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Para Sung, nossa crítica não pode nos levar ao equívoco de considerarmos toda a tese de Hayek como totalmente infundada e equivocada. Não é possível negar que sistemas complexos funcionam de fato de modo auto-organizativo ou, pelo menos, as evidências parecem mostrar isso.

Ao tratar dos aspectos positivos do mercado, Hugo Assmann nos alerta para o fato de que é preciso que evitemos, com o máximo cuidado, a perspectiva moralista, tão comum nesse tipo de reflexão, especialmente entre cristãos. Para ele, qualquer discussão séria e serena sobre a economia de mercado deve começar admitindo que: 1º.) é preciso dizer um “sim” decidido ao mercado, não apenas por razões circunstanciais (por exemplo, porque, momentaneamente, não existe outra proposta,

já que o “socialismo real” entrou em colapso), mas também por razões antropológicas (incentivo à criatividade, ao empenho, à melhoria e diversificação produtiva; união profunda entre necessidades e desejos etc.);

2º.) a economia de mercado foi tremendamente exitosa no aumento da produção de bens e serviços e na incorporação dos avanços científico-técnicos ao sistema produtivo.

Ainda para Assmann, talvez sirva como bom ponto de partida, para qualquer debate sobre os limites do mercado, aquele velho princípio da social-democracia: tanto mercado quanto possível, contanto que se admita também todo aquele direcionamento, público e democrático, do mercado a metas sociais, o qual for necessário ao menos para a satisfação das necessidades elementares de todos os cidadãos.

Fique, pois, claro que, de nenhuma maneira, encaramos o mercado como pura lógica de exclusão, mas como a coexistência de uma lógica da inclusão com uma lógica da exclusão. O predomínio de uma sobre a outra depende do grau de normatização dos direitos sociais de todos os cidadãos, à qual os agentes do mercado estejam jurídica e institucionalmente obrigados a ater-se. Não existe “mercado livre” sem esse enquadramento normativo, que já variou muito ao longo da história da economia de mercado, e hoje é profundamente diverso de país a país (ASSMAN, 1994, pp. 7-12).

Nessa mesma perspectiva, Sung considera que, ao exigir rigidez na manutenção da distinção dicotômica do microcosmo (regras aplicáveis ao pequeno grupo) x macrocosmo (tradição da sociedade civilizada extensa e complexa) proibindo condutas próprias aos pequenos grupos no âmbito da ordem ampliada sob pena de extinção desta, Hayek nega não somente a noção de solidariedade no âmbito macrossocial, mas chega a dizer que propor solidariedade neste âmbito é colocar em risco o futuro da humanidade (SUNG, 2002, pp. 109-110).

E essa nova forma de legitimar o sistema de mercado e de se opor ao reclamo da solidariedade no âmbito macrossocial traz sérios desafios à teologia e à reflexão ética.

Na obra A graça de Deus e a loucura do mundo, diante da teoria neoliberal de que devemos abandonar os instintos primitivos de solidariedade e altruísmo (cabíveis apenas na convivência dos pequenos grupos) para garantir a sobrevivência da

civilização humana na ordem ampliada, Sung nos instiga com uma questão crucial: “se é verdade que não podemos conhecer todos os elementos do sistema de mercado, como podemos saber que o mercado sempre produzirá os melhores resultados possíveis para a sociedade e a solidariedade com os pobres?” (SUNG, 2015, p.45).

A resposta dada por Hayek - “é preciso ter fé no mercado” -, acreditando que “ter fé irá gerar sempre o melhor resultado e se, até agora o sistema de mercado não solucionou os problemas sociais da maioria da população mundial é por culpa dos que, em nome das metas sociais, impedem a liberdade total do mercado. Ou seja, não importa qual o tipo de problema econômico ou social, a resposta é sempre mais mercado e menos metas e políticas sociais do Estado e da sociedade” (SUNG, 2015, p.46).

Para Sung, de tanto sermos bombardeados com essas ideias, elas invadiram nossas mentes e atuam em nós (sem que tenhamos consciência disso), provocando desesperança e angústia. Por isso, é importante “criticar essa tese de que fora do mercado não há salvação”.

A afirmação neoliberal só tem sentido baseada em uma fé idolátrica, que absolutiza e dá caráter de providência divina a uma instituição humana: o mercado. E após reivindicar e sequestrar qualidades divinas, exige sacrifícios de vidas humanas (SUNG, 2015, p.46).

Em resumo, Sung aponta os dois aspectos mais visíveis do neoliberalismo: 1) a tese de que não há salvação fora do mercado. Isto é, não haveria possibilidades de desenvolvimento econômico e social fora da obediência estrita às leis do livre mercado; e 2) a teoria sobre a incapacidade humana de conhecer as realidades sociais complexas, - o mercado como um sistema que se auto-organiza a partir das ações, reações e efeitos intencionais e não intencionais dos agentes econômicos, sem um controle consciente por um agente que estivesse fora ou acima do mercado.

Ele reconhece a validade da tese da impossibilidade de conhecimento perfeito de sistemas sociais amplos, que é pressuposto da tese do marxismo soviético. Porém, não concorda com a conclusão neoliberal final:

Para os neoliberais, na medida em que não podemos conhecer todos os elementos que compõe o sistema de mercado, nós não devemos intervir no mercado em nome de metas sociais ou de desenvolvimento social mais

justo, pois toda intervenção no mercado que objetive a justiça social geraria mais problemas sociais do que soluções. Isso porque a intervenção sem conhecimento pleno do funcionamento do mercado traria somente mais ineficiência econômica e com isso, mais crises econômicas e sociais (SUNG, 2015, pp.44-45).

Neste caso, a questão da solidariedade deveria ficar restrita à filantropia (no nível microssocial) e à liberdade de concorrência (no âmbito macrossocial). Assim, a solidariedade social seria fruto da concorrência entre os agentes econômicos no mercado livre, mercado esse que geraria sempre melhores resultados e mais benéficos para toda ou a maioria da população.

Em outras palavras, a solidariedade social ou o ‘bem comum’ seria o resultado da livre concorrência econômica no mercado onde a cada um compete defender seus interesses econômicos contra outros. Em linguagem teológica, o melhor ou o único caminho efetivo de amar ao próximo em termos sociais seria ser egoísta no mercado. Egoísmo no mercado ‘livre’ seria a única forma de amar e ser solidário com os pobres. Assim, os que querem ajudar os pobres com ações e políticas sociais seriam os inimigos dos pobres; e seus verdadeiros amigos seriam aqueles que buscam maximizar os seus lucros e interesses econômicos no mercado, mesmo que para isso explorem os pobres e os expulsem do mercado por não terem dinheiro (SUNG, 2015, p.45).

Para Sung, essa conclusão ‘estranha’ não é resultado de falta de inteligência dos seus propositores – Hayek e outros ganharam prêmio Nobel de Economia -, mas de uma lógica que podemos chamar, seguindo o apóstolo Paulo, de “loucura” do mundo.

Loucura não é estupidez, tem a sua lógica, sua racionalidade. Para os que compartilham dessa lógica, não é loucura, é algo racional e até científico. Mas, para outros que “não são desse mundo”, que olham o mundo a partir dos que foram excluídos do sistema de mercado, isso é uma loucura (SUNG, 2015, p.45).

Ao final desse capítulo, acreditamos ter logrado êxito em responder a inquietação que provocou essa pesquisa: por que a luta por justiça social passou a ser considerada um malefício para a humanidade?

A partir da exposição da teoria elaborada por Hayek, vimos que para ele a noção de justiça social fica esvaziada quando coloca justiça atrelada à conduta humana, mas não à sociedade. Hayek tenta estabelecer que somente é possível

designar alguém como responsável mediante a assunção de uma obrigação e acaba por esvaziar também a noção da responsabilidade social.

Ao final, se a sociedade não assumiu a responsabilidade de manter a sobrevivência daqueles que foram excluídos do jogo do mercado, lamentavelmente não há qualquer débito a ser restituído. Dessa forma, sua proposta é: a expressão “justiça social” deve ser reconhecida como uma convicção religiosa a ser combatida porque sua busca tem o objetivo de atrapalhar o avanço dos bons jogadores no tabuleiro de xadrez do mercado.

Para ele, insistir na busca por justiça social culmina no cerceamento da liberdade individual de cada um poder fazer uso de seus conhecimentos da maneira mais eficiente no mercado a fim de adquirir melhores resultados. Nesse sentido, a Teologia da Libertação pretende destruir a moral tradicional baseada na propriedade separada, honestidade, contratos, trocas, comércio, competição, ganhos e privacidade, uma vez que sua proposta é a libertação dos pobres da carga que a pobreza produzida pelo sistema opressivo de produção os obriga a carregar. Para Hayek, não carregar esse fardo é opor-se à moral tradicional, o que levaria a nossa civilização inteira à morte.

Hayek diz que a revolta dos indignados com a exclusão causada pelo sistema de distribuição de riquezas por meio do mercado, lutadores por justiça social (ou por mais justiça na distribuição das riquezas) não passa de inveja e avisa: por dar vazão a mais antissocial das paixões, os invejosos podem acabar com a paz da ordem, levando nossa civilização à extinção.

O diálogo com os textos de Jung Mo Sung nos deixou claro que a sociedade de consumo criou uma complexidade nas relações sociais e a questão de consumir deixou de ser apenas sobre “ter” produtos, mas, principalmente, passou a significar “ser” alguém. E sobre isso, devemos ficar desatentos ao papel crucial do desejo.

Se o desejo desperta a inveja e esta provoca “falta de paz” (sinônimo de “presença de violência”), entendemos que esse é um assunto que não pode estar de fora de um “guia civilizacional”.

No próximo capítulo veremos como as civilizações humanas pré-modernas lidaram com a questão do controle da violência social e quais as alternativas que a teoria de Hayek nos apresenta.

CAPÍTULO III – A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE DA

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