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A espécie humana demorou muitos milhões de anos a desenvolver a sua habilidade para andar de um modo confortável apoiado em dois pés (Fonseca 1989 e 1994, Eccles, 1995, Donald, 1999). Demorou talvez um milhão de anos no desenvolvimento do uso e compreensão da linguagem oral ou falada (Donald, 1999, Shaywitz, 2003). Como podemos constatar, estas evoluções levaram muito tempo e implicaram que as nossas estruturas física e neurológica se tenham transformado com o objectivo de melhor realizarem as referidas habilidades (Eccles, 1995, Donald, 1999).

Em contraste, o uso da linguagem visual ou escrita é uma aquisição humana muito mais recente, pois começou à apenas 5000 anos (Shaywitz, 2003, Armstrong, 2004). De facto, há mil anos atrás era raro haver pessoas capazes de ler e actualmente ainda existem muitas culturas nas quais a linguagem escrita é desconhecida (Shaywitz, 2003). Na realidade, só com o advento da escolaridade obrigatória, aproximadamente há cem anos, é que a leitura passou a ser uma competência habitual nas sociedade ocidentais.

Deste modo, o presente capítulo tem o duplo objectivo de reflectir sobre a origem da escrita e dos sistemas de escrita, e o de perceber como é que o sistema alfabético, considerado como o salto mais importante na invenção visual simbólica, influencia a aprendizagem da escrita e da leitura.

2.1. Origem da Escrita e Sistemas de Escrita

O uso do alfabeto, que hoje nos surge como um recurso simples e corrente, representou, sem qualquer dúvida, um passo decisivo na história da Humanidade e foi o resultado do longo labor de sucessivas gerações. Para compreendermos a importância desta técnica, basta pensarmos nas dificuldades que o Homem teria sentido ao desejar transmitir os seus desejos, sentimentos e pensamentos.

A luta pela expressão do pensamento nasceu com o próprio Homem, e a tendência para expressar graficamente manifestou-se desde os dias mais remotos. Mas de que maneira teriam sido expressas as primeiras mensagens ?

Como nos refere Donald (1999) os primeiros e mais universais processos de comunicação são o gesto e a fala. Sousa (1999) recorda-nos que os gestos, a mímica, os sons, a voz e a fala são recursos de comunicação inerentes à natureza humana, que estão presentes em todos os períodos de desenvolvimento e são universais, pois podem ser encontrados em todas as culturas.

Fonseca (1984 e 1999) e Caldas (1999), ao associarem estes recursos tanto ao processo de desenvolvimento da criança como à evolução da espécie humana, chamam atenção para as suas vertentes ontogenética e filogenética, respectivamente.

No entanto, não obstante a linguagem geralmente se concretizar através da fala, esta não é a única via de comunicação linguística (Castro & Gomes, 2000), pois a necessidade de uma forma transportável e conservável da comunicação (Donald, 1999), que ultrapassasse os limites espaciais (porque dependem dos limites da audição, da visão e do tacto) e temporais (porque se extinguem após breves segundos), levou o Homem a procurar outros meios de comunicação (Sousa, 1999).

Deste modo, salientando-se que antes que os símbolos visuais pudessem ser inventados, o intelecto modelador teve de se aperceber da sua necessidade (Donald, 1999), surgem os prenúncios da linguagem escrita, como são exemplo o uso de objectos (pedras, cordas, etc.) ou de traços na superfície de objectos (desenhados, gravados, riscados, etc.). Estes prenúncios tinham tanto um valor representativo-pictográfico, como eram simples auxiliares de memória, não possuindo ainda qualquer conexão natural entre o sinal e o objecto significado (Donald, 1999).

São um exemplo desses sistemas os quipus dos Incas, cordéis com nós que lhes serviam para fazer contas ou anotar efemérides importantes, ou as diferentes composições florais, utilizadas pelos habitantes de certas ilhas do arquipélago da Malásia para recordar ou transmitir acontecimentos (Linuesa & Gutiérrez, 1999).

Mas destas primeiras tentativas até à escrita actual muito tempo passou, pois, tendo por base as evidências arqueológicas disponíveis, pensa-se que a espécie humana levou milhares de anos para desenvolver os primeiros métodos de representação visual simbólica (Donald, 1999).

Tendo havido uma evolução para uma abstracção e para uma economia cada vez maiores (Castro & Gomes, 2000), nas civilizações do passado podemos encontrar formas diversas de representar mensagens escritas (Caldas, 1999). Não obstante a origem da escrita e a sua evolução ser um tema que ainda está longe de ser interpretado de forma unânime pelos diferentes investigadores, parece ser consensual que existem três modos diferentes de invenção simbólica visual ou grupos de sistemas de codificação da linguagem (Figura 9), que são a pictografia, a ideografia e a fonografia (Gelb, 1987, Kirby & Williams, 1991, Rebelo, 1993, Citoler & Sanz, 1997, Caldas, 1999, Donald, 1999, McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003).

Níveis Sistemas de escrita Exemplos

Donald (1999) Gelb (1987)

Pré escrita Pictografia Pictografia Pinturas Escrita

Ideografia Logografia Hieroglífica Egípcia Chinesa Fonografia Silábica Semítico ocidental/Fenícia Japonesa

Alfabética Grego

Figura 9 – Fases do desenvolvimento da escrita

No entanto, torna-se importante estabelecer aqui uma diferença, pois embora estes três sistemas utilizem sinais gráficos, o primeiro fá-lo como modo de representação de objectos e acontecimentos, enquanto que os outros dois, dizendo respeito à escrita propriamente dita, usam os sinais para representar elementos linguísticos (Gelb, 1987, Sousa, 1999).

Assim, embora a escrita tenha a sua origem no desenho, só resulta deste quando os traços gráficos valem mais como sinais mnemónicos convencionais, do que como desenhos de objectos individuais, e quando estes mesmos traços representem indirectamente os objectos e os acontecimentos (Gelb, 1987, McGuinness, 1999).

Antes de passarmos a uma breve abordagem das fases de desenvolvimento da escrita, torna-se importante recordar que a origem da escrita e a sua evolução é um tema que ainda está longe de ser interpretado de forma unânime pelos diferentes investigadores. Deste modo, embora a fase inicial dos diferentes sistemas de escrita pareça estar sempre associada à pictografia, existem duas grandes hipóteses sobre a origem da escrita.

Uma delas, denominada monogenética, defende a existência de uma origem única da qual terão derivado evolutivamente outros sistemas (Gelb, 1987). A outra,

designada multigenética, sustenta a possibilidade de que terão existido distintas origens ou invenções da escrita, que inclusivamente poderão ter surgido em épocas e regiões diversas (Linuesa & Gutiérrez, 1999).

A teoria monogenética proposta por Gelb (1987) é do tipo evolucionista, com dois aspectos complementares. Por um lado, de um ponto de vista da teoria da escrita, este autor sustenta que a escrita foi evoluindo dos sistemas logosilábicos até chegar aos sistemas alfabéticos, passando pelos silábicos.

Por outro lado, no que se refere à perspectiva histórica, o autor sugere que este desenvolvimento teve início com a escrita egípcia (sistema logosilábico), passou através da escrita semítico-ocidental (escrita puramente silábica), até chegar à escrita grega, a qual, sendo claramente alfabética constitui o culminar desta evolução, pois, embora existindo distintos tipos de alfabetos, todos eles se regem pelo mesmo princípio.

No entanto, a teoria monogenética não é a única que fornece uma interpretação sobre a origem da escrita. Mattingly (1989) e Coulmas (1989), referidos por Linuesa & Gutiérrez (1999) e representantes da hipótese multigenética, sustentam que a escrita pode ter tido diferentes origens e inclusivamente pode ter sido inventada mais de uma vez. Estes autores defendem que a escrita de cada língua é a apropriada para essa estrutura linguística, e o que uma escrita representa são as características dessa língua.

A corroborar este tese os autores referem o facto de em escritas como a egípcia e a chinesa, parecer ser a estrutura da língua o que determina o carácter da escrita, o que torna a explicação monogenética mais débil (Linuesa & Gutiérrez, 1999).

Após estas considerações prévias, passamos agora à abordagem dos diferentes sistemas de escrita. Como nos refere Kirby & Williams (1991), Ellis (1995), Morais (1997), Castro e Gomes (2000), McGuinness (1999) e Sousa (1999) o sistema mais primitivo é o sistema pictográfico, no qual são utilizados símbolos e não signos, para representar a realidade. Os pictogramas (desenhos) representam assim um objecto, animal ou acontecimento de uma maneira simplificada (Citoler & Sanz, 1997, Morais, 1997).

Desde tempos imemoráveis que o Homem aprendeu a desenhar, por exemplo os habitantes das cavernas já gravavam nas paredes das mesmas imagens representativas do ambiente que o rodeava, sendo particularmente curiosos, devido ao seu realismo, os

desenhos que representam cenas de caça. O Homem principiou assim por desenhar os objectos que lembravam os factos que desejava consignar de modo duradouro.

Mas não foram apenas os povos pré-históricos que utilizaram figuras para transmitirem informações. Os Maias e os Astecas e, actualmente, algumas culturas na América do Norte, na África Central, no Sudeste da Ásia e na Sibéria, são exemplos de povos que, por não terem sistema de escrita, usaram ou continuam a usar o sistema pictográfico.

Ellis (1995) sugere que a escrita pictográfica pode ser denominada de pré- -escrita, pois é diferente da verdadeira escrita uma vez que existem muitas maneiras de “ler” (converter em palavras) um desenho, mas apenas uma maneira de se ler uma frase. Por outro lado, a escrita pictográfica usa os sinais como modo de representação de objectos e acontecimentos, e não para representar elementos linguísticos (Gelb, 1987, Sousa, 1999).

Para além da referida dificuldade em “ler” um pictograma, este também não era suficiente para a compreensão das ideias ou realizações, pois era necessário expressar o mundo das abstracções. Como representar, por exemplo, conceitos como honestidade, divindade ou beleza ?

Surge assim o sistema ideográfico, segundo Cohen (1961, in Sousa, 1999), ou

sistema logográfico, na versão de Gelb (1987), onde as noções abstractas são representadas por desenhos convencionais de objectos (ideogramas) com elas relacionados. Os ideogramas diferem assim dos pictogramas, pois enquanto os primeiros indicam uma ideia, os segundos indicam um objecto (Morais, 1997).

Deste modo, os sistemas ideográficos são considerados as primeiras formas de escrita propriamente dita (Gelb, 1987), sendo exemplos destes sistemas a escrita cuneiforme usada na Mesopotâmia (3100 a.C. a 75 d.C.), a escrita hieroglífica utilizada no Egipto (3000 a.C. a 400 d.C.) e a escrita chinesa (1300 a.C. até ao presente) (Gelb, 1987, Sousa, 1999).

Tal como os pictogramas, que representam o conteúdo da mensagem sem que haja relação com o enunciado oral, também os ideogramas ou logogramas não representam a linguagem falada, representando sim, através de desenhos, o que a linguagem falada pode transmitir através das palavras e das frases (Ellis, 1995, Citoler & Sanz, 1997, Morais, 1997, McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003). Como sugere Rebelo

(1993) e Donald (1999) os ideogramas representam, em primeiro lugar, o significado da palavra e só em segundo lugar ou indirectamente representam o som correspondente.

Assim, como nos refere Ellis (1995), a transformação dos ideogramas ou logogramas no sentido de os tornar cada vez menos semelhantes às figuras que representam, aumentando assim a sua arbitrariedade, levou alguns investigadores a considerarem os ideogramas como representando menos os conceitos ou significados e mais como uma representação de palavras da língua falada.

Mas, embora a orientação geral inicial fosse a de fazer corresponder um ideograma ou logograma a uma palavra, com a necessidade de dar resposta a novas necessidades houve uma transição para uma escrita silábica, levando a que em várias culturas a escrita se tornasse simultaneamente logográfica e silábica, funcionando esta como complemento daquela (Sousa, 1999).

Como exemplos desta situação Rebelo (1993) e Sousa (1999) referem os casos do antigo Semítico e da escrita japonesa, a qual recebeu dos chineses a escrita logográfica para, por volta do Séc. III a.C., introduzir dois tipos de escrita silábica, uma destinada às palavras de origem estrangeira e outra para indicar a significação morfológica da palavra. Usando os seus signos (40 a 60) cada um destes sistemas pode representar todas as formas da linguagem falada.

Em síntese, os sistemas de escrita ideográficos ou logográficos, porque incompletos e complicados, não permitiam a perfeita comunicação de ideias entre os Homens, nem assinalavam os acontecimentos vividos, em termos que claramente se viessem a entender. Por isso, o sistema ideográfico foi evoluindo e a palavra foi dividida em sílabas, atribuindo-se a cada uma delas um sinal correspondente, surgindo deste modo aquilo a que se chama o sistema silábico de escrita.

Este foi um passo decisivo, pois da escrita desenhada passou-se à escrita por sinais, de que é exemplo o sistema silábico, no qual a cada sílaba oral, adoptada como unidade linguística básica, corresponde uma marca gráfica única (Kirby & Williams, 1991, Rebelo, 1993, Martins & Niza, 1998, McGuinness, 1999).

Depois de este avanço decisivo, já não tardou muito até que Homem evoluísse para um sistema em que os sinais já não representam os objectos, as ideias, ou as sílabas, mas sim os sons. Deste modo, ao passar a atribuir um sinal a cada som o

Homem inventou o sistema alfabético, que, juntamente com o sistema silábico, constituem a escrita fonológica (Donald, 1999).

Como nos referem Kirby & Williams (1991) e Donald (1999), para além de ser considerado como o salto mais importante na invenção visual simbólica, o sistema

alfabético é hoje tão usado que se tornou o critério que serve de medida para julgar todos os outros sistemas de escrita.

Num sistema fonético directo, como o alfabético, o propósito essencial do símbolo (sinais ou letras) é evocar sons (fonemas), e o leitor tem poucos graus de liberdade em relação aos sons que são considerados interpretações aceitáveis do símbolo (Rebelo, 1993, Donald, 1999, McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003).

Assim, as sílabas são decompostas em unidades sonoras ínfimas, que permitem codificar graficamente toda a linguagem oral através de um número muito restrito de sinais, pois, sendo unidades pequenas, os fonemas têm grande possibilidade e flexibilidade de combinação (Rebelo, 1993, Shaywitz, 2003).

No entanto, se por um lado a principal vantagem do alfabeto é a economia e precisão com a qual é permitido ao leitor mapear símbolos visuais na linguagem falada (Donald, 1999), por outro, as suas desvantagens prendem-se por exemplo com a dificuldade de abstrair e usar fonemas (porque abstractos e convencionais), com problemas de sequencialização e de agrupamento de letras, ou com irregularidades na correspondência entre letras e sons (Rebelo, 1993).

Como nos refere Linuesa & Gutiérrez (1999) e fundamentalmente por uma razão sociológica, a descoberta, ou invenção, do alfabeto foi o avanço mais significativo na história da escrita. Assim, mesmo encerrando dificuldades na sua aprendizagem e uso, quando conhecido o sistema alfabético pressupõe a possibilidade de que o leitor possa ler todas as palavras da sua língua, inclusivamente, num sentido mecânico, as palavras que desconhece (McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003).

Em síntese, a evolução levou à notação não da palavra, mas da sílaba e do fonema, pois o ideograma perdeu o seu valor simbólico para adquirir um valor fonético. Chegou-se assim à escrita alfabética, na qual os signos romperam todo o vínculo com o sentido da palavra, e um número mínimo de signos (que representam grosso modo os fonemas da língua) permite a transcrição da mensagem.

Mas, quando surgiu o alfabeto ? Não sendo possível uma resposta definitiva, se definirmos alfabeto como o primeiro sistema de escrita que representa os sons individuais da fala (fonemas – vogais ou consoantes), então existe um amplo consenso de que a primeira escrita com estas características é o alfabeto grego (Gelb, 1987).

Com influências directas ou indirectas dos fenícios, no ano 1000 a.C. os gregos organizaram um alfabeto que contemplava tanto as consoantes como as vogais (Gelb, 1987, Kirby & Williams, 1991, Sousa, 1999). Deste modo, sendo constituído por 24 signos, o alfabeto clássico permite traduzir os elementos fonéticos das palavras e fazer uma leitura mecânica, mesmo quando não se conhece o significado daquelas (Sousa, 1999).

Parece não haver dúvida que o alfabeto grego, que expressa cada som de vogal ou consoante com signos diferentes, é o passo mais importante na história da escrita, pois, tendo sido o melhor e mais simples sistema conhecido, os seus princípios fundamentais foram aplicados a muitos outros sistemas de escrita, que se diferenciam basicamente pela forma das letras (Linuesa & Gutiérrez, 1999).

Como sugere Ellis (1995) e Sousa (1999), todos os alfabetos modernos descendem ou foram influenciados pelo alfabeto grego, como é o caso do alfabeto português (através do alfabeto romano), que é um sistema alfabético que utiliza 23 letras para representar os fonemas.

2.2. A Escrita Alfabética e a Aprendizagem

da Leitura e da Escrita

Como já referimos, o sistema de escrita da língua portuguesa é um sistema alfabético, ou seja, é um sistema de representação muito económico e versátil, pois, com um pequeno número de símbolos, é possível representar um número infinito de mensagens (Citoler & Sanz, 1997).

Como referem Citoler & Sanz (1997), Morais (1997) e Shaywitz (2003), a chave do sucesso e do valor dos sistemas alfabéticos reside no facto de eles, não representando os sons que emitimos ao falar, representarem os fonemas, os quais, não existindo realmente, são uma abstracção desses sons. Assim, as unidades da fala codificadas

através da escrita são os fonemas, constituindo estes as mais pequenas unidades de som que permitem distinções (Morais, 1997, Shaywitz, 2003).

Deste modo, o princípio alfabético é construído tendo por base as noções de que, primeiro, as palavras podem ser segmentadas num número limitado de fonemas e, segundo, cada som pode ser representado visualmente através de um símbolo (Citoler & Sanz, 1997, Morais, 1997, Martins & Niza, 1998, McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003).

Consequentemente, surge a necessidade de que em cada língua sejam estabelecidas as regras de correspondência entre os fonemas e os grafemas, as quais não possuem o mesmo tipo de regularidade, como se pode constatar pela classificação de algumas línguas de acordo com a sua regularidade fonética, apresentada na Figura 10.

Muito

regular 5 Finlandês

4 Espanhol, Italiano, Português, Húngaro, Esloveno 3 Alemão, Holandês, Sueco, Norueguês, Irlandês, Grego 2 Dinamarquês, Francês

Irregular 1 Inglês

Figura 10 – Classificação das línguas de acordo com a regularidade fonética, in Citoler & Sanz (1997, p.114)

Consoante estas regras de correspondência grafema-fonema, para a leitura (RCGF) e fonema-grafema para escrita (RCFG), são mais ou menos unívocas, assim se distinguem as línguas (Citoler & Sanz, 1997, Morais, 1997, Martins & Niza, 1998, McGuinness, 1999).

Deste modo, existem línguas que usam um sistema de representação escrita fonologicamente transparente ou superficial, em que a correspondência fonema-grafema é unívoca e constante. Estas são chamadas línguas regulares, nas quais a cada fonema corresponde um grafema e vice-versa.

Por outro lado, existem línguas que são fonologicamente opacas ou profundas, nas quais não existe uma correspondência regular, pois existem fonemas que podem ser representados por dois grafemas ou mais, como são as palavras homófonas.

Neste particular, apesar de ser uma língua quase transparente, o português não apresenta uma correspondência absolutamente unívoca e constante entre os grafemas e os fonemas, no caso da leitura, nem entre os fonemas e os grafemas, no caso da escrita (Citoler & Sanz, 1997).

Deste modo, os grafemas, que são as representações gráficas dos sons (fonemas), podem corresponder a uma ou mais letras (e.g., [s], [ch], [lh], etc.), as quais são os diferentes caracteres que compõem um alfabeto (e.g., «c», «h», «m», etc.). Assim, por exemplo a palavra “chocalho” possui seis fonemas, oito letras e seis grafemas.

Como nos sugerem Martins & Niza (1998) as características do sistema alfabético exigem uma reflexão diferente daquela que deverá ser feita para qualquer outro sistema. Deste modo, há questões sobre a linguagem oral, sobre a linguagem escrita e sobre a relação entre as duas que devem ser consideradas, sendo fundamental reflectir sobre quais são as principais características da escrita alfabética e quais as suas implicações na aprendizagem da leitura e da escrita (Martins & Niza, 1998, McGuinness, 1999, Shaywitz, 2003).

Downing (1973, in Martins & Niza, 1998) fez um trabalho de investigação no qual comparou as características dos sistemas de escrita usados em catorze países diferentes e onde refere um conjunto de diferenças que têm implicações ao nível da aprendizagem da linguagem escrita nesses países.

Segundo o mesmo autor, uma primeira diferença refere-se à forma como os sistemas de escrita codificam a linguagem falada. Como já referimos, os sistemas logográfico, silábico e alfabético representam a linguagem falada a níveis diferentes. Deste modo, o primeiro sistema faz corresponder um único símbolo a cada palavra, e o segundo e terceiro sistemas fazem a correspondência entre um grafismo e uma sílaba ou fonema, respectivamente.

Por exemplo, as capacidades de análise sobre o oral envolvidas num sistema silábico são mais simples do que as exigidas num sistema alfabético, pois, sendo unidades perceptíveis da fala, as sílabas podem ser isoladas na corrente acústica, o mesmo não acontecendo com os fonemas, que não têm uma base física simples (Martins & Niza, 1998).

Por outro lado, como nos sugerem Castro e Gomes (2000), as capacidades cognitivas de abstracção envolvidas na descodificação dos símbolos e grafísmos é diferente nos três sistemas. Enquanto as palavras são facilmente acessíveis à nossa consciência, uma vez que são elas que contêm os significados, as sílabas e os fonemas já exigem um esforço suplementar de análise para que as palavras possam ser analisadas nos seus elementos constituintes, os quais por si sós não têm significado.

A segunda diferença apontada por Downing (1973, in Martins & Niza, 1998) refere-se ao grau de complexidade das marcas gráficas utilizadas nos diferentes sistemas. Por exemplo os caracteres da escrita chinesa são complexos, quando comparados com as formas relativamente simples que representam os grafemas no nosso sistema alfabético de escrita (Martins & Niza, 1998).

Embora os sistemas mais recentes sejam aqueles nos quais se verifica maior economia de caracteres gráficos, esta economia não significa maior facilidade na aprendizagem da linguagem escrita, pois esta é conseguida à custa da maior abstracção (Donald, 1999). Leong (1970) referido por Downing (1973, in Martins & Niza, 1998) sugere mesmo que parece ser mais fácil para as crianças distinguir caracteres gráficos