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C. Les maladies lysosomales

A precária situação do bairro, visível aos olhos menos atentos, como as ruas esburacadas, os esgotos a céu aberto, a deficiência de água, da luz e de transporte são alguns problemas enfrentados pelos moradores de forma conjunta. A Associação dos Moradores criada em 1981 com o apoio dos técnicos do Centro Social do Estado é a organização que negocia com as autoridades de forma mais direta estas melhorias para o bairro.

O processo de participação dos moradores se dá nas assembléias gerais, nas reuniões de rua, onde a diretoria presta conta das suas atividades.

Em períodos de dois em dois anos realiza-se uma acirrada disputa entre os moradores para eleição da diretoria da Associação. Envolvem-se nesse complexo jogo pelo poder pessoas dos diferentes grupos do bairro, técnicos do Centro Social, políticos e lideranças. Estas pessoas se dividem tanto no processo de organização quanto no apoio as chapas concorrentes. Diferentes concepções religiosas e políticos entram em disputa. Emergem conflitos pessoais, fala-se da vida íntima dos candidatos. Promessas são feitas de resolução dos problemas do bairro. Apela-se para pequenos favores.

Foto 11

Toda essa rede de relações esta profundamente marcada pela própria trajetória do bairro que como vimos nasceu em um contexto de conflito em que confluem forças políticas antagônicas. Por um lado a ação paternalista e autoritária do Estado que expulsa os moradores usando da força policial e ao mesmo tempo faz concessões ao comprar um terreno afastado do Centro Comercial da cidade. No local é construído um Centro Social, cujos técnicos passam a intervir diretamente no processo de organização dos movimentos e grupos no bairro. Todo esse processo é percebido pelos moradores num misto de saudosismo e perplexidade diante da fragmentação das lutas no bairro:

“Vou começar pela Dona Luiza Távora3

, bom a Dona Luiza Távora, a maior parte dos anos ela deu muito apoio aqui, era uma senhora que dava muito apoio. Agora quando nós chegamos, quando nós vinha da favela da Zé Bastos nós era tudo unida, unida mesma, o que um sentia, todos sentia. Então nós viemos pra cá, quando nós chegamos aqui houve uma separação, ficamos dividido, um queria uma coisa, outros queria outra. Então ficam nisso até hoje nós vivemos nessa separação, nessa desunião que aqui, só o que deve existir é desunião, desde que chegamos aqui fomos dividido”. (D. Ieda Ex-Coordenadora do Grupo de Idosos do Conjunto São Miguel, 1994)

Por outro lado as forças políticas que apoiaram a permanência dos moradores na José Bastos - a igreja, deputada Maria Luiza Fontenele, sindicatos, partidos - não tiveram uma ação mais sistemática no novo local de moradia, no tocante ao cotidiano dos moradores e nas suas formas de organização. Percebe-se apenas nos depoimentos dos moradores ações isoladas de pessoas que se destacaram na luta da José Bastos:

O que vejo que a luta da Zé Bastos para chegar aqui, eu não tinha o conhecimento por que não fui morador de dentro da área. Hoje ninguém conhece Dona Maria Luiza3

dentro do São Miguel, certo que a Dona Luiza foi quem fez e trouxe eles pra cá, mas quando a Dona Maria Luiza Fontenelle levam ao conhecimento da Dona Luiza Távora, que sentiu que não era certo fazer aquilo e disse. Virgílio dessa maneira a gente não faz com o povo. Vamos caçar outro caminho. Seu Virgílio botou muito policial pra açoitar o povo na Zé Bastos, com a luta de Maria Luiza, não aceitar aquilo de maneira nenhuma, levar ao conhecimento de Dona Luiza e Dona Luiza tomar providência imediata. Eu acho que o pessoal quando vierem da Zé Bastos era um e hoje são outro”. (Luiz, Ex-Vice Presidente da Associação dos Moradores do Conjunto São Miguel, 1994).

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Luiza Távora primeira dama do estado, conhecida como a mãe dos pobres. 3

O paternalismo-autoritário dos agentes do Estado que passaram a reforçar as formas de assistencialismo e de clientelismo entre os moradores distribuindo mantimentos e roupas, intervindo nos conflitos intra-vizinhos e a quebra dos laços de afetividade após a transferência dos moradores para o conjunto São Miguel são elementos importantes para se analisar as características do processo de organização dos moradores no bairro. Mesmo as conquistas que melhoram a vida dos moradores, que deveriam servir como instrumento de mobilização são vistos como elementos de acomodação e individualização :

A comunidade perdeu aquele regime de se unir uns com os outros, parece que todo mundo enricou, todo mundo ficou mais ruim do que o que era, há um motivo que eu como representante, tive muito encostado do povo do Conjunto São Miguel, e sentir que o povo não queria mais nada como queriam na Zé Bastos, qui na Zé Bastos tinha uma luta encenada do povo pelo povo, e aqui dentro do Conjunto São Miguel praticamente todo mundo desorganizado, propriamente se o governo quisesse tirar nós do Conjunto São Miguel, propriamente tirava sem a gente se manifestar, qui como representante nós aqui praticamente se organizamos, fizemos várias reuniões de rua por rua. Tinha rua de vim três, quatro pessoas, então quando a pessoa faz assim eles não estão querendo nada. Meu motivo como eu estou vendo, é as dificuldades comunidade pra comunidade, é isso ai. O povo espera só feijão, não espera bondade e amizade uns pelos outros, não querer isso é péssimo e fundamental para um conjunto pequeno como o Conjunto São Miguel”. (Luiz Ex- vice-presidente da Associação dos Moradores do Conjunto São Miguel, 1994).

A transferência da José Bastos a presença forte do Estado ao nosso ver quebrou os laços de amizade no conjunto. A presença dos agentes Sociais do Estado favoreceu ainda o surgimento de lideranças não identificadas com as lutas dos moradores, dificultando ainda mais as formas de entendimento que se ancoravam na tradição de luta dos moradores vindo da José Bastos. Isto fica explicito neste depoimento:

“O povo do São Miguel não tem mais aquele povo que vieram da José Bastos, que ganharam a luta entre pau, briga e peia. Hoje se acontece aquilo o São Miguel ficaria distinto, porque hoje ninguém tem amor uns pelos outras, por isso é que eu acho que a nossa dificuldade maior, de se lutar pelo conjunto São Miguel é nessa técnica, falta de educação, carinho com os outros e amizade, se chegasse o dia voltar-se o São Miguel tem amizade um par todos, por um, acredito que nessa parte cem por cento do povo com o povo”. (Luiz,- presidente da Associação dos Moradores do Conjunto São Miguel,1994)

O laços de afetividade que foi um dos elementos fundamentais da resistência dos moradores na luta por moradia na José Bastos são vistas agora no novo local de moradia como o componente necessária para recompor os laços de amizade entre os moradores. Neste novo contexto a conversa amigável é um dos instrumentos utilizados para aproximar os moradores da associação do bairro:

“Muita gente se mudou, ficou muita gente de fora sem ser da própria Zé Bastos. Com aquelas pessoas que nós tínhamos um conhecimento melhor vi tudo era mais fácil da gente conseguir. Já hoje até pra pessoas se reunir mesmo, os problemas fica muito difícil. Se promover uma luta aqui no São Miguel quase não aparece nenhum morador. Agora de antigamente não a gente se comunicava Se tinha uma festa era lotada. Aí os moradores, apesar de eles tá muito escaldado agente tenta essa conversa de pé de ouvido por que os moradores pega o crédito na diretoria e tudo fica mais fácil” (Raimundo, Presidente da Associação dos moradores do Conjunto São Miguel, 1994)

Essa perda do espaço da conversa, do diálogo, das referências de identificação, ocasionam a perda do sentido das manifestações no espaço público na luta por direitos e por melhores condições de vida. Este contexto favorece ainda a quebra dos laços de solidariedade que são elementos orgânicos fundamentais nos grupos sociais. Sem estes elementos de sociabilidade no grupo emergem as

fofocas, as diligências, a intriga e os conflitos como os aspectos essenciais no grupo. Estes elementos são facilmente identificáveis no cotidiano da associação de moradores do Conjunto São Miguel como podemos notas neste depoimento:

“O que eu vejo na comunidade hoje é que a cada dia que se passa acaba a instabilidade ninguém quer lutar pelos direitos, ninguém quer ver mais ninguém”(Luiz, ex-vice-Presidente da Associação dos Moradores do Conjunto São Miguel,1994).

Esse contexto de perda de legitimidade das formas de organização formais que lutam por objetivo especifico vão dando espaços no cotidiano a outros grupos no bairro. Essa redes de sociabilidade que vão se constituindo no bairro nos quais os vínculos de amizade e companheirismo são constituídos nos espaços de lazer, na conversa informal, na praça atuam como elementos de integração entre os moradores. Vale a pena verificar no cotidiano do bairro a experiências desses grupos para tomar como parâmetro e referência para uma análise mais profunda da dinâmica no Conjunto São Miguel.