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Les protocoles optimistes sont-ils ordonnançables ?

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5.1 ELEVAÇÃO DE SANTO ANDRÉ DA BORDA DO CAMPO

AO PREDICAMENTO DE VILA

João Ramalho, o referido patriarca dos paulistas, vivia numa aldeia ou ermida, que mais tarde será chamada Santo André da Borda do Campo, distante de duas a três léguas do núcleo jesuítico, que teria sido a princípio habitada somente por seus descendentes, índios e escravos, “mas depois de facultar D.Ana Pimentel a entrada dos portugueses no Campo, vários concorreram para ela”, informa Frei Gaspar da Madre de Deus (1975:122), resultando mais tarde, em 08 de abril de 1553, sua elevação a Vila pelo Governador-Geral Tomé de Sousa. Este mesmo, apud Cortesão, (1955:180), assim se reporta ao monarca:

Ordenei outra vila no começo do campo desta vila de São Vicente de moradores que estavam espalhados por ele e os fiz cercar e ajuntar, para se poderem aproveitar todas as povoações deste campo. E se chama a vila de Santo André, porque onde a situei estava uma ermida deste apóstolo e fiz capitão dela a João Ramalho.

Jaime Cortesão (1955:180-1) pondera que Tomé de Sousa, estrategicamente, diante da proximidade dos castelhanos, agrupou em torno de João Ramalho minúsculos núcleos populacionais remanescentes da primeira fundação de São Paulo por Martim Afonso de Souza, que tinham se atomizado pelo Campo. Em outra passagem da mesma obra, o historiador português (p.188) sentencia: “Podemos estar certos de que o maior número dos primeiros cidadãos andreenses provinha da Piratininga de Martim Afonso”. Essa conclusão imbrica com a informação trazida por Nóbrega em que se baseia Serafim

Leite para afirmar (2004:100): “A povoação que Martim Afonso de Sousa, depois de fundar a vila de S. Vicente, tinha instituído no seu interior não chegou a ter vida municipal efetiva, ou só a teve efêmera, dispersando-se a breve trecho os seus moradores”. Nóbrega relata (2000:214): “Ali foi a primeira povoação de cristãos que nesta terra houve em tempo de Martim Afonso de Sousa, e se vieram a viver ao mar por razão dos navios, de que agora todos se arrependem, e todavia a alguns deixaram lá ir viver”.

João Ramalho era agora o alcaide-mor da Vila de Santo André, cuja população de brancos girava em torno de trezentos habitantes, nos cálculos de Cortesão (1955:189), dos quais ele conseguir identificar nominalmente 39, e 800 nos de Schmidel (1903:285), que lá esteve em junho de 1553. O cálculo de Cortesão parece mais razoável, já que Schmidel tornou-se conhecido por seus exageros de toda natureza, inclusive quantitativos. A função daqueles habitantes era “vigiar e impedir o trânsito de espanhóis e portugueses entre Santos e Assunção e vice-versa; e assegurar a soberania portuguesa no campo de Piratininga e sobre os caminhos de penetração que dali partiam” (CORTESÃO, 1958:219).

A completa indianização desses portugueses, espalhados após a fragmentação da vila de Martim Afonso, torna intuitivo afirmar que a língua de interfluxo fosse a geral, especialmente pelo numeroso contingente de índios na região, eixo sobre o qual girava a economia local, podendo-se falar em obnubilação da língua original dos brancos. Várias passagens de escritos de época, em sua maior parte jesuíticos, confirmam essa hipótese aqui afirmada.

A primeira delas é extraída de carta escrita por Nóbrega, da Bahia em 1552, e dirigida ao Provincial Simão Rodrigues (2000:130). Nela, ele aponta para o fato de que “a mulher e a filha de Diogo Alvarez Charamelu [leia-se Caramuru] (...) não sabem nossa fala”. Significa isso dizer que a indianização do português lançado ao novo mundo não implicava nenhum sentimento patriótico de preservação de suas instituições sociais, de que sobressai a língua. Situação similar deparou Antônio Rodrigues, que viria a ser um dos três bons línguas referidos por Nóbrega e Anchieta, quando ainda era um explorador em busca de riquezas pela região do Rio da Prata. Chegando, com seus companheiros, a uma aldeia de índios Timbó, ele encontrou “alli un spañol que avia mucho tiempo que alli estava, demaneira que ya no sabia hablar español y sabia bien la lengua dellos”, relata Serafim Leite (1935).

Na sua incursão pré-Nóbrega, o padre Leonardo Nunes já narrara o encontro com esses portugueses da antiga povoação fundada por Martim Afonso de Sousa, que lhe pareceram um tanto espinhosos e completamente mimetizados com o meio em que se encontravam: “trabalhei muito com os cristãos, que achei derramados naquele lugar entre os índios, que se tornassem às vilas entre os cristãos, no qual os achei mui duros”, transcreve Cortesão (1955:179). Entretanto, como salienta Serafim Leite (1953a:30), “apesar dos esforços de Leonardo Nunes, os do Campo continuavam a dispersar-se”. Numa carta escrita a 20 de junho de 1551, antes, portanto da fundação da aldeia de São Paulo por Nóbrega, novamente Leonardo Nunes, apud Jaime Cortesão (1955:177), que precedera aquele jesuíta na visita a Piratininga, fornece dados muito relevantes ao tema: “Estando a escrever esta veio aqui ao Colégio um filho de um Cristão e de uma Índia, nu como índio, e será de idade de 20 anos e não sabe coisa alguma de nossa língua, nem tem mais notícias do seu Criador que os mesmos índios, antes menos, se menos se pode dizer” (sem grifos no original).

João Ramalho, o solitário forasteiro branco, mesmo se tornando um chefe tribal e apresador de índios inimigos, aderira à língua dos nativos, sem jamais ter imposto a sua, ou mesmo tentado difundi-la, como se vê do escrito de Nóbrega (2000:183) em que ele se refere ao filho do protopovoador paulista, de quem se faz acompanhar ao sertão ‘por mais autorizar o nosso ministério’, sem fazer qualquer referência à sua capacidade em falar português, o que induz pensar que não o sabia, até mesmo porque em todas as cartas de Nóbrega ele sempre assinala a habilidade de língua, tida como de basilar importância.

Isso não significa dizer, entretanto, que os portugueses antes dispersos não mais falavam português. Não houve tempo para isso, como no caso do espanhol referido no relato de Antônio Rodrigues. Um trecho de uma carta escrita por um ex-menino órfão a mando de Nóbrega, só descoberta por Serafim Leite posteriormente àquelas que já tinha dado a conhecer, ilustra bem o bilingüismo, embora in potentiam, que certamente havia entre aqueles portugueses remanescentes da malograda tentativa de Martim Afonso em fundar uma povoação em Piratininga. São eles que comporão majoritariamente a população branca da futura Vila inaugurada por Tomé de Sousa, como conclui Cortesão (1955:189): “Chegamos à irrefragável conclusão de que os moradores de Santo André da Borda do Campo pertenciam, na sua maioria, ao número dos primitivos povoadores da Piratininga de

Martim Afonso”. Na referida carta de Nóbrega que tem como escriba o outrora menino- órfão, encontra-se assentado (1953b:18):

Porque aqui na nossa Igreja, além do domingo, se faz todas as sextas- feiras uma prática aos Portugueses e cristãos da terra; aos Portugueses a fazem os Padres em português, e acabada ela, o Irmão Correia, que sabe bem a língua da terra, nela faz outras aos Índios, que já estão juntos, e aos Portugueses que a entendem.

Conclui-se, portanto, que, se não tiveram nenhuma preocupação de ensinar aos filhos a língua pátria, também não a esqueceram de forma a comprometer a intercomunicação, embora, como se vê do texto, houvesse aqueles que preferiam se comunicar na língua da terra e até mesmo nela ouvir as pregações religiosas. Como adverte Serafim da Silva Neto (1963:66), “não seria nem natural nem razoável o esquecimento da língua portuguesa em favor da geral. O idioma é repositório da cultura e, por isso, está fortemente agregado ao espírito humano”.

Além desses portugueses indianizados que foram reagrupados por Tomé de Sousa, outros certamente a eles se juntaram pra compor a organização política da nova Vila, como, por exemplo, os que tinham retornado a Santo André, após o fracasso da empreitada de Martim Afonso. Jaime Cortesão (1955:189) pondera que “se alguns novos moradores vieram juntar-se em São Paulo aos de Santo André, naqueles terríveis começos do pequeno burgo, terão sido em número escassíssimo”, exceção feita, é claro, como ele mesmo salienta linhas depois, a povoadores como Jorge Moreira, que chegou do Reino depois de 1542.

Como quer que fosse quanto a essa difícil precisão demográfica, o fato é que a língua aí falada com predominância era a geral já com alguns elementos lexicais do português e tendo este como modelo para a regramaticalização, já que o alçamento desses portugueses à língua dos índios foi feito assistematicamente. Aqui se encaixa com alguma justeza o enquadramento que Hildo Honório do Couto faz a respeito da língua geral, ou seja, de que se trata de um anticrioulo (1996:87), objeto de uma teoria de língua mista (1996:154): “Seu léxico é basicamente o tupi. No entanto, sua gramática se aproximou da

do português. (....) A língua geral só não é um anticrioulo pleno porque a regramaticalização foi em pequena escala e pelo fato de o povo que a fala ser endógeno”.

5.2 JOÃO RAMALHO E A CHEGADA DE NÓBREGA AO

PLANALTO DE PIRATININGA

Foi na condição, portanto, de alcaide-mor de Santo André, cuja jurisdição incluía a futura vila de São Paulo, ponto sobre o qual as cartas jesuíticas são omissas, segundo Cortesão (1955:185), que João Ramalho assistiu à chegada de Nóbrega para fundar o núcleo catequético em Piratininga. As relações não serão boas entre as duas vertentes ideológicas diametralmente opostas, especialmente quanto à liberdade dos índios, representadas exponencialmente por cada um deles, embora Serafim Leite (1953b:81) teime em dizer que certa má vontade para com Ramalho só tenha persistido em Anchieta. Na verdade, haverá sempre um irredutível denominador comum entre ambos, apesar de muitas vezes terem estabelecido um modus vivendi ensejado pela hábil capacidade de Nóbrega em negociar, como salienta Cortesão (1955:139):

As relações

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