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Nettoyage de la mémoire

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Vê-se, claramente, que, do ponto de vista lingüístico, essa interação entre o aproveitamento de certos costumes e habilidades indígenas e a catequese cristã não poderia passar sem influência na língua falada. Ela também indica a romagem rumo à língua portuguesa entre os primeiros jesuítas, até porque eles também integravam o plano real de colonização. Em relação a muitos índios, os jesuítas avançaram nessa meta de aprendizado de português, a exemplo do plano de envio de meninos da terra à Metrópole, conforme registra Nóbrega em carta escrita da Bahia a 10 de julho de 1552 (2000:124), chegando mesmo a fazê-lo como ele informa em carta escrita de São Vicente, a 25 de março de 1555 (2000:198): “De alguns mestiços da terra, que nesta Capitania de São Vicente se receberam, escolhi um ou dois este ano e mando-os ao Colégio de Coimbra, dos quais tenho esperança que serão de Nosso Senhor e que serão proveitosos para a nossa Companhia”. Na verdade, só mandou um, como informa Serafim Leite em nota à carta (2000:198), baseando-se em missiva de Luís da Grã, de 24 de abril de 1555, sugerindo que tenha sido o Irmão Cipriano; não foram, portanto, dois os enviados, como afirma John Manuel Monteiro (2000:36). Da pertinência dessa reenculturação Nóbrega nunca se apartará, como se vê de carta escrita da Bahia a 30 de julho de 1559 (2000:359):

Quanto ao escolher-se da gente que nasce cá para a Companhia, assim emstiços cmo brasis, sempre me pareceu que seriam muit úteis operários por causa da língua e ser dos mesmo naturais, mas estes se devem escolher cá e enviarem-se à Europa rapazes e lá serem por tempo largo doutrinados em letras e virtudes, primeiro que cá voltem, porque aqui, pela muita ocasião que têm, tenho por mui dificultoso coalhar nenhum.

Desses trechos jesuíticos e análises de especialistas, percebe-se que nunca foi intento de Nóbrega negar estar os índios sendo conduzidos a uma aculturação que significasse perda da língua indígena com o passar do tempo. Por isso mesmo, estabelecer qualquer paralelo entre a política lingüística do jesuitismo apostólico dos primeiros anos com aquela sistematicamente adotada pelos inacianos no Grão-Pará e Maranhão, que reiteradamente desconheceram ordenações régias para ensino do português entre os aldeados, é um dos grandes erros históricos dos que não sabem distinguir entre as várias etapas da Companhia de Jesus no Brasil. Basta a prová-lo lembrar que a Provisão de 12 de setembro de 1727, do Conselho Ultramarino, ordenava a todos missionários da Amazônia que ensinassem a língua portuguesa aos índios, o que foi objeto de nova determinação na Lei de 15 de julho de 1752, que “mandava igualmente ensinar aos indianos a ler e escrever e falar a língua portuguesa, porque eram vassalos do mesmo monarca”, informa Baena (2004:28), cuja obra foi concluída em 1833. Mas, adita o autor, “tudo isso iludiu os denominados jesuítas, porque não lhes convinha a comunicação dos índios com os portugueses” (2004:28).

Claro está que, antes mesmo de Pombal, o uso da língua geral e seu exclusivismo pelos jesuítas, que não permitiam não só a união como o contato entre colonos e índios, já produzia alguma preocupação na Coroa portuguesa. O marco temporal inaugurado por Pombal reflete apenas sua forma despótica de governar, não admitindo protelações no cumprimento das normas emanadas em sua administração. A análise da antropóloga Rita Almeida (1977:176) é precisa:

Parece evidente que o uso da ‘língua geral’ permitia estabelecer uma conexão com as missões espanholas, circunscrevendo, assim, um universo de ação dos jesuítas que se afirmava como um domínio político próprio da congregação, a despeito de esta fixar-se em territórios

pertencentes às monarquias portuguesa e espanhola.

De uma das numerosas cartas, encontrada em Mendonça (1963:467), endereçadas a seu irmão Marquês de Pombal entre 1751 e 1759, o Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, se extrai, quanto ao norte da colônia, que, apesar do esforço oficial inclusive para implantação de escolas, a língua portuguesa continuou a ser secundarizada, deixando ver, por outro lado, o uso da língua geral como instrumento de poder que dela tinham feito os inacianos:

Já o informei de que eu dei a todas as Religiões a ordem de S. Maj. para que introduzissem nas aldeias a língua portuguesa, sendo mais próprio para conseguir este fim o estabelecimento das escolas; todas me responderam que logo obedeceriam; poucas foram as que o fizeram; rara é a que hoje conserva alguma aparência deste estabelecimento. Porque todas imitam a Companhia, que absolutamente desobedece e se obstinou contra estes utilíssimos estabelecimentos, e aqui nunca o quis executar sem mais razão que a de não obedecer, como é seu antigo costume, e de compreenderem que poderiam com ele, para o futuro, perder parte dos

Já em 1725, “suas reclamações [dos colonos] contra a teimosia dos jesuítas, de somente falarem com os índios na língua tupi, começavam a ser atendidas, e o governo de Lisboa positivamente recomendava se lhes ensinasse a linguagem portuguesa”, informa J. Lúcio de Azevedo (1930:209). O conhecido historiador Arthur Cezar Ferreira Reis (1998:201) também adverte sobre essa recusa dos inacianos quanto ao ensino do português: “A instrução primária, nos dias coloniais, reduzia-se à dos missionários que ensinavam com carinho as crianças indígenas, embora não lhes falassem em português e não lhes dessem mesmo noções dessa língua, contrariando, assim, as determinações reais”.

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