Mas a inconciliabilidade entre ambos os lados jamais será equacionável sem a submissão de um ao outro, que viam os gentios sob angulações absolutamente excludentes entre si. Dois diferentes universos culturais que, de comum, tinham apenas a importância da língua da terra. O resultado disso, segundo alguns historiadores, foi a conveniência governamental – induzida por Nóbrega, que sentia despovoar-se seu arraial catequético pela inconstância ambulatória dos índios catequizandos – da absorção político-edilícia de Santo André por São Paulo, levada a cabo por ocasião da visita de Mem de Sá a São Vicente em março de 1560, unificando em uma única municipalidade a simbiose – ou mesmo um helotismo de São Paulo para com Santo André – que existia entre ambos, a ponto de Cortesão (1955:195) afirmar que a povoação de Piratininga não resistiria sem a proximidade da vila ramalhense, no que é concorde com Serafim Leite (1953b:88): “Apesar das perturbações dos mamalucos, contadas por Anchieta, sempre os portugueses de S. André sustentaram os jesuítas de Piratininga e tinham particular afecto ao Padre Manuel da Nóbrega. Sem esse apoio, São Paulo não teria ido avante”.
Seja como for, São Paulo abocanha a existência legal ou, pelo menos, nominal e topológica, de Santo André, o que dará nova feição lingüística ao lugar, nitidizando-se um bilingüismo em que aos atos oficiais passaria a corresponder o uso do português registrado em documentos que chegaram quase integralmente aos nossos dias9, mas que projetam luzes sobre a extração sociolingüística do idioma português ali utilizado, o que pode ser entendido como uma espécie de revitalização em dimensão coletiva, embora em caráter
9 As atas relativas aos anos de 1562 a 1770 foram publicadas em vários tomos por empenho de Washington Luís. As relativas aos dois primeiros anos desapareceram, como relata Taunay, em São Paulo nos
embrionário, da língua portuguesa naquele rincão ainda não completamente desindianizado, dentro das limitadas possibilidades lingüístico-estilístico-gramaticais de seus viventes, já que, para usar de expressão de Taunay referida a São Paulo da mesma época (2003:20), “a dureza da existência não comportava letrados nessa atalaia da civilização”. Teodoro Sampaio (1978e:239) assinala essa transição da feição indígena para organização européia do lugar: “a vila dos catecúmenos de Piratininga ia perdendo depressa a sua feição indiana. O elemento europeu, ou o branco oriundo do país, começava a tomar a preeminência. Sentiam os padres escapar-lhe a fila dileta e, contudo, abençoavam-na”.
Como adiantado na Introdução, a João Ramalho pareceram desalinhados com seu estilo de vida os rumos dados àquelas povoações pela organização política. Em realidade, o entrechoque daquilo com o que sempre quis e viveu, a ponto de jamais querer saber da esposa que deixara em Portugal, com a nova face ideológica de um modo de produção marcado pelo privatismo e pela máxima exploração econômica pelo escravismo, parecia- lhe uma revivescência ainda piorada do mundo de que fugira. Se da elevação de Santo André a vila tinha lhe resultado a nomeação como alcaide-mor ou fronteiro-mor, a absorção por São Paulo o conduzira a uma espécie de capitis diminutio: “a grande diferença entre a Câmara de Santo André e a de São Paulo é que de uma para outra desaparece a autoridade suprema do alcaide-mor”, escreve Cortesão (1955:231). As mudanças se processaram numa velocidade superior à capacidade de Ramalho de absorvê-las: abandono do caráter de ermida campestre, reagrupamento de portugueses dispersos, que assimilaram bem a nova roupagem de civilização que lhes era dada, organização política segundo os ditames foralícios, fausto do cargo-mor e, agora, diluição de sua proeminência entre outros atores políticos. Ele preferiu recuar. Voltou-se ao estilo de vida que sempre tivera no meio de índios e seu sedutor comunalismo. Um trecho das atas da Câmara de São Paulo (1914-I:34- 5), é bastante expressivo:
Aos quinze dias do mês de fevereiro da era de mil e quinhentos e sessenta e quatro anos, nesta Vila de São Paulo, eu, João Fernandes, escrivão da Câmara da dita Vila, com Baltazar Roiz, procurador do Conselho fomos às casas de Luiz Martinsna dita vila onde estava João Ramalho pousado a lhe requerer que aceitasse o cargo de vereador desta vila porquanto saíra na eleição e pauta, que nesta vila se fez, por
vereador. E pelo dito João Ramalho nos foi dito que ele era um homem velho que passava de setenta anos e que estava tão bem em um lugar em terra dos contrários da Paraíba, como degredado no dito lugar e que pelas tais razões não podia servir o dito cargo...
A civilização o atropelou. Sua escolha cultural, por outro lado, confirma o porquê da resistência da língua tupi no planalto, se até um influente branco que ocupara o mais alto cargo político de uma vila até então preferira reindianizar-se novamente... Seu exemplo deve ter influenciado o já citado Antônio Bicudo Carneiro, ouvidor da Comarca em 1586, que se asselvajou tanto “que vivia no meio dos índios como um índio”. Resistir no seu
ethos, dispensar os convites ao exercício de funções institucionais alegando idade
avançada. Preferiu retornar aos limites de sua cultura semitribal. Ainda do ponto de vista lingüístico, sua opção em refluir à cultura originária significou também um contraponto à ideologia da colonização, inclusive quanto à velada preferência desta pela língua portuguesa. Repetindo, perguntar por que da resistência da língua tupi no planalto significa ter que questionar escolhas culturais como estas, até mesmo porque os mamelucos liderados por Ramalho irão sistematicamente conspirar, primeiramente, contra o plano catequético dos padres e, em segundo lugar, contra deliberações limitadoras da própria Câmara de São Paulo vedando apresamento, comercialização e remessa de certos índios para o litoral.
A mencionada absorção legal é referida por vários autores, inclusive por Serafim Leite, que afirma que essa transferência foi querida pelos santo-andreenses (2004:101), a que se opõe Jaime Cortesão (1955:217). Por todos, o relato de Frei Gaspar da Madre de Deus (1975:125), que, embora não esteja a salvo de limitações quanto ao verdadeiro pano de fundo daquela manobra bem engendrada pelo gênio político de Nóbrega, descreve concisamente a operacionalização do processo unificador:
A vista dos padres era muito mais penetrante do que a de seus êmulos: eles olhavam para aquela Vila como para um obstáculo aos progressos da nova aldeia; e vendo que ambas não podiam existir, desviaram o golpe fatal que ameaçava a sua povoação, dispondo as cousas de sorte que a espada fosse descarregar sobre a inimiga. Tentaram persuadir aos do
Governo que era conveniente ao Estado e útil à Região mudar-se para a aldeia de S. Paulo o Pelourinho e moradores de Santo André e juntamente o Foro de Vila. Ponderavam que esta, por ficar vizinha ao mato, estava exposta às invasões repentinas dos bárbaros, nossos contrários, e que, por falta de sacerdote, não havia nela quem administrasse os Sacramentos; concluindo, finalmente, que os mencionados inconvenientes ficariam remediados com a transmigração da Vila para junto ao Colégio, onde assistiam sacerdotes que suprissem a falta de pároco e não podiam chegar os inimigos sem serem sentidos, por ficar S. Paulo em lugar descoberto e livre de árvores que ocultassem as marchas dos exércitos contrários.
Depois de contenderem alguns anos por este modo, chegaram finalmente os padres a cantar vitória porque, achando-se em S. Vicente o Governador Geral Mem de Sá, em 1560, tais razões lhe propôs o P. Nóbrega, a quem ele muito venerava, que, persuadido delas, mandou extinguir a Vila de Santo André e mudar o Pelourinho para defronte do Colégio: executou-se a ordem no mesmo ano, e daí por diante ficou a povoação na classe das vilas com o título de S. Paulo de Piratininga, que conservava desde o seu princípio.
Darcy Ribeiro (2001:84) tem uma opinião assemelhada:
Os jesuítas usaram de todas as artimanhas, primeiro para atrair Ramalho e sua gente para junto deles, depois para fazê-lo sair, tão vexatória era sua posição de mando indiscutível sobre os índios e da expectativa de que tivesse uma atitude de submissão diante dos padres. Estes não podiam prescindir dele em face da ameaça que representavam os Tamoio, confederados contra o núcleo tupinambá de São Paulo, e ultimamente instigados pelos franceses estabelecidos na baía de Guanabara. Só com o apoio de Ramalho e seus aliados, os jesuítas puderam enfrentar o inimigo que lhes causava mais horror, que era a presença da Reforma, encarnada pelos calvinistas, ali, onde eles, como a Contra-Reforma, tentavam criar um reino de homens pios.
Mais: a língua tupi até então falada no arraial piratiningano, controlado exclusivamente pelos inacianos entre 1554 e 1560, irá entrar em contato com a aprendida pelos portugueses vindos de Santo André, relexificada e, muito mais ainda, regramaticalizada pela língua de origem daqueles colonos, sendo que ambas, ao final, cederão passo ao primado da língua do conquistador branco.