• Aucun résultat trouvé

5.2 Mod´elisation analytique

5.2.1 Mod`ele de croissance dendritique analytique

Uma forma de ver as dinâmicas societais do ponto de vista da hibridação remete para um processo histórico antigo onde a hibridização surge “velha como o mundo” e onde, ao invés de se fazer uma análise dualista, de um mundo pré-hibridização e um mundo pós-hibridização, parece fazer mais sentido pensar em dinâmicas societais percorridas por “ciclos de hibridação” (Brian Stross citado por Canclini, 2001, p. 15). Isto é, ciclos que alternam entre formas mais heterogéneas e outras mais homogéneas, indo, de novo, dar lugar a outras relativamente mais heterogéneas, sem que nenhuma possa ser considerada pura ou absolutamente homogénea. E, também, sem que essas formas remetam necessariamente para um padrão equitativo em todas as esferas do social ou, ainda, para todos os contextos culturais. O que conduz, portanto, a um contínuo de hibridações de diferentes graus que depende da posição de onde esse processo de mistura emana em relação aos seus centros e periferias canónicos. Como enuncia Pieterse, “por um lado, uma hibridação assimilacionista que aparece através do centro, adopta o cânone e mimetiza a hegemonia, e por outro lado, uma hibridação destabilizadora que mancha o cânone, reverte a corrente, subverte o centro. As hibridações, então, podem ser diferenciadas de acordo com as componentes e centro de gravidades da mistura” (1994, p. 172).

Esta ideia de ciclos parece poder ser traduzida no que autores como Eagleton (2003), Hannerz (1997), Eco [2004 (1974)], consideram ser uma equivalência de tempos diferentes, como é exemplo a pré e pós- modernidade. Nas palavras de Eagleton: “poder-se-ia afirmar que a cultura é uma ideia muito mais pré-moderna e pós-moderna do que moderna; se floresce na época da modernidade, fá-lo, em grande parte, enquanto vestígio do passado ou antecipação do futuro” (2003, p. 46). Para este autor, portanto, o que liga as duas ordens é o facto de para ambas, embora por razões diferentes, a cultura ser um nível dominante da vida social. Nas sociedades tradicionais esse papel dominante da cultura deve-se ao facto de ser não tanto um “nível” quanto um meio transversal em cujo âmbito outros tipos de actividade ocorrem. As várias áreas do social, nomeadamente, a política, a sexualidade e a produção económica ainda se encontram de certa maneira presas a uma ordem simbólica de significado, não constituindo verdadeiramente sistemas diferenciados. No mundo pós-moderno, cultura e vida social ganham novamente uma ligação transversal, ainda que expressando-se de outras formas, como através da estetização dos bens de consumo, da política como espectáculo, do estilo de vida consumista, da centralidade da imagem e da integração definitiva da cultura na produção geral dos bens. A estética ganha assim o seu papel central. Tendo começado por designar a experiência quotidiana da percepção só mais tarde se especializou na arte, descrevendo assim um círculo completo, “reencontrando a sua origem mundana, tal como dois dos sentidos de cultura ― as artes e a vida comum ― se haviam fundido num estilo, moda, publicidade, meios de comunicação e coisas semelhantes” (idem). A mesma análise tinha sido já feita em 1974 por Eco referindo-se à sociedade do final do século XX como uma nova Idade Média (sobre isto desenvolveremos um pouco mais a análise na II Parte, dedicada ao Hibridismo nas Artes). Também Hannerz para se referir a esta ciclicidade cita Marily Strathern que em 1995 já havia observado que, ao aproximar- se um novo fin de siécle, “às vezes parecemos estar mais perto do início do século do que da sua metade” (citada por Hannerz, 1997, p. 8).

Este princípio, cíclico, pode também servir para explicar os que estão fora, além ou aquém, do seu tempo. Na arte, por exemplo, há sempre artistas mais representativos do seu período histórico, os contemporâneos, os que estão dentro do seu tempo, mas também há os

fora do tempo, quer seja pelo seu arcaísmo, pelo seu futurismo, ou

mesmo por se encontrarem numa categoria inclassificável na História. Este princípio, pode ainda servir para perceber a utilização continuada de temáticas, noutras áreas, mesmo nas ciências. De facto, é interessante perceber o interesse que o híbrido, por exemplo, através dos monstros, voltou a deter na contemporaneidade, não só através de análises dos novos monstros, os cyborgs, mas também como um factor explicativo da História. Os monstros como se refere no recente livro

Monstrous Bodies/Political Monstrosities in Early Modern Europe (2004),

organizado por Laura Lunger Knoppers, Joan B. Landes, aparecem como um tema rico “não só para a história da ciência, mas também para a história política e religiosa, estudos literários, história de arte e história da cultura popular. O uso e representação do monstro é afectado pelo aparecimento da ciência mas também pelo conflito religioso e político, transformações na imprensa e o aparecimento do Estado-Nação” (Knoppers e Landes, 2004, p. 9). Peter Burke, nesse mesmo livro, desenvolve um ensaio em que mostra que o monstro foi usado muitas vezes para caracterizar o que estava fora de fronteiras mesmo na Europa: “alguns monstros começaram a ser empregues para marcar as fronteiras entre o eu e o Outro, incluindo as identidades nacionais. Eles representam percepções estereotipadas de outras nações” (2004, p. 26), monstruosidades políticas. Também num número recente da revista “Communications” dedicada à temática de “Nouvelles figures du Sauvage” (2004), o monstro ressurge através de um artigo de Antoine Nastasi, “Le passage et le monstre. La création et la discontinuité”. Temáticas como esta podem de facto, facilmente servir para reforçar as leituras desenvolvidas por Eagleton ou Eco de uma equiparação cultural entre a pré e a pós-modernidade. Mas pode acima de tudo servir para

num contexto em que tudo pode ser denominado híbrido responder à questão sobre a que tipo de hibridismo nos estamos a referir.

II.7.POLÍTICAS PARA OS TERRITÓRIOS, PAISAGENS, PROCESSOS, OBJECTOS