1.3 Solutionneurs d’impuret´ es
1.3.1 Monte Carlo quantique en temps continu
Curiosamente, no seguimento do que já vimos que acontecia com a Nova Geração do Cante, também as Manifestações sobre o Cante Alentejano são cha- madas a tomar parte em encontros de Cante e festividades locais, sendo ca- beças de cartaz, contando com grupos corais para fazer a abertura dos seus espectáculos. Para além das apresentações de divulgação dos seus trabalhos enquanto grupos ou a solo, são também frequentes os encontros pontuais de alguns artistas para realizar um determinado espectáculo, que pode ser prepa- rado para uma única ocasião ou pode ser vendido enquanto produto e assim apresentado várias vezes em diferentes locais.59
José Colaço Guerreiro falou-me de um fenómeno de multiplicação de gru- pos e espectáculos constituídos pelos mesmos artistas.60 Nos últimos anos, consolidou-se um núcleo de artistas inovadores e pró-activos, instruídos na musicalidade e nos cantes do Alentejo, com conhecimentos e contactos não só nos circuitos locais do Cante mas também nas rádios e televisões, tendo entre si elementos com know-how para realizar o seu agenciamento e com os recursos necessários para as gravações discográficas e em vídeo. Neste con- texto, estes artistas desdobram-se em grupos corais, grupos de recriação e espectáculos, rentabilizando os seus contactos e conhecimentos. Repetem-se os rostos entre os grupos Adiafa, A Moda Mãe ou Canta’Aí, e parte deles in- tegram também grupos corais da Nova Geração do Cante. Pedro Mestre é um dos artistas do Alentejo mais mediáticos actualmente. Para além de professor de Cante nas escolas, tocador e mestre de construção de violas campaniças, ensaiador e cantador em grupos corais, ele é também um elemento que cir- cula entre vários grupos como Cantadores do Sul, Rastolhice, 4uatro ao Sul e Campaniça Trio.
Assistimos ainda ao interesse pelo Cante Alentejano de artistas conceituados nos seus próprios estilos, que abraçam projectos relacionados com o Cante, como é o caso do grupo Tais Quais, criado em 2014 com o apoio da Casa do Alentejo. Este grupo é constituído pelos músicos Celina da Piedade, João
59 O projecto Entre Cante e Piano é exemplo destes espectáculos, tal como o projecto Alentejo Cantado. Este último é produzido pela Viola Campaniça Produções Culturais e protagonizado por cantadores dos grupos A Moda Mãe e Cantadores do Sul, com uma selecção de modas menos usuais nos repertórios dos grupos corais, acompanhadas à viola campaniça. Já se apresentou em vários palcos do país, bem como na televisão.
Gil, Jorge Palma, Paulo Ribeiro, Sebastião Santos, Tim e Vitorino e ainda o humorista Jorge Serafim. O grupo lançou o CD Os Fabulosos Tais Quais, com modas alentejanas recriadas e intervenções humorísticas faladas, em Novembro de 2015, tendo apresentado o seu trabalho em canais de televisão, rádios, entrevistas à imprensa escrita e blogues de música, etc.
A expectativa gerada face ao resultado da candidatura e, por fim, a classificação patrimonial do Cante criaram um novo espaço de oportunidades comerciais para a música produzida no Alentejo ou sobre repertório do cancioneiro tradicionalmente alentejano. José Colaço Guerreiro falou-me das suas reservas quanto a este fenómeno de interesse súbito e circunstancial dos artistas pelo Cante Alentejano, apontando também a desigualdade em questões de visibilidade e representatividade do trabalho dos grupos corais nos media nacionais.61 Noutra perspectiva, Celina da Piedade acredita que esta pode ser uma fase de renovação para os grupos corais que pretendem alargar o seu circuito de actuações mas que ainda não despertaram para a vertente artística e de espectáculo que está inerente a estas.62
7. Conclusões
Demos conta de uma série de factores que contribuíram para a renovação do interesse pelo Cante Alentejano, que se sistematizam em quatro pontos fundamentais:
1. O paradoxo das identidades em contexto de globalização;
2. A formação de públicos com os projectos de ensino do Cante nas escolas; 3. A consciencialização social do valor cultural do Cante no âmbito dos
mercados das identidades;
4. As expectativas e a mediatização da patrimonialização pela UNESCO.
61 Entrevista a José Colaço Guerreiro, Castro Verde, 04/06/2014. 62 Entrevista a Celina da Piedade, Lisboa, 17/06/2014.
Depois do Cante ter passado por um período de incerteza quanto à reno- vação geracional dos grupos corais e públicos, os anos de preparação para a sua candidatura à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, as expectativas face ao resultado e a patrimonialização pela UNESCO colocaram o Cante Alentejano num novo paradigma cultural, so- cial e comercial. Para os mercados turísticos, esta classificação transforma o Cante num produto que valoriza e certifica toda a oferta cultural da região. Relativamente às práticas, proporcionou o desenvolvimento da Nova Geração do Cante e a multiplicação dos meios de transmissão e ensino, assegurando o envolvimento das comunidades na sua continuidade. Em matéria comercial, espoletou o interesse dos artistas e das indústrias musicais pela criação de novas Manifestações sobre o Cante Alentejano que introduziram novos hábitos de consumo de música tradicionalmente alentejana. Em poucas palavras, o Cante passou de arcaico a património, do estigma à excepcionalidade.
Do ponto de vista musical, sejam representações etnográficas amadoras ou performances artísticas profissionais, a realidade actual do Cante é esta coe- xistência de movimentos, sem atrito aparente. Partilham cantadores, agendas, fundem-se em palco e tiram partido uns dos outros, por forma a procurar garantir a sustentabilidade de cada um.
A discussão em torno do purismo eda impermeabilidade das formas cul- turais vivas é, até à data, uma preocupação estritamente académica. Pode- mos até questionar a quantas pessoas vai chegar a informação que consta no dossiê de candidatura ou mesmo se esta definição foi alguma vez consen- sual entre os detentores. A determinação das práticas que podem ou não ser consideradas Cante Alentejano é um recorte difícil de desenhar, assim quei- ramos ser mais fiéis à inventariação realizada para a UNESCO ou a outras definições historicamente formuladas por outros autores. O que se apresenta como claro e inequívoco é a renovação e o revigorar do panorama da música tradicional alentejana de forma alargada. O que falta saber é quão circuns- tancial será este movimento.
Fontes
Fontes orais
Entrevista a Paulo Lima, director da Casa do Cante de Serpa. Jardim Público das Alcáçovas, Alcáçovas − Viana do Alentejo. 24 de Maio de 2013.
Entrevista a José Colaço Guerreiro, dirigente associativo da MODA – Associação de Cante Alentejano e locutor do programa Património da Rádio Castrense. Cartório Notarial de Castro Verde, 4 de Junho de 2014.
Entrevista a José Santos, Secretário-Geral da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo. Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, Évora, 16 de Junho de 2014.
Entrevista a Celina da Piedade, presidente honorária da Associação PédeXumbo, compositora, cantora, acordeonista e formadora no âmbito da música e danças tradicionais do Alentejo. Casa do Alentejo, Lisboa, 17 de Junho de 2014. Entrevista a Pedro Mestre, cantor, tocador e construtor de violas campaniças, principal promotor do programa de
ensino de Cante nas escolas primárias e ensaiador de vários grupos corais. Festival Bons Sons, Cem Soldos − Tomar, 16 de Agosto de 2014.
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