1.4 Objectif et modèles d’étude
1.4.3 La moniliose du cacaoyer
Na obra Zwei Schriften über Analytische Psychologie (Dois Ensaios sobre a Psicologia Analítica), Jung reflecte sobre o pensamento de Nietzsche, quanto ao conceito de Übermenschen, super-homem ou sobre-humano, no sentido de superar-se, a si próprio, o meramente humano. Já a categoria do Überpersönliche, supra-pessoal, é usado por Jung para designar aspectos da natureza da psique que envolvem processos simbólicos, arquetípicos e mitológicos num vasto universo inconsciente,143.
O conceito do Übermenschen de Nietzsche possui importantes passagens de um sábio mensageiro da natureza na obra Also Sprach Zarathustra. Foi após sair da floresta, que Zaratustra ao chegar na cidade vizinha profere para a multidão: “Eu vos anuncio o
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Carl Gustav Jung, p. 20, parágrafo 32, Cf. o original em alemão: Zwei Schriften über Analytische Psychologie, Zürich, Rascher Verlag, 1964, p. 30, parágrafo 32: “Die Erotik ist eine Fragwürdigkeit und wird es immer sein, was auch irgendeine zukünftige Gesetzgebung dazu zu sagen haben wird. Sie gehört einerseits zu der ursprünglichen Tiernatur des Menschen, welche so lange bestehen wird, als der Mensch einen animalischen Körper hat. Andererseits aber ist sie den höchsten Formen des Geistes verwandt. Sie blüht aber nur, wenn Geist und Trieb im richtigen Einklang stehen. Fehlt ihr der eine oder andere Aspekt, so ist ein Schaden entstanden oder doch wenigstens eine unbalancierte Einseitigkeit, welche leicht ins Krankhafte abgleitet. Zu viel Tier entstellt den Kulturmenschen, zu viel Kultur schfft kranke Tiere”.
143 Ibidem, p. 75, “Der Archetypus ist eine Art Bereitschaft, immer wieder dieselben oder ähnliche
Super-humano. O homem só existe para ser superado. Que fizeste para o superar?”144 O conceito de Übermenschen de Nietzsche passa por uma proto e metamorfose, composição de elementos da natureza ou espectros espirituais: “Mesmo o mais sage de todos vós não passa de um ser híbrido e desarmónico, meio planta, meio-fantasma. Acaso vos disse para vos tornardes fantasmas ou plantas?”145
. Mesmo ao negar o meramente humano, acaba por suplantar o Übermenschen relativo a um propósito planetário, ou seja, reinos e elementos que o constituem; “O Super-humano é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: possa o Super-humano tornar-se o sentido da terra! Exorto-vos, meus irmãos, a que permaneçais fiéis à terrra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres.”146.
É na aproximação do estado ctónico ou telúrico que o Übermenschen se estabelece como agente ativo possível, como o ser do elemento húmus, aquele que é feito de terra, na sua própria superação, aprimoramento, ou autotrancendência? Jung reconsidera o instinto de autoconservação e a vontade de poder ou de potência em Nietzsche no seu sentido de supremo valor:
Não existe unicamente o instinto de conservação da espécie, existe também o de autoconservação. É sem dúvida deste último instinto que Nietzsche nos fala, isto é, da vontade de poder. Para ele, tudo que existe de instintivo é decorrência da vontade de poder. Considerando do ponto de vista da psicologia sexual de Freud, isto é um erro. O adepto da psicologia sexual provará facilmente que todo o exagero, todo o heroísmo da concepção nietzcheana da vida e do mundo não passam de consequências da repressão e do desconhecimento do “instinto”, isto é, do instinto considerado fundamental por essa psicologia147.
A vontade de potência em Nietzsche, aonde manifesta a existência e a vida humana,
144 Friedrich Nietzsche, p. 22. 145 Idem. 146 Friedrich Nietzsche, p. 23. 147
Carl Gustav Jung, Estudos sobre psicologia analítica – Psicologia do Inconsciente – O Eu e o Inconsciente, p.24, parágrafo 38-39, Cf. Citação do original: Zwei Schriften über Analytische Psychologie, Zürich, Rascher Verlag, 1964, p. 34 parágrafo 38-39: “Es gibt nicht nur den Trieb der Arterhaltung, sondern auch den Trieb der Selbsterhaltung. Nietzsche spricht offenbar von diesem letzteren Triebe, nämlich vom Willen zur Macht. Was es sonst Triebhaftes gibt, ist für ihn alles im Gefolge des Machtwillens: vom Standpunkt Freudscher Sexualpsychologie aus gesehen, ein stärkster Irrtum, ein Mißverständnis der Biologie, ein Fehlgriff der dekadenten Neurotikernatur. Denn es wird jedem Anhänger der Sexualpsychologie ein leichtes sein, nachzuweisen, daß all das Hochgespannte, das Heroische in Nietzsches Welt- und Lebensanschauung doch nichts anderes sei als eine Folge der Verdrängung und verkennung des «Triebes», nämlich jenes Triebes, den diese Psychologie als fundamental anerkennt”.
se apresenta como vontade, isto é, vontade de poder, e este como problema perante os valores vitais da vida. Se em Nietzsche a vida está para além do bem e do mal, e as forças definem um estatuto amoral diante das vivências, o viver se estabelece como energia pulsional das forças e potências. A vontade de poder enquanto princípio de força natural do ser e do devir remete, em termos junguianos, para o autoconhecimento e realização do si-mesmo.
Naquilo que em Humano Demasiado Humano procede à superação da humanidade pela transcendência de si-mesmo, da vida mundana, que deve ser ultrapassada, assim segue para além do bem e do mal, rompe a dualidade, entretanto se coloca sempre o problema da condição humana, em seu derradeiro desafio; por um lado o sobre-humano com sua sagesa de potência intelectiva, e por outro, o humano instintivo, selvagem em sua parcela de animalidade. Assim, temos uma triangulação a considerar; num vértice, o humano, e nos outros dois vértices, extremos do mesmo triângulo, o animal e o deus.
Jung afirma que Nietzsche passou pela lei da enantiodromia148, a enantiodromia, do grego ἐνάντιος, enantios, oposto, e δρόμος, dromos. (percurso, caminho). Se, de facto, Nietzsche passou pela lei da enantiodromia, também a superou, pois ao trazer a categoria de deus a si mesmo, um dos pares dos opostos desta lei, absorvendo-o, dando os demais deuses arquetípicos a sua ocultação, o outro par de oposto: “Só escapa à crueldade da lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. Não através da repressão do mesmo – mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si. Aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique colectiva”149. Procurava o filósofo alemão superar todos os opostos da vivência humana na sua autotranscendência? Rumo ao extremo, além de um outro horizonte, o ilimitado, o
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Carl Gustav Jung, 1964, pp. 65-66, parágrafo 111-113: “Só escapa à crueldade da lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. Não através da repressão do mesmo – pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas – mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si. Aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva. Assim, adquire o material com que vai ter que se haver daí em diante e por muito tempo ainda. (…)”. “Para diferenciar o eu do não-eu é indispensável que o homem – na função do eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifesta sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana. Tudo quanto deixar de fazer nesse sentido cairá no inconsciente e reforçará a posição do mesmo. E ainda por cima ele se arrisca a ser engolido pelo inconsciente. Essa infração, porém, é severamente punida. O velho Synesius insinua que a “alma espiritualizada” (πνεματιϰή ψυχή) se torna deus e demónio e sofre neste estado a punição divina: o estado de estraçalhamento do Zagreu, o estado pelo qual Nietzsche passou no início de sua doença mental. A enantiodromia é o estar dilacerado nos pares contrários. Estes são próprios do deus e, portanto, do homem divinizado, que deve sua semelhança a Deus à vitória sobre seus deuses”.
infinito?
Vicente Ferreira da Silva, em sua obra, encontra nas contribuições de Nietzsche os aforismos de Gaia ciência: “É o momento em que Nietzsche descobre “o nosso novo Infinito”. Além de todos os infinitos espaciais e temporais, além dos infinitos das coisas e dos entes, deparamos com o infinito das perspectivas possíveis”150
. O que extraimos do contributo da obra de Nietzsche é principalmente o conceito de Übermenschen, e o que está acerca da dupla vontade, seja do humano meramente humano, ou daquele que busca superar a si mesmo, em uma outra Vontade, a do sobre-humano. Trataremos mais adiante do desenvolvimento transpessoal na obra de Assagioli, que destacará também o tema da vontade diante do eu consciente e do si transpessoal entre Jung e Assagioli, sobretudo a investigação sobre a Vontade possuir uma função de integração dos elementos do consciente e do inconsciente, ou seja, entre o eu consciente e o si transpessoal. Ao considerarmos que o princípio da Vontade é o mesmo daquele que rege a Vida, pois para Assagioli é através da vontade, que o eu consciente age, sobre outras funções psicológicas, que as rege, e as dirige a partir do Acto de Vontade e do desenvolvimento transpessoal. Veremos a seguir o contributo de Mircea Eliade para a categoria transpessoal.