possibilidade da construção de um futuro desprovido de reveses. No entanto, esse quadro futuro almejado mostrou-se cada vez mais distante das consciências a partir das catástrofes que a inovação tecnológica ininterrupta legou a sociedade. Questiona-se a plausibilidade de sua lógica e a sua capacidade de permanência e de garantia da vida.315 O autor, então, considerando a necessidade de uma crítica mais efetiva à modernidade em suas pretensões, bem como a possibilidade de se contrapor à sua lógica de maneira eficaz, aponta para a figura do sujeito como sendo “um princípio de limitação do poder social e mesmo a um fundamento não social da ordem social”.316 Nas palavras do autor

É precisamente a este princípio que dou o nome de sujeito, cujas formas projetadas no além-mundo, na transcendência, se acham nas religiões, e que a modernidade torna sempre mais presente a si mesmo, reflexivo e capaz de intervir no conjunto das práticas sociais.317

Touraine acrescenta ainda que

Assim, além da passagem da sociedade tradicional à sociedade moderna, que se resume pelo triunfo de uma ordem artificial sobre uma ordem natural, podem-se encontrar em todas as sociedades os mesmos elementos fundamentais: a referência a uma ordem, o apelo a um sujeito cujo ser se acha além da ordem social, a crítica da ordem que não resiste à desordem do interesse e do desejo, o que invoca a intervenção duma figura do sujeito, único princípio de construção duma ordem que não seja nem natural nem artificial, mas simplesmente moral.318

313 Ibid, p. 106. 314 Ibid, p. 106.

315 Bauman, em sua análise da sociedade, concorda com Touraine ao considerar que a “sociedade não garante

mais, nem mesmo promete, um remédio coletivo para os infortúnios individuais”. Ele pontua ainda que, a despeito de uma “liberdade de proporções sem precedentes” oferecida aos indivíduos, segue-se também “uma insegurança similarmente sem precedentes”. Em sua perspectiva, “a vida fragmentada tende a ser vivida em episódios, numa série de eventos desconectados. A insegurança é o ponto em que o existir se desmorona em fragmentos, e a vida em episódios”. A sociedade individualizada, p. 202.

316 Alain TOURAINE, Poderemos viver juntos?, p. 108. 317 Ibid, p. 108.

Sua consideração rompe também com as posições que identificam a liberdade do sujeito com a sua entrega desenfreada às praticas do consumo e à vivência irresponsável no meio social

No limite, aqueles que identificaram a liberdade do sujeito com a liberdade de comércio ou com a abundância dos bens e consumo disponíveis não diferem muito daqueles que, no passado ou em nossos dias, dão o nome de liberdade à diluição do sujeito em comunidade homogênea. Tanto num caso como no outro, sob o pretexto de defender a liberdade e a felicidade individuais, submetem-se os membros de uma sociedade à lógica dum sistema e, através dela, aos interesses materiais e ideológicos daqueles que o dominam e dirigem. Todos os apelos à natureza, quer seja sob a forma estóica ou religiosa de aceitação da ordem natural do universo ou da vida, ou sob a forma, aparentemente oposta, de uma confiança integral nas conquistas da ciência e da técnica, entram em conflito direto com a idéia de sujeito. [...] A idéia de sujeito está mais próxima de uma das vertentes do pensamento religioso do que do utilitarismo, pois repousa sobre a recusa de estabelecer uma correspondência entre o sistema e o ator e reduzir este último a seus papéis sociais.319

Em sua perspectiva, “o sujeito se acha tão ameaçado no mundo de hoje, pela sociedade de consumo que nos manipula ou pela busca de um prazer que nos aprisiona em nossas paixões, como o era no passado pela submissão à lei de Deus ou da sociedade”.320 De fato, na perspectiva do autor, a ameaça que se apresenta ao sujeito diz respeito ao seu engajamento na sociedade das massas

O que hoje ameaça mais diretamente o sujeito é esta sociedade das massas onde o indivíduo foge de toda referência a si mesmo, onde é um ser-de-desejo em ruptura com todo princípio de realidade, à procura de uma libertação pulsional ou, em outras palavras, impessoal.321

O autor segue dizendo que há como que uma “tentação de deixar que se elimine o sujeito e o seu apelo ao universalismo, deixar o campo livre ao mesmo tempo às diferenças culturais e à impessoalidade do desejo e da violência [...].”322

Touraine considera também a possibilidade de um “duplo afastamento” necessário para que o sujeito seja capaz de uma autoconstrução e de uma reflexão crítica de seu meio. Ele explica dizendo que

319 Ibid, p. 108-109. 320 Ibid, p. 70. 321 Ibid, p. 70. 322 Ibid, p. 71.

A reconstrução da experiência não pode efetuar-se a não ser por um duplo afastamento, por uma dupla reação contra a degradação das duas metades dissociadas da experiência. O afastamento da comunidade é o mais fácil de definir. Trata-se de distanciar-se da cultura da comunidade, e portanto do conjunto social e político onde ela estava encerrada. [...]. O sujeito pessoal não pode formar-se a não ser afastando-se das comunidades demasiadamente concretas, por demais holísticas, que impõem uma identidade fundada em deveres mais do que em direitos, insistindo mais na inserção do que na liberdade.323

Na perspectiva do autor, a cultura da comunidade acaba por inibir as potencialidades do sujeito, sua emancipação, sua capacidade de reflexão crítica, entre outras virtudes, na medida em que o condiciona aos seus preceitos. Para Touraine, “o sujeito não é uma ‘alma’ presente no corpo ou o espírito dos indivíduos. Ele é a procura, pelo próprio indivíduo, das condições que lhe permitam ser o ator da sua própria história”. O autor coloca ainda que “não se trata, para o indivíduo, de engajar-se no serviço de uma grande causa, mas antes de tudo de reivindicar o seu direito à existência individual”.324 Touraine conclui seu argumento afirmando que

Esse duplo afastamento do sujeito, que se liberta da força dos mercados ou dos impérios de um lado, e do enclausuramento das comunidades, do outro, é a condição necessária para que se estabeleça a comunicação de sujeito a sujeito [...]. Mas ela é também a condição para que os princípios de justiça, de solidariedade e corresponsabilidade, que permitem a comunicação e a argumentação, se transformem em atos, isto é, em abertura das hierarquias comunitárias ou em limitação da força.325

Relacionando as considerações de Touraine com as abordagens que Lipovetsky faz a respeito do indivíduo, há a possibilidade de se traçar algumas aproximações. As duas propostas anteriormente colocadas, a saber, a proposta de uma ética global em torno da questão ambiental, bem como a proposta de um conjunto de valores mínimos oriundo de um diálogo entre as religiões em busca da paz mútua entre os indivíduos religiosos, permitiram reflexões relevantes quando contrapostas com as constatações que Lipovetsky faz acerca da sociedade de consumo e de sua lógica de funcionamento.

Em se tratando das colocações de Touraine, o sujeito pode ser mais bem compreendido e valorizado não como sendo alguém passivamente cativo dos interesses e ditames da ordem social atual, mas sim a partir de um afastamento necessário para que uma

323 Ibid, p. 72 e 73. 324 Ibid, p. 73. 325 Ibid, p. 74.

observação crítica da comunidade na qual ele se encontra inserido seja possível. A comunidade seria um ajuntamento de sujeitos coletivos, ou seja, de sujeitos capazes de se auto-reconhecerem individualmente no cenário social atual. Para o autor, este seria o ponto de partida fundamental para que mudanças profundas e significativas possam ser realizadas nas sociedades globais.

Lipovetsky, no entanto, em suas análises a respeito do indivíduo e do individualismo atual aponta para a emergência de um individualismo acabado, um hiperindividualismo como produto da sociedade atual. Ele coloca que “na escala da história, é uma segunda revolução individualista que está em marcha, instituindo desta vez um individualismo acabado, extremo: um hiperindividualismo”.326 Trata-se de um tipo de individualismo centrado na busca por satisfações pessoais mais que na observância de uma conduta de vida reconhecida e aceita pelo meio social externo em que se vive.

O autor é perspicaz também por constatar que, embora os alistamentos e a submissão a regras e postulados promulgados por instituições antes responsáveis por prover significação existencial e orientação social aos indivíduos tenha perdido a validade na contemporaneidade, o indivíduo tem se enquadrado em pequenos grupos comunitários que possam lhe prover um sentimento mínimo que seja de “ancoragem comunitária”

Ao atomizar o social, a dinâmica de individualização engendrou uma nova forma de insegurança identitária baseada na perda das ancoragens comunitárias. Daí a necessidade de identificar-se com comunidades particulares, étnicas, religiosas ou infranacionais capazes de recriar um sentimento de inclusão coletiva. Enquanto recuam os pólos de identificação de caráter universal comparados a abstrações distantes, os indivíduos reinvestem em suas comunidades particulares imediatas.327

Este reinvestimento a que Lipovetsky se refere diz respeito à busca por contemplação de necessidades privadas, por isso o engajamento livre em grupos específicos, conforme as preferências dos indivíduos. Não se trata de um retorno ao engajamento comunitário onde se possam compartilhar recursos e necessidades em benefício mútuo, mas sim de encontrar no sentimento proporcionado pela participação em um determinado grupo, bem estar, prazer e segurança interior. Seguramente, a tentativa de imposição de valores por uma instituição já conhecida, como o Estado ou mesmo a Igreja resultaria em resistência por parte de indivíduos que buscam grupos nos quais eles possam encontrar conforto psíquico sem custo. Conforme

326 Gilles LIPOVETSKY & Jean SERROY, A cultura mundo, resposta a uma sociedade desorientada, p. 48. 327 Ibid, p. 52.

coloca o autor, “a dinâmica de individualização rompeu a ordem tradicional que fazia prevalecer as tradições e os interesses de grupo sobre os desejos pessoais”.328 Portanto, ainda que Touraine persista na proposta de um afastamento da comunidade, ou seja, de um distanciamento por parte do indivíduo da “cultura da comunidade”, Lipovetsky parece constatar que o indivíduo contemporâneo encontra nesta mesma cultura todas as ofertas disponíveis para que a sua plena realização existencial seja possível. Sendo assim, como conciliar ambas as necessidades? Como desafiar o indivíduo a tal distanciamento se todo o universo de suas realizações se encontra estritamente arraigado na presente cultura de consumo atual? Essas e outras questões carecem ainda de uma reflexão mais precisa e revelam quão complexas são as questões em torno de uma saída para a modernidade atual, para as iniciativas às práticas contínuas de consumo, ainda que o ecossistema esteja nos limites de sua sustentação, e para o individualismo tão determinante no modo como se dão as relações de gênero.